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TV Digital na América Latina: cenários, desafios e perspectivas

 

ARTIGO

Nº 152 – Jul/Ago 2015

por Francisco Machado Filho e Maria Cristina Gobbi

Em alguns países e para algumas pessoas falar em Televisão Digital Interativa (TVDi) parece algo comum e integrado à vida cotidiana. Porém, como esse panorama está se desenhando na América Latina? Esta importante região em desenvolvimento tem papel preponderante na indústria televisiva mundial.

Não há como falar sobre o cenário da comunicação, com o uso das tecnologias digitais sem mencionar a mais recente possibilidade tecnológica que tem movimentado o grande continente latino-americano e ainda está em fase de desenvolvimento e implantação, que é a Televisão Digital. Historicamente a relação da televisão com a população do continente latino-americano sempre foi muito representativa, sendo considerada como um fator de integração nacional em muitos países da região. O Brasil, devido ao seu tamanho e importância econômica na região, historicamente exerce influência em diversos setores, e como a padronização do sistema de transmissão terrestre de televisão não foi diferente.

Em 28 de agosto de 2009, em encontro em Bariloche, entre o então presidente brasileiro Luis Inácio da Silva, a então presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner, e os emissários do governo do Japão, formalizaram a adoção do sistema ISDB-Tb pela Argentina.
A assinatura do acordo entre os dois países líderes do Mercosul criou condições para que ambos desenvolvam todos os potenciais da tecnologia nipo-brasileira de televisão Digital e invistam no esforço diplomático para ampliar o novo sistema para a América do Sul e, igualmente, para toda a América Latina3, além de para países africanos e asiáticos interessados na transmissão digital nipo-brasileiro.
Os motivos que atraíram Brasil e a Argentina para o sistema ISDB-Tb, além de outros países da América Latina e da África que já aderiram ao sistema, foi a perspectiva de utilizar uma plataforma tecnicamente robusta, aberta para aperfeiçoamentos, livre de pagamentos de royalties, com capacidade de transmitir sem interferências em más condições climáticas ou em lugares com relevo acidentado.
Além disso, trata-se uma tecnologia que permite a recepção direta de televisão em telefones celulares (smartphones) e outros dispositivos móveis e portáteis, como no caso de tablets. Esse é um fator interessante e fundamental para popularizar a Televisão Digital (TVD) móvel e para acelerar a convergência entre televisão, computador e celular, as três principais telas audiovisuais da atualidade. Outra forte motivação para a escolha do sistema ISDB-Tb por alguns países foi a possibilidade de transferência de conhecimento e de tecnologia para que pesquisadores e técnicos dos dois países pudessem viabilizar a produção nacional de plataformas, softwares e conteúdo.
A cadeia produtiva da TVD está sendo constituída pela produção de conteúdos feita por estúdios próprios e/ ou independentes, pela estrutura técnica de servidores de programação, pelos sistemas privados de transmissão, por operadores públicos de rede e pelas diferentes categorias da sociedade civil organizada, que poderão surgir motivadas pelo crescimento dos mercados e/ou pela disputa concorrencial alimentada por outros meios digitais em ascensão. Entretanto, a possibilidade gerada pela digitalização com melhor potencial imediato para suscitar receita poderá ser a produção de conteúdos, cuja demanda por formatos e temáticas latino-americanas deve se acelerar com a revitalização da recepção da Televisão Digital. Afinal, o veículo adquiriu melhor qualidade de som, imagem, portabilidade, interatividade, mobilidade, entre outros e terá maior alcance em todos os países que adotaram o novo sistema tecnológico, devido à renovação e expansão dos sistemas de transmissão aberta.

Numa época em que as tecnologias da informação e da comunicação estão em franca expansão, aliados aos mais de 60 anos de evolução da TV, chegando ao desenvolvimento da Televisão Digital, um novo cenário se descortina. A mídia televisão é sem dúvida, não só no Brasil, mas na América Latina e em outras localidades, capaz de agregar valor ao conhecimento sobre futuro em muitas frentes, movimentando o mercado publicitário com grandes investimentos, exercendo um papel fundamental na propagação da informação, do desenvolvimento econômico e da inclusão social.

Aspectos iniciais da digitalização latino-americana
Com o mesmo padrão em diversos países da América Latina os modelos de comercialização e as políticas ligadas a forma de digitalização do sinal, bem como os estágios diferenciados de implantação abalizam algumas diferenças na região para implantação do sinal de TV aberto. O switch-off na região latino-americana começou em 2013, no México, e planeja-se que até 2024 todos os países da região completarão a transição para a radiodifusão digital. Na Argentina a previsão é para 2019 e segundo dados que circulam na Internet o país contará com 220 sinais de TDA (Televisão Digital Argentina) aberto que serão recebidos pelos cidadãos. As mudanças anunciadas pela digitalização do sistema ainda não são usufruídas pela grande maioria dos telespectadores da América Latina. Uma das barreiras passa pela desinformação da população sobre os recursos disponíveis a partir da digitalização do sistema e outros como: as possibilidades sociais da interatividade; caminhando pela definição de legislação, como por exemplo, o atraso na normatização do middleware Ginga, ocorrido somente em 2010, que determinou a obrigatoriedade de instalação do software nos aparelhos TV fabricados a partir de 2011; definição de modelo de negócios que atraia e estimule os grandes e pequenos produtores; acesso a banda larga, barateamento dos aparelhos de televisão e do set-top-box (conversor do sinal digital).

O Governo argentino entregou mais de 1 milhão de set-top-boxes para que o sinal de TV Digital chegue às residências argentinas

Por certo, a desigualdade econômica, característica da região, conta com extensas camadas da sociedade que estão à margem da sociedade da informação e dos benefícios propiciados pelas redes digitais. São os chamados “excluídos digitais”, que compõem um contingente enorme na América Latina, formando a conhecida brecha digital ou fissura digital, termo utilizado por alguns autores, que ampliam o conceito e fazem referência à diferença entre excluídos e incluídos digitalmente. Globalmente, a exclusão digital está diretamente relacionada com a pobreza e a baixa escolaridade, que gera a dificuldade de uso das tecnologias. Neste sentido, é fundamental tratar a educação, a cultura e o acesso tecnológico como instrumentos da democracia, capazes de criar espaços de discussão, planejamento e formação para além das arenas do sistema político das nações, mas permitindo um espaço de interesse comum, aberto para a formação da opinião pública em questões relacionadas também à vida cotidiana. Neste phpecto a televisão tem um papel fundamental devido sua alta taxa de penetração nos domicílios. Segundo estudo da Deloitte, 40 milhões de pessoas serão incluídas na audiência televisiva até o final de 2015 na região. Com isso, espera-se um crescimento de 8,8% na publicidade na TV no comparativo entre 2013 e 2018.

A diferença do Brasil, o desenvolvimento da TV Digital é uma política pública

No Brasil
Apesar da venda de televisores tela grande vir crescendo no Brasil desde 2007 (Eletros, 2014, web) e muitos deles já preparados para receber a interatividade com o Middleware Ginga embutido, uma grande parcela da audiência ainda possui televisores de CRT (Tubos de Raios Catódicos) e que irão necessitar da instalação do settop- box (conversores). O governo estima que haja um legado de cerca de 35 milhões de aparelhos analógicos. Até o momento, não foi noticiada nenhuma ação do governo para popularização dos conversores. A notícia mais recente é a distribuição de 14 milhões de settop- box para participantes do programa Bolsa Família. Para que haja uma expansão consistente do mercado do audiovisual digital brasileiro e latino-americano será necessário realizar grandes esforços de pesquisa, desenvolvimento de produtos, ampliação de infraestrutura e vultosos investimentos públicos e privados para ampliação do acesso. Mesmo assim, a América Latina foi a América Latina a responsável pelo maior crescimento em seu mercado televisivo, com quase 5%.
O Brasil responde por 45% desse percentual. No Brasil, a TV Digital aberta ainda mantém uma posição confortável, conquistada e consolidada no período analógico e se comparada a outros mercados internacionais onde a conexão à internet via banda larga possui também forte penetração. A TV aberta no sistema analógico está presente em 97,2% (Grupo Mídia SP, 2014, web) dos domicílios e no sistema digital a cobertura já representa 46,80% da população (Teleco, 2014). A TV aberta recebe 66,5% (Projeto Inter-Meios, 2014) dos investimentos publicitários.
A televisão terrestre ainda ocupa significativo mercado no mundo no que se refere aos aparelhos domésticos, mesmo que no mercado norte-americano essa realidade não seja presente (55,5% dos domicílios conectados recebem o sinal a cabo, embora esses índices estejam em declínio). Em 2009 eram aproximadamente 478 milhões de famílias, representando 39% em todo mundo, com acesso à TV terrestre. Mas é fundamental mencionar outros modos de recepção, que vem crescendo de forma considerável. Nesse ano, o cabo já detinha um mercado de 440 milhões de lares, sendo 31% deles na Europa. A recepção por satélite ocupou 22,2% das escolhas em 2008. Finalmente, a IPTV (Internet Protocol TV), em 2009, já representava 2,4% do modo de recepção e está em fase de crescimento, apontando um forte aumento anual global em torno de 48% nos maiores mercados mundiais, com Europa (4,7%) e América do Norte (4,3%). Segundo estudo divulgado pela Point Topic, a América Latina teve um crescimento de 1.09% no quarto trimestre de 2014 no share mundial de IPTV. A televisão terrestre ainda ocupa significativo mercado no mundo. Mesmo diante das possibilidades no mundo IP, a TV terrestre ainda é uma gigante na distribuição de conteúdo, principalmente na América Latina. Cabe à indústria televisiva brasileira saber aproveitar as oportunidades que nosso contexto social e político nos conferem e se firmar ainda mais como líder nessa fase transitória que estamos experimentando. n

Francisco Machado Filho. Doutor em Comunicação Social. Professor do Programa de Pós-Graduação em Televisão Digital da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP).

Maria Cristina Gobbi. Pós-Doutora pelo Programa de Integração da América Latina (PROLAM) da Universidade de São Paulo. Vice- coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Televisão Digital e professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP). Contato: mcgobbi@terra.com.br