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TV DIGITAL

TV DIGITAL
A TV DIGITAL OFERECE A INTERATIVIDADE, QUE AGREGA VALOR À PROGRAMAÇÃO E TEM IMPACTO DIRETO NA CONCEPÇÃO E PRODUÇÃO DE NOVOS PROGRAMAS, OU NA ADAPTAÇÃO DE PROGRAMAS JÁ EXISTENTES, TORNANDO RELEVANTE, ALÉM DO QUE O TELESPECTADOR VÊ E OUVE, AQUILO QUE ELE FAZ.
Por Valdecir Becker

Software na produção audiovisual – Parte 1

A TV interativa quebra os paradigmas da unidirecionalidade da TV e da inércia do telespectador, que passa a ser visto como possível produtor e gerador de informação. Dessa forma, ela não representa apenas evolução tecnológica, mas uma nova mídia, convergente e com problemas e especificidades diferentes. Uma das principais questões que se impõe é o conteúdo desse meio, que deve condicionar, sem restringir, os novos serviços oferecidos. Um serviço em televisão digital, também conhecido como canal virtual [15], refere-se a um canal lógico, ou seja, com fluxo de vídeo, mais códigos binários – software. É, portanto, um canal como os telespectadores conhecem atualmente, podendo agregar programas de computador que tornam esse canal interativo.
A incorporação de novas tecnologias à televisão, uma das faces da convergência, muda também a relação entre quem produz e quem consome o conteúdo audiovisual. Com canal de interatividade, é possível entender melhor o telespectador, saber como ele se relaciona com o conteúdo oferecido, e mesmo se ele interagiu ou não e como foi essa interação. Isso acrescenta uma variável complexa ao desenvolvimento de programas de TV, desde a concepção, que passa a incorporar pontos de vista mais fidedignos expressos pela audiência, até a veiculação, em formato digital. A televisão interativa “permite que o telespectador possa interagir com uma aplicação que é entregue em complemento ao sinal de televisão, através de uma rede digital, que pode ser satélite-digital, cabo-digital ou digital terrestre” [14]. Dessa forma, a maneira de assistir à TV muda. O telespectador passa a usar a TV, ao invés de apenas assistir à programação [2]. Ou seja, há uma mescla entre o papel passivo desempenhado até agora, com uma atitude ativa de buscar algo a mais [1], não possível de ser oferecido em redes analógicas de transmissão de TV.
Aqui vale ressaltar a diferença entre TV interativa e TV digital, comumente confundidos ou considerados como sendo a mesma coisa, mesmo nas literaturas especializadas. A TV digital “utiliza técnicas de codificação digital para transportar a informação em áudio e vídeo, tanto quanto dados em forma de sinais, para os receptores domésticos. Embora a transmissão em si seja ainda analógica, a informação contida consiste unicamente de dados digitais modulados sobre um portador de sinais analógico” [15]. Dessa forma, podemos resumir que a TV digital é uma evolução tecnológica da TV analógica que permite novos serviços, como a interatividade. Já a interatividade na televisão pode ser definida de maneira bem genérica como “algo que deixa o espectador ou espectadores da televisão e os produtores do canal, programa ou serviços empenhados em um diálogo” [1].

“Vídeo e software num único produto interativo, representam novos desafios para a radiodifusão, que deve condicionar, sem restringir, os novos serviços oferecidos.”

Todos esses diferentes ângulos de abordagem da interatividade na TV digital demandam novos modelos de produção, muito mais complexos do que a simples terceirização do software. A compreensão clara e objetiva dos novos recursos e das novas tecnologias envolvidas na TV digital passa pelo domínio da engenharia de software, que, aliada aos modelos tradicionais de produção de vídeo, formatam os processos de produção de conteúdos interativos. Esse texto discute a inclusão da produção de software na produção de conteúdo audiovisual, com a representação dos processos mais pertinentes ao desenvolvimento integrado dos produtos interativos.

Novos conteúdos
Mesmo após quase oito anos da implantação dos primeiros canais digitais de radiodifusão na Europa, poucas emissoras abertas têm alçando significativo sucesso com programas interativos. Normalmente, a interatividade se restringe a reação a algum estímulo prévio, com pouca iniciativa por parte do telespectador [1], o que é apontado como um dos principais motivos pela pouca aceitação inicial da TV digital nos países em que foi implantada, levando as pessoas a não reconhecerem novas potencialidades da TV digital interativa, não se motivando, portanto, a adquirir um set- top box ou um receptor de TV digital [2].
Apesar das indefinições sobre conteúdo audiovisual interativo e até mesmo de como será a TV interativa, é possível espelhar-se no que deu certo nos países pioneiros na implantação dessa tecnologia e na história da TV brasileira, para definir o escopo e o alcance das primeiras aplicações a serem desenvolvidas. Tomando como ponto de partida a constatação de que na Europa, os principais sucessos estão em aplicações especialmente desenvolvidas para televisão, e não simplesmente copiadas da Internet [1], e que no Brasil,  68% da população nunca usou a Internet [3], as aplicações e serviços da TV digital devem estar focados em agregar valor à programação televisiva, ampliando o leque de conteúdos oferecidos [12].
Cabe ainda ressaltar a diferença entre TV interativa e Internet na TV. Como visto, em todos os momentos em que se fala em TV, fala-se em áudio e vídeo. E até o momento não há nada que indique que na TV interativa vá ser diferente. Dessa forma, não existe televisão sem vídeo [12]. A TV interativa agrega inicialmente (não esquecendo da evolução das linguagens e da própria tecnologia) alguns recursos interativos ao vídeo, que passam a interagir com ele. São as aplicações dependentes e correlacionadas com o vídeo, que não tem razão de existir senão atreladas a determinado programa televisivo. Numa evolução desse tipo de aplicação, espera-se que estas possam se tornar cada vez mais relevantes, com a interatividade e a autonomia sobre o vídeo aumentando consideravelmente [13].
Por outro lado, as aplicações aqui chamadas de “Internet na TV” são aquelas que atualmente existem da rede mundial de computadores, simplesmente adaptadas à televisão. São descorrelacionadas do vídeo, existindo, portanto, independente dos programas audiovisuais em transmissão.

Desenvolvimento de produtos interativos para tv digital
Identificados o contexto da concepção dos serviços e aplicações interativas, apresenta-se agora um mapeamento dos principais processos pertinentes ao desenvolvimento de aplicações interativas, com características consideradas essenciais em cada serviço e aplicação para TV digital interativa [11], [13]. São processos que englobam os principais passos desde a idéia da aplicação até a veiculação e avaliação, sempre com foco na realidade televisiva nacional. A definição desses processos parte da premissa de que a qualidade do programa final passa pela concepção e produção integrada entre áudio/vídeo e software. O termo processo é definido como “uma série de etapas que envolvem atividades, restrições e recursos para alcançar uma saída desejada” [4].
O mapeamento dos processos foi feito com base nas metodologias de engenharia de software, como a divisão em fases, etapas e atividades, além da linearidade dessas etapas e atividades [4]. A fase três segue boa parte das atividades do levantamento de requisitos e definição de funcionalidades, com adaptações consideradas pertinentes por se tratar de um produto para televisão e não computador. A estrutura da metodologia está representada na Figura 1.
A concepção e o desenvolvimento são compostos por seis etapas divididas em três fases, conforme ilustrado na Figura 1.
A fase 1, da concepção da aplicação, é composta por duas etapas: a do aprimoramento da idéia e da definição do perfil do telespectador, aqui chamado de usuário para obedecer à terminologia da engenharia de software [4]. A etapa 1 é composta pelas seguintes atividades: avaliar o nível de informação e de entretenimento; agregar valor; definir relevância e pertinência; despertar a curiosidade; definir o ineditismo; definir o escopo da aplicação. A etapa 2 é composta por definir o público alvo e por determinar o perfil desse público.
A fase 2, de levantamento dos requisitos, corresponde à etapa 3, de avaliação do sistema. Essa etapa é composta pelas seguintes atividades: definir a base tecnológica; avaliar o mercado; definir a compatibilidade entre o software e o conteúdo audiovisual; definir a linguagem; levantar os requisitos de usabilidade; levantar os requisitos de qualidade; elaborar o plano de projeto; escrever os casos de uso.
Por último, a fase 3, de implementação, é composta pelas etapas de desenvolvimento e de testes e veiculação ou transmissão. A etapa de desenvolvimento é composta por duas atividades: programar e testar em laboratório. Já a etapa de testes e veiculação é composta por testar em campo; testar a aceitação; avaliar o feedback dos telespectadores; evoluir a aplicação e reiniciar o processo, com novas idéias.
Vale ressaltar que na produção para TV as fases e etapas não são necessariamente lineares, podendo haver, inclusive, imbricamentos e cruzamentos de atividades. Exemplo disso é a qualidade que permeia todo o processo, sendo fundamental em praticamente todas as etapas. A seguir, a descrição detalhada de cada atividade.

Concepção

Aprimoramento da idéia
Avaliar o nível de informação e de entretenimento
As pessoas não são pagas para assistir à televisão. Pelo contrário, buscam informação e entretenimento [5]. O entretenimento pode ser oferecido com uma série de programas de gêneros variados, dependendo do público alvo. Já a informação é um pouco mais complexa, pois  “a televisão é surpreendentemente ruim na comunicação de informações detalhadas” [5]. Isso se deve à dinâmica do veículo, que não permite a recuperação de informações perdidas ou não compreendidas. É nesse ponto que a interatividade pode contribuir para aumentar a atratividade da transmissão de informações complexas ou complementares. Hoje é comum as informações numéricas serem reforçadas com informações textuais, normalmente na parte inferior da tela. Já com aplicações interativas é possível disponibilizar essas informações mais detalhadas na forma de gráficos, figuras, textos explicativos etc. “Os ícones e informações na tela devem complementar as informações do fluxo normal de áudio e vídeo” [6].
A aplicação desenvolvida deve, além de entreter e informar, cativar as pessoas [7]. Sem cativar os usuários, a aplicação corre o risco de gerar uma experiência desagradável, o que pode afastar o usuário de interações futuras. O processo de cativar as pessoas passa por dois aspectos: utilidade e qualidade. Por um lado, a utilidade, também descrita como valor de uso, manifesta-se na percepção que o telespectador tem da aplicação, de que ela é útil, agrega algo. Nesse sentido, quanto mais útil for a aplicação e quanto maior o número de pessoas que assim a considerarem, maiores serão as probabilidades de sucesso.
Por outro lado, a aplicação precisa ter qualidade, que também pode ser descrita como adequação ao uso. Essa questão é fundamental para a compreensão do que a aplicação oferece e como a pessoa se beneficia com a informação e o entretenimento oferecidos.

Agregar valor
A aplicação interativa deve trazer uma experiência a mais para o usuário, não possível com o simples uso do áudio e do vídeo. Além disso, a informação ou o entretenimento proporcionado pela aplicação deve complementar a programação ou oferecer algo inédito, e não simplesmente repetir dados já informados. Outra forma de agregar valor é reforçar e detalhar informações difíceis de serem compreendidas quando informados apenas com áudio e vídeo.

Definir e relevância e pertinência
O conteúdo da aplicação deve estar condizente com o serviço todo, acrescentando informações, sem destoar do tema central apresentado pelo audiovisual. Caso haja duplicidade de informações, pode ser útil reforçar a comunicação através do audiovisual.

Despertar a curiosidade
O usuário da televisão digital deve se sentir incentivado a interagir, tendo certeza de que será uma experiência agradável sob todos os aspectos. Para isso, um dos recursos muito usados é o despertar da curiosidade no telespectador, agora usuário, que dessa forma se sente incentivado a participar.

Definir o ineditismo
A aplicação ou o serviço não precisa ser totalmente inédito, uma vez que atingir esse grau de qualidade em todas as aplicações é extremamente difícil. Em todo caso, deve tender para tal, pelo menos em cada situação em que a aplicação ou o serviço for transmitido, até atingir uma receita de sucesso e manter o programa no ar por mais tempo. Apesar disso, caso a aplicação seja descorrelacionado do vídeo, o ineditismo é fator impulsionador para o acesso.

Definir o escopo da aplicação
Feitas as atividades e tendo claro o que se espera da aplicação, falta definir a relação que ela terá com o vídeo. Se houver alguma relação com as informações transmitidas em áudio e vídeo, é aconselhável relacionar a aplicação com o vídeo. Nesse caso, é necessário definir como será o acoplamento ao programa televisivo, que depende do tipo de informação oferecida na aplicação.
No caso da aplicação oferecer informações inéditas, sem qualquer relação com o conteúdo audiovisual da programação televisiva, é preferível descorrelacionar a aplicação do vídeo para evitar conflitos e problemas na compreensão da interatividade. O problema desse tipo de aplicações é que precisam ser transmitidas constantemente, ao contrário das aplicações relacionadas, que só são transmitidas durante a veiculação dos programas.

Definição do perfil do usuário

Definir o público
Assistir à televisão é uma experiência coletiva; interagir com a televisão é uma experiência individual. Apenas uma pessoa tem o controle remoto na mão. Além disso, nem todo mundo que assiste à televisão naquele momento está disposto a interagir. Por isso é essencial definir claramente quem vai usar a aplicação, porque a complexidade, tanto do uso como da informação, podem variar conforme o público alvo. Essa tarefa pode ser facilitada com a possibilidade de a interatividade ser feita por outros dispositivos, como o celular. Nesse caso, a participação não se restringiria apenas ao controle remoto.
Há um preceito jornalístico segundo o qual a televisão é para todos [6]. Porém, a maioria dos programas tem público alvo bem definido, que pode variar entre faixa etária, poder aquisitivo e formação intelectual e cultural. Uma das poucas exceções a essa segmentação da programação está nos programas jornalísticos, principalmente os telejornais na TV aberta, que têm abrangência maior.
Segundo estudos do SBTVD – Sistema Brasileiro de TV Digital – o país deverá ter uma série de modelos de set-top boxes, variando os recursos disponíveis. Para a alfabetização digital, o governo inicialmente exigiu que tivessem no mínimo interatividade local, o que quer dizer que pode haver no mercado set-top boxes sem canal de interatividade. Isso tem impacto direto no desenvolvedor de aplicações. A mesma aplicação deve ser atraente tanto para quem tem canal de interatividade de banda larga, linha discada ou mesmo para quem sequer tem canal de interatividade. Não podemos nos esquecer de que estamos falando de televisão aberta, com abrangência superior a 90% das casas, o que engloba todas as condições sociais imagináveis.
Portanto, as aplicações devem ser desenvolvidas com público alvo específico, que varia principalmente segundo o poder aquisitivo necessário para manter um canal de interatividade. Se estendermos o raciocínio para o desenvolvimento de serviços, precisamos englobar ainda as pessoas sem set-top box, ou seja, as que ainda não terão TV digital e assistirão, portanto, a televisão pelo sinal analógico. De certa forma, a TV digital vai segmentar ainda mais a audiência, com a possibilidade de oferecer aplicações personalizadas para determinados segmentos.

Determinar o perfil do público alvo
Além de identificar o público alvo do serviço ou da aplicação, é extremamente importante entender o que esse público espera de uma aplicação interativa, e caso não espere nada ou desconheça essa nova funcionalidade, o que o atrai à interatividade. Dentro da nova realidade da televisão, pode-se identificar quatro tipos de comportamentos diante da nova programação:
• Pessoas que vão querer continuar assistindo TV da mesma forma como assistem hoje, sem interagir;
• Pessoas que não vão mais querer assistir a nenhum programa sem interatividade;
• Pessoas que ora vão interagir, ora vão preferir ficar passivas;
• Pessoas que vão apenas usar os novos recursos, sem sequer assistir à TV.
Esses quatro tipos de usuários demandam aplicações diferentes, com graus de interatividade também diferenciados. O primeiro grupo, que ainda precisa de convencimento para usar, demanda aplicações mais simples, que antes de se aprofundarem na informação precisam trazer o usuário à interatividade. Nesse caso, a linguagem que agregue a interatividade à programação tem importância fundamental.
Já para o segundo grupo, a qualidade das aplicações e a informação transmitida são mais pertinentes do que a linguagem usada para a interatividade. O desafio passa a ser oferecer programas concebidos em harmonia com a interatividade, onde haja disposição ordenada das informações e ações demandadas pelo usuário.
O maior problema é conceber aplicações para um público cujo comportamento é uma incógnita e, que no momento da transição da TV analógica para o modelo digital, tende a ser a maioria dos usuários. Nesse caso, corre-se o risco de oferecer aplicações muito simples para determinado público ou muito complexas para outro. É o mesmo desafio dos programas de TV aberta, onde a audiência é composta pelos mais variados segmentos sociais e culturais.
O último grupo, em tese, é o mais fácil de ser atendido, uma vez que as aplicações demandadas pelo público desinteressado na televisão se aproximam muito da Internet.
Levantamento dos requisitos

Avaliação do sistema

Definir a base tecnológica
O desenvolvedor de aplicações deve compreender que existem set-top boxes com diferentes especificidades e pessoas que vêem televisão pelo sinal analógico. Nos países que já adotaram a TV digital, tal como se prevê que venha ocorrer no Brasil, não houve padronização única dos terminais de acesso, apenas especificações mínimas. Isso quer dizer que há modelos capazes apenas de receber o sinal audiovisual da TV, sem a possibilidade de decodificar qualquer aplicação interativa.
Além disso, a aplicação deve ser concebida e desenvolvida com base nas tecnologias de decodificação e canal de interatividade disponíveis nos receptores. A TV responde quase que instantaneamente a ação do telespectador, como trocar de canal ou mudar o volume. Uma aplicação muito complexa pode demorar muito para executar em receptores com menor poder de processamento, gerando uma reação adversa do telespectador. Além disso, aplicações que necessitam de canal de interatividade precisam considerar que nem todos os terminais de acesso dispõem dessa tecnologia ou que o cabo do telefone pode não estar conectado ao modem do receptor. Pode ser muito frustrante para o telespectador realizar uma série de tarefas interativas, cujo envio das informações não pode ser completado por falta de um canal de interatividade.

Avaliar o mercado
Durante a fase da concepção, é necessário considerar, inicialmente, que os serviços e aplicações interativos estão voltados para um mercado nacional, com modelos de programação consolidados e cujo modelo de negócios está centrado na publicidade. A televisão analógica brasileira é custeada pela publicidade. Nada indica que a digital seja diferente. Portanto, a aplicação deve ser interessante o suficiente para atrair anúncios para ela própria ou para o serviço no qual está embutida.
No entanto, não se pode desconsiderar o mercado da TV por assinatura e a recepção móvel. No primeiro caso, há mais flexibilidade para inserção de novos serviços e aplicações mais ousadas para teste. Já na recepção móvel, um novo modelo de conteúdo e de negócios precisa ser desenvolvido, uma vez que se trata de uma nova tecnologia, sem antecedentes comparativos.
O oferecimento de vídeos, em processo de implantação pela maioria das operadoras de celular, ainda não permite conclusões definitivas sobre a pertinência do serviço ou sobre costumes e usos dos novos telespectadores. O que se sabe é que a recepção móvel representa uma possibilidade nova para oferecer programas de TV, interativos ou não, para pessoas em trânsito. Além disso, o canal de interatividade é intrínseco à mídia celular, o que facilita a comunicação usuário e emissora de TV.

Definir a compatibilidade entre o software e o conteúdo audiovisual
Qualquer informação que for sobreposta ao vídeo conflita na compreensão da mensagem transmitida. No caso do uso de geradores de caracteres (GC) – que identificam os repórteres, apresentadores e entrevistados – a informação é adicional, não interferindo na imagem. O mesmo deve ocorrer com as aplicações interativas, que, sobrepostas ao vídeo, podem desviar a atenção, confundir o telespectador e dificultar inclusive a interatividade.
Por outro lado, aplicações descorrelacionadas com o vídeo sempre vão se sobrepor a ele. Ou seja, ou a pessoa interage ou assiste à programação audiovisual. Por isso, esse tipo de aplicação precisa ser muito consistente para ser disponibilizada, sob pena de trazer mais prejuízos que benefícios para a emissora de TV.

Definir a linguagem
A aplicação deve ser imediatamente compreendida como tal pelo usuário, que não a deve confundir com GC ou qualquer outro recurso audiovisual, e nem comprometer o look and feel da interface como um todo. Quando a aplicação for sinalizada ou aparecer na tela automaticamente, o usuário deve ter ciência de que se trata de uma aplicação interativa e que ele tem a liberdade de interagir ou não.
Mesmo tendo entendido esse preceito, uma questão ainda fica em aberto: como uma pessoa que sequer sabe programar o videocassete, tem pouca ou nenhuma escolaridade ou comportamentos resistentes à tecnologia, vai usar essas aplicações? Tentando responder a essa questão, sugere-se o uso da linguagem audiovisual da televisão atual como ponto de partida para educar o telespectador [6].
Para começar, é preciso imaginar o brasileiro sentado na frente da tela da TV. De repente aparecem mosaicos e ícones piscando. Será que isso vai dar certo? Será que as pessoas vão precisar fazer cursos de TVDI? Ora, qual o caminho natural? A TV é que deve ajudar as pessoas a entender isso tudo. Sempre foi assim e o contrário seria estranho. Os recursos interativos devem entrar no meio desse relacionamento entre som e imagem.
(…) É nesse momento então que surgem velhos conhecidos da família – o apresentador da TV, o jornalista ou o artista – é que vão ajudar essa pessoa a descobrir os novos caminhos da TVDI. A regra número um então é criar programas que mantenham essa relação de diálogo. É preciso não perder um referencial importante: a TV como ela é hoje. E isso é muito diferente da Internet.
(…) A busca por uma interatividade plena (…) pode trazer bons resultados e não apenas uma atração a mais em formatos específicos. A interatividade pode resgatar o diálogo em toda programação, deixando de ser apenas ‘um recurso a mais’. [6] Usando essa proposta, o desafio passa a ser pensar a programação como serviços interativos, e não apenas como programas de TV com software.

Continua na próxima edição.