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TECNOLOGIA ENVOLVIDA NA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL DA ÁFRICA DO SUL

TECNOLOGIA NA COPA
TECNOLOGIA ENVOLVIDA NA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL DA ÁFRICA DO SUL
Por Alberto Paduan
Eis um dos eventos mais aguardados pelo mundo esportivo. E nem precisa ser amante do futebol para se postar ali, em frente da TV, mesmo que seja por poucos minutos, tempo suficiente para gerar assuntos e mais assuntos. Apesar de ser um evento que se repete a cada quatro anos, cada um deles é aguardado como se não ocorresse há décadas. Envolve festejos, comemorações, muito comércio, disputas, muita torcida e… muita tecnologia.

Para nós, profissionais de radiodifusão, quando falamos em tecnologia viajamos direto para câmeras, sistemas de transmissão via satélite, 3D, som surround, etc. Nem damos bola para, por exemplo… a bola! Sim, ela, o motivo principal do evento, a vedete da festa, afinal, é dela que vemos, durante um mês, vários marmanjos correndo atrás.

Você sabia que a bola é projetada como se fosse um pequeno avião, envolvendo estudos de aerodinâmica e balística com direito inclusive a ensaios em túnel de vento? Pois é, ela é inclusive batizada. A de 2010 se chama Jabulani, e ninguém ousa chamá-la de bola simplesmente… é Jabulani. O termo, proveniente de um dos 11 idiomas oficiais sul africanos, o isuZulu, significa “celebrar”. À ela é reservado até uma data especial para apresentação em cada Copa do Mundo.

Mas, numa revista de radiodifusão e aqui estou eu gastando tempo falando de bola de futebol. Veja que motivo para isso tem!
RFID
Radio Frequency IDentification

Acontece que, nessa Copa do Mundo de 2010, estava previsto a utilização de um chip implantado na bola com a intenção de auxiliar o juiz numa decisão importante, como por exemplo, decidir se foi gol ou não foi. A idéia é fazer isso através da tecnologia denominada RFID (Radio Frequency IDentification), ou Identificação por Rádio Freqüência.

O RFID é um sistema de identificação automática cujo início de utilização data da Segunda Guerra Mundial quando era empregado na identificação de aeronaves com a finalidade de saber se eram amigas ou inimigas antes que elas pudessem deferir seus ataques mortais.

O propósito do sistema é permitir a transmissão de dados através de um serviço portátil, de modo a serem lidos por um leitor de RF e processados conforme a necessidade da aplicação. Os dados transmitidos podem fornecer informações de identificação, localização, ou informações específicas sobre um determinado produto, tais como medidas, preços, cores, datas de fabricação, validade e outros. Tem sido aplicado em operações de rastreamento e acesso desde 1980 graças à sua habilidade de identificar objetos em movimento.

Numa aplicação típica do sistema, os objetos são equipados com um componente muito pequeno chamado de transponder, tag ou etiqueta que contém um chip para memorizar um código eletrônico único do produto.

O “interrogador” ou leitor, um pacote composto por uma antena, um transceptor e um decodificador, emite um sinal ativando o tag RFID de forma que nele possam ser lidos e escritos os dados. Quando o tag passa por uma zona eletromagnética, ele deteta o sinal ativador de leitura, o leitor decodifica os dados codificados no circuito integrado do tag e esses dados são encaminhados para um computador a fim de serem processados.

Os sistemas RFID são classificados segundo duas características principais:
• quanto à frequência de operação:
• sistemas de baixa freqüência, na faixa de 30 a 500 kHz, utilizados
• para leituras a curtas distâncias;
• sistemas de alta freqüência, operando em duas faixas: de 850 a 950
• MHz e de 2,4 a 2,5 GHz, utilizados para leituras a longas distâncias e
• com altas velocidades.
• quanto ao tipo de transponder utilizado:
• transponders passivos: não possuem fontes de alimentação próprias.
• A alimentação desse tipo de transponder é obtida pela transformação
• de parte do sinal de RF recebido;
• transponders semi passivos: possuem
baterias, mas elas são ativadas
• através do sinal de RF recebido;
• transponders ativos: possuem baterias que alimentam normalmente
o circuito. Esse tipo de transponder emite continuamente o sinal e é identificado a distâncias muito maiores que os outros.

A tabela-1, a seguir, mostra a relação existente entre faixa de freqüência e o alcance dos diversos tipos de transponder.

A gama de aplicação dos sistemas de RFID é muito ampla, abrangendo: controle de produtos em geral; rastreamento de veículos; rastreamento de dinheiro (cédulas) para coibir as falsificações e identificações nos casos de furto e outras ações; rastreamento de pacientes em hospitais, mostrando hora e data de chegada e saída além de algumas informações sobre medicamentos administrados e situações de temperatura, pressão e outros; rastreamento pessoal tal como monitoração de crianças e idosos; sistemas de pagamento que poderão futuramente ser feitos até pelo celular; controle de localização e vacinação de gado; várias outras aplicações. A maioria dessas aplicações já está em uso e outras inúmeras serão brevemente adotadas.

A tecnologia RFID no futebol já foi experimentada em 2005 no Mundial Sub 17 no Peru e em 2007 durante o Mundial de Clubes no Japão. A técnica utilizada foi a da triangulação dos sinais emitidos por bases transmissoras – nesses dois casos foram utilizadas 4 bases – e recebidos por várias antenas instaladas na periferia do gramado, processados e transmitidos ao juiz em menos de 1 segundo, indicando a ele a posição exata da bola no campo.

As informações iniciais eram que esse recurso deveria ser usado na Copa do Mundo de 2010, mas não foi. As mais recentes, porém, já dizem que isso deverá acontecer em 2014 no Brasil, mas se depender dos entusiastas do velho esporte bretão isso nunca acontecerá, pois a dúvida é um dos principais ingredientes dos programas esportivos e das acaloradas discussões de amigos sobre as partidas.

International Broadcast Center (IBC)
Enquanto as atenções de todo o mundo estarão voltadas para aquele quadrilátero verde onde os marmanjos correm atrás da Jabulani, os profissionais da radiodifusão se interessam mais por uma outra área, chamada IBC (International Broadcast Center), o epicentro tecnológico de eventos relevantes como os Jogos Olímpicos, Jogos Panamericanos e, nesse ano, a Copa do Mundo de Futebol.

Ali ficam os estúdios, salas de entrevistas, sala de controle contendo equipamentos de última geração tecnológica e os experientes profissionais, que serão os responsáveis por mostrar durante 24 horas por dia para quem não pôde ou não quis ir à África do Sul tudo o que acontece durante cada 90 minutos de disputa pela Jabulani.

Tabela 1 – Relação faixa de frequência e alcance dos transponders
FREQUÊNCIA tag RFID ALCANCE DE LEITURA
125 kHz – 134.3 KHz (LF) Passivas de baixa frequência 30 centimetros
13.56 MHz (HF) Passivas de alta frequência 1,5 metro
860 MHz – 960 MHz (UHF) Passivas de ultra-alta frequência 12 a 16 metros
2.45 GHz (SHF) Ativas de super alta frequência mais de 100 metros
RLTS (LF e SHF) Real Time Location Systems
(Sistemas de Localização em Tempo Real)
23.500 metros quadrados

Em Johanesburgo, o IBC foi montado bem próximo ao Soccer City, estádio de abertura e encerramento da competição, numa área de 30 mil metros quadrados, onde 13 mil profissionais credenciados, trabalhando para 179 empresas provenientes de 70 países, serão responsáveis por cerca de 75.000 horas de transmissão relativas ao futebol durante o evento. Esses números levaram o presidente da FIFA, Joseph Blatter, a fazer uma observação curiosa, dizendo que o Centro de Transmissões (IBC) da Copa da Argentina, em 1978, provavelmente coubesse num ginásio. A estimativa é que entre 25 e 30 bilhões de pessoas ao redor do mundo mantiveram suas atenções para a África do Sul durante as partidas .

Para atingir essa meta, o comitê organizador local precisou, antes de tudo, abrir o caixa. A estimativa é que, apenas com TI e Telecomunicações o governo africano tenha investido 1,5 bi de rands (cerca de R$350 milhões).

TRANSMISSÃO EM 3D
E a tão falada, comentada, anunciada e esperada transmissão da Copa da África do Sul em 3D? Quem viu alguma coisa? Eu não vi quase nada! Não se comenta, até o presente momento, nada com relação ao resultado das vendas de receptores 3D. Parecia que difícil seria ver os jogos em 2D, pois em 3D estava praticamente garantido. Teve sim alguma coisa, mas muito pouco perto daquilo que estava sendo prometido. Nem temos muito que falar sobre essa tecnologia no evento.

A tecnologia 3D teve uma boa divulgação prévia, mas realmente foi pouco apresentada durante os jogos. Por um lado, não existe ainda no Brasil e nem na grande maioria dos países, a transmissão nessa modalidade. Por outro lado, o preço dos receptores está altamente proibitivo.

Outros motivos confessados por muita gente são:
• ninguém está a fim de assistir jogo de futebol de óculos, principalmente quem já precisa usá-los normalmente para enxergar, tendo que colocar uns sobre os outros. Pode ser que, por pouco tempo, até seja suportável, mas com certeza vai ser uma situação extremamente desconfortável para que o torcedor se submeta durante 90 minutos;
• o brasileiro gosta de assistir futebol em grupo. Assim, os óculos 3D precisam ser compartilhados durante as partidas, pois ninguém tem em casa uma coleção de óculos disponível. Além disso, chega a ser anti-higiênico esse troca-troca de óculos.

Além desses motivos, acrescentemse outros, de suma importância, que são os problemas fisiológicos, os quais comprovadamente existem. Quando se permanece por um período mais alongado assistindo TV em 3D, os telespectadores podem sentir dores de cabeça, náuseas, falta de estabilidade postural e pressão, secura ou sinais de fadiga no globo ocular. Curioso foi ler isto no manual de um fabricante. Além desses sintomas, alguns outros são citados, junto com recomendações para prevenir danos pessoais. Devido a esses sintomas, o fabricante recomenda, por exemplo, que não se assista TV 3D próximo a escadas abertas, sacadas e objetos onde se possa tropeçar ou bater, ou que possam quebrar ou cair. O documento diz que algumas pessoas podem “sofrer um ataque epilético ou infarto quando expostas a determinadas imagens de televisão 3D” e até recomenda que pessoas sujeitas a esses tipos de problemas consultem o seu médico antes de usar a função 3D da TV. Nesse mesmo manual, é recomendado ainda, que “mulheres grávidas, idosos, epiléticos e pessoas com problemas físicos graves devam evitar o uso, bem como aqueles que se encontram embriagados”, o que significa dizer que uma cervejinha e TV 3D não combinam, embora a cervejinha combine bem com uma partida de futebol.

DELAY DE ÁUDIO
Uma coisa me incomodou bastante durante os jogos: meus vizinhos que assistiam em recepções analógicas estavam torcendo cerca de 5 segundos na minha frente, tempo marcado por mim mesmo.

O meu desespero era grande quando ouvia a torcida na iminência do gol e no próprio ato, e eu na ignorância total. Quando chegava a minha vez de ver o gol, eu não tinha nem coragem de gritar e vibrar, pois já era coisa do passado! Mas esse é o preço a se pagar por querer acompanhar em dia o progresso tecnológico.

Esses delays ocorrem devido a alguns fatores aos quais estão sujeitos os sistemas de transmissão, sejam eles TV, Rádio, Telefone celular ou Internet. E quanto mais sofisticado for o sinal, maior será o delay.

Um desses fatores é a subida do sinal para o satélite (up link) e a sua descida até os receptores (down link). Nesses percursos, o up link e o down link provocam no sinal um atraso de cerca de 240 milisegundos. Podemos dizer que é um atraso ínfimo, quase desprezível, que nem incomoda se esse sinal for injetado direto na TV, mesmo considerando que o atraso total desse sistema chega a aproximadamente 1 segundo, pois aos 240 mseg devem ser somados os cerca de 500 mseg inseridos pelo circuito em terra, antes de subir para o satélite. Mas, quando se trata de um sistema de TV por assinatura via satélite, o atraso que o telespectador realmente percebe é a soma desses 240 mseg com outro provocado pelo processamento, ou seja, pela modulação do sinal em DVB-S MPEG-2 ou MPEG-4 e a codificação, antes da subida, e a demodulação e decodificação realizadas no receptor. Nesse caso, dependendo dos tipos e modelos dos equipamentos e do caminho do sinal definido pela operadora do sistema, o delay pode chegar a 15 ou 16 longos segundos. Esse atraso ainda varia conforme a operadora, pois o processamento utilizado por elas não é necessariamente o mesmo. A verdade é que a faixa de atraso fica entre 12 e 16 segundos.

Tabela 2 – Delay entre os sistemas de transmissão
SISTEMA DE RECEPÇÃO ATRASO
RÁDIO AM ANALÓGICO aprox. 1/2 seg
RADIO AM DIGITAL (sist. americano) aprox. 7 seg
RADIO AM DIGITAL (sist. europeu) aprox. 2 seg
RÁDIO FM ANALÓGICO aprox. 1/2 seg
RÁDIO FM DIGITAL ainda indefinido
TV ANALÓGICA (ABERTA) aprox. 1/2 seg
TV ANALÓGICA (CABO) aprox. 3 seg
TV DIGITAL (ABERTA) aprox. 5 seg
TV DIGITAL (CABO) aprox. 7 seg
TV ANALÓGICA VIA SATÉLITE (recepção direta) aprox. 1,5 seg
TV DIGITAL VIA SATÉLITE (recepção direta) aprox. 3 seg
TV VIA SATÉLITE (por assinatura) entre 12 e 16 seg
Alberto Paduan

A tabela-2 ilustra esses atrasos. Note que todos os dados são aproximados, pois eles podem variar de emissora para emissora, de cidade para cidade e até mesmo, dentro de uma mesma cidade, de local para local.

Note também que quando falamos em delay, ou atraso, isso só pode ocorrer em relação a alguma coisa. Nesse caso, a referência é o evento ao vivo. A TV aberta analógica (VHF ou UHF) e o Rádio AM analógico são os casos mais próximos da realidade, pois seu sinal não precisa ser codificado ou comprimido.

O que pode nos servir de consolo é que na Copa do Brasil, com certeza, estaremos torcendo em uníssono e ao mesmo tempo, todos em digital e, quem sabe, em 3D.

Por falar em assistirmos todos em digital, a Copa da África do Sul não pôde ser vista nesse padrão em Maceió, Macapá, Rio Branco, Boa Vista e Porto Velho. Essas cinco capitais brasileiras foram penalizadas com um atraso ocorrido no cronograma e então tiveram que torcer em analógico mesmo. Mas, com certeza, em 2012 os Jogos Olímpicos de Londres poderão ser vistos também nessas capitais em digital.

CONCLUSÃO
Apesar dos delays e das vuvuzelas, foi muito gratificante ver os jogos em HDTV digital. As imagens muito boas, as tomadas perfeitas e os lances para replay foram muito bem escolhidos. As cenas feitas sem exagero com a “câmera aérea” ajudaram bastante na composição das transmissões com as outras não sei quantas dezenas de câmeras de última geração, um belo e bem montado mix de tecnologia analógica e digital.

Não podemos deixar de elogiar o excelente trabalho realizado pelos profissionais de áudio, tanto de rádio como de TV, que dessa vez travaram duras lutas contra as famigeradas vuvuzelas que insistiam em fazer com que o mundo não ouvisse o som e muito menos definisse o idioma das torcidas.

Mas talvez até por causa delas, a Copa do Mundo de Futebol de 2010 da África do Sul foi um belo espetáculo esportivo e tecnológico que ficará marcado para sempre na história.

Alberto Paduan é supervisor de projetos da TV Cultura- SP e diretor da Adeseda-Consultoria, Projetos e Instalações – email:adeseda@uol.com.br