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Evento antecipa tendências de mercado para segunda tela

COBERTURA CONGRESSO SET 2012

Por Madrilena Feitosa

O telespectador do futuro estará conectado a múltiplas telas, vivendo uma experiência personalizada e coletiva, ao acessar a programação da TV e, ao mesmo tempo, interagir com conteúdos adicionais e interativos em smartphones, tablets e outras plataformas. O telespectador também poderá ser um co-autor interativo das narrativas audiovisuais. Essas tendências foram apresentadas aos participantes do Congresso da Sociedade de Engenharia de Televisão (SET), durante a mesa “DTVI: o futuro da interatividade”, que reuniu diversos especialistas para abordarem sobre os novos hábitos de consumo de mídia, as inovações e desafios do mercado audiovisual, além de soluções para integração do Ginga com a segunda tela.

A sessão foi moderada por Salustiano Fagundes (HXD e Fórum SBTVD) e iniciada com a exibição de um filme ficcional interativo, chamado Projeto Trapézio, realizado como trabalho de conclusão de curso superior de Audio-visual no Departamento de Cinema, Rádio e TV da USP. O projeto, vencedor do Campus Party 2012 na categoria Produto Interativo, foi apresentado no Congresso da SET pela equipe de criação e produção, integrada pelo professor Almir Almas e os cineastas e ex-alunos Marília Fredini e Thiago André. A TV Cultura de São Paulo e a Showcase Pro também passaram a fazer parte do projeto e, durante o evento, Marcos Krisp (TV Cultura/SP) e Rafael Peressinoto (Showcase Pro) apresentaram as soluções que estão sendo pesquisadas para desenvolver essa narrativa dentro ambiente de broadcast.

O consultor Aguinaldo Boquimpani falou do potencial da segunda tela para o mercado, com ênfase para a propaganda interativa, comportamento dos usuários, cloud TV, trazendo diversas contribuições ao falar sobre integração do Ginga ao ambiente de segunda tela.

Projeto Trapézio
O Projeto Trapézio testa as novas fronteiras da interatividade no audiovisual brasileiro. Um roteiro inspirado nos filmes de suspense noir, com quebras de fruição audiovisual que colocam para o espectador a possibilidade de escolher entre quatro episódios diferentes. A partir dos personagens (um trapezista, um anão, um equilibrista e um contorcionista) são apresentados os pontos de vista de cada um destes, durante as horas que antecedem a morte do trapezista do circo Zampano. Por meio de links entre cenas e o acesso a conteúdos extras, esse protótipo, desenvolvido em linguagem Ginga NCL, testa alguns dos recursos interativos da TV digital brasileira.
Durante sua apresentação, Almir Almas disse que o diferencial do filme em relação a outros projetos interativos é que a interatividade não se restringe a uma bifurcação na história ou à escolha de legendas. Um aspecto importante é a interatividade dinâmica, pois o usuário escolhe interagir enquanto a obra está sendo exibida. Conforme ressaltou, o fluxo narrativo não para e quando há interação o tempo da narrativa será respeitado. “A interatividade atua como ferramenta dramática e não como um fim em si mesma”.

Esse sentido dramático da interação é ressaltado pela equipe, que explica que quando o espectador escolhe sair de um episódio para acessar outro, não há mudança de cena no meio de uma fala. O audiovisual interativo foi concebido, dessa forma, visando justapor falas de pontos de vista diferentes, ampliando a compreensão da trama pelo espectador.

Os cineastas Marília Fredini e Thiago André falaram sobre a estrutura do projeto, afirmando que por se tratar de uma obra audiovisual experimental, o projeto tem uma introdução explicativa sobre como funcionará a interatividade, que é feita através dos botões de navegação. O menu introdutório traz também uma sinopse da história, que é contada pelo trapezista, personagem da ficção. A finalidade foi construir, desde o princípio, uma unidade estética que deixa o usuário mais confortável diante da interface, visando familiarizá-lo com os elementos visuais e dramáticos da obra. O projeto foi concebido a partir do que os realizadores chamam de “nós de contexto”. O principal é o menu introdutório. Dele derivam um contexto que é o “filme”, com as opções de interatividade, e contextos “extras”. Na opção “extras” são exibidos a biografia dos personagens e a história do circo, a ficha técnica do projeto, a galeria de imagens, além de contar com uma opção para voltar ao menu introdutório.

É possível pausar o contexto “filme” e rodar algum dos contextos “extras”, a qualquer momento. O usuário pode também retornar ao contexto prévio (filme) no mesmo ponto da narrativa em que se encontrava antes de acessar os “extras”. Ainda no menu “extras” são disponibilizados botões com as mesmas cores do controle remoto convencional. O de cor vermelha dá acesso à biografia dos personagens e à história do circo. O botão verde corresponde à ficha técnica do projeto, enquanto que clicando no ícone amarelo o espectador é levado a conhecer a galeria de imagens. Também em “extras” há uma janela para voltar ao menu introdutório, através do botão azul. Um vídeo demonstrativo do Projeto Trapézio pode ser visto em http:www.youtube.com/ watch?v=Zo6JmhTPkcU

Integração do Ginga
A integração do middleware Ginga com a segunda tela pode por fim à resistência que os radiodifusores enfrentam para convencer os patrocinadores a realizarem interatividade durante o horário comercial na televisão brasileira. Para o consultor Aguinaldo Boquimpani, o acesso a conteúdos interativos, através de dispositivos portáteis como tablets, PCs e smartphones, o que se convencionou chamar de segunda tela, está revolucionando o modo de ver TV, criando novos hábitos de consumo e gerando novas fontes de receita para as emissoras, em vários países.

Em sua apresentação, Boquimpani disse que o consumo de mídia não linear vem aumentando, segundo revela pesquisa realizada pela empresa Nielsen, em 2011, nos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Itália. A pesquisa aponta que 70% dos donos de tablets e 68% dos proprietários de smartphones nos Estados Unidos usam seus dispositivos enquanto assistem TV e a maioria desses telespectadores usou essa “segunda tela” para navegar na Internet. Ele observou que todas as pesquisas convergem para a mesma conclusão, que é o uso das múltiplas telas enquanto se assiste TV.

Para exemplificar o potencial interativo que a segunda tela representa para o mercado, Boquimpani disse que é possível exibir no smartphone do telespectador uma propaganda interativa, relacionada a determinado patrocinador, ao mesmo tempo em que a propaganda desse mesmo patrocinador está sendo transmitida na programação da TV, em tempo real. Essa estratégia, conforme ressaltou, tem um potencial de engajamento, personalização e de informação diferenciada. “Quando um comercial é transmitido na TV, o usuário de segunda tela pode ver muito mais informações sobre aquele comercial e até fazer uma compra direta na segunda tela”.

O consultor disse que esse padrão de consumo de mídia representa uma mudança disruptiva. As novas gerações não concebem o mundo sem internet e a TV é a ultima fronteira que a internet não abarcou. “A internet poderia ameaçar o modelo de TV, mas todas as pesquisam apontam que o uso de uma segunda tela aumenta o consumo total de mídia. Essa mudança disruptiva significa que a segunda tela é uma ponte entre a experiência coletiva da TV e a experiência pessoal da internet. O comportamento está mudando e as múltiplas telas vão se tornando mais comuns”, afirmou.

Em sua explanação sobre cloud TV, ele mostrou soluções inovadoras que começam a oferecer conteúdo linear e não linear integrados na mesma tela, além de apresentar experiências bem sucedidas de publicidade feita em vídeos online pré ou pós-exibidos. Aos participantes dessa sessão foram apresentados exemplos de conteúdos vindos de algum lugar na nuvem, direto pra segunda tela, a exemplo dos cases Wall Street Journal Live (WSJ Live), NHK World e FilmOn Live. O canal WSJ Live disponibiliza ao telespectador, enquanto ele assiste a programação linear do canal, a possibilidade de baixar vídeos on demand, entrevistas, programas que já foram exibidos e outros conteúdos. O usuário sai da TV linear e vai para o vídeo on demand que, enquanto é transmitido, exibe uma barra com a opção de voltar a ver a programação ao vivo.

As soluções mostradas expandem o conteúdo audiovisual, através de componentes interativos em uma segunda tela. A sincronização entre a segunda tela e o que está passando na TV é feita, geralmente, usando a tecnologia de reconhecimento de áudio, segundo informou Boquimpani. As experiências já realizadas no mercado mostram, de acordo com ele, que é possível ter cloud TV e precisão linear, na segunda tela. “Pode-se usar o Ginga hoje para sincronização transparente entre o conteúdo da TV e a segunda tela. A simplicidade para o telespectador é fundamental”.

Ao reforçar as potencialidades do Ginga e a sua integração à segunda tela, o consultor disse que o middleware da TV digital brasileira pode ser usado para interatividade nessa plataforma, dando como exemplo a empresa Totvs, que já tem uma aplicação Ginga rodando em IOS e Android e que sincroniza com áudio. Explicou que a maioria das soluções de segunda tela hoje em dia já sincroniza com o áudio, pois é necessário reconhecer o áudio do programa que está sendo exibido para que a aplicação da segunda tela passe para o canal no qual o telespectador está ligado. “Se você está vendo um jogo de futebol com amigos, você acha que a sua aplicação do Ipad vai conseguir ouvir o áudio da TV, vai conseguir reconhecer o áudio da TV? Vai ser um pouco complicado. O ideal seria que houvesse uma solução que reconhecesse, de forma automática, simples. E tem. Basta ter Ginga na TV”, observou. O aplicativo com Ginga vai sinalizar na tela que está disponível, bastando que o telespectador esteja com a segunda tela no mesmo canal da TV. O aparelho de TV deve estar conectado à internet. Isso vai permitir que o conteúdo de segunda tela fique completamente sincronizado. A transmissão com Ginga é pareada com a sincronização de segunda tela.

Boquimpani afirmou que o custo de integrar o Ginga com uma solução de segunda tela é muito baixo e para a maioria dos radiodifusores a infraestrutura necessária para Ginga já está montada. “O consumo de mídia desse segmento multiscreen está aumentando e os radiodifusores podem alavancar o investimento e disponibilizar o Ginga para a população geral, usando os modelos de negócios da propaganda e distribuição de conteúdo na segunda tela”, afirmou.

Madrilena é Jornalista TV UFPB e mestre em TV digital (Unesp/SP) . E-mail:madrilena@uol .com .br