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“O tempo do digital é mais veloz”: Sobre padrões e avanços da televisão digital no mundo

NAB 2018 “O OLHAR DOS ESPECIALISTAS DA SET”

Como dizia Caetano Veloso, na música Oração do Tempo, o tempo é “inventivo”, “parece contínuo”, “compõe destinos”, é “tambor de todos os ritmos”. O tempo e o quão parece cada vez mais acelerado o seu ritmo, foi sentido fortemente em quatro pavilhões do Las Vegas Convention Center, durante a NAB Show 2018

por Deisy Fernanda Feitosa Pesquisadora da USP analisa o ATSC 3.0 e o padrão nipo-brasileiro em Las Vegas
Com colaboração de Simona Luchian (Fotos) e Roberto Fernandes (Entrevistas)

Pavilhão brasileiro na NAB

Milhares de profissionais de área de televisão de várias nacionalidades passaram naquela que é considerada a maior feira de inovação da indústria de mídia televisiva do mundo, para compartilhar saberes, apresentar novas tecnologias, escutar especialistas, ou simplesmente observar as novas tendências dos tempos do digital.
O Brasil também esteve ali, representado por dezenas de profissionais das iniciativas pública e privada, que atuam nos setores de Radiodifusão e Telecomunicações. O estande brasileiro recebeu representantes de empresas nacionais desenvolvedoras de tecnologia de ponta desses setores. O presidente da Anatel, Juarez Quadros, e a sua comitiva também visitaram o local, para fazer a abertura simbólica dos trabalhos.
Entre tantas inovações mostradas pela NAB 2018, em sua feira e seminários, podemos chamar a atenção para um crescimento exponencial de soluções baseadas em IP, avançando uma tendência apresentada já há alguns anos. Vimos uma quantidade enorme de pequenas empresas oferecendo demonstrações de soluções inovadoras para IP e para transmissão de vídeo OTT (Over The Top). Além disso, prevaleceram na feira temas ligados a 5G, 4K, 8K, Publicidade Avançada, Inteligência Artificial, Desenvolvimento de Aplicativos, Realidade Aumentada, Segurança Cibernética, Realidade Virtual, Streaming, ATSC 3.0, IP, Carros Conectados, UHD, HDR, Reconhecimento de Voz e Realidade Mista.

Solenidade de inauguração do estande brasileiro contou com a presença de Juarez Quadros, presidente da Anatel

As experiências que mais chamavam a atenção dos visitantes, que chegavam a enfrentar grandes filas para usufruí-las, eram aquelas apresentadas pela Intel, Google e pela organização nacional de radiodifusão pública do Japão, a NHK (Nippon Hôsô Kyokai). A Intel, por exemplo, ofereceu aos visitantes a possibilidade de vivenciar experiências sensoriais de realidade virtual. Com o auxílio de óculos e uma poltrona que se movia – uma espécie de cabine em formato de ovo, com tons futurísticos –, o público imergia na narrativa que acompanhava. Experiência aguçada pelo formato do vídeo em 360º, que tinha excelente qualidade de áudio e vídeo, e pelos movimentos gerados pela cadeira. Um dos vídeos trazia um desfile de escola de uma samba durante o Carnaval do Rio. O projeto foi fruto de uma parceria entre a Intel e a Rede Globo. A experiência proporcionada era altamente imersiva, a ponto de nós, “interatores” (participantes ocultos daquele evento), confundirmo-nos com um membro de uma escola de samba, que, ao mesmo tempo, desfilava na Sapucaí, observava e era observado, ou seja, era “deslocado” para aquela realidade virtual.

 

Estande da Intel ofereceu aos visitantes experiências com VR

O Google também tinha um estande na feira, e ofereceu aos visitantes a experiência de assistir a vídeos em 360º, através da sua plataforma virtual Daydream. Um dos vídeos apresentados mostrava, através de uma gravação em 360°, o cotidiano de uma expedição na Antártica. A sensação era profundamente imersiva. Por um momento, parecia que, de fato, estávamos dentro do avião, junto aos membros da expedição, e compartilhávamos o cotidiano do grupo em um iglu, inclusive, vivenciando o preparo do saco de dormir para mais uma noite de sono. Para quem nunca foi à Antártica, era como estar lá. Havia uma sensação de ubiquidade, um profundo senso de realidade.
A NHK, por sua vez, apresentou para os participantes da feira as mais altas inovações tecnológicas desenvolvidas em seus Laboratórios de Pesquisa Científica e Tecnológica (NHK Science & Technology Research Laboratories — STRL): transmissão de vídeo em 4K e 8K, sistema de compressão de vídeos 8K para transmissão via IP (mezzanine-compressed 8K over IP) e um equipamento que permite vivenciar experiências em realidade virtual utilizando display 8K. Os visitantes do estande foram convidados a visitar um ambiente de projeção onde foi instalado um telão para demonstrar uma sessão de vídeos com qualidade 8K. Na oportunidade, também foi apresentado um recurso de interatividade que possibilita a imersão do telespectador em ambiente de jogos virtuais com auxílio de segunda tela, desenvolvido especialmente para os Jogos Olímpicos Tokyo 2020, a partir do MPEG Media Transport (MMT). O MMT é um protocolo de transporte para entrega de mídia em ambientes heterogêneos. Essa tecnologia permite alternar continuamente entre um programa recebido da transmissão terrestre e um programa recebido da banda larga. Ele permite que informações transmitidas por diferentes canais sejam facilmente apresentadas em sincronia entre si em uma tela. Isso permite a apresentação de vídeos adaptados às necessidades e interesses de espectadores individuais, por exemplo, apresentando anúncios de programas adequados às suas necessidades. O desenvolvimento do MMT veio a partir de estudos de tecnologias de transporte de mídia para fornecer serviços de transmissão híbridos de 8K Super Hi-Vision (8K), aprimorados com informações de redes de banda larga.
Depois das experiências que tivemos como público da NAB, com as demonstrações de soluções de cinema em realidade virtual e de câmeras 360° que já começam a tomar o mercado (como os dispositivos Insta360 One, Pro e Nano S, que funcionam acopladas a dispositivos móveis). Nós nos perguntamos: será que essas experiências também farão parte, em um futuro próximo, do ato de assistir narrativas audiovisuais? E com a pergunta passaram por nossa mente cenas imaginárias de telenovelas, séries de TV e, até, de matérias jornalísticas imersivas… Já pensou? A expansão do campo da notícia, a ressignificação do conceito de planificação e a notícia que passa a ser transmitida (especialmente ao vivo) em outra dimensão, em seu campo/habitat real ampliado… Isso, por um momento, mudaria o conceito da “verdade jornalística”?

Se tudo isso, de fato, acontecer, podemos dizer que estamos muito próximos de realizar o sonho da década de 60, cultivado pelos japoneses, pesquisadores da NHK, quando pretendiam melhorar a definição do sinal de televisão para proporcionar uma experiência imersiva. As transmissões em 4K e 8K, e os vídeos em 360º já nos aproximam muito desse desejo.

A nova geração de sistemas de TV digital: “a internet virou o jogo”
Se considerarmos o início de pesquisas por uma TV com imagens melhoradas, pelos Laboratórios de Pesquisa Científica e Tecnológica da NHK, contabilizamos 54 longos anos. E se voltarmos mais um tempo atrás, e considerarmos, também, a data da primeira transmissão experimental de televisão em preto e branco, feita pela BBC, em agosto de 1932, já se passaram quase 86 anos. Foram anos de pesquisa, imersão, erros e acertos para que chegássemos às tecnologias de transmissão e recepção que temos hoje. No entanto, percebe-se, nos últimos trinta anos, uma aceleração desses processos.
Sobre isso, o professor Guido Lemos de Souza Filho, da Universidade Federal da Paraíba e conselheiro do Fórum do Sistema Brasileiro de Televisão Digital (Fórum SBTVD), reflete: “O tempo do digital é muito menor do que o tempo do analógico”. Ele observa que a TV em preto e branco demorou vários anos para virar TV em cores, que por sua vez levou muitos anos para virar digital, mas agora os ciclos de evolução vão ser cada vez menores, pois a informática entrou na televisão. “Desde que isso aconteceu, a TV tornou-se um computador: ela tem processador, ela é toda digital, e o tempo agora é outro”, reforça.
Em 1984, foi anunciado pelos japoneses o desenvolvimento do Multiple Sub-Nyquist Sampling Encoding (MUSE), primeiro sistema comercial de televisão de alta definição. Desde então, o mundo acompanhou o desenvolvimento, adoção e implantação dos principais sistemas de televisão digital: o ISDB-T (1), japonês; o ATSC (2), norte-americano; e o DVB-T (3), europeu. Segundo informações da União Internacional de Telecomunicações (2018), 52 países dos cinco continentes migraram em definitivo para o sistema de televisão digital; enquanto 74 países, dentre eles o Brasil, atravessam a fase de migração.
Atualmente, já está em desenvolvimento ou implantação a segunda ou terceira geração desses sistemas. O ISDB-T, cuja base já vem de especificações do DVB, foi lançado oficialmente no Brasil em 2 de dezembro de 2007, e tornou-se um sistema híbrido (nipo-brasileiro), ao integrar as tecnologias de modulação e interatividade do Sistema Brasileiro de Televisão Digital. Passou, assim, a ser chamado ISDB-Tb. Posteriormente, foi também adotado por países da América do Sul, América Central e África. Concomitantemente, os japoneses aprimoraram as suas pesquisas para se aproximarem, ainda mais, da tão sonhada experiência imersiva, e conseguiram evoluir da alta definição para as definições 4K e 8K. Atualmente, eles já preparam a mais nova versão do ISDB-T. O DVB-T, por sua vez, evoluiu para o DVB-T2. A especificação foi aprovada em 2008, em 2009 foi publicado pela ETSI60 o padrão EN 302 755 e, em 2011, ganhou uma versão mais robusta para a recepção móvel e portátil: o T2-Lite61. A sua capacidade de compressão permite um aproveitamento ainda maior da banda de frequência, capaz de suportar SD, HD, mobile TV (acesso do sinal de televisão a partir de dispositivos móveis), rádio e suas combinações; além de Ultra High Definition, ou seja, formatos de vídeo digital 4K e 8K. Por sua vez, os norte-americanos lançaram há pouco mais de um ano a versão 3.0 do ATSC, considerada por muitos especialistas como o maior aprimoramento da TV digital dos últimos tempos. Por isso, decidimos entender de forma mais aprofundada as particularidades desse sistema.
Perguntamos ao professor Guido Lemos sobre como vislumbra o futuro da televisão, e ele prontamente nos respondeu: “O futuro da televisão é esse, apontado pelo padrão ATSC 3.0, uma integração da televisão e da internet”. Para ele, os americanos captaram melhor a tendência de integração da TV com a internet e perceberam que os dois sistemas não competem, mas se somam, uma vez que é sempre mais barato transmitir informação para muitas pessoas pela TV. Segundo Lemos, o ATSC 3.0 propõe uma inovação radical do ponto de vista de que é tudo transmitido em IP. “A ideia do ATSC 3.0 é fazer com que dados transmitidos para muitas pessoas também sejam transmitidos pela TV. Então, se temos um aplicativo que queremos instalar em todas as TVs que estão na cidade, em todos os equipamentos, como celulares, nós o enviamos por broadcast e o aparelho de TV recebe. Assim, resolve-se a questão com uma transmissão só, não é preciso transmitir um milhão de vezes a mesma coisa. Transmite-se uma vez só, e um milhão de receptores recebem. Então, essa é a base do racional do ATSC 3.0, que é centrado no IP e viabiliza a transmissão não só de vídeo, mas de outras informações via broadcasting, da maneira mais eficiente possível, para todos que estão numa área de cobertura”, explicou.

Guido Lemos: “O tempo do digital é muito menor”.

Para fazer uma analogia ao que acontecendo com os avanços tecnológicos ligados à televisão, o professor lembrou de um filme que assistiu em sua infância: “Quando era menino, o filme “A Bolha Assassina” (The Blob) era muito famoso. O filme mostrava um monstro, em forma de bolha. As pessoas atiravam nele e, em vez de morrer, aumentava de tamanho. Se batia em um prédio, ele aumentava de tamanho. Então, a internet, tudo o que toca, ela incorpora. A internet é um rede de redes. O que está acontecendo agora é que a rede de televisão broadcast está virando uma das redes da internet, que é uma inter-rede. O conceito da internet é bem elaborado, quem o criou foi muito feliz: uma solução que você consegue fazer a comunicação e a informação fluírem em redes diferentes, sem precisar mexer internamente em cada rede. Basta definir as interfaces”, comentou.
Por outro lado, para Lemos, o fato de a distribuição de TV se incorporar a mais uma das redes que fazem parte da internet é algo que tem ganhos para ambos os lados. “Não é uma coisa subtração, é uma soma. A TV está entrando em um contexto em que deixa de ser uma rede isolada. Então, novos serviços se agregam, e a internet ganha, porque a internet não é uma rede eficiente para transmitir para muitos. Para ser broadcast na internet é muito caro, complicado”, observou.
Do ponto de visto do telespectador, o professor explicou que ele conseguirá assistir na TV a conteúdos que só conseguia ver por meio da internet, pois a sua TV estará permanentemente conectada. E o melhor: nem saberá de onde os conteúdos estão vindo. Além disso, as interfaces para acesso à informação vão ficar mais simples, mais padronizadas. Ou seja, experiência do usuário é a mesma. A visão de uso, de futuro, dos norte-americanos é: “Ao receber um conteúdo, após implantar o ATSC 3.0, o usuário nem vai saber se vem do broadcast ou broadband, porque isso não importa.
O vídeo será enviado pela estrutura mais eficiente e mais barata. Ou seja, a interface evolui, a TV muda, e as interfaces vistas pelo usuário na TV são as mesmas do computador e do celular”, analisou. Já do ponto de vista de infraestrutura de distribuição da informação, Lemos explicou que a tecnologia vai ficar mais eficiente e, em resumo, conteúdos para muitas pessoas, serão transmitidos por meio de broadcast; conteúdos para poucas pessoas, por broadband.
De acordo com o pesquisador, a capacidade de transmissão da internet subiu e a internet hoje tem capacidade de sustentar a transmissão de vídeo 4K, que vê como uma “virada”, porque antes o melhor vídeo que conseguíamos receber em casa vinha pela televisão aberta. E, agora, é possível acessar vídeo 4K via internet, o que não acontece na televisão aberta, no caso do Brasil. “Hoje você recebe vídeo 4K do Netflix, da Amazon, Google, mas não recebe em sua TV aberta”, reforça.
Perguntamos a Guido Lemos se isso pode estar ligado a uma estratégia para a desocupação do espectro eletromagnético, em disponibilizá-lo para uso da telefonia móvel. Ele disse que não se sabe ao certo, mas que se for, não considera isso “inteligente”: “A demanda por informação para grandes grupos, a mesma informação sendo transmitida para grandes grupos, não vai desaparecer. Se você transmite um jogo da seleção brasileira, 60 milhões de pessoas querem assistir. Já, se for transmitir um jogo da seleção, pela internet, com uma boa qualidade, não se atinge três milhões de receptores. A rede não aguenta. Fica muito mais fácil juntar os recursos do mundo broadband com as do mundo broadcast. Para vídeos que não são assistidos por todo mundo, o ideal é que sejam enviados sob demanda, através da internet”.
Lemos observou que a internet está muito longe de poder oferecer uma infraestrutura igual à da transmissão terrestre: “Nos Estados Unidos, o máximo que transmitiram, durante o último Super Bowl, foram 15 milhões de fluxos. Nem sabemos quando a internet vai transmitir, e, mesmo que consiga, não é eficiente. Estariam replicando conteúdos na infraestrutura de redistribuição sem necessidade. Então, é questão de eficiência, de engenharia, da melhor a solução para o problema de distribuição e conteúdo para muita gente. Que é, sem dúvida nenhuma, broadcast. E isso não vai acabar. É isso que vai manter o broadcast vivo”, ilustrou. Perguntamos, então, qual seria a solução para a demanda, que só cresce, de transmissão de dados para dispositivos móveis. O professor nos disse que, nesse caso, a tendência é se redefinir o uso do espectro. “Eles aumentarão a faixa deles. Sem falar que também estão evoluindo em termos de técnicas de modulação, de compressão de áudio e vídeo e, assim, conseguem mandar maisinformação”, explicou.

“A versão 3.0 é superior aos outros padrões”, afirma Jerald Fritz
Conversamos com Jerald Fritz, vice-presidente executivo de Assuntos Legais e Estratégicos da empresa norte-americana ONE Media 3.0, startup da Sinclair Broadcast Group, maior estação de televisão dos Estados Unidos. Ele nos contou sobre o que motivou os aprimoramentos do padrão norte-americano, falou sobre os desafios enfrentados e como está acontecendo o processo de transição para o novo padrão

De acordo com Fritz, o padrão ATSC-1 era um sistema com “limitações tecnológicas” e que, por isso, após o switch-off, em 2009, iniciou-se um trabalho de aprimoramento, até que se chegasse ao ATSC-3.0, sistema que tem vantagens significativas em relação ao antigo e é, em sua avaliação, “uma versão superior aos outros padrões que existem no mundo”, exatamente pela integração com a internet, por ter como base o IP.O executivo também explicou que o padrão foi aprimorado para que pudesse ser integrado a dispositivos móveis, e para que pudesse ter a capacidade de ser adaptado para áreas geográficas e pessoas específicas. Ao comparar o ATSC 3.0 com o padrão europeu DVB-T2, ele refletiu: “o padrão europeu DVB-T2 não foi projetado com foco em mobilidade. O ATSC 3.0, por sua vez, tem capacidade de transmitir dados além de dados de televisão (broadcast), e há mais capacidade do que o DVB-T2”, defendeu.
Fritz disse que os celulares adaptados para o sistema 3.0 têm um canal de retorno via transmissão terrestre. Desse modo, é possível fazer transmissão instantânea, em UHD, sem precisar de download e sem que a imagem seja pixelada. Entretanto, o executivo aponta que o maior desafio do ATSC 3.0 é a incompatibilidade com o sistema embarcado nos dispositivos antigos. Por isso, como solução, a indústria tem fornecido celulares com o novo sistema por um preço mais acessível. Outro desafio dos desenvolvedores norte-americanos, de acordo com Fritz, é o fato de o governo ter determinado que a migração para o novo sistema deve ser considerada voluntária, o que desacelera o processo de adoção para o padrão mais avançado.
Em relação ao aproveitamento do espectro eletromagnético, o executivo garante que o ATSC 3.0 é muito mais eficiente, se comparado ao seu sistema de referência padrão. “No Estados Unidos, um canal de TV ocupa 6 Mhz no espectro. O antigo ATSC faz a transmissão do sinal com 19.6 Mbps para SD. Assim, sobra pouco espaço para transmitir 2 ou 3 sub-canais em SD. Enquanto no padrão ATSC 3.0, o mesmo espaço de 6 MHz tem 25 Mbps para SD, e a compressão se converte em 4 Mbps para UHD”, calculou. Sobre o que fazer com 21 Mbps que sobram, ele deu uma resposta em tom comemorativo: “Podemos fazer aquilo que queremos, porque é um espaço para conduzir um grande quantidade de dados (big data), porque o vídeo tem um só tipo de dado, e aquilo que se fará com esses 21 Mbps não deve ser, com certeza, televisão”.
Em relação aos impactos causados no cotidiano das famílias norte-americanas pelo novo processo de migração da TV, o especialista explicou que o público não sabe que a migração já começou, porque dentro do ATSC 3.0 há uma tecnologia “muito” sofisticada que faz com que ele não tenha impacto no ato de ver televisão, salvo pelas interfaces. Além disso, como uma comissão do governo determinou um programa de simulcast (transmissão simultânea do ATSC 1.0 para o ATSC 3.0), as pessoas não necessariamente precisam comprar uma nova TV, agora, uma vez que a migração será concluída entre 10 ou 15 anos.

E no Brasil, como avança o ISDB-Tb?

Diante do cenário exposto acima, que trata do aprimoramento dos principais sistemas de televisão digital do mundo, é importante também entender os passos que o sistema nipo-brasileiro tem dado nesse sentido. Para isso, além do professor Guido Lemos, conversamos com David Britto, diretor da empresa Miraklo e participante do Conselho Deliberativo do Fórum SBTVD. No fórum, ele representa o setor de software e é coordenador do Módulo de Mercado, que estuda os benefícios/impactos de inovações, do ponto de vista mercadológico.
Segundo o conselheiro do Fórum, o Japão tem a intenção de realizar uma abordagem tecnológica mais disruptiva do ISDB-T, o que significa que está empenhado em criar uma nova versão do sistema. Tais aprimoramentos propostos vão culminar em um outro switch-off, e, ao que tudo indica, vai exigir a troca de receptores, impactando financeiramente a população. O Brasil, por sua vez, tende a tomar rumos diferentes.

“Nós, membros do Fórum SBTVD, pensamos de maneira um pouco mais conservadora. Em um primeiro momento, vamos fazer uma evolução não disruptiva, que vai permitir a melhoria de imagem, som e interatividade. Isso sem causar um impacto no legado. À medida que novos televisores vão chegando no mercado, vão se beneficiar dessa evolução não disruptiva”, explicou David Britto.
Esta é uma maneira, segundo ele, de considerar a realidade econômica do País. “Estamos em um país que trocar uma massa de televisores, mexer no bolso do consumidor, é muito complicado. E o Japão tem uma outra realidade econômica, banda larga, poder aquisitivo, salário médio, tudo”, esclarece. Sendo assim, ele assegurou que o aprimoramento não impactará o parque instalado e gera zero de interferência, por não ser disruptivo. E a população só sentirá a mudança quando os novos equipamentos, com a tecnologia embarcada, forem lançados no mercado.
Britto acredita que a evolução, de fato, disruptiva vai acontecer quando aumentarmos a resolução do nosso padrão: “Hoje, a resolução padrão é HD, mas, no futuro, a gente pensa em 4K e 8K. Em termos de normatização, vamos considerar em torno de 5 anos para ter um padrão bem definido, e começar a fazer uma implantação nesse sistema”, observa. Segundo ele, existe um diálogo com os japoneses para que, em um futuro, mais uma vez, tenhamos uma convergência de padrões, a exemplo do que aconteceu com o ISDBTb. Inclusive, uma dessas conversas aconteceu. “Eles respeitam muito a nossa engenharia, e têm ficado impressionados com a maturidade que a gente tem em lidar com a tecnologia, com evolução da tecnologia e, principalmente, em como essa tecnologia chega ao mercado”, conta.

Ginga D
O professor Guido Lemos falou sobre a nova versão para interatividade, que está em curso nas discussões realizadas pelo Fórum SBTVD. Ele contou que em breve, tudo indica que ainda no primeiro semestre de 2018, sairá uma especificação, para consulta pública na ABNT, e o planejamento do fórum. “Esse trabalho está em curso com muita energia. Internamente, chamamos de Ginga D, porque já existe o A e o B para a TV aberta, e o C foi o Ginga das caixinhas do Bolsa Família. O Ginga D seria uma evolução do C, que já traz em suas características a possibilidade de integração de broadcast com broadband, em alinhamento à tendência determinada pelos norte-americanos”, elucidou.
Conforme Lemos, neste primeiro momento, acontecerá apenas uma evolução no software de interatividade, que permite não só melhorar a interatividade, mas realizar a recepção de um vídeo em HD por broadcast, e de uma camada de melhoria via internet. “Ou seja, um 4K tem 4 quadrantes HD. Então, você recebe HD pelo broadcast e uma informação adicional para exibir em uma TV 4K. É possível enviar um vídeo 4K por broadband e sincronizá- lo. A mesma coisa para áudio: é possível enviar canais de áudio adicionais pela internet e fazer o sincronismo de TV aberta com internet no receptor, para alguém que comprou uma TV que tem suporte para o Dolby Atmos, por exemplo. Isso já está no roadmap, para que se tente fazer essa atualização do sistema”, esclareceu.
O ano de 2020, explicou o executivo, é o prazo para se ter a definição da tecnologia que vai ser usada para a próxima geração de TVs no Brasil. E caso a mudança seja radical, com a substituição do processo de modulação, codificação de vídeo e codificação de áudio, será necessário um novo switch off (pois o sistema não será mais compatível com a versão antiga), que exige, por sua vez, o desenvolvimento de um novo conversor e de novos aparelhos de televisão. Outro debate considerado importante pelo professor é sobre a estratégia de modulação que adotaremos. Ele lembrou que a modulação ATSC 3.0 é bem flexível, pois não precisa ser um canal fixo, e é uma possibilidade para ser estudada.

E quanto ao países que já adotaram o ISDB-T?
Uma das questões que levantamos com os especialistas brasileiros que entrevistamos foi se o Brasil teria autonomia para caminhar de forma paralela com o Japão em relação à definição dos aprimoramentos do padrão nipo-brasileiro. David Britto nos explicou que sim, pois temos soberania em relação a esse tema. Assim, o Japão, ao implantar a nova versão do ISDB-T, vai acrescentar “versão 2.0” ao nome; enquanto o padrão brasileiro acrescentará a expressão “versão 2.5 ou 3” ao nome ISDB-Tb (dependendo do que vai significar em termo de impacto).
Conforme David Britto, cada país tem a sua autonomia para lidar com o tema e que, no caso do Brasil, ter uma estrutura profissional para tratar desse assunto através de um fórum é um grande diferencial, pois o fórum se mantém, apesar de mudanças governamentais. O que não existe em países que adotaram o nosso padrão. “Quando mudam os governantes de cada país, mudam as prioridades. Se tivesse um fórum na Argentina, certamente haveria uma questão evolutiva a ser discutida de uma maneira bilateral, de uma maneira mais profissional”, observou.

Um novo consórcio para um novo padrão
A exemplo do que aconteceu à época do desenvolvimento do Sistema Brasileiro de Televisão Digital, pretende- se formar um novo consórcio para o desenvolvimento da versão aprimorada do ISDB-Tb. Os membros do Fórum SBTVD têm dialogado com representantes do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) para discutir a possibilidade de colocar a proposta em prática e, juntos, lançarem editais com chamadas de participação, através de investimentos de recursos do Funtel. “Queremos montar novamente um consórcio de universidades, mobilizar uma quantidade compatível com o desafio tecnológico de pesquisadores, para que tenhamos soluções inovadoras, e não apenas sigamos com um sistema que está posto, mas possamos fazer, eventualmente, uma evolução, modificações e adaptações para os requisitos do Brasil”, explicou o professor Guido Lemos.

Um pouco da história do ATSC
1982: Foi criada uma organização internacional com a missão de elaborar as normas para o padrão norteamericano de televisão digital, que recebeu o nome de Advanced Television System Committee. Era formada por 140 representantes de empresas de transmissão televisiva (terrestre, cabo, satélite) e cinematográfica, universidades, fabricantes de equipamentos de transmissão e de produtos eletrônicos de consumo, computadores, órgãos de regulamentação e indústrias de semicondutores. (Site oficial ATSC);
1987: Foi formado o Advisory Committee on Advanced Television Service (ACATS) para assessorar a Federal Communications Commission (FCC) na coleta e processamento de informações e sobre demais questões relacionadas ao projeto de se chegar a uma TV avançada (ATV). Além disso, deu-se início à elaboração de normas para o serviço de televisão avançada e foi publicado um documento onde constavam as especificações do sistema ATSC;
1996: o ATSC foi oficialmente adotado pela FCC como padrão americano;
Novembro de 1998: nos Estados Unidos, foram realizadas as primeiras transmissões em sinal digital do sistema ATSC; Junho de 2009: finalizou-se o primeiro período de simulcast dos EUA. O sinal de transmissão terrestre de TV tornou-se, assim, completamente digital. Posteriormente, o sistema foi adotado por Estados Unidos, Canadá, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, Honduras, México e Coreia do Sul (ATSC, 2014);
Maio de 2017: foi lançado, oficialmente, o ATSC 3.0;
Novembro de 2017: a FCC aprovou o início das transmissões voluntárias pelas estações de TV, com a condição de que sejam oferecidas em forma de simulcast, ou seja, junto ao sinal digital ATSC padrão. Além disso, ficou decidido que a transição para o novo sistema não será obrigatória.
DEISY FERNANDA FEITOSA DEISY FERNANDA FEITOSA
Deisy Fernanda Feitosa, jornalista e pesquisadora associada do Observatório Brasileiro de TV Digital e Convergência Tecnológica (Obted) da ECA/USP. Mestre em TV Digital, doutora em Ciências da Comunicação e pós-doutoranda em Diversidades. Contato: [email protected]