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Planejamento do desligamento

No terceiro dia do Congresso SET 2014, o painel “Switch-off: a realidade do desligamento analógico – do planejamento e perspectiva até a recepção”, apresentou um panorama geral e abrangente sobre o desligamento da TV analógica no país.

Esquema de Potência ERP de 80 kW – Canal 41 – RPCTV – Curitiba

Na sessão com mais congressistas presentes na sala, a discussão girou em torno do processo de Switch-Off analógico do sinal de TV. Separada em tópicos principais, a palestra teve um caráter de painel, com perguntas e respostas dos participantes, diferente da maioria das realizadas nesta edição do Congresso SET.
“Hoje nós podemos falar que o switch-off é uma realidade, existe todo um cronograma e planejamento sobre o assunto, e aí está a importância de se discutir esse tema”, apontou a mediadora do painel, Valderez Donzelli (SET/ADTHEC). Assim, para contextualizar a discussão, instigados por Valderez, os participantes discutiram a experiência de migração para a televisão digital no cenário internacional.
Marconi Thomaz de Souza Maya, representante da ANATEL, e André Felipe Seixas Trindade, representante da ABRATEL, apresentaram experiências no exterior que não foram bem-sucedidas e que foram consideradas para o switch-off brasileiro. Para Maya, “a quantidade de países fazendo a migração para a televisão digital mostra como esse padrão veio para ficar”.
Trindade explicou que “alguns países fizeram desligamento on-shot, ou seja, de uma vez só, o que complicou muito a indústria, porque não conseguiam atender toda a demanda e, consequentemente havia muita especulação sobre a venda dos set-top-box”.
“Em Portugal, o desligamento total foi em 2012 e o que aconteceu foi que a população não conhecia a data do apagão por falta de divulgação e de uma comunicação eficaz. O que acabou acontecendo foi que 30% da população não estava preparada para receber sinal de televisão digital”, complementou Pimentel.
Gilvanni Moleta, da Fundação Padre Anchieta/TV Cultura, acredita que “a TV Digital, hoje, para as pessoas, está muito relacionada a TV Paga, a cabo ou por satélite” e isso faz com que as pessoas não tenham consciência das possibilidades que a TV Digital pode oferecer, como a interatividade.
Levando em conta tal preocupação, a discussão se encaminhou para como fazer a divulgação, visando evitar tais problemas. Geraldo Cardoso de Mello, da TV Alterosa, sintetizou o que foi discutido: “Acredito que essa comunicação deve ser feita de forma diferente para públicos diferentes. Nós temos que ter informações para o público usuário, para os técnicos e uma informação direcionada também às prefeituras para que elas saibam como agir diante desse cenário. Acho que essa é uma forma de viabilizar a comunicação e de que forma isso chegará a população.”
O debate seguiu para a tramitação dos processos de legalização do sinal de TV Digital para as emissoras. Maya lembrou da palestra do dia anterior, onde havia apresentado os dados sobre emissoras regularizadas e lembrou: “Sobre as operadoras que não estão aptas para operar em sinal digital ainda, as operadoras devem entrar em contato com a ANATEL para que cada uma, individualmente, em conjunto, vejamos o que deve ser feito”.
Mello lembrou que “aquelas entidades que ainda não fizeram o requerimento de licenciamento, que façam logo para que lá na frente possam ter direito ao ressarcimento”, previsto na licitação da faixa de 700 MHz.
Com a possibilidade de participação da plateia, foi levantado o questionamento sobre o processo de fiscalização realizado pela ANATEL que interditou diversas emissoras, principalmente em Minas Gerais, por conta de aspectos irregulares na utilização da radiofrequência e sobre o prazo de 9 meses para se regularizarem, considerado um prazo curto pelos presentes.
“A partir do momento que a lei tipifica como crime a utilização irregular de frequência para telecomunicações, o agente administrativo regulador tem obrigação de agir quando há uma denúncia desse tipo”, lembra Maya que também se manteve aberto para discussão posterior sobre esses prazos e os processos.
Do ponto de vista do planejamento, Valderez afirmou que “para acontecer o desligamento analógico, é necessário que o digital esteja consolidado” e abriu a discussão para como todo o processo de transição para a TV Digital foi planejado e replanejado, do desligamento do sinal analógico e liberação da faixa de radiofrequência, para a realocação e transmissão em sinal digital.

João Monteiro de Barros Neto, da Rede Vida, contou aos presentes que “o processo de replanejamento foi muito rico porque nós, engenheiros, broadcasters, nós sentamos em uma mesa e discutimos em conjunto a cadeia de liberação das faixas de radiofrequência para liberação do sistema digital”.
Diante da fala de Barros Neto, Valderez lembrou que “é necessário ter uma cadeia, mas que nem sempre há todo o comprometimento necessário”. Se alguém no meio da cadeia falha, “acontece um vácuo onde não há um plano B, ou seja, se não acontecer o planejado, não há como o projeto ter sucesso. Temos que trabalhar todos de mãos dadas para alcançar o objetivo em comum”, explica Barros Neto.
Do ponto de vista da indústria. Vanessa Lima e Oliveira, da Pro Television, levantou alguns pontos de desafios que o setor pode enfrentar diante do cenário do switch-off analógico e se focou, em especial, em dois pontos principais que “podem ter complicações a longo prazo” e “podem ser impossíveis de regularizar após o switch-off: A eficiência elétrica e a possível reutilização do parque analógico já instalado”.
Quanto a eficiência elétrica, é importante entender que os equipamentos digitais consomem muita mais energia que o sistema analógico e que isso, a longo prazo, pode comprometer o modelo de negócio das empresas. Neste ponto, Vanessa afirmou que a refrigeração de um sistema digital também requer muita energia, já que precisa de funcionamento de ar condicionado 24 horas por dia.
“Hoje a nossa legislação foca muito em aspectos técnicos, como a frequência de banda, mas há uma lacuna aí que é a da eficiência elétrica dos transmissores, que pode impactar na lucratividade das empresas”, afirma Vanessa.
Para ela, “depois que o equipamento é homologado não se pode mais fazer nenhuma alteração”. Desta forma, toda vez que houver alguma tecnologia nova, mais eficaz, é necessário refazer todo o processo homologatório, o que acaba encarecendo muito todo o processo. Por isso, Vanessa considera importante haver uma flexibilidade na legislação, para esses casos. Quanto a reutilização do parque analógico, Vanessa lembra que não há flexibilidade na legislação que permita a reutilização dos transmissores analógicos, com devidas alterações, como um equipamento reserva ao digital, caso aconteça algum problema na transmissão principal.
E se todo o parque analógico precisar ser inutilizado e todos os televisores e equipamentos analógicos pararem de funcionar, o que fazer com todo o lixo eletrônico que será produzido nesse tempo? Essa foi a linha de pensamento trazida para a discussão por Henrique Mende, da ABINEE (Associação Brasileira de Indústria Elétrica e Eletrônica), que também falou sobre a logística reversa no processo de switch-off baseado na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).
“O que eu percebi diante de tudo o que falaram aqui é que o switch-off criará uma onda de lixo eletrônico que precisa ser algo discutido. Estamos debatendo muitos pontos interligados que podem afetar o setor de broadcasting. A PNRS prevê que o responsável pela reciclagem desse material são os fabricantes, mas que a entrega para os fabricantes deve ser feita por comerciantes e distribuidores. Como muitos desses produtos eletrônicos podem ser considerados de uso perigoso, isso encarece muito a conta de transporte, e pode impactar diretamente no faturamento das empresas”, explica Mende.
O debate avançou para a produção do conteúdo. Gilvanni Moleta acredita que as emissoras não têm mais dificuldade em produzir conteúdo para TV Digital, o grande problema que as emissoras tem hoje é a convivência entre os dois sistemas e que o switch-off vem de uma forma impositiva.

Emerson Weirich (SET/EBC) ficou no Japão por dois meses acompanhando o projeto de interiorização da TV Digital feito pela NHK

Valter Bonasio, da Escola de Televisão, complementou a discussão lembrando que, na formação acadêmica, a área técnica está muito mais desenvolvida do que a área operacional. E isso causa um distanciamento entre quem produz o conteúdo e quem faz com que este conteúdo chegue até as pessoas. “Nunca antes houve tanto a necessidade de aproximação entre a engenharia da televisão com a sua área criativa, de produção de conteúdo. A área de criação está sempre limitado ao que sabe que pode fazer, se ela não sabe o que é possível fazer, ela não fará”, explica.
José Carlos Aronchi, do SEBRAE, fechou a discussão do painel falando sobre os novos modelos de negócio que a TV digital oferece e como há uma falta de capacitação para lidar com esses novos modelos. “O problema das emissoras é que elas têm que investir primeiro para depois pensar nos modelos de negócio que irá aplicar. Acredito que a primeira capacitação deve ser nesse sentido, sobre as possibilidades de modelo de negócio que a TV Digital pode criar”, explica.
“Os currículos de formação, tanto de engenheiros como de cursos de produtores, tem que investir nessa veia empreendedora, para que os profissionais tenham uma visão sobre os modelos de negócio”, completa.