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SET Sudoeste 2014

Nº 142 – Junho 2014

Por Redação

Reportagem

Oferecemos nesta reportagem um resumo do acontecido no primeiro encontro regional de 2014 organizado pela SET em Vitoria (ES). Nele foram abordados temas tão diversos como migração de AM para FM, roteamento IP, novas tecnologias de transmissão de conteúdos, broadband, entre muitos outros temas de interesse para os broadcasters da região.

Realizados anualmente em diferentes cidades do País, os Regionais SET são uma oportunidade para os profissionais que estão fora do eixo Rio-São Paulo entrarem em contato com o que há de novidade em termos de debate tecnológico. Ao todo, são cinco eventos (um em cada região do país), que trazem um ciclo de palestras, demonstrações e exposição de produtos.
Nesta reportagem descreveremos o acontecido no primeiro desse ciclo em 2014, realizado nos dias 24 e 25 de Abril, em Vitória, Espirito Santo. Foram 18 painéis abordando os mais diferenciados temas, desde transmissão por rede IP, os conflitos entre broadcast e broadband e também um pouco de futurologia do mercado brasileiro de televisão.
O primeiro SET Regional foi realizado no auditório da TV Gazeta em Vitória-ES, e iniciou seus trabalhos com uma palestra ministrada pelo presidente da associação Olímpio Franco. Durante seu painel, Franco trouxe um resumo das atividades que a SET tem realizado nos últimos 12 meses e também abordou os trabalhos e as polêmicas da questão dos 700 MHz. “Estamos caminhando e esperando que estas mudanças que temos feito tragam um caminho cada vez melhor para nossos associados”, começou o presidente. Na primeira etapa de sua apresentação, Franco apresentou todos os eventos, produtos editoriais e grupos de trabalho que a SET tem gerido.

O presidente da SET Olímpio Franco abriu em Vitoria o ciclo anual de SET Regionais.

Obsolescência e Tecnologia
Para quem participa de seguidos eventos relacionados ao mercado broadcast, uma coisa já ficou bem clara: O modelo de negócio da televisão está mudando. E se não está, deveria estar, pois as mensagens sobre a transformação no padrão de comportamento de como as pessoas consomem mídia já é bastante urgente.
Focando-se nas tendências que devem tomar conta da mídia digital para os próximos anos, o SET Regional Sudeste apresentou duas palestras em sua primeira parte que trouxeram questionamento para os presentes. A primeira foi de Daniela Souza, da AD Digital, que abordou novas formas de distribuir e monetizar conteúdo seguida por José Raimundo Cristovam, da Unisat que trouxe uma espécie de provocação cognitiva em seus slides.
“Precisamos entender que não somos mais uma indústria que trabalha na transmissão, mas sim, na produção e entrega de conteúdo e entretenimento”, começou Daniela Souza. De acordo com a palestrante, o foco para entender esta mudança é capacitação do profissional. “O potencial humano precisa estar pronto para operar estas novas tecnologias, e assim tomar controle delas”, explicou.
Em seguida, foi apresentado uma série de estudos e números que ilustram a importância que o consumo de mídia por meios não tradicionais tem tomado. “Em 60 segundos de internet, mais de 600 novos vídeos são postados no Youtube, mais de 700 mil pesquisas são feitas no Google. O consumo de mídia também segue estes números, é um montante grande que já não temos mais controle”, contou Daniela.
De acordo com a palestrante, um dos principais desafios do broadcaster hoje é que não há como competir com a indústria Telecom. “Só em venda de dispositivos móveis, 2013 representou um faturamento de US$ 750 bilhões para o mercado Telecom.
Enquanto isso o faturamento publicitário da Televisão em nível mundial no mesmo período foi de US$ 358 bilhões. Sabendo que só o envio de SMS rende US$ 100 bilhões para as Teles, nosso mercado inteiro é só três vezes maior que somente um pequeno segmento deles”, contou.
Outro dado que justifica a ideia da palestrante é o crescente de audiência. De acordo com uma pesquisa realizada pela Ericson, em 2019 o vídeo na internet deve superar a audiência da TV. “Se levarmos em conta este crescente de audiência e de dispositivos, o que gera ainda mais demanda por mídia, fica claro que o futuro do nosso negócio é a expertise de produzir e entregar conteúdo em múltiplas plataformas”, concluiu.

O diretor da SET José Cláudio Barbedo subiu ao palco para abordar o tema da atual situação e futuro do rádio convencional.

Um alento
José Raimundo Cristovam subiu ao palco do auditório da rede gazeta para fazer uma espécie de chamado. O especialista iniciou sua palestra com uma espécie de atualização do que tem acontecido no mercado broadband, quase que para chamar a atenção dos presentes para o crescimento e importância do segmento.
Em seguida começou com cenários das atualidades sob diferentes pontos de vista, começando com as empresas de telecomunicações. “As Teles também estão preocupadas com o leilão 4G, pois vêem o governo disposto a fazer de tudo para faturar, deixando todo o ônus para eles”, explicou.
De acordo com Cristovam, este tipo de percalço, somado aos problemas já comuns do setor, como por exemplo a rápida obsolescência de sua rede de infraestrutura, está prestes a gerar um problema de fluxo de caixa. “Só de mitigação, as Teles estimam que vão precisar gastar R$ 6 bilhões. Somando ao custo dos leilões, são R$ 15 bilhões dos quais muitos não estavam orçamentados”, contou.
Contrabalançando o pleito, o palestrante trouxe os números relativos ao serviço de acesso à internet móvel. “Só no mês de fevereiro de 2014, tivemos 110,19 milhões de acessos de banda larga móvel no Brasil. Se cada mensalidade desta custasse R$ 10,00, fazendo as contas, já dá pra visualizar o tamanho do faturamento destas empresas”, explicou.
Em seguida Cristovam abordou o ponto de vista da TV Aberta e sua evolução. “Este ano a TV Aberta no Brasil comemora 50 anos. Destes 7 são de TV Digital. Ou seja, estamos lutando para implantar uma tecnologia de 7 anos atrás. Em termos de evolução tecnológica, onde se troca de computador a cada 3 anos, isso é antigo, é velho”, provocou.
O palestrante seguiu fazendo uma série de questionamentos sobre a tecnologia que temos na transmissão e no que poderíamos ter. “Quando vamos ter Full HD na TV aberta? E áudio 5.1 AAC? E interatividade? E integração broadcast-broadband (IBB)?” afirmou Cristovam, e concluiu: “Os consumidores já estão se preparando para receber sinal em UHDTV, e se a TV aberta não for capaz de fornecer, ele vai assinar um serviço que o faça”.

André Cintra discorreu sobre seu trabalho para a Abert relativo à migração das rádios AM para o espectro FM.

Transmissão híbrida
Prosseguindo com a temática da tendência de integração entre a TV tradicional e novas mídias, Aguinaldo Boquimpani tomou a palavra para dar as perspectivas de um especialista no assunto. Com ampla história profissional no mundo do TI para broadcast, o palestrante usou o tempo de seu painel para falar de IBB (Integração Broadcast-Broadband), ou seja, como integrar conteúdo de TV Linear, On-Demand e Segunda Tela.
Boquimpani começou trazendo as já conhecidas estatísticas de uso da internet sobre a televisão, só que desta vez focado no crescimento da audiência com o advento dos dispositivos móveis. “Os Smart Devices demoliram as barreiras entre a população e novas tecnologias. Usar o computador por definição era algo complicado. Com os novos dispositivos, não existe mais esta complicação”, explicou.
Em seguida Boquimpani partiu para o grande destaque de sua palestra: a evolução do padrão IBB. “Trata-se de sistemas de distribuição de conteúdo que use tanto a radiodifusão, como a banda larga. Estamos trabalhando junto com o ITU e já temos quatro recomendações para o estabelecimento do padrão de trabalho”, contou.
Apesar do clima futurista, foi apresentado dois exemplos que mostram que IBB não é algo que esteja somente no papel. O primeiro trata-se do case realizado pela Emissora Pública Japonesa, NHK que usa uma aplicação batizada de HybridCast. “Trata- -se de um sistema baseado em aplicações HTML 5 que permite uma série de serviços e interatividades com a programação, mesmo ao vivo, por meio de um tablet”, explicou Boquimpani.
O HybridCast já está funcional no Japão e permite que um espectador que tenha uma TV e um Tablet conectados na mesma rede Wi-Fi possa interagir totalmente com o conteúdo. Isto é, conteúdo enriquecido, interatividade, solicitação de conteúdo On-demand e qualquer outro tipo de aprimoramento disponibilizado.
Neste modelo, o broadcaster pode atuar tanto como broadcast e provedor de serviço, como pode ter um parceiro para enriquecer o conteúdo dele para a aplicação HybridCast. “Vendo tudo isso, parece aquele tipo de coisa de Japonês, que vai demorar décadas para chegar no Brasil… bom não é verdade”, continuou Boquimpani conforme apresentou o Ginga IBB.
O Ginga IBB é uma versão do Middleware brasileiro com uma camada extra de aplicações. Funciona de forma mais leve do que o HTML 5 e já está completamente funcional. “A TV e a banda larga hoje já estão unidas. O que falta é entendermos estas tecnologias e como tirar proveito delas”, concluiu.

Fredy Litowsky da Harmonic apresentou a transformação da infraestrutura das emissoras para operar no mundo TI.

Como montar uma infraestrutura IP
Iniciando o segundo dia de palestras do SET Regional Sudeste, Fredy Litowsky da Harmonic trouxe uma rica apresentação sobre a transformação da infraestrutura das emissoras para operar no mundo TI. “Não estou aqui para apresentar uma forma de reinventar a roda, mas sim entender como trabalhar com estas novas ferramentas que vêm chegando ao nosso mercado”, começou.
Como têm sido bastante evidente, até por conta do crescimento exponencial dos formatos de vídeo, a migração das infraestruturas das emissoras para IP é uma tendência cada vez mais real. De acordo com o palestrante, nos Estados Unidos, 44% das emissoras já têm estas estruturas instaladas. “Acredita-se que as conectividades baseadas em SDI devem durar no máximo mais três anos, então não estamos aqui falando de ficção científica”, explicou.
Em uma infraestrutura IP, há uma troca de paradigma de como a emissora funciona. Ao invés de ter equipamentos Hardware dedicados para cada uma das funções básicas do broadcast (ingest, playout etc), se monta uma estrutura de servidores com grande capacidade de processamento e cada uma das funções roda por meio de softwares dentro dos mesmos hardwares.
Este tipo de operação traz uma série de vantagens para o fluxo de trabalho. “Na estrutura TI, o custo total é bastante melhorado; a mesma infraestrutura pode atender múltiplos serviços; o escalonamento não depende de um aprimoramento disruptivo; temos uniformidade em hardware e gerenciamento; permite evoluir toda a capacidade com uma simples troca de Blade, e muitas outras”, explicou Litowsky.
Apesar destas vantagens, é preciso passar por uma série de alterações na forma como o negócio funciona para contar com estas estruturas. A principal mudança, por obviedade, é a maior dependência dos profissionais de TI. Outra mudança é o surgimento de um novo sistema e a adaptação financeira a um modelo de negócios que funciona com investimentos e margens diferentes (não significam piores).

Canalização e Migração FM
A manhã do segundo dia do SET Regional Sudeste foi mais uma vez momento de debate político. Contando com a presença de André Cintra, consultor da SET, e a palestra remota (via web) de João Paulo Andrade, do MiniCom, foram abordados assuntos relativos aos trabalhos re-canalização e migração das rádios AM para FM.
O primeiro a falar foi João Paulo. Participando do Regional via Skype, o membro do ministério relatou rapidamente um pouco do trabalho de re-canalização.
“Analisamos principalmente o caso das regiões metropolitanas e das Regiões em Desenvolvimento. O problema será que algumas emissoras com direito a cobrir regiões metropolitanas terão que fazer alterações em suas outorgas para aumentar sua potência ou mover-se para dentro das capitais”, explicou.
De acordo com André Cintra, esta é uma situação que dever ser comum logo após a realocação dos canais. “Vamos ter de colocar todos os canais de 14 a 61, de forma que pode acontecer de uma emissora classe super-especial estar localizada ao lado de uma com um transmissor de 10 Watts. Ou seja, ela vai ter de aumentar a potência para continuar emitindo”, explicou.
Para fazer esta alteração, o governo decidiu que será necessário enviar um projeto, constando estudo de viabilidade. Com estes projetos entregues, será possível à Anatel e MiniCom realizarem as alterações dentro das outorgas das emissoras.

José Raimundo Cristovam, da Unisat mostrou aos participantes a actualidade do mercado broadband.

O caso das rádios
Continuando com sua apresentação, Cintra discorreu sobre seu trabalho para a Abert relativo à migração das rádios AM para o espectro FM. “Tenho-me focado neste estudo e levantamento de distribuição das rádios. Nesta pesquisa, vimos que 80% de todas as rádios brasileiras solicitaram a migração para FM”.
Em seguida, Cintra mostrou um software criado por ele, baseado em banco de dados, que mostra diferentes dados das possibilidades de migração. “Desta forma, consigo elencar os casos de acordo com suas dificuldades de redistribuição na FM”, explicou.
Desta forma, o palestrante dividiu os estados brasileiros em cinco categorias, começando por aqueles que não devem ter problemas para atender o decreto da migração. “Pará, Alagoas, Paraíba e Espírito Santo têm canais com potências menores, o que deve facilitar no caso do decreto federal”, explicou.
A próxima categoria foi a dos estados que talvez tenham problemas, que é composta por Bahia, Ceará, Pernambuco, e Santa Catarina. Prosseguindo, vêm aqueles que provavelmente não tenham solução que são Distrito Federal, Goiânia, Minas Gerais e Paraná.
Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul terão problemas bem sérios. “Agora São Paulo Hours Concours. As regiões de Campinas, São José dos Campos, Ribeirão Preto e Capital têm situações dificílimas”, concluiu. O rádio mais vivo do que nunca Para fechar os trabalhos do SET Regional Sudeste, o diretor da SET José Cláudio Barbedo subiu ao palco para abordar o tema da atual situação e futuro do rádio convencional. Em uma palestra bastante bem humorada, “formiga”, como é conhecido, abordou os temas da rádio digital, migração AM e o futuro do rádio digital, por streaming e híbrido.
“Estamos vivendo uma era onde a juventude não ouve rádio convencional. Falando de Estados Unidos, hoje o consumo de música têm sido feito por Streaming”, começou Barbedo. À seguir, o especialista apresentou os serviços mais populares de rádio por streaming no país, como Pandora, Spotfy e iRadio, da Apple. “O problema é que isso não é rádio, é um toca discos na Cloud. Não tem notícias, não tem serviços, não é rádio”, provocou.
Em seguida, o palestrante mostrou o (mal) funcionamento dos serviços de rádio por streaming. Devido a precariedade das bandas largas móveis no país, fica quase impossível conseguir sintonizar uma rádio via internet em um smartphone, por exemplo.
Somando-se à esta dificuldade, o palestrante trouxe dados que revelam que a maioria das associações de broadcasters ao redor do mundo, tem usado força política para fazer fabricantes de dispositivos embarcarem chipsets de FM em seus aparelhos. “O motivo disso é as desvantagens do rádio por streaming: o consumo abusivo de banda e bateria”.
Finalmente Barbedo apresentou uma novidade em termos de interatividade chamada NextRadio. “Trata- -se de um serviço de aplicativo que sintoniza rádio via FM e permite exibir conteúdo enriquecido e trazer todo tipo de interatividade por meio do pacote de dados do smartphone”, explicou.
Informações sobre a música que está tocando, interação com promoções, com anunciantes e integração com outros Apps, como Google Maps, podem ser possíveis dentro do NextRadio. “Hoje 81% dos smartphones que possuem chipset FM já usam NextRadio nos EUA”, afirmou. Além das vantagens óbvias, receber rádio por RF faz a bateria do celular três vezes mais sem delay e sem bufffer.
“Estamos de frente de algo que é uma solução maravilhosa para interatividade do rádio” e concluiu “Não gosto do termo ‘Radio Híbrido’ para definir o serviço, prefiro chamá-lo de ‘Primeira Tela do Rádio’”

* Parte deste material foi previamente publicado no Blog da Revista da SET (www.revistadaset.com), como parte da cobertura do evento em tempo real