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As expansões transmidiáticas de Saramandaia

Nº 142 – Junho 2014

Por Daiana Sigiliano

Reportagem

Implantada nas telenovelas em 2006, a transmídia ainda é um desafio para os autores brasileiros

Desde os anos 2000, a narrativa transmídia vem sendo, de fato, aplicada em diversas vertentes do entretenimento norte-americano, tais como cinema, games e TV. Porém, a televisão tem sido o grande campo de experimentação e aplicação das múltiplas camadas narrativas. O fenômeno foi inaugurado na série Heroes, fundamentado em Lost e atualmente já integra várias tramas de canais abertos e pagos. A popularização da transmídia nos seriados não se deve ao acaso, a estrutura e modelo de distribuição do gênero propiciam a expansão das histórias. Enquanto nos Estados Unidos o fenômeno já é delineado há algum tempo, no Brasil o recurso tem sido aplicado de forma gradativa nas telenovelas da Rede Globo. Reconhecida mundialmente por suas produções, a emissora vem expandindo suas atrações desde 2006. A primeira ação desenvolvida foi para a telenovela Páginas da Vida, de Manoel Carlos. A emissora criou seções no site oficial da trama que ofereciam ao público o acesso a cenas comentadas, envio de vídeo e conteúdos complementares. Em 2009 o canal começou de fato a criar ações mais elaboradas e coerentes ao ecossistema transmidiático. As produções Caminho das Índias e Viver a Vida tiveram seus arcos narrativos aprofundados e complementados. A partir daí várias produções da Rede Globo tiveram seções voltadas para a propagação e retroalimentação do enredo de suas telenovelas. Como, por exemplo, Passione, Insensato Coração, Morde e Assopra e o remake de Ti Ti Ti . A adaptação Maria Adelaide Amaral também usou a transmídia para aprofundar e estender os seus principais plots. Porém, foi na trama das 19 horas, Cheias de Charme, que o fenômeno cumpriu integralmente o seu papel de oferecer ao espectador uma camada inédita do universo ficcional com o clipe “Vida de Empreguete”.

Saramandaia e suas múltiplas narrativas
De autoria de Ricardo Linhares o remake de Saramandaia tinha como principal arco narrativo a disputa de duas facções: os tradicionalistas, encabeçados pelo ex-prefeito Zico Rosado (José Mayer) e os mudancistas, liderados por João Gibão (Sérgio Guizé), Pedro (André Bankoff), Zélia (Leandra Leal) e Tiago (Pedro Tergolina).
Ao contrário das demais ações transmidiáticas desenvolvidas pela Rede Globo, o enredo de Saramandaia se expandiu em distintas linguagens e foi além da simbiose entre a TV e a Internet. Para a trama de Ricardo Linhares foram criadas quatro novas camadas narrativas: os blogs “Saramandaia Já” e “Diário de Bole-Bole”, o e-book “O livro de Saramandaia”, o “Dicionário de Saramandaia” e a websérie “Saramandices do Corpo Humano”. Apesar de todas integrarem o site oficial da produção, cada plataforma apresentava uma complementaridade única ao universo ficcional.

Seguindo a linha de transmidiação presente em várias atrações da emissora, a telenovela ganhou dois blogs: o “Saramandaia Já” e o “Diário de Bole-Bole”. Além de ampliarem o mundo imaginário criado pelo autor, os diários virtuais possibilitavam que o público se sentisse mais próximo dos personagens e compartilhasse a mesma realidade. Os posts do “Saramandaia Já” cumpriram a função de retroalimentar, complementar e propagar a trama. Já no blog “Diário de Bole-Bole”, as publicações tinham o objetivo dar consonância, aprofundamento e complementariedade à narrativa matriz.
No e-book “O livro de Saramandaia” o público teve a oportunidade de conhecer a versão literária da telenovela. Ao longo de 13 páginas, o livro contava a história de Saramandaia e de seus principais moradores. E no suporte transmidiático “Dicionário de Saramandaia”, era possível compreender o significado das palavras e expressões usadas pelos habitantes da cidade.

Webséries
Por fim, a última transmidiação de Saramadaia foi a websérie “Saramandices do Corpo Humano”. O recurso, muito comum nas séries norte-americanas, expandia a narrativa matriz através de sub-tramas focadas em personagens e plots secundários. Composta por quatro episódios de dois minutos, a atração foi protagonizada por Dr. Rochinha (José Augusto Branco) e tinha o objetivo de explicar as peculiaridades de alguns personagens.
Por exemplo, no “Ícaro de Saramandaia”, o médico destrincha as anomalias por trás das asas de João Gibão (Sergio Guizé). Segundo ele, em meados da Segunda Guerra Mundial apareceu na cidade um grupo de médicos estrangeiros destinados a criar uma super raça de homens alados. Entre as cobaias da experiência estava o avô de João, que foi vítima de uma alteração genética que unia o DNA humano com o DNA de uma ave. A avó de Gibão também participou do projeto e deu a luz a um bebê com asas. O médico afirma que ao contrário das crendices do povo de Saramandaia, o transgene é determinado por um alelo recessivo. Ou seja, apenas os homens da família carregam a alteração genética.
Em todos os episódios Dr. Rocinha usa a ciência para explicar os casos. O passado dos habitantes e a história da cidade também são usados para fundamentar as teorias do personagem, o recurso ajuda no desenvolvimento da transmidiação.
A websérie é a aplicação nítida da transmídia, o espectador que se interessasse pelos mistérios por trás dos personagens da telenovela iria buscar pelos episódios. Ao iniciar esta busca por respostas, o espectador assume o papel de “caçador” e sai preenchendo as lacunas deixadas pelo autor. Assim, os sujeitos midiáticos que assistirem à produção terão uma percepção sobre o enredo diferente daqueles que só acompanharam pela TV.
No ecossistema da cultura da convergência o participante é inundado por informações e tem a sua atenção fragmentada. Por isso, as empresas tem se empenhado cada vez mais em criar uma nova relação com o seu público. Na contemporaneidade é preciso que as histórias se expandam em distintas plataformas e sejam um convite à imersão. A narrativa de Saramandaia precisou expandir em várias camadas para conquistar a atenção do público e despertar o seu engajamento. A produção de telenovelas transmidiáticas ainda é um desafio, ao contrário das séries de TV, o formato apresenta obstáculos que precisam ser adaptados ao cenário da convergência para a eficácia das ações. Ao expandir a trama para outras plataformas, os autores e colaboradores enfrentam dois problemas: o perfil do público e a estrutura organizacional.
Entretanto no Brasil temos uma relação única entre a TV e o espectador. Principalmente com as telenovelas, que pautam os assuntos do dia seguinte, as discussões na hora do cafezinho e indicam os novos parâmetros da sociedade. O espectador brasileiro se configura diante de outro cenário midiático, por isso a transmídia no Brasil inaugura e rompe limites na participação e na experiência do sujeito midiático com o produto televisivo.

Daiana Sigiliano é jornalista é pesquisadora do EraTransmídia e pós graduanda em jornalismo multiplataforma na UFJF.