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SP Filmes poderá nascer na Prefeitura de São Paulo

À semelhança do que acontece no Rio de Janeiro com a RioFilme, a Prefeitura de São Paulo prepara as bases para a criação do que será a agência de fomento municipal ao audiovisual e cinema da cidade, uma iniciativa que, segundo Juca Ferreira, secretario de cultura de São Paulo servirá como política pública a favor da diversidade e que atenderá as complexas demandas do setor audiovisual. Com essa iniciativa, as duas principais capitais do país terão fomento à industria, o que, junto com as iniciativas do governo federal alcançam um montante nunca antes oferecido pelo Estado ao setor. A pergunta que colocaram muitos dos participantes do 14º Fórum Brasil de Televisão realizado em São Paulo, nos dias 4 e 5 de junho, foi se existe mão-de-obra qualificada para utilizar esse dinheiro e produzir no país.

Nº 134 – Julho 2013

Por Fernando Moura

REPORTAGEM

Chegando a São Paulo para dirigir a Secretaria de Cultura da maior prefeitura do país, o ex-ministro da cultura, João Luiz Silva Ferreira, mais conhecido como Juca Ferreira, afirmou ter encontrado uma grande “fragilidade” da secretaria e de outras estruturas públicas de cultura. “As coisas estão andando mais devagar do que eu gostaria, não há profissionais suficientes, os equipamentos estão exauridos”, explicou. “Mas precisamos fazer mais em vários aspectos. Queremos promover audiovisual e para isso queremos criar, à semelhança do Rio de Janeiro, um órgão que fortaleça o audiovisual paulistano que poderá chamar SPFilmes e será um instrumento de diálogo de e para a cidade”, explicou Ferreira à Revista da SET após finalizado o painel “Políticas públicas para o audiovisual”.
Para Ferreira, o principal é fomentar o “diálogo” e fazer deste diálogo uma política pública. “São Paulo precisa encontrar a sua marca”, disse Ferreira, que tem dúvidas se hoje o maior estrangulamento do setor audiovisual são recursos para a produção. “Acho necessária a construção de uma política. Tem como criar uma política e ter a agência como principal instrumento”, mas sem ser “clientelista” porque “precisamos ter uma maneira mais criteriosa para que o dinheiro (público investido no setor) venha de fato a incentivar o desenvolvimento da atividade, e não criar uma dependência improdutiva”.
“Na prefeitura não havia política do audiovisual nem no governo do Estado [de São Paulo]. Há uma ausência do Estado no setor. Sabemos que ele é secundário e os que interessam são os que fazem, mas o Estado precisa fornecer a infraestrutura e a mobilização de recursos. Por isso a política pública é estratégica para o desenvolvimento do setor, tanto econômico como setorial”, disse Ferreira.
“A SPFilmes tentará ser uma agência de fomento do audiovisual da cidade de São Paulo, para isso precisamos envolver todos os setores para que estes tenham uma participação ativa neste desenvolvimento. Não estamos pensando a SPFilmes isolada como se fosse uma varinha de condão que viria a resolver os problemas do fomento da atividade. Com esta ferramenta vamos construir a política”, explicou Juca Ferreira.

O secretario do audiovisual do Ministério da Cultura, Leopoldo Nunes, afirmou que em julho de 2013 serão lançados editais para apoio de longa-metragem de baixo orçamento, curta-metragem, DOC TV, Curta Criança, Curta Animação, AnimaTV, EtnoDoc, Audiovisual sem Fronteiras (para alunos e professores de cursos do audiovisual)

Segundo Sérgio Sá Leitão, diretor-presidente da RioFilme e secretário municipal de cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro, “a atividade econômica de produção independente de conteúdo audiovisual pode finalmente se tornar uma indústria de verdade no Brasil”, mas para isso ocorrer é necessário `deslanchar´ “mecanismos automáticos que estejam voltados para toda a cadeia de produção. Gerar uma maior fluidez em seleção, contratação e desembolso tendo como base uma visão de mercado e foco em resultados”, disse. “Isto foi o que fizemos na RioFilme e está dando os seus resultados”.
“Acreditamos que temos as condições para que esta atividade [audiovisual] finalmente se torne independente, que se desenvolva de forma contínua e ajude no crescimento do PIB do país gerando renda e mais emprego. Por tudo isso, pensamos que o audiovisual pode se tornar uma atividade que não dependa dos desejos governamentais como sempre foi pensando em ciclos. O importante é hoje não desperdiçar essa oportunidade trabalhando em conjunto para construir os mecanismos para não perder esta oportunidade histórica”, disse Sá Leitão.
Rodrigo Guimarães, gerente de investimento da RioFilme, explicou que hoje é possível aprovar um projeto para televisão em 30 dias. “Sabemos que para produzir em TV tem de ser rápido, então criamos as ferramentas e os processos para agilizar o fomento. Trinta dias após apresentado um projeto para TV, a RioFilme está pronta a apoiar economicamente um projeto”, disse.
Segundo Sá Leitão, entre 2009 e 2012, a empresa da prefeitura carioca investiu cerca de R$ 100 milhões em 252 projetos audiovisuais, dos quais R$ 26 milhões vieram das receitas de 32 projetos reembolsáveis, ou seja com algum retorno para a RioFilme. “Nós emprestamos, mas sabemos que algum dinheiro regressará para que possamos seguir investindo em novas produções”, disse Guimarães à Revista da SET. Ele explicou que considerando apenas os projetos reembolsáveis financiados pela RioFilme, o investimento resultou em um aporte de R$ 540 milhões ao PIB nacional, criação de 8.340 postos de trabalho na cidade do Rio de Janeiro, e vendas de 38 milhões de ingressos.
Na atualidade, a Riofilme trabalha na construção e reativação de dois polos audiovisuais na cidade, um na Barra da Tijuca e outro em São Conrado, além de capacitação profissional. O polo audiovisual da Barra, que está sendo revitalizado, terá uma área construída de 27.000 m2 onde se reformarão/construirão 14 estúdios, escritórios de produção, locação de equipamentos, pós-produção, catering, cenotécnica etc. O investimento privado ronda os R$ 100 milhões e estará pronto em julho de 2016.
Os novos estúdios poderão ser utilizados durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. “O Rio vai ganhar o maior e mais moderno complexo de estúdios da América Latina, com padrão de qualidade internacional”, diz Sérgio Sá Leitão.
A “Cidade do Audiovisual” que está sendo construída em São Cristóvão (RJ) terá 14.000 m2 de área construída e será a sede da RioFilme e da Rio Film Commission. Contará ainda com estúdios, escritórios de produção, cinema, salas para cursos, pós- -produção etc., e terá um investimento aproximado de R$ 35 milhões. A RioFilme espera inaugurá-lo em julho de 2016.

Falta de profissionais na área
Um dos pontos no qual a maior parte dos palestrantes do 14º Forum Brasil de Televisão concordaram é na falta de profissionais para atender o crescimento do setor audiovisual no país.
Na abertura do Fórum, o presidente da Ancine, Manoel Rangel, explicou as diversas etapas que foram superadas para que a Lei do Serviço de Acesso Condicionado (SeAC) (INs 100 e 101) fosse implementada e analisou os resultados do primeiro ano de implantação.

O secretario de Cultura da Prefeitura de São Paulo, Juca Ferreira explicou no 14º Forum Brasil de Televisão que para criar a SPFilme tem conversado com os produtores audiovisuais paulistanos para junto deles encontrar as melhores opções para o setor audiovisual

Segundo Rangel, a lei ajudou a aquecer o mercado de programação e produção já que “programadoras estreitaram relações com parceiros produtores independentes, inaugurando uma via de mão dupla onde havia de mão simples”, mas há muito caminho pela frente já que, segundo o presidente da Ancine, é necessário maio número de iniciativas do setor. “Precisamos de mais projetos, mais roteiros. As programadoras devem se estruturar melhor para selecionar e acompanhar os projetos. As produtoras devem atender demandas e propor caminhos às programadoras”, afirmou.
Não foi o único, Juca Ferreira, disse que “estão faltando técnicos. O mercado está demandando uma oferta de formação para que essa demanda seja suprida. Por isso achamos que a participação do Estado é fundamental. Ele não vai substituir, mas sim pode dar ferramentas para criar fomento na área”, comentou Juca Ferreira.
O secretário do audiovisual do Ministério da Cultura, Leopoldo Nunes, afirmou no painel “A política nacional para o audiovisual” que a formação de profissionais na área audiovisual é uma das questões que devem receber atenção em sua gestão.
O secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura apresentou os principais pontos de sua recém- -iniciada gestão e falou sobre o planejamento do MinC para os segmentos de cinema, TV e mídias digitais destacando a necessidade de formação profissional no setor.
Assim, a Secretaria lançará um curso voltado para o desenvolvimento de roteiros de séries de televisão, que terá aulas presenciais e online e tutoriais para os autores dos projetos selecionados, porque “este é um dos maiores déficits que temos no setor”, disse à Revista da SET no fim da apresentação. “Hoje temos recursos para produção audiovisual, mas às vezes faltam ideias e profissionais para desenvolvê-las”.

Sérgio Sá Leitão, diretor-presidente da RioFilme e secretário municipal de cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro, considera fundamental aproveitar o momento pelo qual o setor audiovisual esta passando e finalmente tornar-se em uma atividade auto-sustentável

Para Guimarães, “hoje temos um investimento muito maior que antes no setor, com fomento, dinheiro do governo Federal e de algumas prefeituras, o que não temos é mão-de-obra para utilizá-lo. No ano passado começamos um programa de capacitação e nesse programa encontramos um dado interessante gerado na França. Cada milhão de reais investidos gera 51 postos de trabalho, dos quais 6 efetivos e 45 temporários. Nosso problema hoje é de onde vamos tirar essa gente toda”, disse Guimarães.
Para o gerente de investimento da Riofilme é imperativo criar cursos e com eles trazer novos profissionais ao setor. Em um mercado em expansão, e com os investimentos da RioFilme, “já criamos 372 empregos permanentes e 2.790 temporários (Total: 3.162) em 2012, e esperamos que até 2014 possamos criar 3.000 empregos permanentes e 22.500 temporários chegando aos quase 26 mil postos de trabalho”.
Mas essas afirmações são contestadas pela Associação dos Roteiristas em uma carta aberta da entidade que expressa:

Para Rodrigo Guimarães, o segredo para produzir em TV é ser ágil e rápido. “Trinta dias após apresentado um projeto para TV a RioFilme esta pronta a apoiar economicamente um projeto”

“A Associação dos Roteiristas, não concorda com essa falácia e a maioria de seus associados quebra a cabeça no teclado dos pcs, na tentativa de descobrir a quem interessa esse lero-lero. Será a falta de dinheiro para pagar o trabalho do roteirista? Ou a falta de um diálogo verdadeiro e convergente entre associações do ramo, emissoras, produtores e diretores? Será o desconhecimento do currículo e do trabalho de roteiristas, não só do Rio e de São Paulo, mas também de Pernambuco, Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul de tantos outros? Seja o que for, bons roteiristas existem e não são um apêndice da produção audiovisual, são protagonistas”.
E, ainda, “a Associação dos Roteiristas propõe uma conversa franca com todos os envolvidos em uma produção audiovisual. Temos certeza que assim, os roteiristas que “não existem”, aparecerão, seja por seus currículos, projetos e mesmo roteiros”.

Sinergia entre São Paulo e Rio de Janeiro espera promover o setor audiovisual
Reunidos no Fórum Brasil de Televisão, Juca Ferreira, secretário municipal de cultura da cidade de São Paulo, e Sérgio Sá Leitão, secretário municipal de cultura da cidade do Rio de Janeiro, afirmaram ser necessário criar sinergias entre as duas metrópoles para, em conjunto, apoiar a produção audiovisual brasileira.
Para o secretario de São Paulo é preciso aproveitar a experiência do Rio de Janeiro e avançar para a criação da SPFilme e, por meio dela, criar elos de ligação entre ambos os polos do audiovisual para alavancar o setor.
“Para nós a possibilidade de criação da SPFilme em São Paulo foi de grande impulso porque a criação deste polo será um ótimo pretexto para conseguirmos mais recursos e termos mais visibilidade. Eu penso que São Paulo está no caminho certo, a ideia é criar a empresa e colocar as produtoras para trabalhar”, disse Sá Leitão.

60 milhões para o setor audiovisual
A RioFilme propôs ao Fundo Setorial do Audiovisual, administrado pela Agência Nacional do Cinema – ANCINE, uma parceria para acelerar o desenvolvimento da indústria audiovisual carioca. A proposta consiste em juntar R$ 20 milhões da RioFilme e R$ 40 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual no Ministerio da Cultura (FSA) para investir em projetos de cinema e TV de empresas locais.
Segundo a proposta, os R$ 60 milhões seriam usados em mecanismos de investimento automáticos, seguindo os princípios das novas linhas implantadas pela RioFilme em 2013, nas quais a seleção de projetos é feita com base em critérios objetivos e meritocráticos, sem análise subjetiva do conteúdo.
Segundo Sá Leitão, na linha de Produção de Conteúdo para TV por Assinatura, a RioFilme investe um valor proporcional ao valor investido no projeto por um canal de TV. Já na linha de Produção e Desenvolvimento de Longas, produtoras e distribuidoras são contempladas com base nos resultados de bilheteria do ano anterior. Em ambas as linhas, a RioFilme adquire participação nas receitas de todos os projetos financiados.

www2.cultura.gov.br/audiovisual
www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/fomentos/cinema/
www.rio.rj.gov.br/web/riofilme/
www.ancine.gov.br
www.artv.art.br

Fernando Moura
Redação: Revista da SET
fernando.moura@set.org.br