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TVs conectadas já são uma realidade e um caminho sem volta

O mercado de TVs conectadas é promissor em termos de volume e expectativa de faturamento. Os fabricantes estão investindo muito nesta nova tecnologia, que na opinião de especialistas é o futuro da televisão no mundo. E pelo que pudemos ver durante o seminário TV.APPS promovido pela Converge, no dia 08 de novembro, existem um modelo de negócio sólido a médio e longo prazos e um comprometimento de toda indústria para fazer esses negócios irem para frente.

As pesquisas apontam para um caminho sem volta. Para pessoas com idade abaixo de 30 anos, TV conectada já é um padrão. Nos Estados Unidos a expectativa é que, até o natal, metade dos lares tenha uma TV conectada e 10% deles tenham uma segunda TV. De acordo com Milton Neto, da LG, “o Brasil tem sido um excelente exemplo de adesão as TVs conectadas. A cada cinco TVs de tela plana uma é conectada e a diferença de preços entre a Smart TV e as tradicionais chegou a R$ 100, o que deve favorecer o aumento da base. Atualmente, no cenário mundial, estes aparelhos representam 6% da base e a previsão é que este número chegue a 20% em 2016”.

Tendo em vista o cenário mundial, a pesquisa da empresa Display Research apresentada por Marcelo Varon, da Sony, aponta que, em 2011, 25% das TVs de tela plana vendidas são conectadas. Em 2015 serão 47%. A base instalada de 2009 até 2015 será mais de 500 milhões de TVs conectadas. No Brasil, segundo dados da GFK, no primeiro semestre 17% das TVs vendidas são conectadas. “Em 2015 eu acredito que este número seja no mínimo ou igual ao número do mundo, e uma base instalada entre 15 a 20 milhões de TVS no Brasil”, prevê Varon. Porém a questão é com relação à população e à indústria, que precisam ser educadas para que esta tecnologia seja absorvida em todas as camadas.

A premissa, que TVs conectadas são uma evolução natural dos aparelhos de TV, é compartilhada por todos os palestrantes. Porém, esse modelo de tecnologia na visão da Totvs, BBC, NHK e EBU não atende sozinho a realidade. Ele depende da conexão à internet para funcionar. Hoje, no Brasil, 27% dos lares têm acesso à internet e apenas 5,5% deles possuem banda larga. “O cenário é promissor, porém, a TV aberta brasileira, que é o grande vetor de comunicação e, consequentemente, da mensagem publicitária, não chega à grande parte da população”, explicou David Britto da Totvs.

Falta padronização
Na opinião de Breno Masi, da desenvolvedora Finger Tips, o fator mais difícil para todos os setores, inclusive para os desenvolvedores, é que não há uma plataforma única. “Hoje para desenvolver um aplicativo, por mais que se fale em plataforma play work, nós temos um problema de usabilidade. Para cada marca de TV nós temos que desenvolver um aplicativo. Mesmo assim, são muitas as propostas. “Há muitas possibilidades de crescimento e de inovação. Hoje nós temos seis células para desenvolvimento de TV com um profissional focado nas telas Samsung e outro nas LG”, afirma.

David Britto explica que as oportunidades de negócios acabam sendo dispersadas porque há um número heterogêneo de plataformas e os anunciantes estão tentando encontrar uma maneira de como chegar no consumidor.

Terence Reis, da Pontomobi, também levantou a questão sobre a falta de padronização das plataformas. “Nenhuma plataforma conseguirá vingar sem padronização. Nenhum produtor desenvolvedor de aplicação vai apostar em dez plataformas de televisão”, garante. Para Terence o grande diferencial entre as fabricantes de televisores será a abertura que elas darão aos novos projetos. Os grandes players são limitados e esperados. O diferencial é dar abertura para surgirem itens e ideias novos. Com a previsão otimista do mercado, a empresa Pontomobi, que tradicionalmente se dedicava a aplicativos e conteúdos para celular, passou a apostar no universo das TVs conectadas.

Hoje com aplicativo na plataforma da LG, o Banco do Brasil se destaca neste segmento. Na opinão do responsável pela área de desenvolvimento de aplicações para novas plataformas do Banco do Brasil, Sandro Ludtke, o grande desafio é a experiência de uso. “Você pode passar horas desenvolvendo e prototipando, mas se a experiência de uso não for boa, é uma situação crítica”. Sandro também falou sobre a iniciativa da instituição financeira de entrar nas plataformas de TVs inteligentes.

Em defesa do Ginga
Os representantes das emissoras Globo e SBT, Governo, Totvs e O2C defenderam o Ginga presente em muitos aparelhos do mercado. Segundo David Britto, da Totvs, o Ginga não deve nada ao Android. “Se observarmos, são plataformas muito próximas, porém, o Ginga não tem problema algum com propriedade intelectual porque foi muito bem elaborado”. Na opinião de todos, Ginga e TV conectada não são concorrentes, mas sim duas plataformas distintas, que podem conviver juntas em um único aparelho.

Segundo o assessor especial da Casa Civil, André Barbosa, com a recente Consulta Pública sobre a obrigatoriedade do Ginga embarcada nas TVs (leia Revista da SET, Edição 123), estima-se que até 2015, 100% dos televisores produzidos no Brasil terão Ginga embutido, possibilitando assim, que TVs conectadas e Ginga estejam presentes em um mesmo dispositivo.

Barbosa fez a mea culpa e admitiu que o governo parou com os investimentos no Ginga. “Nós não demos continuidade a complementação da estrutura de desenvolvimento de inovação do Ginga, para que ele pudesse alcançar não só no modelo 2.0 implantado hoje, mas chegasse a 3.0, a 4.0, assim como as TVs conectadas possuem em uma leveza maior, mas que de maneira alguma é melhor do que o Ginga”.

A combinação do mundo digital é um conjunto de oportunidades: Anywhere, Anytime e Anyscreen. Para Roberto Franco, do SBT, não tem porque uma televisão com acesso à internet tirar proveito apenas do Ginga ou só da internet. “Eu não entendo por que as TVs conectadas devem ser apartadas do Ginga?”. O SBT, por exemplo, oferece, além de interatividade no Ginga, conteúdo nas TVs conectadas, da Sony, no modelo catch up TV. “Esse modelo ainda não gera receitas significativas com publicidade, embora esteja sendo explorado. Nosso trabalho está sendo feito mais pela expansão do hábito e pela marca, do que pela exploração comercial”, concluiu Franco.

De acordo com o gerente de operações da Globo, Carlos Fini, com o advento da TV digital e do Ginga a conectividade chegou às casas. Porém, no mundo da conectividade, existem algumas equações a serem resolvidas. Entre elas: Como compartilhar a tela? Ou como colocar um aplicativo em cima ou sob a tela sem ser induzido? O produtor de conteúdo vai gostar desta interferência em sua obra? Como compartilhar o mesmo tema com um novo conteúdo? “As soluções apresentadas até o momento não são muito viáveis, pois o conteúdo vai interferir na obra. Desta forma vamos esbarrar na regulamentação que é muito rigorosa no meio de comunicação. A radiodifusora é responsável por tudo que transmite e dificilmente um produtor ficará à vontade com as interferências em cima de sua obra”, alerta Fini. A rede Globo desde 2005 vem fazendo experimentos com a interatividade para oferecer a melhor proposta ao consumidor.

Sincronismo
“O sincronismo de conteúdo agrega valor e é propriedade de quem o criou, por isso o produtor deve pensar em qual tipo de interação quer fazer com o seu telespectador. Por exemplo: No momento em que o usuário está vendo um jogo de futebol, ele não está interessado em ter um pop up informando que está pronto o seu exame médico”, explica Fini.

A alternativa para o sincronismo foi apresentada por Romildo Lucas, da O2C Hipermídia. Ele mostrou que o sincronismo de conteúdo da TV pode ter aplicações interativas em uma segunda tela, sem interferir no conteúdo apresentado na TV. Desta forma não haveria problemas com direitos autorais. Como fazer o sincronismo?

Romildo explicou duas tecnologias que estão sendo pesquisadas em conjunto com Instituto Genesis do Rio de Janeiro. A primeira é a ACR – reconhecimento automático de conteúdo. Com esta tecnologia é possível ter uma análise de vídeo e áudio através da marca d’água ou através da análise de áudio através da impressão digital (finger print). A outra tecnologia é a EPG – guia eletrônico de programação -, utilizado para sincronismo com programas. Trata-se de uma tecnologia norte americana utilizada pela empresa Beyond TV, em Cingapura, como plataforma de interatividade para segunda tela.

Ações do governo
“No início, a discussão sobre o sistema de TV digital brasileiro passou a integrar não só o aspecto tecnológico social, mas a sobrevivência de uma plataforma que nos dava a possibilidade de independência diante de outras plataformas, que nós sabíamos que seriam fundamentais e integradas no futuro. Esse futuro chegou”, informou André Barbosa, assessor especial da Casa Civil.

Com base nessas novas tecnologias, André lançou algumas perguntas à plateia: “Quem vai gerar a Copa do Mundo? Quem vai gerar as Olimpíadas? Haveria tecnologias para sistema por IPs gerarem a Copa do Mundo? Serem geradoras? Sim, há. Mas há infraestrutura? Não. Não há. Quem vai gerar, e por muito tempo ainda, será o radiodifusor, no mundo inteiro. Nos Estados Unidos a diferença é que o radiodifusor é criptografado. Desde 1952, a TV a cabo é uma realidade analógica nos Estados Unidos. Na Argentina desde 1970. O Brasil acordou tarde, mas acordou. O DTH tem crescido a níveis exponenciais”, avaliou.

“Quando nós optamos pelo sistema japonês, nós fomos criticados porque, para algumas pessoas, nós estávamos invertendo a integração que os europeus e americanos estavam propondo, nenhum desses dois sistemas se comprovaram viáveis. Tanto que, recentemente, representantes do DVB (Digital Video Broadcasting) apontaram o interesse em incluir o Ginga na cesta do DVB, porque o nosso aplicativo é padrão IP e broadcast”.

A introdução da TV aberta dentro do processo integrado do qual existe a TV conectada, a TV a cabo, TV por satélite e todas as informações necessárias de conteúdo multiplaforma está sendo avaliada pelo governo. “Como a discussão não é quem será o maior, mas sim, a integração dessas plataformas incluindo a TV aberta, o governo está conversando com a indústria para apresentar o cronograma da obrigatoriedade do Ginga, que passa a ser parte do Processo Produtivo Básico (PPB). É possível que, até 2015, Ginga e TV conectada estejam no mesmo dispositivo”, afirmou Barbosa.

Como nós iremos trabalhar o modelo novo de televisão? Essa é uma questão é muito importante para o setor. A TV aberta depende unicamente da publicidade, que tem um modelo sequencial de comerciais, que tem uma grande dificuldade na medida em que se colocam outros elementos na tela competindo com aquele elemento patrocinado por determinado comercial. “Precisamos buscar soluções e a tecnologia apresentado pela C2O é muito interessante”, destacou André.

O governo estuda trabalhar em dois grandes modelos de negócio – comercial e público. As emissoras públicas federais – Senado, Câmara, Justiça, MEC e Cidadania – são prioridades neste momento. O operador de rede vai permitir que a TV pública exista para serviços públicos e não para problemas partidários. A interatividade dela será com o SUS, com empregabilidade, para auxiliar a população. A TV pública será a grande alavanca da interatividade.

“A questão de plataforma e serviço deve ser discutida para haver um equilíbrio de uma plataforma aberta, sem custos diretos para o consumidor e com serviços públicos’, avaliou Barbosa.

Novos paradigmas
A mudança no modo de assistir televisão abre novos caminhos para fabricantes e desenvolvedores, que estão investindo cada vez mais nos aplicativos conectados embarcados diretamente nos televisores, na diversidade de conteúdos e novos modelos de negócio. O diretor de TVs conectadas da LG, Milton Neto, indicou as diretrizes para fortalecer este mercado. “Temos que gerar receita com esta nova plataforma, fomentar o mercado e atrair novas marcas e novos parceiros. Atualmente, nossos negócios estão direcionados para a publicidade, assinatura, o transacional e para a venda de aplicativos”.

O engenheiro Salustiano Fagundes, da HXD, disse estar bem otimista com o desenvolvimento do mercado, tanto que a empresa, focada inicialmente no desenvolvimento de aplicativos para o Ginga, voltou-se para o mercado das Smart TVs, mudou o foco para interagir melhor com o mercado e está investindo em profissionais de marketing e conteúdo.

Além de focar na entrega do hardware, a Samsung tornou-se uma provedora de soluções de conteúdo. Segundo Rafael Cintra, gerente de TVs da Samsung, o que antes era medido como preço, agora é uma cadeia de valor. O que antes era um mercado restrito, agora é conectado e convergente. Na opinião do gerente, com as perspectivas de expansão e melhorias da banda larga, o Brasil é um mercado muito promissor. “Hoje, dos 16 milhões de lares com conexão de banda larga, apenas 3 milhões têm conexão superior a 1 Mbps. A expectativa é de que em 2016 sejam 30 milhões. O crescente interesse pelo video on-demand (VOD) também deve auxiliar no aumento da base”, explicou Cintra.

A publicidade
De acordo com diretor da Philips, Luis Bianchi, os formatos de publicidade na TV linear possuem filmes de 15, 30 ou 60 segundos, ou ainda, algum tipo de interatividade simples. Já nas Smart TVs, a força da mensagem pode ser maior e a internet é mais flexível em termos de formatos. Para ele as plataformas proprietárias dos fabricantes apresentam vantagens e desvantagens em relação à publicidade interativa baseada em Ginga. “O Ginga tem a vantagem do sincronismo, mas é menos democrático”. Bianchi acredita na força da união do que há de melhor nas duas tecnologias. “Não basta exibir a marca em algum conteúdo das TVs conectadas, é preciso ter um aplicativo da marca”.

“Com o advento da conectividade é necessário reinventar a televisão com relação ao conteúdo e aos modelos de publicidade, que criam novas oportunidades para os anunciantes”, alertou Lilian Viana, do portal Terra. “O anunciante pode criar uma estratégia única de publicidade, explorando múltiplas telas. Este desenvolvimento pode se dar em conjunto, entre anunciante, agência, provedor de conteúdo e fabricante de TVs. É possível segmentar a publicidade nas plataformas móveis entre fabricantes, tipos de equipamentos (blu-ray players conectados, por exemplo), target, e etc. A audiência hoje pode não ser muito grande, mas as previsões para 2015 são muito otimistas”, vislumbra Viana. De olho nesse novo mercado, o Terra possui uma área de TV estratégica com equipes exclusivas nas áreas técnicas e editorial.

Na opinião de Ricardo Godoy, da Burtifilmes/ ITBN, empresa especializada no conceito transmídia, “do ponto de vista estratégico, as marcas devem marcar uma posição nesta nova plataforma agora, enquanto ainda está em desenvolvimento e com espaço para experimentação”. Ricardo apresentou o case do Chiclets Evolution, que conta com um aplicativo nos televisores inteligentes da LG, expondo a marca durante vários minutos através de um filme interativo, com diversos pontos na narrativa que demanda a interação do telespectador.

A publicidade interativa no mundo dos games foi defendida por Fernando Chamis, da Webcore Games. “Os jogos podem atingir todos os targets, incluindo os adultos, eles permitem um tempo médio de exposição da marca de cinco minutos”. Ele apresentou alguns exemplos desenvolvidos pela empresa. Entre eles, o jogo criado para a marca de absorventes Sempre Livre, que atingiu, segundo Chamis, um tempo médio de exposição de 26 minutos, algo impensável em plataforma lineares”.

No meio de tantas discussões, resta uma dúvida: Como fica o consumidor final? Como acompanhar essa evolução dos televisores que acontece a cada instante? Os fabricantes de aparelhos admitiram que não tem como atualizar os televisores, por isso, para os novos aplicativos, novos aparelhos terão que ser adquiridos. E com relação aos anunciantes, “a publicidade ainda se dá através do radiodifusor”, destacaram especialistas.

Conteúdos disponíveis
No final de novembro, o canal Esporte Interativo anunciou a parceria com a Sony, Samsung e Philips para ser pioneiro nas TVs conectadas. A rede de TV aberta de esportes fechou um acordo com as três empresas para ter o mais completo aplicativo de esportes nas TVs conectadas brasileiras. Desta forma, segundo a assessoria de imprensa da rede, o canal se torna o primeiro no Brasil a transmitir conteúdo ao vivo e sob demanda nas TVs conectadas.

Com esse acordo, o Esporte Interativo colocará à disposição nas TVs conectadas da Sony, Samsung e Philips o maior portfólio de vídeos sob demanda de esportes do Brasil, atualizado diariamente e com a inclusão de programas exclusivos e na íntegra como “Kajuru Pergunta” e “Zico na Área”. Além disso, o Esporte Interativo será a primeira TV de esportes do mundo a transmitir sua programação ao vivo em streaming nas TVs conectadas. “A adesão do canal a mais uma plataforma de transmissão de conteúdo reforça o nosso compromisso em levar o melhor do esporte a todos os cantos do Brasil”, disse Edgar Diniz, presidente do Esporte Interativo.

Recentemente, a Band também anunciou que seu conteúdo será disponibilizado na plataforma de Smartv da LG. A programação da emissora poderá ser acessada nas TVs conectadas 20 minutos após a sua exibição na TV aberta. Vídeos de programas como “CQC”, “A Liga”, “Jornal da Band” e “Jogo Aberto” poderão ser acessados, além do que a já é disponibilizado. Segundo a emissora, a disponibilização de programas nos aparelhos conectados é o início do projeto que irá produzir conteúdo para a internet, com novas atrações exclusivas para o internauta.

Gilmara é editora da Revista da SET. e-mail: gelinska@gmail.com