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A visão dos profissionais da SET

Após a realização de uma feira como a NAB 2013, a Revista da SET procurou ter uma análise aprofundada sobre as tendências tecnológicas do setor e como o mercado brasileiro pode aproveitar as inovações apresentadas em Las Vegas. Para isso, entrevistamos Liliana Nakonechnyj, ex-presidenta da SET e diretora de engenharia de telecomunicações da Rede Globo; e Nivelle Daou Junior, vice-presidente de Tecnologia da Rede Amazônica de Rádio e Televisão. Dois profissionais renomados do país, mas que vivem realidades diferentes devido às dimensões das emissoras nas quais desenvolvem suas atividades.

 

Por Fernando Moura

ENTREVISTA

De fato, como dissemos na edição anterior, um dos principais tópicos da NAB 2013 foi a produção em 4K. Nesse aspecto, a questão dos broadcasters é estabelecer como implementarão a tecnologia 4K em suas emissoras e produtoras de TV. Outro ponto que ficou definitivamente esclarecido nesta edição é que o HD parece ser uma tecnologia ultrapassada e que o 3D não vingou na indústria de TV. As multiplataformas parecem ser a tendência e o lugar onde mais rapidamente poderá chegar o 4K, já que as principais marcas, players e distribuidores acreditam que a tecnologia 4K está pronta, é viável e por muitos já está sendo utilizada para a produção. A pergunta que fica no ar é saber se existe a hipótese de emitir em 4K na TV aberta, situação que parece ser distante para os principais canais do mundo.

Revista da SET: Esta visão é acertada?
Liliana Nakonechnyj: De forma geral, concordo. Praticamente todos os fabricantes apresentaram produtos profissionais 4K, viabilizando a produção em 4K no mínimo com vistas a manter arquivos de qualidade superior, mais à prova de futuro. E mais, na época em que foram introduzidos os primeiros produtos profissionais em HDTV, a única forma de aproveitar o conteúdo produzido em HDTV no ambiente SDTV que vigorava era downconverter o HDTV para SDTV. Entretanto, agora, para tornar ainda mais atrativa a produção em 4K, muitos permitem que sejam aproveitadas parcelas da imagem 4K para a produção em HDTV. Não diria que o HDTV está ultrapassado, pois além de ser o atual padrão mundial de TV aberta e dominante nas mídias audiovisuais, ele continua suficiente para telas menores e para muitos ambientes. Por exemplo, para a mobilidade não parece haver necessidade de nada além do HDTV.
Por outro lado, já está bem claro que o 4K e o 8K acentuam a sensação de imersão do telespectador, permitindo- lhe usufruir mais intensamente da experiência “lean back” de ver televisão.

Nivelle Daou Junior: Na edição 2013 da NAB verificamos que a maioria dos stands tinha alguma referência ao 4K. Mas nós estamos vivenciando a grande dificuldade em implantar o HD no Brasil, principalmente nos munícipios menores e afastados dos grandes centros, e já se vê a grande ênfase dada no 4K. Acredito que o 4K, assim como foi o HD, seja uma fase transitória, pois o Japão, via NHK, já concentrou seus esforços na viabilização do 8K. As novas tecnologias, como o HEVC, possibilitarão essas implementações inclusive na TV aberta.
Deve-se salientar que tanto o 4K como o 8K tem papel preponderante em telas maiores, nem sempre acessíveis ao grande público. O HD é suficiente por hora para atender à grande massa.
No ano passado via-se o 3D como a grande vedete, mas essa modalidade saiu de cena como protagonista. Já não há um apelo dos fabricantes de receptores para essa tecnologia, que efetivamente não alavancou as vendas. Existe apenas como coadjuvante.

Revista da SET: Qual o seu balanço da NAB 2013?
Liliana: A NAB continua como principal mostra de tecnologias broadcast para a região das Américas e, em particular, para o Brasil, cuja delegação se expande a cada ano e já é, de longe, a maior delegação estrangeira.
Na conferência, somam-se às tradicionais sessões gerais, superseções, sessões de engenharia, e de produção de cinema, outros temas como a segunda tela e a produção e distribuição multiplataforma. Multiplicam-se também as discussões sobre como monetizar essas novas possibilidades.
Com novas possibilidades de oferta de conteúdos audiovisuais, o número de expositores na feira parece estar crescendo. Entretanto, os estandes já não precisam ser tão grandes, talvez pelo fato das novidades, mesmo as apresentadas por fornecedores tradicionais, estarem muito mais em software do que em hardware. Para dar apoio a resoluções maiores, sistemas de distribuição internos aos estúdios de maior capacidade e à tendência do transporte IP. Sistemas de contribuição de conteúdo lançando mão das tecnologias 3G e 4G para proporcionar, mas sem abrir mão dos sistemas mais tradicionais de microondas terrestres e transmissões via satélite. O H265, recém especificado, já bastante disponível em software, inicialmente voltado para distribuição de conteúdo off-line.

Nivelle: Notamos a recuperação da pujança da NAB. Este ano os corredores voltaram a ficar lotados, fornecedores com stands e produtos renovados, dando a impressão de que a crise mundial está sendo superada.

Revista da SET: Levando em conta a área em que atua, o que trouxe de especial a NAB 2013?
Liliana: Tenho interesse nas tendências gerais da indústria e em trabalhar para que a televisão continue oferecendo, no Brasil, o que há de melhor no mundo. Nesse sentido, participo do FoBTV – o movimento que almeja um padrão globalizado para a TV terrestre. É muito alentador participar com especialistas do mundo inteiro – norte-americanos, europeus, asiáticos – desse esforço que, agora, entra numa fase mais difícil, que é a de selecionar tecnologias candidatas a fazerem parte do futuro padrão global. Essa globalização facilitará a vida das pessoas, que poderão usar seus dispositivos pessoais para ver TV no mundo inteiro, como já fazem com seus telefones celulares. Por trazer escala, propiciará a evolução mais rápida da mídia. A TV poderá passar mais rápido de geração em geração, sendo que cada geração poderá ser iniciada em cada local na medida da necessidade – também à similaridade do que ocorre hoje com as telecomunicações ( 3G, 4G, etc).
Vale ainda dizer que a TV aberta nos EUA passa por um momento interessante: muita gente tem abandonado a TV a cabo em prol da TV digital do ar complementada por ofertas OTTs de conteúdo off-line. Esse movimento ainda está restrito a uma parcela pequena da população norte-americana, mas há que acompanhar seu desenvolvimento. Além disso, embora continue predominante nos EUA o hábito de assinar cabo ou satélite, um enorme contingente da população com televisores sintonizados no sinal do ar. Assim, embora o FCC (Federal Communications Commition) continue trabalhando em prol dos leilões incentivados do espectro com o objetivo de transferir mais espectro para as telecomunicações, há um nítido movimento de preservação da TV aberta, que inclui a compra de emissoras deficitárias por grupos de broadcasters com saúde financeira.
Nivelle: Pudemos encontrar nesta NAB um produto que há muito procurávamos: poder controlar exibições de uma central geral, tendo a capacidade de endereçar playlists diferenciados para cada retransmissora. Já vamos iniciar a fase de testes para avaliação do produto. Isto permitirá servir a Amazônia de maneira segura e disciplinada.

Revista da SET: Existe hipótese de avançar para a realização de produções em 4K?
Liliana: A TV Globo já usa câmeras 4K e certamente avançará nesse sentido.
Nivelle: Ainda não vislumbramos nenhuma possibilidade de produções 4K em nossa região. Os esforços e o próprio mercado estão centrados na utilização do HD.

Revista da SET: Na sua área profissional, quais as principais novidades da indústria?
Liliana: A principal novidade, que acabou sendo, também, um grande motivo de preocupação para mim, foi a apresentação feita no SET e Trinta pelo Hitsatsune, do Ministério do Interior e das Comunicações no Japão, dos testes de interferência entre LTE e TV daquele país. Os testes mostraram que, para que as pessoas possam continuar vendo TV digital quando o lTE entrar em operação na faixa de 700MHz, haverá necessidade de inúmeras medidas de mitigação.
Essas medidas incluem filtros de características severas, muito profissionais e provavelmente caros, nas ERBs. Além dessas especificações para as ERBs, será necessário instalar filtros (de 30dB) em cada antena de TV, uma atividade trabalhosa e onerosa, que será no Japão custeada pelas operadoras 4G.
Lá no Japão, desde 2011 os televisores já são fabricados com filtros internos. Aqui no Brasil, nenhum televisor tem filtro ainda e os parques instalados de antenas são bem mais precários, o que deverá nos trazer problemas ainda maiores. Precisamos complementar os testes japoneses para as situações específicas do Brasil. E alertar governo e operadoras sobre mais esse problema, cuja dimensão precisamos delinear para que as providências sejam previstas na licitação das frequências de 700MHz para o 4G.
Nivelle: Conhecemos novos e interessantes produtos para Medida e Análise de Sinais em Campo e na área de câmeras, novos conceitos com CCUs docáveis ou câmeras ENG que se transformam em câmeras de produção, otimizando sua utilização.

Revista da SET: Frente à inovação tecnológica, como vê o apagão analógico no país e qual a situação da rede na qual trabalha. Isto é, como está o processo de digitalização das afiliadas?
Liliana: A Rede Globo e suas afiliadas têm um enorme compromisso com a digitalização das transmissões. Já estamos cobrindo aproximadamente metade dos domicílios com TV do país. Continuamos trabalhando com afinco. A expansão analógica levou cinco décadas e a digital precisa ser feita em menos de uma. A equação financeira é um desafio, mas, mais ainda, a capacidade de realização das instalações no Brasil e a velocidade de regularização por parte do MC e da Aanatel.
A preocupação com o apagão analógico é grande, uma vez que não podemos deixar a população sem ver TV, e há muitos fatores ainda, além da disponibilidade do sinal no ar. As pessoas precisam estar cientes de que têm cobertura digital e de como fazer para sintonizar. As famílias precisam ter televisores digitais, ou pelo menos conversores.
Nivelle: O Ministério das Comunicações está demonstrando uma coerência maior ao anunciar um prazo mais dilatado para o switch-off do analógico. Sem isso, nem a indústria nem as emissoras teriam tempo hábil e condições financeiras para essa implantação. Mas para a completa efetivação do sistema, o Governo ainda precisa criar condições de acesso aos STB pela população e a desoneração de impostos para a indústria, sob o risco de não ver a TV digital implantada no período proposto.
As redes nacionais estão fazendo todo o esforço para que a maior parte da população já possa desfrutar da experiência de ver TV em HD já na Copa do Mundo de 2014.

Fernando Moura
Redação Revista da SET
fernando.moura@set.org.br

 Nº 133 – Maio/Junho 2013