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Nelson Faria – Entrevista

Com uma história de 33 anos na TV Globo, o paulista Nelson Faria Junior, tem um grande desafio pela frente. Casado e pai de dois filhos, atualmente é diretor de engenharia de produção da Central Globo de Produção e também é o diretor de produção da SET. É um segmento que está no olho do furacão do negócio de radiodifusão com a chegada da TV digital. “Um novo referencial de qualidade de imagem está emergindo. A criação de conteúdo terá impacto direto na necessidade de maior qualidade dos cenários, maquiagem, figurino e iluminação”, afirma ele. E é só isso porque interatividade, portabilidade, solução para a transmissão do 3D estereoscópico também são desafios que têm reflexos em todas as etapas de produção. Nesta entrevista Nelson Faria Junior fala sobre estes desafios e muito mais. Acompanhe.

A TV digital é uma realidade e as emissoras já estão produzindo para esse formato, o que efetivamente muda em termos de criação de produção de conteúdo?
A TV digital é uma realidade para as emissoras, apesar da grande maioria dos telespectadores ainda assistirem a TV analógica. Mas estamos no início de uma tecnologia com grande potencial para os criadores. A qualidade do HDTV hoje apresentada ainda deverá melhorar muito, e é necessário produzir convivendo com as duas relações de aspecto, o que compromete o melhor resultado para o 16×9. Mesmo assim, com a chegada do HDTV, um novo referencial de qualidade de imagem está emergindo. A criação de conteúdo terá impacto direto na necessidade de maior qualidade dos cenários, maquiagem, figurino e iluminação. O desenvolvimento de novos formatos de programa que explorem a interatividade e a portabilidade, e, certamente, a solução para a transmissão do 3D estereoscópico na TV digital trarão novos desafios para os profissionais de criação de conteúdo.

Com relação às necessidades operacionais, quais são as novas exigências?
A câmera é o elemento mais importante na qualidade de um sinal HD. É comum achar câmeras de baixo custo com virtualmente as mesmas especificações de catálogo que as câmeras de custo alto. O desempenho real, no entanto, irá provavelmente mostrar que câmeras mais caras têm características muito superiores ao manipular situações de luzes deficientes. Também é fundamental um bom acabamento do cenário e uma aplicação de maquiagem que atenue a aparência artificial do pancake que na televisão tradicional não seria perceptível. A captação de áudio requer maiores cuidados operacionais. Com os planos mais abertos e a editoração menos “nervosa”, as composições são mais contemplativas, exigindo a captação adequada dos planos de áudio que a imagem sugere. A mixagem 5.1 será utilizada em produções de alta qualidade.

A interatividade na TV digital está com tudo programado para estrear na Copa do Mundo de 2010, como a produção de conteúdo tem se adaptado a essa nova possibilidade? Quais os diferenciais com relação a uma programação linear?
Alguns fabricantes começam a lançar televisores habilitados para a interatividade, mas para as emissoras, há muito a evoluir. Algumas já estão oferecendo informações sobre o conteúdo do programa. A Copa do Mundo oferece a oportunidade de acrescentar informações sobre os jogos, enriquecendo a transmissão. Dependendo do modelo de negócio adotado pela emissora e da preferência do usuário, a compra de serviços e produtos também será uma das aplicações da interatividade, mas ainda há necessidade de desenvolvimento e integração de sistemas que não deverão estar disponíveis até a Copa. A interatividade não linear oferece serviços e informações não vinculados ao programa exibido.

Com a internet e a TV digital a produção de conteúdo digital representa uma nova indústria estratégica para o país? Isso acontece porque ela é muito abrangente envolvendo broadcast, cinema, jogos, energia, etc?
A produção de conteúdo é o core business da convergência digital, e a criatividade dos artistas e técnicos brasileiros vai certamente conseguir transformar a TV que conhecemos, em novos negócios para as empresas, e formará a linha de frente para a transformação da indústria áudio-visual num setor estratégico para o país. A interatividade possibilitará o desenvolvimento de games específicos, assim como a integração digital com a internet. Uma produção específica para a portabilidade, assim como, a produção televisiva de alta qualidade já compatível com a do cinema digital, manterá a televisão como a mídia mais importante na vida dos brasileiros.

A produção de programas não-lineares, para o sistema de TV digital brasileiro, utilizando a linguagem NCL é a que vai imperar, que outros conceitos de linguagem são introduzidos? É necessária uma metodologia? Ela já existe?
O Ginga é composto por um conjunto de tecnologias padronizadas e inovações brasileiras que o tornam a especificação de middleware mais avançada do mundo. O Ginga é estruturado em dois subsistemas que oferecem diferentes modelos para a construção de aplicativos, o Ginga-NCL e o Ginga-J. O Ginga-NCL, desenvolvido pela PUC-RIO, permite o desenvolvimento de aplicativos declarativos com a linguagem NCL (baseada em XML). O ambiente declarativo independe da forma como as operações são efetuadas dentro do sistema computacional. A intenção é simplificar o desenvolvimento, não requisitando profissionais especializados em programação. O Ginga- J, desenvolvido pela UFPB, é basicamente uma Máquina Virtual Java, permitindo o uso de aplicativos procedurais. O ambiente procedural tem a intenção de fornecer um maior poder ao desenvolvedor. Em contrapartida exige mais deste, pois utiliza uma linguagem que é dependente do modo de funcionamento do sistema computacional.

Existem dúvidas sobre formatos e padrões de imagem?
Apesar de ter muito a avançar, a base de conhecimento dos formatos e padrões de imagem já está alinhada com a melhor prática mundial. Certamente que novas ferramentas deverão ser desenvolvidas para a interatividade, a portabilidade deverá encontrar a melhor linguagem, a tecnologia 3D terá que ser desenvolvida para ser compatível com a transmissão da TV digital. Os engenheiros brasileiros demonstraram ao criar soluções para o desenvolvimento do mais avançado padrão de TV digital, que devemos ser otimistas ao olhar os desafios que nos esperam.

Como ficam o intercâmbio de programas e exportação de conteúdo com a TV digital.
O HDTV fortalecerá o mercado produtor/exportador de conteúdo, e, com o passar do tempo, só os conteúdos em alta definição terão real valor no mercado internacional. Com a base tecnológica adequada aliada à criatividade brasileira, há perspectivas do real desenvolvimento de um mercado produtor nacional, gerando novos empregos e divisas para nosso país. Com a transição dos países para a TV digital, haverá crescente demanda para a produção HD e a produção brasileira, reconhecidamente de alta qualidade, aumentará a exportação de conteúdo para o mercado internacional nos próximos anos.

Quais são os objetivos a serem alcançados nos próximos anos pela diretoria de conteúdo da SET?
A produção de conteúdo sofrerá o impacto das novas tecnologias digitais, como a interatividade, portabilidade, 3D estereoscópico, web, cinema digital. A diretoria de conteúdo deve agir no aprimoramento do conhecimento tecnológico e de processos, através de seminários com fabricantes, no acompanhamento das melhores práticas exercidas nos países mais avançados, e manter a discussão aberta para a troca de idéias e soluções.

Como você avalia o estágio dos profissionais de produção para TV digital? Quais são as deficiências e necessidades de treinamento?
de treinamento?

Há necessidade de investir no conhecimento técnico de diretores, fotógrafos, operadores de vídeo, cenógrafos, figurinistas, maquiadores… Um operador de vídeo altamente qualificado é necessário para explorar e aplicar diferentes ajustes em função das características desejadas pelo diretor artístico para determinada cena. Diferentes ajustes de câmera podem aumentar dramaticamente a capacidade de o equipamento captar cenas em condições extremas. Com seis vezes mais informações no HDTV que o SDTV, os profissionais de cenografia precisam ser treinados para construir cenários mais bem acabados. Detalhes que em SD podemos “suportar”, agora se tornam aparentes. O estilo e a proporção das formas e dos contornos nos rostos precisam ser suavizados pelos maquiadores e a base da maquiagem, mais uniforme e sutil. Os profissionais da iluminação passam a trabalhar com range dinâmico de 7 a 8 diafragmas contra 4 a 5 no SD, as Baixas Luzes são registradas sem ruído e as diferenças mais sutis são perceptíveis, contra aquela ruidosa e difusa do SD. Essas características permitem uma maior riqueza e vibração na fotografia.

*Roberto é editor da Revista da SET

Revista da SET – ANO XXI – N.111 – DEZ 2009