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TECNOLOGIA IMPULSIONA MUDANÇA NOS NEGÓCIOS

ESPECIAL
TECNOLOGIA IMPULSIONA MUDANÇA NOS NEGÓCIOS
TALVEZ, A PALAVRA CONVERGÊNCIA TENHA SIDO A MAIS PRONUNCIADA NO MUNDO DOS NEGÓCIOS EM 2005 E, PROVAVELMENTE, TAMBÉM SERÁ EM 2006 E NÃO É POSSÍVEL VOLTAR ATRÁS.

Durante o Congresso da SET, que aconteceu em setembro de 2005, entre os vários debates que chamaram atenção do público, um ganhou destaque pelo aspecto “futurista” e empresarial. Coordenado por Fernando Bittencourt, diretor da SET e do departamento de Engenharia da TV Globo, o debate Convergência nos Negócios reuniu experts do setor para discutir como as empresas podem criar mercado nas tecnologias que estão por vir e, a partir daí, oferecer uma gama de serviços e conquistar clientes. Os avanços tecnológicos que constroem as bases para convergência digital estão cada vez mais rápidos. Com isso, os negócios são impulsionados, tanto pela disponibilidade de tecnologia como pela demanda de usuários já acostumados com as conveniências da era digital. A digitalização trouxe uma série de mudanças nas empresas. “A telefonia que fazia voz, hoje faz multimídia; o cabo que entregava vídeo hoje pode fazer comunicação de voz”, lembrou Fernando Bittencourt. Finalmente, este ano a televisão aberta brasileira entra na era da transmissão digital. Na área da telefonia celular, também se espera por grandes mudanças. O futuro reserva uma mudança no cenário de negócio que é difícil de prever, mas que já está em curso.

Telefonia
Para Luiz Avelar, vice-presidente executivo de Marketing da Vivo, a convergência está diretamente relacionada a três coisas que aconteceram nos últimos dez anos: “A transmissão está cada vez mais barata, a miniaturização da eletrônica barateou os aparelhos e, em cima disso, há toda a revolução da transmissão sem fios”, diz. Para ele, a complexidade da operação é, de fato, um ponto negativo, mas o mais preocupante, é a tendência que a regulamentação possa ter de criar barreiras.
Alberto Blanco, diretor de marketing do grupo Telemar-Oi, lembrou que o grupo passou por uma reestruturação e tomou a decisão estratégica de juntar todos os serviços, já pensando em ter uma organização convergente. “A estrutura fica extremamente complexa, não só na maneira de unir as tecnologias, mas também no como fazer funcionar tudo da mesma maneira”, diz. Para ele, o ponto positivo é a certeza de que o usuário quer todos os serviços de uma maneira transparente e fácil. “A estrutura fica complexa, temos toda uma estrutura voltada para o cliente e não temos dúvida de que esse é o caminho”.

TV a cabo e aberta
Virgílio Amaral, diretor executivo da TVA, acrescenta que a convergência é, na verdade, um complicador porque agregar serviços não é simples. “Quanto mais serviço, mais difícil de gerenciar; tem problema de investimento, de marca, de posicionamento e também de como o usuário vê esse novo prestador de serviço”, diz. Para ele, o usuário fica confuso porque é outra organização, outro modelo de negócio e para quem oferece o serviço é um desafio muito mais difícil de gerenciar.
Para Fernando Bittencourt, sob o ângulo da TV aberta: “Para os produtores de conteúdo aumentou o número de canais para entregar o produto na casa do espectador”. Hoje, o conteúdo vai não só pelo ar, mas também pelo cabo, pelo satélite e já está indo pela telefonia celular e DVD, isso é o ponto positivo. “O ponto negativo é que há 10 anos, a TV aberta era a única a entregar o produto em casa e, isso, claramente está mudando”.

Mobilidade
O conteúdo disponível para quem está fora de casa é, aparentemente, o que mais se quer hoje. Existem tecnologias diversas para as pessoas verem conteúdo nos aparelhos de celular, televisão portátil etc. Alberto Blanco revela que a mobilidade é a aposta da Telemar. “Fizemos o lançamento do produto chamado ‘Mundo Oi’ e fomos atrás de um novo software para atingir as camadas menores”. Segundo ele, o maior desafio não foi aliar baixo custo e tecnologia; “o mais difícil foi achar um conteúdo que fosse relevante e que tivesse valor para o usuário”. Para Blanco, as pessoas não se imaginam mais viver sem celular como há 15 anos. “Acho que vai acontecer a mesma coisa com o vídeo”, aposta.
Ele diz que a Telemar pretende usar a tecnologia 3G e seguir o modelo europeu, o mais usado no mundo. Segundo Avelar, a Vivo faz cerca de 4 milhões de downloads por trimestre e esse número cresce aproximadamente 10% ao mês. “Isso mostra que existe mercado potencial e necessidade para este tipo de serviço”, analisa. Para o executivo da Vivo, em meados de 2006 aparelhos de terceira geração poderão ser vendidos por R$ 500. “Aí começamos a falar da massificação; para nós é mais fácil porque não temos que comprar espectro já que podemos fazer a aplicação em pente, mas continuamos dizendo a Anatel que estamos interessados na faixa de 1,9 Mhz e também, mesmo que tenhamos essas faixas, continuamos interessados nas 3.1 Mhz. O nosso grupo acredita que é preciso investir em terceira geração”, diz.

O sucesso da mobilidade
Na visão de Américo Thomé, gerente da plataforma de comunicação da Intel, o crescimento explosivo do celular no Brasil mostra o gosto do consumidor pela mobilidade. “Acho que estamos no momento de vender celulares pela segunda vez para o mesmo usuário. E isso significa que, como ele já experimentou a parte de voz e texto, quando for comprar o segundo ou o terceiro aparelho, vai começar a demandar mais funcionalidades e daí entra a parte de convergência”. Para ele, cada vez mais o consumidor vai demandar serviços inovadores de valor agregado superior ao que ele tinha e que já está acostumado a usar.
Amaral diz que na TVA a visão é um pouco diferente. Segundo ele, a empresa em São Paulo tem cabo e o espectro de MMDS. “Vemos entretenimento dentro e fora da casa. A Abril já é uma fornecedora de conteúdo para celular. Como a TVA vê esse mercado? Nós vamos continuar atendendo a residência. Percebemos que o usuário, cada vez mais, tem necessidade de levar seu conteúdo para fora e a qualidade é importante”. Deve-se lembrar que com a evolução da tecnologia e dos equipamentos, a tendência é de que o conteúdo possa estar com o usuário sem fisicamente estar no seu aparelho. Segundo ele, a operadora projeta a rede MMDS, uma rede Wireless, para fornecer conteúdo fixo, mas também estuda essa mesma possibilidade via conteúdo móvel. “Não estamos, nesse momento, focando devices com celular porque estamos dando aplicação para nossa rede; olhamos dois grandes pontos: primeiro o cliente, o que ele quer; segundo é o conteúdo. A tecnologia que estamos apostando nesse momento que não precisa de linha divisada, é o WiMax. Acreditamos nessa mobilidade, esse mercado não é complementar ao fixo, ele pode ter até o mesmo tamanho do fixo”.
Para Henrique Washington, da Accenture, a tecnologia que se disponibiliza hoje será adotada. “Todo mundo gosta de comodidade e o conjunto de aplicações que esse negócio vai poder trazer é infinito; é questão simplesmente de cada uma das empresas entender o timing”, analisa. Avelar diz que, no caso da Vivo, não estão definidos os preços de pacotes de serviços de transmissão de conteúdo de programação televisa, por exemplo. “Vamos testar com os usuários o quanto eles estão dispostos a pagar”. E acrescenta: “Não estou interessado em fazer o preço de uma hora de televisão, o que interessa é que o usuário vai ter isso no seu celular e isso tem um preço que ele está disposto a pagar. E é isso o que quero saber: quanto ele está disposto a pagar porque eu posso até passar parte desse dinheiro para o provedor de conteúdo que não sou eu”, diz.

IPTV
O futuro sinaliza com a digitalização das empresas de cabo (isso já acontece), mas também a tendência é de que essas empresas ofereçam serviço de voz sobre IP. Nesse cenário, as empresas de telecomunicações fixas, que até então faziam apenas voz, vão fazer também entrega de conteúdo na tecnologia chamada IPTV. A Telemar, segundo o diretor de Marketing, Alberto Blanco, não separa mobilidade de casa. “A gente vê tudo como uma mesma coisa”, diz ele. E complementa: “Assim como no futuro vai ter um device móvel, onde a gente acredita, independente da tecnologia, o cliente vai poder acessar tudo ali, acreditamos que o ponto da casa também vai ser um ponto de chegada de alto tráfego como acontece em outros países”, visualiza. A Telemar faz testes de IPTV em alguns bairros do Rio de Janeiro e atinge taxas de 8 megabits na casa do usuário. “A partir de 10 megabits você consegue entregar HDTV”, lembra. Ele explica ainda que é necessário montar um anel ótico que agüente todo o tráfego porque quando existe um grande número de clientes acessando, a rede deve dar suporte. Blanco diz ainda que os maiores investimentos estão nos equipamentos. “Não é preciso passar novas fibras, mas se temos dez clientes acessando a 10 megas, é preciso uma rede que suporte 100 megas; 10 mil clientes exigem uma rede maior e assim por diante”, afirma. Ele vê as operadoras de cabo, que vão oferecer os mesmos serviços que as empresas de telefonia, como mais um concorrente. “Eu acho que a maior vantagem é a capilaridade; temos uma distribuição muito maior que as redes de cabo que estão instaladas no Brasil”, afirma.

Regulador
Cada lugar do mundo faz um jogo diferente. O regulador desempenha um papel importante à medida que ele imprime a velocidade e a interferência no mercado. “O papel dele é servir o cidadão e preservar a indústria, o que muda é a regulação que foi feita. Você tem situações bastante distintas. Você tem países em que a regulamentação é não ter regulamentação e, em outros, há muitos limites na atuação da operadora”, diz o executivo da Accenture. Ele destaca ainda que a não regulamentação não significa neutralidade. “A partir do momento que você não decide já está se tomando uma decisão que é a de postergar a possibilidade de fazer ou não alguma coisa”, relata.
Para Fernando Bittencourt, o serviço IPTV tem muita vocação para entregar conteúdo vídeo on demand. “É possível acessar o conteúdo como se fosse um DVD em casa; começa na hora que você quiser, faz fast forward, dá rewind, ou seja, imagine a quantidade de conteúdo que se pode ofertar para que isso seja um negócio”, vislumbra. Blanco defende que o negócio das operadoras de celular é a rede de telecomunicações, seja ela com ou sem fio. “Queremos entregar na casa do cliente uma rede confiável em que ele possa receber a maior variedade de serviços possíveis”.

Casa digital
Américo Thomé lembra que, mundialmente, a taxa de crescimento de TV por assinatura seja por cabo ou satélite aproxima-se de 30% enquanto a expectativa para a taxa de crescimento do IPTV nos próximos cinco anos, é de 150%. “Isso vai na direção da pessoa ter a informação no momento que ela desejar, trazendo a individualização que já começa a acontecer”.
Já existe uma iniciativa na indústria de padronização de protocolos de segurança. Dessa forma, é possível comprar um filme, fazer o download no PC e, através de um set-top box, por exemplo, assisti-lo na televisão. “O computador é um elemento da visão de casa digital; como a televisão é um elemento importante, o set-top box e toda essa convergência de tecnologia, vai estar dentro do computador”, diz Américo. O computador deve ser visto como um elemento adicional para acesso à informação e serviços de valor agregado. Thomé acredita na importância da interoperabilidade entre televisão aberta, paga, etc. Segundo ele, as pessoas não vão acessar todo esse conteúdo só através do computador. “É necessário ter o computador, a televisão e ter elementos que se comunicam entre si. É possível ter um conteúdo que tenha sido baixado da internet ou comprado de uma TV a cabo e, na verdade, a gente tem controles, sistema de segurança que permitam que esse conteúdo seja acessado – seja filme ou música – na televisão, no Ipod, no PDA, em um personal media player, celular etc. Na verdade, isso deve ser visto como um avanço da tecnologia, elemento adicional da visão de casa digital”, afirma.
Na análise do diretor de Marketing da Telemar, Alberto Blanco, é muito difícil prever o que vai acontecer daqui a cinco anos. “A mudança de comportamento vem através da tecnologia e tecnologia se compra. O importante é que todas as decisões sempre vão pelo melhor caminho, o que tiver escala economica. Subsídio é um crime na indústria. O modelo tem que ser sustentável para você poder investir em tecnologia”, avalia.

Nova forma de ver TV
As empresas de telefonia conseguem ter uma melhor percepção do mercado que as TVs abertas, por exemplo. Isso porque, no caso da TV aberta, há a necessidade de contratar um instituto de pesquisa e, no caso de celular ou fixo, as empresas sabem o que está trafegando na rede. “Você tem que saber disso, inclusive para quando, na época de biling complexo, faturar o cliente”, explica Henrique Washington. Dessa forma, é possível saber individualmente, o que cada pessoa utilizou e se consegue cobrar por isso.
Ninguém duvida de que vai mudar a forma de se ver televisão no Brasil. É uma mudança sutil e que já está em curso. Hoje, a família brasileira não se reúne mais na sala para assistir ao telejornal e, em seguida, a novela. Os filhos adolescentes têm seus programas ou ainda a opção do computador. Ou seja, as experiências em torno da televisão que, antes eram coletivas, provavelmente serão individuais já que cada vez mais acontece a segmentação.
Nesse sentido, passa a existir uma individualização e isso, pode ser o valor do próprio negócio no futuro. No mundo do futuro, da televisão interativa, é possível fazer marketing one-to-one.