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Exibição do programa pronto e avaliação da audiência

PRODUÇÃO DE PONTA A PONTA

Um programa de televisão ou um produto audiovisual só passa a existir, realmente, quando ele nos emociona, motiva, faz rir, chorar, aprender, julgar, viajar. Conhecer a reação do público em relação a um produto de cultura de massa é de grande valor para todos os envolvidos sejam eles exibidores, patrocinadores ou realizadores, desde há muito tempo. Já nas décadas de 1920, 1930 a indústria cinematográfica de Hollywood lançava mão de alguns recursos como cartas dos fãs e relatos sobre a reação da plateia nas salas de cinema para medir o interesse do público aos filmes produzidos. Porém, a partir da década de 1940, com o trabalho desenvolvido por George Gallup, a pesquisa de opinião passou a sofisticar seus métodos de coleta e de análise de dados. Hoje, graças ao desenvolvimento tecnológico, os institutos de pesquisa oferecem os serviços de medição de audiência ajustados ao interesse e ao poder aquisitivo dos clientes.

Os índices de audiência de um programa transmitido ao vivo, por exemplo, podem ser acompanhados ponto a ponto; deste modo, os diretores e produtores podem interferir no andamento do programa ajustando-o à reação do telespectador. Pode-se captar, em tempo real, se um assunto ou atração está mantendo a audiência interessada ou se, ao contrário, ela está migrando para outro canal. No caso dos programas gravados a correção de rumos só pode ser feita posteriormente, mas nem por isso é menos importante.

O momento da exibição de um programa de TV, no entanto, é precedido de uma série de estratégias desenvolvidas pelos diretores de programação de uma emissora. Uma das tarefas mais difíceis que ele tem de enfrentar é a criação de uma grade de programação exitosa. Grade, para quem não está familiarizado com o assunto, é a forma com que os programas e os respectivos intervalos (break) e interprogramas são distribuídos ao longo do período que uma emissora de rádio ou de televisão está no ar.


A ideia de ter horários fixos para transmissão de programas começou no Rádio, ainda nos seus primeiros dias de existência nos anos 1920. A grade de programação foi criada com o objetivo de habituar os ouvintes a sintonizarem seus programas preferidos (“fidelizar a audiência”, como se diz hoje), garantir que os anúncios comerciais fossem ouvidos e organizar a operação da emissora. Na Inglaterra a revista Radio Times,contendo a programação semanal da Rádio BBC, foi lançada em 1923 e é publicada até hoje, inclusive, com uma versão on line.A invenção do Rádio levou à invenção da Televisão. Descobrir como transmitir sons por ondas elétricas abriu as portas para a invenção da televisão. Mas, certamente, transmitir imagens representava um desafio muito maior que foi vencido graças ao trabalho de muitos inventores e pesquisadores, tanto nos Estados Unidos como no continente europeu. Em 1936 a Alemanha televisionou os Jogos Olímpicos que estava realizando e a BBC (British Broadcasting Corporation) já transmitia algumas horas de programação semanal.A televisão foi “inaugurada” oficialmente nos Estados Unidos em 1939 pela empresa RCA quando transmitiu um discurso do Presidente Franklin Roosevelt na Feira Internacional de Nova Iorque. No início os aparelhos de TV eram poucos, caros e a imagem não tinha muita qualidade.

Mas com o sucesso que este novo meio de comunicação logo obteve, os aparelhos foram ficando mais baratos e os problemas técnicos sendo resolvidos.

Em meados de 1942 a emissora americana CBS (Columbia Broadcasting System) havia lançado 15 horas de programação semanal, incluindo dois noticiários de segunda a sextafeira. Durante a Segunda Guerra Mundial a televisão ficou praticamente estagnada, mas ao término da guerra, em 1945, ela rapidamente retomou seu desenvolvimento tanto nos Estados Unidos como na Europa.

No Brasil, graças ao estilo arrojado do jornalista e empresário Assis Chateubriand, a televisão teve início em 1950. Sua estreia foi em 18 de setembro e conta-se que os preparativos para o programa de inauguração foram tão intensos que não houve tempo para se pensar na programação do dia seguinte. Sabe-se que o primeiro noticiário transmitido pela emissora foi “Imagens do Dia” que entrou no ar sem horário definido. As matérias eram gravadas em filme, posteriormente reveladas e montadas em mesa de montagem. Se o processo demorasse ou a matéria viesse de avião de outro Estado, a programação teria de ser alterada inevitavelmente. Nesta época não existiam equipamentos eletrônicos de televisão para gravação externa e nem geração via satélite (a ENG – Electronic News Gathering – só apareceu na década de 1980).

(Fonte: http://www.tudosobretv.com.br/)

Uma programação pode ser planejada semanalmente, mensalmente ou por um período mais longo dependendo dos objetivos da emissora e do “estoque” de programas já adquiridos em produção rotineira. As operadoras de TVs a cabo geralmente preparam uma programação mensal e publicam as suas grades em revistas que são enviadas aos clientes. A TV digital permite que as emissoras, tanto as de sinal fechado como as abertas disponibilizem um guia eletrônico interativo de programação que cobre um período mais curto, em geral de três a quatro dias. Usando os recursos do controle remoto, os telespectadores podem encontrar em cada canal informações de horário, sinopses, resumos de episódios, ano de produção e ficha técnica dos programas.

As emissoras procuram definir e conhecer o seu target e criam, cuidadosamente, as grades de programação visando uma meta, que é a de ser assistida pelo maior número de pessoas possível.

No Brasil as emissoras de televisão fazem uma programação verticalizada, ou seja, elas mesmas produzem e exibem cerca de 80% de seus programas. Este modelo de produção facilita os ajustes de um programa em curso e a alteração da grade de programação, retirando programas que não estão dando audiência e substituindo-os por outros, quando isto é necessário. Porém, em geral, elas procuram manter uma programação estável e obedecer aos horários de transmissão dos programas, principalmente os do horário nobre.

As mudanças na programação costumam ser planejadas com bastante antecedência e precedidas de um longo período de exibição de chamadas que alertam o telespectador para a alteração que será feita. Uma alteração brusca na grade pode significar a perda irrecuperável de uma parcela da audiência.

As emissoras de grande porte gastam grandes somas em pesquisas de audiência e de opinião, em produção e em análises mercadológicas e não podem, simplesmente, ignorar seus resultados. A programação de televisão, no entanto, não é uma atividade científica, portanto, não há como prever se ela fará sucesso ou não. Os programadores em geral não se orientam pelo seu gosto pessoal, procuram usar sua experiência, espírito de observação, análise das pesquisas de audiência, conhecimento da concorrência e criam algumas estratégias como forma de encontrar, na sua grade de programação, o melhor horário para um novo programa, consolidar a audiência ou competir com outras emissoras.

Muitas emissoras modernas adotam a automatização da programação utilizando sistemas que realizam a operação de colocar os programas no ar sem a presença de um operador. Estes sistemas permitem que a operação seja feita também no modo “ao vivo”, quando a natureza da programação exige a presença de operadores no controle-mestre, na sala de controle técnico ou no estúdio como é o caso de alguns programas, eventos e dos telejornais.

Abertura da emissora
Nas emissoras que não transmitem durante as 24 horas, a programação se inicia, diariamente, com a exibição de informações de caráter técnico, como a carta padrão de color bars acompanhada de um tom de áudio de 1 kHz, seguidas de um clip de imagens e uma música marcante.

A abertura da emissora dura apenas alguns minutos e, por se tratar de uma peça de caráter institucional, os programadores dão a ela grande importância. Algumas emissoras apresentam também, uma montagem com “chamadas” dos programas, cuidadosamente preparada, destacando as principais atrações do dia.

As “chamadas” atraem a audiência
As chamadas que são exibidas entre um programa e outro (interprogramas) ou nos intervalos dos programas (break) devem ser criativas, dinâmicas e destacar o que há de melhor em cada atração.

Os produtores de chamadas trabalham quase sempre em regime de urgência. É um trabalho diário e o tempo é exíguo, portanto, as informações que chegam das equipes de produção (relatórios, sinopses, bastidores, destaques, efemérides, etc.) devem facilitar o trabalho dos “chamadeiros” e contribuir para que as chamadas valorizem o programa e criem interesse na audiência.

Os intervalos ou breaks, que incluem os filmes comerciais produzidos pelas agências publicitárias, também ajudam a criar o ritmo da programação e precisam ser tão bons quanto os programas que eles anunciam – muitas vezes são até melhores -, e entreter o telespectador para que ele não mude de canal.

Estratégias de programação
Uma das formas de organizar a programação é a de dividir o dia em períodos como as primeiras horas da manhã, o meio da manhã, a hora do almoço, meio e fim da tarde, começo da noite, horário nobre e madrugada. Entre às 5h00 e às 7h00 horas da manhã, por exemplo, a grade pode ser ocupada por programas destinados àqueles que se preparam para um dia de trabalho e, portanto, estão dispostos a assimilar assuntos mais sérios como cursos, programas sobre economia e negócios, noticiosos políticos e esportivos. Por outro lado, um programa destinado aos aposentados pode ir ao ar no meio da tarde. Deste modo, os programas escolhidos para serem exibidos nos diversos períodos procuram atender à audiência segundo seu perfil sóciodemográfico (gênero, faixa etária, classe social, atividade).

A programação em bloco é bastante conhecida dos programadores de rádio e de televisão. Trata-se de organizar os programas numa seqüência que pode ser temática ou destinada a um público específico.

A estratégia do contra-ataque, por sua vez, consiste em criar programas para públicos que não estão sendo contemplados pelas programações predominantes nos outros canais.

Criar uma ligação entre um programa e outro evita, ou pelo menos tenta evitar, que o telespectador, munido de seu controle remoto, mude de canal ao final de um programa. São várias as maneiras de se criar esta conexão. Uma delas é inserir, sobre os créditos de encerramento de um programa, uma locução anunciando o próximo, destacando suas melhores atrações – um astro de cinema ou dos esportes, um escândalo político, detalhes de uma catástrofe ou outro assunto de grande interesse. Um pouco mais trabalhosa, mas que também produz o efeito desejado é a estratégia de trazer um destaque do programa que virá a seguir para dentro do programa que ainda não terminou. O apresentador de um programa de entrevistas, por exemplo, pode fazer ao final de seu programa, um rápido “bate bola” com o músico que vai se apresentar no show que vem a seguir ou com o âncora de um telejornal que vai destacar o principal assunto político daquele dia. Claro que isto só pode ser feito quando se trata de dois programas ao vivo e em sequência.

No horário nobre, período de programação de uma emissora que vai das 18h00 às 24h00 horas a competição entre as emissoras é muito acirrada. Uma das estratégias adotadas para “segurar” o telespectador é a de eliminar o intervalo comercial na passagem de um programa para outro. Isto pode ser observado durante a última temporada do realityshow Big Brother Brasil que entrava no ar imediatamente após o encerramento da novela (encerramento este que foi reduzido a apenas uma imagem congelada com os dizeres Realização Rede Globo, para evitar que o telespectador mudasse de canal durante a subida dos créditos.

Os desafios que se apresentam aos programadores são muitos. Nas emissoras educativas e culturais às vezes o programador precisa usar a estratégia de “ensanduichar” um programa de menor audiência, porém de conteúdo socialmente relevante, em meio a dois outros mais assistidos com o objetivo de garantir-lhe a audiência.

As programações temáticas também são comuns entre as emissoras brasileiras de rádio e de televisão e podem se estender por um dia inteiro ou por vários dias. Elas, geralmente, tem objetivos sociais de promoção da cidadania e/ou angariar fundos para alguma causa.

Quando um diretor de Programação de rádio ou de televisão encontra um ambiente favorável e cooperativo ele pode e deve utilizar, não só as estratégias de programação já conhecidas, mas também ousar e inovar para atingir os objetivos da emissora à qual serve, principalmente num ambiente, como este em que vivemos, de múltiplas mídias. Com mais recursos de interatividade disponíveis, o público passou a ter maior domínio sobre o que quer assistir e quando. Cabe às equipes de criação e de produção entregarem ao programador o melhor conteúdo, que ainda é o que determina o sucesso ou o fracasso de uma programação.

Em 2009 a Rádio Justiça do Brasil, emissora do Supremo Tribunal Federal brasileiro, ganhou o Prêmio Global ICDB ( International Children’s Day of Broadcasting) de Rádio, por ter realizado 24 horas de transmissão temática envolvendo crianças de comunidades populares e escolas públicas de Brasília. A Rede Globo, desde 1986 dedica, anualmente, uma noite e um dia da sua programação ao Projeto Criança Esperança. A 14ª edição do Teleton promovido pela AACD contou, mais uma vez, com a parceria do SBT responsável pela geração e transmissão do evento para todo o país, durante mais de 24 horas, ao vivo. A TV Cultura, que já recebeu três prêmios Emmy pela programação do ICDB, também exibiu esta programação.
Nádia é professora/orientadora de Projeto Experimental na FAITER/FOC. e-mail: nadiahat@terra.com.br