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O Switch off dos Técnicos e Engenheiros Analógicos

Por que uma mudança de realidade sempre pode ser um pouco traumática.

Nº 135 – Agosto 2013

Por Luiz Gurgel

ARTIGO

Tudo começou por volta dos anos 70 quando os primeiros TBCs (Time Base Correctors) passaram a fazer parte do grupo de equipamentos indispensáveis a qualquer emissora de televisão. Naquela época, a maioria dos técnicos, sempre que podia, evitava abrir a tampa de um TBC o que denotava uma louvável sensatez – é que eles não estavam preparados para aquela nova tecnologia. Mas, a coisa não ficou por aí, vieram outros e outros equipamentos cada vez mais sofisticados, todos incorporando processamento digital – e o problema dos técnicos foi aumentando. E quando digo técnicos, estou usando a palavra no seu sentido mais amplo. Estou me referindo aos técnicos propriamente ditos, aos auxiliares técnicos e aos engenheiros de televisão.
Ser engenheiro de televisão, nunca foi uma tarefa fácil, mas hoje está muito mais difícil – a tecnologia evolui tão rapidamente que é quase impossível manter-se plenamente atualizado. Tenho um amigo, que é gerente de engenharia de uma emissora regional, que quando o apresentam como o “responsá- © Fotos: SXC/Divulgação vel técnico da emissora”, ele, prontamente, corrige dizendo: “…responsável técnico não, o culpado”. É uma brincadeira, mas reflete muito bem as responsabilidades e dificuldades inerentes ao trabalho técnico em uma emissora de televisão.
Como já dissemos, a digitalização da TV brasileira não é um fato novo, mas sim uma transformação que vem ocorrendo ao longo dos últimos 40 anos. O interessante é observar que ela tem impactado de forma distinta em cada emissora. Isso, por uma razão muito simples: quase sempre, a aquisição de um equipamento com nova tecnologia acontece por ocasião da substituição de um equipamento antigo, que já atingiu o fim de sua vida útil, ou quando a emissora resolve ampliar sua capacidade instalada. Os equipamentos novos que são adquiridos, normalmente, incorporam tecnologias de ponta que não existiam nos equipamentos desativados. Exatamente isso tem ocorrido no processo de digitalização das emissoras de televisão. Desta forma, são os fabricantes de equipamentos que, em última análise, têm nos empurrado no rumo da digitalização, sendo a única exceção significativa a digitalização do segmento de transmissão das emissoras.
A digitalização da transmissão, no Brasil, teve início em fins de 2007 com a ativação das primeiras estações transmitindo em ISDB-Tb. A escolha do sistema nipo- -brasileiro de TV digital foi uma decisão governamental na qual pouca influência tiveram os fabricantes de equipamentos. É importante ressaltar que aqui, mais uma vez, cada emissora estabeleceu seu próprio ritmo para a adoção das inovações tecnológicas. Neste momento, muitas já se encontram com sua transmissão totalmente digitalizada, enquanto outras ainda nem iniciaram o seu planejamento.
Com tanto tempo assim de transição, era de se esperar que engenheiros e técnicos tivessem mergulhado no aprendizado das novas tecnologias e hoje estivessem, todos, totalmente preparados para lidar com os desafios e possibilidades dos equipamentos e sistemas digitais. Infelizmente, os fatos atestam que essa não é a realidade. Muitos engenheiros e técnicos se limitaram a aprender como interligar os novos equipamentos sem procurar conhecer, com mais profundidade, os processos que ocorrem dentro deles. Talvez tenham sido enganados pelo fato de que, na maioria das vezes, a interligação desses equipamentos ocorre na base do áudio e vídeo e assim, pensavam eles, tudo continuava na mesma, não havia necessidade de se aprofundarem no estudo de complexas técnicas digitais.
Essa postura começou a ficar inviável quando computadores passaram a substituir os VTs das ilhas de edição. Até porque os computadores, quase sempre, eram plataformas Mac que têm características bem diferentes dos PCs que nos são tão familiares.
A edição usando computadores, entretanto, nos levou a conviver com conceitos e problemas novos, tipo: timeline, clipping, edição não linear, formatos de arquivo, codecs de áudio, codecs de vídeo além da necessidade de conviver com novas mídias, dentre as quais se destacaram o BluRay, o LTO, o P2, o SxS, o SDHC. Vale ressaltar que a escolha do codec apropriado a cada situação tem se mostrado um problema delicado, pois impacta tanto na qualidade final do produto como na velocidade do processamento – e como são incontáveis os codecs disponíveis!
Um complicador a mais, foi a chegada dos “sistemas digitais”, pois agora a questão não era mais simplesmente interligar “caixas” que eram digitais internamente. Os “sistemas digitais” incorporam conceitos e elementos totalmente novos, principalmente ligados às redes lógicas de alta velocidade.
Redes lógicas, metálicas ou de fibra óptica, são elementos corriqueiros no dia a dia do pessoal de TI (Tecnologia da Informação), mas elementos novos na vida do pessoal de televisão. Os atuais sistemas integrados de edição de jornalismo, geralmente denominados “tapeless”, incorporam essas redes nas quais trafegam os conteúdos de áudio e vídeo sob a forma de dados. Elementos tais como ingest, playout, servidor de vídeo, servidor de metadados, volume virtual, servidor de autenticação, que são conceitos típicos de TI, de repente invadiram a mesa de trabalho dos engenheiros e técnicos de televisão.
O último, mas não o menor complicador, surgiu com a digitalização da transmissão. E aqui, quase tudo o que se sabia sobre televisão, aprendido ao longo dos anos da TV analógica, perdeu o sentido, tornou-se inútil. Passamos a lidar com: compressão de vídeo, compressão de áudio, áudio embedded, áudio multicanal, codificação AAC, servidor de EPG, servidor de carrossel, transport stream, tabelas de serviço, MUX, DEMUX e mais uma infinidade de novos elementos que não existiam na TV analógica. Tudo novidade complicada.
Em face da incorporação de tantos conceitos digitais, muitas emissoras imaginaram que seria um bom negócio trocar seus técnicos e engenheiros de televisão por técnicos e especialistas em TI. Não deu certo, pois embora muito de TI tenha “entrado” nas emissoras, há uma parte muito grande dos novos conhecimentos que não faz parte do trabalho usual do pessoal de TI. O que fazer?
A única saída, certamente, é estimular os técnicos e engenheiros de televisão a empreenderem um esforço sério no sentido de se reciclarem, incorporando à sua expertise esses novos conhecimentos que antes eram específicos do pessoal de TI. Sabemos que incorporar esses novos conhecimentos, não vai ser fácil e vai demandar esforço e um tempo razoável. Não vai ser um seminário de uma semana que vai resolver essa questão. Será necessário dedicação e perseverança, durante muitos meses, ou mesmo anos, para se completar essa capacitação.
Lembremos, por outro lado, que o tempo disponível é curto, pois o switch off da TV analógica está chegando e com ele virá, inevitavelmente, um verdadeiro switch off de todos os técnicos e engenheiros de televisão que não se prepararem para esse novo, complexo e mutável mundo digital.

 

Eng. Luiz Carlos Gurgel
é Diretor Executivo da TV Jornal Recife e Diretor Regional Nordeste da SET.