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O peso do som

Não é só de câmeras e transmissores que vive o mercado de broadcast. A infraestrutura para estúdios, como tratamento acústico, também é um fator de importância que vem crescendo aos olhos da segurança e de um mercado fomentado..

Nº 134 – Julho 2013

Por Flávio Bonanome

REPORTAGEM

Quando foi aprovada a Lei n. 12.485 que “dispõe sobre a comunicação audiovisual de acesso condicionado” ou SEAC, que traz a obrigatoriedade de exibir ao menos 3h30 diárias de conteúdo produzido no Brasil aos canais pagos, o mercado de produção audiovisual já esperava um grande reflexo nos segmentos que lidam mais diretamente com a filmagem. De fato, alugueis de estúdio, venda de equipamentos, demanda de mão de obra, e outros pedaços óbvios do mercado passaram a sofrer um grande aumento, e até mesmo, uma especulação em torno do crescimento esperado.
O que não salta às lentes dos profissionais, porém, é que não é somente naquilo que se aplica diretamente a Lei 12.485 que sofre os reflexos de suas aplicações. Mercados indiretos também começam a sentir a chegada de um bom momento, impulsionado por clientes de clientes, que pode se tornar muito lucrativo, mudando rumos de negócios e colocando novas prioridades para empresas que já possuíam um nicho bastante especificado.
É o caso das empresas de tratamento e isolamento acústico. Sempre presentes na história da radiodifusão brasileira na hora da obtenção de infraestrutura para estúdios e salas de captação e mixagem, estes especialistas passam hoje a ter uma nova óptica sobre o mercado de produção. “A produção audiovisual é um ótimo setor e vem crescendo bastante. Hoje cerca de 10% a 15% das nossas vendas são destinadas a ele”, explica Renato Torre, do departamento de marketing da Vibrasom.
A empresa, localizada em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo, atua já há 25 anos no mercado de tratamento acústico, e começou num ambiente bem diferente da produção audiovisual. “Em meados de 1987, a empresa fabricava apenas cabines acústicas para confinamento de máquinas e equipamentos industriais. Logo após, devido à necessidade do mercado, desenvolveu-se a linha de Revestimentos Acústicos com vários modelos e aplicações”, conta Torre.
Hoje, além do broadcast, a Vibrasom atua nos mercados de indústrias, arquitetura, médica, casas de show, restaurantes, cinemas, teatros e home theater. Se falarmos só do setor audiovisual, os principais trabalhos realizados pela especialista é o de ilhas de gravações e cabines de locuções. “Mas é claro que qualquer setor que precise isolar sons ou bloquear os mesmos, direta ou indiretamente, é recomendado a realização de tratamento acústico”, explica o responsável.
A ideia por trás de um isolamento acústico é sempre garantir que nenhum, ou o mínimo possível de ruído entre ou saia do espaço, permitindo captações silenciosas, ou que cenas ruidosas sejam gravadas sem atrapalhar os demais setores de uma produção. Já quando se fala de tratamento acústico, a ideia é conseguir um tipo específico de reverberação ou sonoridade para salas, geralmente ligadas à produção de mídia musical.

Uma das principais aplicações do isolamento acústico é a construção de cabines de locução, onde o ruído externo precisa ser extremamente reduzido

Em ambos os casos, não se trata somente de colocar uma equipe para trabalhar sobre um espaço específico. “O responsável pelo projeto acústico deve ter profundos conhecimentos das áreas satélites que influenciam na qualidade do estúdio, por exemplo, ar condicionado, grupo gerador, sala de maquinas, bombas, Chillers (equipamento que resfria a água), etc”, explica Jorge Eduardo Costa, outro especialista na área.
Costa é engenheiro mecânico e proprietário da Acústica São Luiz, empresa que hoje possui cerca de 30% de seus negócios no segmento de produção áudio visual. “Eu comecei por acaso a trabalhar com acústica. Meu exsogro era o sócio-fundador da Acústica São Luiz, a empresa era pequena, ele era sozinho e tinha diversos problemas com as obras. Comecei dando uma ajuda nas horas vagas e ele me convidou para trabalhar com ele no regime de comissão”, conta .
Como conta Costa, no mercado de televisão, “Tudo começa com um projeto bem elaborado e financeiramente viável”. De acordo com o engenheiro, o trabalho parte da premissa que o responsável pela elaboração precisa conhecer as necessidades de um estúdio de TV. “É preciso ter a preocupação de ouvir os usuários do estúdio, conhecer as qualidades e deficiências do espaço e que tenha facilidade de interagir com outros projetistas”, completa. Fora esta preocupação com o projeto, as especificações dos materiais e a instalação correta são importantes para garantir a qualidade final do estúdio, sem perder a noção sobre a viabilidade financeira e o fator estético.
De fato, até por uma questão de layout dos ambientes criativos, a aparência final do projeto figura entre as principais preocupações dos clientes das empresas de tratamento. “Normalmente, nosso isolamento é feito por meio de aumento de massa física a fim de bloquear a entrada e saída de sons indesejáveis. Mas vale lembrar que em muitos casos a estética também é levada em conta na hora de escolher os materiais”, explica Renato Torre.

Quando falamos de tratamento para captação musical, podemos encontrar algumas aplicações bastante exóticas em busca da reverberação ou sonoridade perfeita

Segurança
Um assunto que ganhou muito destaque desde o começo de 2013 foi a relação entre tratamento acústico e segurança, sobretudo, prevenção de sinistros. Com o acontecimento da tragédia de Santa Maria, RS, onde um incêndio causado por uma faísca da pirotecnia ter atingido a espuma acústica matou mais de 240 pessoas, o tema entrou na pauta de todas as empresas que prestam serviço no setor.
O tratamento acústico é composto por isolamento acústico e absorção acústica. Os materiais para o isolamento acústico têm a característica de impedir que as ondas sonoras o atravessem e são materiais de alta densidade (concreto, aço, dry wall, madeira, etc), são selecionados levando em consideração as necessidades da redução do ruído, freqüência de interesse, facilidade construtiva, esforços solicitantes, custo, etc.
Já os materiais absorventes acústicos são basicamente fibrosos ou porosos (lã de rocha, lã de vidro, espumas acústicas, etc) e tem a característica de permitir que as ondas sonoras os atravessem, gerem vibrações transformando- as em calor. A função dos materiais absorventes acústicos é reduzir e controlar a reverberação para níveis que atendam as necessidades auditivas do estúdio (tempo de reverberação) fator primordial e imprescindível para garantir a qualidade final.
O problema é que grande parte destes materiais possui alto índice de flamabilidade, o que aliado a um ambiente com diversos equipamentos de iluminação que geram grande quantidade de calor, pode ser um grande problema. “A segurança precisa ser assegurada com a utilização de materiais normalizados, com certificação de flamabilidade, com especificações técnicas condizentes às áreas onde serão utilizados, com conhecimento da legislação vigente”, explica o engenheiro Jorge Costa, da Acústica São Luiz.
A Vibrasom também mostra sua preocupação com o assunto desde a concepção do projeto. “Geralmente é feita uma visita técnica no local. Um de nossos arquitetos elabora e envia o projeto para o cliente de acordo com a necessidade que o local exige”, explica Renato Torre e garante. “Todos nossos revestimentos possuem aditivos antichamas e antifumaça e são produtos desenvolvidos com laudos aprovados pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas)”.
Apesar desta preocupação por parte das empresas, Torre conta que nem sempre o cliente está realmente ligado nestes fatores de risco ao contratar um serviço de tratamento acústico. “Geralmente segurança não é o principal motivador. Infelizmente muitos se preocupam apenas em tratar o som e não se importam com a segurança. Principalmente os estúdios e locais de pequeno/médio porte. Porem, com acidentes sendo divulgados pela mídia e com novas leis que estão para entrar em vigor, isso tende a mudar”, garante.

Flávio Bonanome
Revista da SET
flavio.bonanome@set.org.br