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Cenário Argentino TV Digital: Um fenômeno que se alastra pela América Latina

A TV Digital chegou à América Latina para ficar, e está se espandindo rapidamente pelos países da região.

Nº 131 – Março 2013

Da Redação Foto: Divulgação

TV Digital chegou à América Latina para ficar e está se estendendo rapidamente pelos diferentes países da região. Enquanto quase todos, menos a Colômbia e o Panamá, optaram pelo modelo nipo-brasileiro de televisão digital terrestre (ISDB-T), a diferença que se estabelece na região são os modelos de comercialização e o modo como cada país está encarando a implantação desta nova forma de emitir um sinal de TV aberto. Nesta reportagem tentaremos mostrar como a Argentina, um dos países onde o governo nacional tem apostado fortemente no desenvolvimento da TV Digital, está implantando-a e quais as principais diferenças com o modelo brasileiro.
A primeira grande diferença é o modelo. Enquanto no Brasil as emissoras privadas dominam o sistema e são elas que estão desenvolvendo a rede de TV Digital no país, a TV pública acompanha o processo. No país vizinho, o processo é inverso, já que o governo argentino assumiu como uma questão de Estado a implantação da rede nacional de Televisão Digital Terrestre e planeja mudar o modelo, não só de comercialização do sistema televisivo argentino senão também, com este desenvolvimento, fazer frente ao que denominam a hegemonia cultural dos privados.
Para isso, o governo criou uma série de políticas públicas que visam o que denominam a “democratização dos conteúdos audiovisuais” para o qual esperam abrir em concessão mais de 200 frequências de TDT até 2016, e ainda financiar projetos audiovisuais para serem emitidos nestes espaços.
Para o governo argentino é fundamental mudar o “padrão tecnológico. Mudar as condições de emissão e recepção de TV no país”, explica o coordenador geral do Consejo Asesor del Sistema Argentino de TV Digital (SATVD-T), Osvaldo Nemirovsci.
Para o funcionário argentino, o mais importante da implantação da TV Digital no país é a “quebra do paradigma” de emissão e recepção. Para isso, o plano do governo baseado em uma lei promulgada pela presidente Cristina Fernández de Kirchner em 2009 – Ley de Servicios de Comunicación Audiovisual (26.522) – que regulamentou o funcionamento das emissoras de rádio e televisão ao substituir uma lei de 1980, da ditadura militar.
“A TV Digital Aberta foi desenvolvida e instrumentada por indicação da presidenta Cristina Kirchner e o ministro de Planificación Federal, Júlio De Vido, com inclusão, conteúdos federais, acessibilidade e gratuidade”, afirmou Nemirovsci à uma agência de notícias argentina.

Assim, o Sistema Argentino de Televisión Digital Terrestre (SATVD-T), também conhecido como Televisión Digital Abierta (TDA), começou a ser implantado em 2010. As obras foram supervisionadas pela Radio y Televisión Argentina Sociedad del Estado (RTA S.E), que inaugurou a primeira antena de transmissão digital terrestre aberta no país. Assim, as primeiras emissões de TDA no país começaram no dia 28 de outubro de 2009, quando o canal estatal – TV Pública – antes Canal 7 – passou a ser emitido digitalmente a todo o país após ter colocado fibra óptica que permitisse a chegada da emissão aos 23 estados (províncias) que formam o território argentino.
Nemirovsci afirma que o apagão analógico no país será realizado em 2019, e que nesse momento o país contará com 220 sinais de TDA aberto que poderão ser recebidos nas casas dos argentinos. Entretanto, o funcionário estima que em 2015 acabarão as emissões analógicas no país.
Mas isso não é tudo, o governo argentino pensa que a implantação da TDA no país gerará uma “convergência” que dará um impulso na produção nacional, a formação técnica e profissional de trabalhadores, a promoção da indústria do país e um avanço na infraestrutura cientifico-tecnológica do país porque se estão criando ferramentas para esta implantação. Por decisão política, como explicamos acima, a TDA é um projeto público financiado pelo Estado nacional. Esse sistema funciona com banda larga de 6 Megahertz e emissão UHF já que segundo Nemirovsci existem mais de 10 milhões de televisores analógicos no país e por isso é necessário a utilização de set-top- -box para aceder as emissões.
Com respeito aos conversores digitais, outra diferença, eles são na sua grande maioria entregues pelo governo argentino aos cidadãos para que estes possam aceder à programação nos televisores analógicos. Por outro lado, na atualidade, todos os televisores fabricados no país chegam ao mercado com conversores instalados, isso também acontece no Brasil. Assim, no início de março de 2013, o governo tinha, segundo dados do Ministerio de Planificación Federal, Inversión Pública y Servicios da Argentina, instalado 65 plantas de transmissão e algumas outras estavam em processo de instalação; o que garantia 82,5% de cobertura nacional. Ainda tinham sido entregues gratuitamente pelo Programa “Mi TV Digital” mais de um milhão de conversores digitais aos cidadãos de baixa renda, quase todos produzidos no país por empresas e tecnologia argentina.
Outra diferença são as plantas transmissoras de TV Digital tem, mais uma vez por decisão política governamental, duas categorias, a primeira com emissores de 1 KW e a segunda com emissores de 500 W. Desta forma, cada planta transmissora deve contar com oito transmissores de 1 kW (Categoria I) ou igual número de 500 W (categoria II); dois diplexores: um switcher RF; um transmissor FM, quatro racks adicionais; e dependendo da quantidade de saidas, igual número de antenas satelitais. Ainda, em cada planta transmissora são instaladas quatro antenas micro-ondas para receber sinais locais novas ou já existentes, para mais tarde, retransmitir as mesmas.

Digital que, segundo os responsáveis do laboratório, permite a administração dos sinais (escaner, listagem de canais, bloqueio de sinais, seleção de favoritos) controle de programação, controle de volume, mudança de canais, configuração de vídeo e áudio, suporte para Guia Eletrônica da Canais (EPG) e vista rápida da informação de programas, dando ao set-top-box uma série de funcionalidades que antes não existiam.
O Zamba deve ser incorporado aos decodificadores como qualquer software embebido, mas tem de ser feito através de um chipset particular que pode ser acoplado, se for desejado utilizar o ginga.ar um conector, também desenvolvido pelo LIFIA, que possibilita a interacção entre ambas as partes (ginga.ar e Zamba). A ideia dos criadores do Zamba não é que se use um ou outro sistema, mas sem oferecer componentes fundamentais do firmware livremente para “estabelecer um umbral tecnológico mínimo para que o software da TV Digital”, disse Gabriel Baum, diretor do LIFIA durante a Jornada Interactividad y Multiplataforma en la Televisión Digital organizada no ano passado pelo NeoTVLab. Este zapper de código aberto é, segundo Fedérico Balaguer, pesquisador responsável do LIFIA, um desenvolvimento importante porque foi pensado para funcionar em diferentes plataformas. Ele “funciona nos netbooks com decodificador incorporado do programa “Conectar Igualdad” e outros desenvolvimentos para set-top-box que daremos a conhecer no fim de abril de 2013.”
Balaguer explicou à SET que o mais importante é poder continuar o trabalho do Ginga.ar, melhorando a sua integração com diferentes provedores. “Agora estamos trabalhando para incluir um módulo de segurança para o LUA de forma nativa, tal como foi proposto para ser incluído nas normas ABNT”. Assim, na Argentina, a maior parte dos telespetadores que tem acesso a TV Digital o faz através de set-top-boxs que são entregues pelo governo nacional ou podem ser comprados nas lojas de eletrodomésticos. Com isso, se gerou no país, explica Bertolotti, uma nova forma de ver TV. “Temos de ser conscientes das limitações da nossa região no que diz respeito à acessibilidade as novas tecnologias e serviços. A brecha digital segue sendo importante, quase é possível dizer que “brecha” é um eufemismo (…) Cada decisão técnica que tomamos, limita ou expande o público que poderá aceder a nosso produto, o mesmo que cada decisão estética”.
Assim, a chegada dos set-top-box para se juntarem as TVs analógicas na Argentina permitiram que muitos cidadãos não só utilizarem o conversor para assistir TV como também para outras aplicações tais como ouvir música, ver fotos ou até conectar a internet. Isso porque alguns dos set-top-boxs produzidos no país tem interfaces que permitem através de entradas USB utilizar o dispositivo de diversas maneiras.
Fedérico Balaguer explicou à SET que ainda que os sistemas de emissão e recepção na Argentina e no Brasil são basicamente iguais, uma das diferenças na operação é a utilização das frequências UHF que no caso argentino “são compartilhadas por diferentes “sinais”. Penso que o Estado argentino por ter um software livre como política de Estado, naturalmente optará por seguir requerendo a opção de software livre que se está utilizando agora e que já foi adaptada por uma empresa brasileira que realizou uma adaptação do Ginga.ar a um decodificar em uma licitação realizada em 2012.”
Balaguer explica ainda que a Argentina continua trabalhando no desenvolvimento do Ginga.ar. “Seguimos desenvolvendo o Ginga Test Suite. Nossa ideia é que nas próximas licitações de equipamentos este sistema faça parte, o que é um marco de referência nas implementações do Ginga, que talvez não sejam derivadas do Ginga.ar”.

Finalmente se bem na Argentina foi adotado o padrão nipo-brasileiro, a norma ISDB-T utiliza distintos sistemas de modulação. Um deles é o OFDM com múltiplas portadoras para gerar uma rede de frequência única “Sistema de Transmissão Segmentada OFDM” (SFN). Com este sistema, é possível que as emissoras transmitam em diferentes localidades com o mesmo canal fisico UHF, ou seja, o mesmo sinal unindo os transmissores de várias cidades. Ainda, as emissoras podem transmitir simultaneamente para três tipos de dispositivos fixo, móvel e portátil no mesmo espectro por existir a possibilidade de multiprogramação.
Isso é possível porque a norma conta com uma Modulação Hierárquica de 13 camadas (segmentos) disponíveis. Destes, segundo explica Balaguer, um se utiliza para um dispositivo móvel, um “one-seg” – que é a tecnologia de segmentação da banda de transmissão para suportar a emissão para dispositivos móveis – e dos 12 restantes o que se faz na Argentina é colocar até 3 sinais SD nesse espectro utilizando 4 segmentos ou, muitas vezes, que sejam dois em seis segmentos permitindo que se reduza o bit-rate e dando uma recepção mais robusta.
Para Balaguer, o projeto de implantação da TDA no país está no bom caminho já que “já foi instalada a maior parte das antenas transmissoras e recentemente foram assinados convênios para incluir sinais [canais] privados muito importantes ao nível federal na grade de programação do sistema o que fará ainda mais atraente a oferta”.
No Brasil essa situação não é possível devido a uma diferença na lei, o que não permite o modelo de multiprogramção, ou seja, que uma emissora possa transmitir um sinal HD, outro SD e outro one-seg – com conteúdos diferentes. A única emissora brasileira que está autorizada a ter multiprogramação é a TV Cultura e demais TVs Públicas.
Finalmente, Balaguer pensa que o SATVD-T está no bom caminho e agora com a inclusão de empresa “Argentina de Soluciones Satelitales” (ARSAT) na implantação da TDA, esta teve um novo impulso. “Isso faz com que o esforço que se faz é na federalização dos conteúdos em todo o país, e não focalizado em cidades como se vê em outros países da região. Assim, os aplicativos Ginga têm um potencial Federal. Por isso, os canais têm mostrado um grande interesse no desenvolvimento de aplicações institucionais que copiem os portais dos canais na web. Os canais locais como, por exemplo, o da Universidad Nacional de La Plata (UNL) têm agora um aplicativo com informação sobre centro de saúde e os municípios da região estão em negociações para ter aplicações com informação municipal”.
Vale destacar que desde fevereiro passado, ARSAT, empresa pública, conta com o 25% do espectro radioelêtrico argentino. Isso porque segundo o ministro de Planificación Federal, Julio De Vido como “ocorreu com outros serviços “os privados não estiveram a altura das circunstâncias devendo o Estado assumir um rol ativo para garantir a prestação de serviços e estendê- -lo a todos os setores do país em iguais condições”. Em declarações à agência oficial Telam, De Vido assegurou que desta forma o espectro radioeléctrico argentino continua a mudança que está sendo feita desde 2003, mudando a forma de gerenciamento e oferta aos cidadãos.
www.tda.gob.ar
www.mitvdigital.gob.ar
www.lifia.info.unlp.edu.ar
www.tvdigitalargentina.gob.ar/tvdigital
www.minplan.gov.ar
www.tvpublica.com.ar
www.arsat.com.ar
http://forumsbtvd.org.br/
www.telemidia.puc-rio.br