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TVs Conectadas: subutilização devido à baixa usabilidade

Nº 141 – Abril/Maio 2014

Por Tom Jones Moreira

Artigo

As TVs conectadas até agora, não conseguiram ir além dos limites de sua herança de TV, com pouco uso para sua enorme tela, a conexão com a internet tem sido usada para fornecer acesso a uma variedade muito maior de fontes alternativas de conteúdo de vídeo. É o que aponta o mais recente relatório do NPD.
O relatório constata que quase seis em cada dez consumidores de TVs conectadas estão acessando serviços de Over-the-Top (OTT) através do dispositivo e negligenciam o uso de aplicativos como Facebook e Twitter. Essa decisão não é por falta de opção de aplicações, ela vem do hábito de como os consumidores estão acostumados a interagirem com suas TV´s.
Consoles de jogos, leitores de Blu-ray, e outros dispositivos conectados também oferecem uma variedade de aplicativos, que vão alem da navegação na web do Twitter ao Facebook . Mas, o resultado em geral, é que estes não conseguiram entrar em ressonância com o público, até porque existem plataformas melhores, como o bom e velho PC, ou os novos e amigáveis tablets e smartphones, oferecendo os mesmos serviços com muito mais usabilidade em suas interfaces de navegação.
E fazendo surgir o “habito” de usar esses dispositivos enquanto assistem TV, dando origem ao termo de “segunda tela”.
O único ponto fora dessa curva de desaprovação das TVs conectadas são os aplicativos de musica (raidos on line) onde a localização da TV na sala e da disponibilidade de inúmeros aplicativos de streaming de música, como o Pandora por exemplo, tem impulsionado a aceitação dos consumidores de forma razoável (cerca de 15 por cento).
Os resultados trazem boas e mas notícias para os fabricantes de aparelhos de TV. No lado positivo, a TV em si continua a ser o principal agente para assistir conteúdo de vídeo dentro de casa, e está mostrando uma gama maior de programação por meio de serviços de OTT´s. O que torna claro que os consumidores querem conteúdo de vídeo em banda larga em suas TVs.

Base: Own TV connected directly or through another
device Source: The NPD Group/Connected Intelligence,
Application & Convergence

O ponto negativo começa justamente com o desafio de se criar uma experiência para o usuário menos complexa. É hora de se perguntar se as TVs conectadas têm realmente a capacidade de se transformarem em um hub de aplicações que vão além das funções de servidor de vídeo, seja ele on-line, ao vivo ou gravado.
Se fizermos uma rápida análise existem inúmeros dispositivos que trazem a internet para a TV: os consoles de jogos e os leitores de Blu-ray já citados aqui, fora esses, existem também set-top boxes IP´s, e media centers, alem da própria Apple TV, TiVo etc.
O relatório do NPD aponta também que enquanto 15 por cento de telas HDTV estão conectadas diretamente à Internet, esse número aumenta para 29 por cento, quando levamos em conta estes outros dispositivos.
E chama a atenção para os ecossistemas duplos, ou seja, TVs conectadas que tem um desses dispositivos também conectados a ela, o que cria uma confusa experiência de usabilidade para os consumidores de tem mais de uma forma de acessar os mesmos aplicativos para os mesmos conteúdos.
O resultado obvio é que os consumidores não explorem nada mais do que as opções de entrega de conteúdo de vídeo. Mas a verdade é que as TVs conectadas normalmente têm interfaces “desconcertantes” que fazem o ato de simplesmente encontrar e assistir ou usar seus programas favoritos em uma missão quase impossível. Isso explica o motivo dos apps não terem decolado, a experiência de tentar usar aplicativos como o facebook ou twitter esta muito aquém do prazer proporcionado por tablets e smartphones. O que explica também o sucesso cada vez maior dos aplicativos para Segunda Tela, que é muito mais um hábito do que propriamente uma tecnologia.
A Segunda Tela nos lembra que voltamos para casa para ver TV, relaxar e divertir-nos. Para isso, os televisores devem ter interfaces agradáveis de usar. Mas ao contrário disso as chamadas SmartTVs têm transformado esses aparelhos nos mais complexos eletrodomésticos dentro da casa.
A saída para contornar esta situação, que é sugerida pelo relatório, é ainda mais paradoxal os fabricantes precisam se concentrar “menos em inovação”, e se preocupar cada vez mais com a simplificação da experiência do usuário.
Como já falei aqui em outros artigos, o sucesso das aplicações interativas começa muito antes do usuário apertar a tecla “Power” do seu controle remoto, o que demonstra que esta faltando inteligência as “SmartTVs“. Para finalizar, esse ano na NAB tivemos muitos debates falando sobre isso, e lembrando também uma coisa muito importante dita por Roberto Franco, presidente do Fórum SBTVD: “As novas tecnologias são muito legais, mas precisam do conteúdo que o broadcaster tem. Não tem Segunda Tela, sem a Primeira Tela”, lembrou o presidente do Fórum no SET e Trinta, tocando num ponto importante, pois no mundo inteiro os Broadcasters tem perdido espaço espectral, com alguns países como a India querendo inclusive acabar completamente com essa modalidade de distribuição de sinal. Esse é um debate sério e preocupante, como mostrou Simon Fell representante do EBU, que fez uma apresentação para mostrar que o broadcast continua sendo a forma mais relevante de consumir conteúdo audiovisual, independente das novas tecnologias, e que por isso sua reserva de espectro RF deve ser protegida.

Uma empresa lançou nos últimos dias, uma TV com a funcionalidade
“Chat Mode” que conecta usuários para comentarem
sobre programas assistidos, compartilhando emoção com
amigos e familiares através da tela de SmartTV.

De acordo com o especialista, hoje na europa, 46% das pessoas consomem televisão por recepção terrestre, o que totalizam 275 milhões de habitantes. “Por isso, qualquer decisão relativa ao espectro precisa ser muito bem pensada”, explicou. Fell se referia às recentes políticas de cessão de faixas de espectro para serviços de internet móvel, que têm ganhado força em todo o mundo. “É preciso lembrar que o sucesso de novas formas de comunicação, como a Segunda Tela, estão totalmente ligadas à existência de transmissão linear ao vivo”, terminou dizendo o representante da EBU. Dessa forma vemos que um novo debate esta assumindo forma, Podem as novas tecnologias como segunda tela e Over-the-Top sobreviverem sem a presença dos grandes geradores de conteúdo? E é claro que não podemos deixar de perguntar qual é o futuro da TV neste cenário?
As necessidades de adaptação e mudança do modelo de negócio estão claras e talvez possamos até apostar que isso vai acontecer sem sombra de duvidas, porém o problema é estabelecer quando isso acontecera. Pois o próprio Simon Fell disse: “Um estudo que realizamos prevê que até 2020 cerca de 80% do conteúdo audiovisual ainda será consumido de forma linear pela televisão”.
Então, como diria Julio Cesar: “Alea jacta est” (A sorte esta lançada).

Fontes: www.npdgroupblog.com/internet-connected-tvs-are-used-to-watch-tv-and-thats-about-all/ www.npd.com www.wired.com/gadgetlab/2012/12/internet-tv-sucks/

Tom Jones Moreira Consultor para Tecsys do Brasil, Membro do Forum SBTVD, membro da Diretoria de Ensino da SET, Membro do IPV6 Task Force Brazil.