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TI X TV – QUEM GANHA?

TI X TV

TI X TV – QUEM GANHA?

Por Marcelo Hideichi Kavamoto

Uma das frases que tenho ouvido de engenheiros de TV é: “Agora a TI é quem vai dominar o cenário”. Assim como muitas outras frases e palavras conhecidas, entre elas buzzwords ou como dizíamos antigamente “tá na moda”, esta é uma frase mais para causar efeito do que retratar o futuro.

Mais de uma vez ouvi esta frase em diferentes empresas e ocasiões. Na verdade se pensarmos bem, os computadores estão presentes não apenas em qualquer departamento da empresa, mas nas casas das pessoas e até indo junto delas. Lembro de uma época em que a preocupação das pessoas era se a TI iria dominar a empresa, pois tudo dependeria dela, ou se a TI deixaria de existir por que todos teriam que saber trabalhar com um computador? Não vi nenhuma das duas coisas acontecerem.

Vi uma disseminação da tecnologia digital aumentando produtividade e flexibilidade mas trazendo também mais controle e qualidade. Podemos dizer que são características opostas, pois as primeiras estão ligadas à velocidade e as outras duas estão ligadas a quantidade de informações e tempo utilizado para isso. Isso mesmo, se por um lado algumas tarefas repetitivas ficaram mais rápidas e fáceis, por outro lado criamos controles que permitem a utilização ou localização da informação de forma correta e ágil, porém exigem mais tempo, transformando o dado em informação para gerar conhecimento.

Hoje falamos em laptops que editam vídeo, câmeras em celulares capazes de rivalizar com câmeras até pouco tempo utilizadas amplamente, envio de arquivos e streaming pela internet, bem como redes de dados ligando tudo. Aconteceu uma evolução do sistema analógico para o digital e não uma invasão da TI.

Hoje, o processamento digital permite agilidade e criatividade na edição do vídeo jamais vistas antes, e captação com uma resolução superior e até em 3D, rivalizando a película com melhor desempenho e novas oportunidades, mas, segundo alguns saudosistas, com menor qualidade. Este processamento digital também permitiu que o mundo da internet conhecesse o áudio e vídeo em larga escala e de graça, como o YouTube. De graça pode ser um pouco relativo, mas isto já é outra história.

Um aspecto interessante dos computadores é sua flexibilidade. Uma vez que temos de alguma forma a transformação do analógico em digital, através da discretização do sinal, trabalhamos com o que chamamos de uns e zeros, ou bits e bytes. Nada mais que palavras complicadas que na verdade querem dizer que agora podemos manipular de outra forma aquele sinal ou informação que tínhamos no mundo analógico. Podemos utilizar o que chamamos de software, que será capaz de reproduzir alguma operação incontáveis vezes seguidas. E nesta matemática binária, conseguimos criar, manipular e melhorar algo que era uma cópia da realidade. Assim que aprendemos como fazer isto adequadamente, podemos criar componentes digitais encapsulados, também conhecidos como chips capazes de realizar estas operações de forma muita mais rápida do que um programa ou software de computador e criamos um sistema que deixa de ser um computador e passa a ser um equipamento dedicado e extrapola o ambiente da TI.

Para aqueles que achavam que veriam computadores por todos os lados, basta olhar com atenção os diversos equipamentos que mantém uma semelhança nos painéis e controles com os anteriores. Em vez de usar teclado e mouse, vemos cada vez mais algo como controles e botões em equipamentos especializados. Claro que teclado e mouse ajudam no mundo digital, pois permitem a utilização de uma interface que estamos acostumados, que é a da escrita e desenhos. Mas o importante é que vemos cada vez mais caixas pretas com computador ou tecnologia digital embutidos dentro delas e que utilizam rede de dados para controles, como se fossem interfaces seriais. O que aconteceu foi uma troca da tecnologia analógica para a digital e utilização de meios de troca de informação de maior capacidade e velocidade e no fim, conseguimos ver muitos dos componentes antigos de forma macro. Claro que não estamos comparando uma válvula a um transistor ou a um chip. Mas se pensarmos em uma modelagem por blocos, vemos que muitos dos componentes estão lá de alguma forma.

Da mesma forma que precisávamos de uma caixa para converter de NTSC para PAL-M, existem caixas capazes de converter não somente padrões de cor, mas resolução e formato, incluindo compactação utilizando MPEG para enviar mais dados com menor banda. Lembram da migração da telefonia de analógica para digital, permitindo mais linhas no mesmo fio? Este foi o ganho do processamento digital. Podemos fazer mais coisas com o sinal no formato digital, aplicando regras que podem criar ou calcular uma média para extinguir elementos. Temos um novo leque para isso e aí é onde não é somente a TI que tem um novo mercado, mas este é um mercado para todos, pois não existem barreiras para a criatividade e vontade do ser humano. Estamos falando de um novo mundo onde existem muitas coisas para serem descobertas e novas formas de fazer o que já fazíamos melhor.

Queremos ainda pegar uma imagem em movimento e transmiti-la para outros lugares com a melhor qualidade possível. Continuamos precisando de pessoas para procurar a notícia, criar gráficos e imagens, filmar e achar o melhor enquadramento. Também continuamos a falar de inserção comercial, de armazenar e achar o conteúdo e de fazer a melhor cobertura jornalística. Podemos ter algum dia um equipamento que reconheça a face da pessoa no vídeo e acrescente automaticamente os créditos, mas alguém teve algum dia de dizer para este equipamento quem é a pessoa, alguém teve de criar um processo que consiga fazer isso corretamente sempre e alguém vai dar suporte e treinamento ao equipamento.

O que temos à frente é um grande desafio e não um departamento dominando outro. Temos um novo mundo à frente, com novas possibilidades e desafios. Para aqueles que acham que isto é simplesmente uma mensagem muito positiva, então vamos lá: dificilmente a TI iria dominar a Engenharia. Na verdade a Engenharia está usando avanços que apareceram na TI e melhorando seus sistemas para produzir TV.

Por exemplo: No mundo da TI, podemos utilizar um link redundante para transmitir arquivos e utilizar diversos algoritmos que permitam que os arquivos sendo transmitidos sejam verificados e caso haja alguma falha, a informação pode ser retransmitida até ser corretamente recebida ou pode ser solicitada depois. Assim tanto faz a sequência de cópia de arquivos de fotos sendo enviados entre um computador e outro ou tão pouco importa se a conexão cair e continuarmos do ponto que paramos.

Com um streaming de vídeo isto não é a mesma coisa. Não podemos simplesmente enviar novamente a mesma imagem ou enviar depois a imagem. Imaginem num fluxo de vídeo ficar com uma imagem congelada, pois ela está sendo retransmitida, ou ter o envio de um bloco de vídeo fora da sequência. Devemos criar novas formas para garantir o envio deste fluxo de informações de forma constante e contínua, que vão além do que a TI está acostumada.

Não basta ter um sinal redundante, onde se a conexão cair, basta chavear para o outro sinal e continuar a transmissão através do canal secundário. O ideal é transmitir ao mesmo tempo em ambos os canais redundantes e se houver chaveamento, ele deve ser instantâneo, sem permitir que haja qualquer perda de sincronismo.

Vamos pensar em computadores da forma como ouço as pessoas reclamar: “Meu computador demora para ligar”. Imagine ter sua transmissão baseada em computadores que se forem desligados levam cinco minutos para que o sistema inicialize? No mínimo precisamos de dois computadores em paralelo ou, de alguma forma, um computador que inicialize de modo mais rápido. Alguém já ouviu falar dos discos de estado sólido?

Nem tudo é um mar de rosas. Quando falamos que a TI vai dominar, devemos lembrar que ao utilizar a tecnologia digital, trazemos também os problemas ligados a esta tecnologia. Quando falamos disto, devemos lembrar dos riscos que ouvimos falar quando se trata de computadores, os vírus ou como muitas pessoas já estão falando, os malwares. Afinal, vírus de computador é apenas uma forma que inventaram de propagar pequenos programas capazes de fazer um grande estrago, hoje existe toda uma gama conhecida como worms, trojans, keyloggers e outros, além dos hackers. Para diminuir os riscos, diversas vezes vemos soluções como antivírus ou bloqueio de conexões diversas ou logins com senhas estranhas.

O que fazer agora que temos todo este mundo novo pela frente, cheio de perigos e desafios?

Sinceramente meu conselho seria: não se apavore. Este não é um mundo novo apenas para você. Vivemos uma evolução que abre novas portas para aqueles que estiverem dispostos a se arriscar. E todos que quiserem continuar vão ter que se esforçar e arriscar. Devemos aprender com todos os novos buzzwords e termos técnicos, que enchem a boca de diversos consultores e nos deixam desnorteados, porém o mais importante é entrar de cabeça e compartilhar com todos o nosso conhecimento. A evolução está na tecnologia, mas existem diversos aspectos que a tecnologia não controla. Ela é apenas um meio.

Um modelo que aprendi na TI é baseado em três pilares: pessoas, processos e tecnologia. Acredito que seja um modelo básico em diversas situações e é muito importante lembrar que pessoas resolvem problemas, não somente a tecnologia ou processos. Assim, o conhecimento acumulado da era analógica deve ser usado na era digital. Não estamos falando de uma revolução ou substituição apenas, mas de uma evolução. Assim, da mesma forma que o olho clínico do cinegrafista consegue enxergar o melhor posicionamento da câmera, bem como o melhor ângulo e aproximação, isto continua valendo no mundo digital. E por que não no virtual? Tal como o princípio de quanto melhor a lente, melhor a imagem. Ou mesmo no caso de uma falha no sistema, o que vale é todo o processo de criar procedimentos que coloquem tudo de volta ao estágio estável o quanto antes.

Quem deveria se preocupar são os fabricantes de motores e fitas magnéticas, já que daqui para frente, com a utilização de TI, tudo será armazenado em memórias e não haverá mais fitas. Não exata mente. Em TI, temos três conceitos que chamamos de online, nearline e offline. Isto basicamente tem a ver com armazenamento de informação e conteúdo e como muitos já devem ter ouvido falar em backup. O conteúdo cuja probabilidade de ser utilizado imediatamente e várias vezes, geralmente é armazenado numa unidade do tipo online, que tem tipicamente alta velocidade, menor capacidade de armazenamento e alto custo. Aqui vemos unidades como cartões de memória, discos de alta velocidade e outros. No caso do nearline, temos discos de velocidade menor, mas de maior capacidade para armazenar e disponibilizar um conteúdo que tem uma menor probabilidade de utilização, mas deve ser facilmente encontrado com menor custo. No caso do offline, temos muitas vezes a utilização de fitas e mídias óticas de longa duração e alta capacidade de armazenamento. Então, mesmo em TI, armazenamos o conteúdo ou informação que consideramos importante, mas que não tem utilização imediata em fitas, pois são uma mídia de alta capacidade, durabilidade e menor custo de propriedade e operação. Temos assim uma alta capacidade de compactação, ou seja, o conteúdo produzido em um mês num servidor poderia ser armazenado numa simples fita, ocupando menor espaço e gastando menos energia. Enquanto uma fita de vídeo ou cartão de memória podem armazenar, normalmente, entre uma e duas horas de vídeo, estas fitas de armazenamento tem uma capacidade de 10 ou mais horas, ocupando o mesmo ou menor espaço físico.

Mas o processo utiliza fitas? Não são utilizadas fitas na produção de todo o material, mas continuamos utilizando fitas, só que agora elas têm outro nome e capacidade de armazenamento. Aliás, uma preocupação é que se antes ao perdermos uma fita, perdíamos uma ou duas horas e conteúdo, imagine perder 10 ou 20 horas de conteúdo? Uma vantagem do menor preço e espaço de armazenamento é que mesmo em TI, trabalhamos com múltiplas cópias armazenadas em locais distintos para o conteúdo ou informação mais importante.

Pessoalmente não vejo algo como a TI vai dominar o mundo da engenharia de Televisão. Vejo mais algo como os engenheiros vão aprender e adaptar o que a TI tem de melhor, seja no hardware, software, redes, processos ou tecnologia para o mundo da TV e disto vemos uma nova geração de equipamentos que cada vez parecem menos com computadores e mais com eletrodomésticos ou caixas pretas que executam as funções e ações que queremos. Uso aqui eletrodomésticos, pois um dos detalhes desta tecnologia é que ela torna-se mais acessível ao mercado consumidor, onde desaparece parte da barreira natural, que fazia com que apenas os grandes produtores de conteúdo pudessem comprar os equipamentos necessários para fazer uma TV como conhecemos. Quem ainda não viu uma TV led para ser ligada na internet? Entretanto, como já disse, o grande diferencial está nas pessoas e não somente na tecnologia. As pessoas podem criar soluções únicas, criativas, difíceis de copiar e que fornecem o diferencial competitivo que podem sustentar o negócio. Para isto elas utilizam a tecnologia e processos. E como dizem quem chegar primeiro pode descobrir um novo oceano de oportunidades.

De qualquer forma, a TI continua com projetos em diversos departamentos dentro da empresa, como o financeiro, onde muitos já devem ter ouvido a sopa de letrinhas como ERP, SAP, BI, CRM, etc. Mesmo com diversos sistemas, que vão do financeiro ao controle de acesso da empresa, do site de internet até a folha de pagamento, a TI não dominou nenhum destes departamentos, ao contrário, vemos hoje uma integração e parceria com estes departamentos para tornar a TI mais estratégica como facilitadora, como fornecedora de tecnologia e inovação para que o departamento específico possa aumentar seu desempenho, produtividade e rentabilidade.

Marcelo é gerente de TI da ESPN do Brasil. e-mail: mkavamoto@uol.com.br