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Comunicação, convergência e interatividade

ARTIGOS – Era Transmídia

Nº 154 – Set/Out 2015

por Felipe Gomes da Silva

A quantidade de novidades no mercado mostra que existe um grande leque de possibilidades para se trabalhar, e a necessidade de interagir talvez tenha se tornado mais importante do que o conteúdo da mensagem

Qualquer pessoa que trabalhe com comunicação em algum momento de seu aprendizado estudou as tão famosas teorias da comunicação. Elas foram criadas para tentar compreender a porque é tão importante que a mensagem seja totalmente entendida por quem a recebe. Além disso, o desenvolvimento das teorias tem foco em entender os efeitos que a comunicação sobre a massa e a evolução da mesma com o passar dos anos.
Em 1934, Büller publicou seu tão conhecido modelo instrumental de linguagem (modelo órganon). Este modelo tem como base três elementos principais, o emissor, o receptor e os objetos aos quais a mensagem se refere. Seria difícil falar de qualquer coisa que surja para proporcionar uma nova forma de interação sem ao menos citar esta teoria e lembrar de onde viemos e para qual direção estamos seguindo.
Até mesmo a televisão, que sempre foi a queridinha dos lares da maioria das pessoas, e que aprendemos a tratá-la como um membro da família durante toda nossa vida pode ter seus dias contados, dependendo da forma que seu conteúdo seja conduzido nos próximos anos. Pensávamos que talvez ela fosse permanecer conosco para sempre, imutável, apenas transmitindo a mensagem, mas não podíamos estar mais enganados.
O primo não tão distante da televisão, o computador, chegou trazendo consigo a possibilidade de interação e como acontece em toda casa onde um membro mais novo aparece, a família agora parece só ter olhos para ele. Pode parecer assunto antigo, mas ainda estamos no meio da transição TV / PC.

Figura 1 – Mercado de Desktops, Notebooks e Tablets

Dados mostram que a TV ainda tem muita força, de acordo com uma matéria publicada pela revista eletrônica Olhar Digital em março de 2014, a “TV ainda 2014 é o meio de comunicação preferido da maior parte da população.” (Olhar Digital, 2015).
Mas isso não impede que brasileiros passem mais tempo online do que usando qualquer outra mídia. O fato de acessar a internet e poder assistir o conteúdo da televisão no momento em que quiser faz com que o ambiente online aparente ser muito mais atrativo, vide que comentar e pesquisar o conteúdo assistido em outros canais como blogs, revistas on-line, sites de notícias, enciclopédias online etc. se torna muito mais fácil quando feito do mesmo aparelho.
Na mesma matéria do Olhar Digital ainda é citado que a maioria dos entrevistados buscam obter informações e notícias do dia-a-dia através da internet e como principal canal as redes sociais, mas como nem todos confiam na credibilidade desses canais, o jornal impresso e a televisão ainda são vistos como uma fonte mais segura de informação. Mas por quanto tempo continuará desta forma?
Em 2008, uma pesquisa da Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica) já mostrava que a aquisição de computadores estava aumentando no Brasil, porém em 2014, a mesma associação mostrou que as vendas recuaram, mas não pelo fato do brasileiro ter voltado a comprar mais televisões e sim porque passou a consumir os tablets que demonstraram ter maior poder de mobilidade e facilidade devido seus aplicativos.
As vendas de PCs, incluindo tablets, somaram 7,94 milhões de unidades de janeiro a maio de 2014, 6% inferior do registrado no mesmo mês período do ano passado. Segundo dados da IDC, organizados pela Abinee, este resultado contou com a queda de 35% nas vendas de desktops, que atingiram 1,6 milhão unidades, e retração de 22% dos notebooks (2,5 milhões).Para o fechamento de 2014, a previsão é de que as vendas de computadores (desktops, notebooks e tablets) deverão atingir 21,6 milhões de unidades. Deste total, 11 milhões serão tablets, representando 51% do mercado (Cezar, 2014).
Mesmo com a recuada nas vendas dos computadores em 2014, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no mês de setembro de 2014, apontava que a quantidade de domicílios com computadores havia subido de 46,6% para 49,5% de 2012 para 2013 e que no Nordeste o número havia subido 14%. Dos 32,2 milhões de lares brasileiros com computadores, 28% tinham acesso à internet. (Gandra, 2014)
A gerente da PNAD, Maria Lúcia Vieira, analisou que o aumento do consumo de bens duráveis, principalmente de computadores, resulta da elevação do rendimento da população. “A gente ainda tem muito a avançar em termos de acesso à internet. Ainda não atingiu a população como um todo” (Gandra, 2014)

Segundo Rodrigo Arnault, presidente da Associação Era Transmídia e Diretor da SET, a televisão terá de se adaptar a esse novo cenário que vivemos: Se o mercado broadcast não respeitar a lei da natureza ele vai sofrer muito. A internet, redes sociais, Segunda Tela, games é onde a audiência está cada vez mais.
Infere-se que a classe A, B, C e parte da D (pequena, um pouco menos presente), mas as classes que tem acesso a internet estão presentes, classe C está presente. Veja os números do Netflix, não são grandes, 1 milhão de usuários no Brasil. Mas é uma coisa recente!
O rádio e a televisão demoraram quanto anos para chegar em 1 milhão de telespectadores ou ouvintes? Eles estão atingindo 10 vezes mais rápido do que a televisão ou rádio o número de assinantes, então é uma questão de sobrevivência! O mercado broadcast vai entrar queira ou não no segmento de utilizar dispositivo de interação para engajar audiência.
“Existem vários limitadores de tecnologia, de modelo mental, de modelo de negócio, financeiros, culturais, tem muita coisa que freia esse tipo de absorção em massa. Mas é inevitável, porque a população, principalmente a geração milênio, os mais jovens, os que tem acesso a internet, estão utilizando isso com uma frequência “N” vezes maiores que televisão e rádio. Então se a televisão e rádio não entrarem nas novas mídias para atender a audiência eles não vão sobreviver, isto é fato! (Arnault, 2015)
As informações anteriores permitem compreender a importância que a transmídia tem. Este que é um termo cada vez mais citado quando alguém quer falar de convergência e interação com público.
Segundo Eliane, “Transmídia é a criação de inúmeras ferramentas de acesso e a geração de novos focos de interesse, que são os atuais movimentos da indústria de entretenimento e publicidade. Tudo isto é pensando em termos estratégicos: abordar conteúdos em diversas mídias, gerar interação e envolvimento, impactar o maior número de pessoas das mais variadas formas e, com isso, obter o maior lucro possível”. (Eliana Pereira, Meio e Mensagem, 2008, p3)
Em países desenvolvidos como Estados Unidos, Japão e boa parte da Europa, a utilização de tablets e smartphones enquanto se assiste televisão já é um hábito que vem crescendo de forma significativa. Nos Estados Unidos o número de pessoas que fazem isso representa 40% da audiência. (Machado Filho, 2013)
Durante o NAB 2013, (National Association of broadcasters) a Second Screen Society, tratou do assunto Segunda Tela com diversas palestras sobre o assunto abordando as preocupações com conteúdo, estratégias necessárias para engajamento da audiência, retorno de investimentos para anunciantes e até a importância de aplicativos.
Até mesmo durante a Copa do Mundo Brasil 2014 foi possível ver como a interação se deu através nas redes sociais, as vezes incentivadas pelas próprias plataformas.
O microblog Twitter permitiu que o usuário pudesse personalizar seu perfil de acordo com a seleção que torcia, enquanto o Facebook criou uma página onde reunia todos os conteúdos postados com a hashtag #worldcup.
Do outro lado temos os aplicativos criados para fins de interação, estes podem ter vários diferenciais que não seriam possíveis nas redes sociais (conteúdo extra, reconhecimento de áudio, jogos, mapas interativos etc.), mas exigem muito mais tempo para serem colocados para consumo, já que necessitam de programação e também existe o esforço para fazer com que o público-alvo baixe o App para seus dispositivos móveis.
A verdade é que existem diversas formas de utilizar a Segunda Tela e de trazer uma nova experiência ao usuário além de torná-la rentável. Tudo depende de como o produtor vai utilizar as ferramentas que tem em seu poder e de que forma o público vai querer interagir com aquilo que assiste. Pode não ser preciso como matemática, mas o resultado sem dúvidas é extraordinário quando feito corretamente.
A forma como nos comunicamos continua passando por mudanças, porém com uma velocidade muito maior do que acontecia décadas atrás. A quantidade de novidades no mercado mostra que existe um grande leque de possibilidades para se trabalhar, e a necessidade de interagir talvez tenha-se tornado mais importante do que o conteúdo da mensagem. O público quer ter voz, quer opinar, quer se fazer presente.
Jenkins apresenta em seu livro que estamos na era da convergência, onde todos querem participar e todo conteúdo se transforma com a ajuda do consumidor: “Bem-vindo à cultura da convergência, onde as velhas e as novas mídias colidem, onde mídia corporativa e mídia alternativa se cruzam, onde o poder do produtor de mídia e o poder do consumidor interagem de maneiras imprevisíveis”. (Jenkins, 2009, p. 32).
Talvez não seja mais possível, criar algum produto midiático imaginando que ele será imutável e direcionado apenas em uma forma de comunicação de mão única. Comunicar é preciso, convergir é necessário, mas interagir é indispensável.

Referências:
ARNAULT, Rodrigo. Entrevista. São Paulo. 2015.
MACHADO FILHO, Francisco. Você Ainda Vai Ter Uma. SET, Brasil. 2013. Disponível em: http://set6.tempsite.ws/artigos/ed133/ed133_pag84.asp. Acesso em: 13 de março de 2015
GANDRA, Alana. Quase metade dos domicílios brasileiros tem computador, mostra Pnad. Agência Brasil, Brasil. 2014. Disponí-vel em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2014-09/quase-metade-dos-domic%C3%ADlios-brasileiros-tem-computadorAcesso em: 03 de março de 2015
JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. 2. Ed. São Paulo: Aleph, 2009
OLHAR DIGITAL. Internet começa a tomar o lugar da TV. Brasil. 2015 Disponível em: http://m.olhardigital.uol.com.br/video/inter-net-comeca-a-tomar-o-lugar-da-tv/45913. Acesso em: 03 de março de 2015
ROCHEL, Luiz. Cai produção de desktops e notebooks. tablets avançam. Abinee, Brasil. 2014. Disponível em: http://www.abinee.org.br/noticias/com283.htm. Acesso em: 25 de março de 2015
SANTAELLA, Luciana e NÖTH, Winfried. Comunicação e Semiótica. São Paulo: Hacker Editores, 2004*

Felipe da Silva é graduado em Rádio e TV pela Universidade São Judas Tadeu, Técnico de Áudio e Vídeo pela ETEC Prof. Roberto Ma-rinho, Pós-Graduado em Gestão da Comunicação em Mídias Digi-tais pelo Senac. Trabalha com co-municação corporativa a 8 anos, principalmente na área de streaming e de consultoria em serviços digitais. Ocupa o cargo de Analista de Co-municação da SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão) e é sócio-diretor da agência One Black Designs