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Ruído e Interferência: Flagelos para o Rádio

RÁDIO-INTERFERÊNCIA

Rádio

Todos nós sabemos os graves problemas que o ruído e a interferência causam em serviços regularmente autorizados. Essas causas são as mais diversificadas possíveis, de estações clandestinas a estações que operam fora de suas características técnicas, passando por trólebus a produtos disponíveis nas residências e nas empresas. Conhecidos como ‘gadgets’ temos uma infinidade de fontes de ruídos e interferências.

No mundo inteiro têm produtos que não são certificados, pois ou fazem parte do grupo de radiação restrita ou operam em faixas de radiofrequências sem serviços definidos e sem licenciamentos.

Por exemplo, na Europa existe uma tendência para a desregulamentação no licenciamento por serviço e na atribuição de faixas de frequências definidas para novos serviços. Isso favorecerá algumas tendências tecnológicas a operarem de forma oportunística em determinadas faixas, como é o caso do rádio cognitivo. E isso, caso não se tenha um cuidado com serviços de grande relevância social mas com baixa condição de defesa na recepção, como é o caso da radiodifusão sonora, haverá, seguramente, um alto risco de interferência por esses novos serviços.

Estudos estão sendo conduzidos pela UIT e em outras partes do mundo por institutos de pesquisas e universidades, mas até agora não concluíram seus trabalhos sobre os efeitos de novas transmissões em espaços existentes nas faixas de frequências regularmente atribuídas e licenciadas que carecem de tempo para comprovação da não interferência.

É muito importante para o radiodifusor ou o profissional da radiodifusão ter sempre informações atualizadas da qualidade do sinal em sua área de cobertura. Particularmente, sempre que ocorrer um sinal de interferência é oportuno que se saiba quando e onde ela começou e como está ocorrendo. Pois, um sinal conhecido – como é o caso da interferência tem um poder ofensivo maior sobre os receptores usados na radiodifusão, principalmente, o rádio que recebe essa interferência em seu sinal e que trabalha no limiar de recepção entre o sinal protegido e um sinal interferente conhecido numa determinada distância, mas em faixa de grande facilidade como é o que ocorre na Onda Média, na Onda Tropical e na Onda Curta.

Outro fator importante é o tipo do sistema que afeta os diferentes receptores de rádio, pois existe um número muito grande de tipos de receptores, e é importante que essa interferência afete a maioria dos receptores para caracterizar uma interferência no serviço.

É muito comum encontrar produtos fabricados pela indústria, que geram ruído radioelétrico. Esse ruído não pode ser confundido com interferência, mas causa um transtorno na recepção dos sinais do rádio, impedindo a recepção dos sinais das emissoras. O cuidado na identificação do tipo do sistema facilitará futuramente conhecer melhor os graves problemas de interferência que afetam nossas emissoras através dos receptores espalhados em sua área de cobertura.

A multiplicação de receptores móveis nos grandes centros com serviços de acesso à internet móvel quer seja por smartphones, tablets e outros, forçarão naturalmente a existência de estações rádio-base que dependendo da faixa que operarem causarão interferência em receptores fixos e móveis da radiodifusão.

Alguns países já destinaram uma faixa para a banda larga móvel. A Inglaterra, por exemplo, o fez através da Ofcom, seu órgão regulador, que estabeleceu a porcentagem de receptores da radiodifusão afetados nessa transição com a interferência do serviço banda larga móvel, além dos dos requisitos para salvaguardar esses receptores.

No Brasil, até 2016, com dois grandes eventos esportivos, espera-se uma explosão de receptores digitais, considerando que em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e Belo Horizonte, estima-se que número de receptores de televisão fixos e móveis chegue a 37 milhões nessa data. Assim, teríamos, seguindo as porcentagens da tabela acima, um número aproximado de 1,1 milhão aparelhos afetados por interferência e cerca de 37 mil aparelhos não poderiam ter seus casos resolvidos por alguma filtragem no receptor. Ver quadro a seguir com dados considerados apenas como estimativas.

Com o Rádio, essa vulnerabilidade é mais que aparente, mesmo com uma possível inclusão dos canais cinco e seis para a radiodifusão sonora, mesmo em FM a quantidade de ‘gadgets’ operando em VHF, pode-se dizer que o PLC (Power Line Communications – comunicações através de linha de força) é o carro chefe do nível exagerado de ruído e interferência, pois produzirá um efeito sobre a área de cobertura da emissora que equivalerá em porcentagem algo acima de 35 por cento.

Segundo o professor e pesquisador,Flávio Archangelo, em março de 2011 a British Broadcasting Company (BBC) desenvolveu estudo sobre interferências PLC, particularmente em VHF, em redes caseiras, internas e externas. Utilizaram receptores analógicos convencionais e receptores digitais no padrão Digital Audio Broadcasting (DAB), com antenas internas telescópicas e antenas externas.

O resultado divulgado é o que, realmente, assusta, pois redes PLC prejudicam a radiodifusão e, particularmente, a radiodifusão sonora quer seja analógica ou digital em sua área de cobertura, mesmo tendo algoritmos, códigos contra erros de decodificação, redundância e diferentes formatações para se tornar mais robusta contra as variações de propagação.

Outra importante observação vem do Secretário- Geral da UIT que no dia 02 de junho de 2011 declarou: “Há produtos PLC no mercado que não estão em conformidade com as normas de compatibilidade eletromagnéticas e isso é muito preocupante”.

Alguns países preocupados com critérios de interferência reservam parte do espectro, como é o caso da Inglaterra, para atender a demanda por novos serviços e também o grande tráfego de dados e de informação.

A discussão gira em torno de como prosseguir na avaliação de ruído e interferência gerados por esses novos serviços, em outros que utilizam a mesma faixa em outros países, e que ainda vão demorar no processo de migração tecnológica.

O PLC é um grave problema que precisa ser entendido e ter solução para a sua convivência com o serviço da radiodifusão. Outro flagelo que ameaça a recepção da radiodifusão é o Rádio Cognitivo que muitos até falam que se iniciará pelo interior dos países, ou será viável apenas no interior dos países, onde não faltam frequências e o seu uso poderia ser dado de forma menos oportunística.

A Conferência Mundial de Radiocomunicações, que ocorrerá em Genebra, em janeiro de 2012, decidirá uma importante regra para a discussão do Rádio Cognitivo mundialmente. Se for aprovada uma resolução na conferência ela terá que estabelecer todos os requisitos de convivência do novo serviço, inclusive respeitando as regras do Regulamento de Radiocomunicação (RR).

Mas, se por acaso a conferência decidir que a UIT estude o caso através de seus grupos de estudo, então, as administrações terão oportunidade de amadurecerem seus planejamentos vis-à-vis o desenvolvimento das pesquisas, que já começaram e, em alguns casos, não terminarão antes de 2015.

No Brasil a discussão está tomando corpo e o órgão regulador, a Anatel, tem conduzido esse trabalho sempre chamando a atenção para a necessidade de regulamentação para o serviço, a necessidade de avaliação do uso eficiente do espectro e a busca constante dos resultados das experimentações que têm sido desenvolvidas em todo o mundo, para que se faça uma avaliação de paradigmas. Existem alguns serviços que a própria UIT tomou a iniciativa de criar condições de proteção inicial e a Conferência Mundial partirá obedecendo esse pressuposto da UIT.

É sempre bom lembrar que serviços que têm relevância constitucional, como é o caso da radiodifusão, precisam ser mais bem considerados para que não haja mudanças de paradigmas pelas simples questões de quantidades de bits a serem transmitidos e o espectro necessário, de modo que essas não sejam as variáveis mais importantes da equação.

O fato é que ruído e interferência vão continuar existindo, mas é necessário que, digamos assim, ao se criar um novo serviço haja necessidade de convivência com outros serviços, que sempre estudos e testes de compatibilidades sejam exaustivamente elaborados para a certeza do correto processo regulatório.

Com o advento da digitalização do rádio é necessário que todos os setores envolvidos busquem aprimorar suas bases para que o rádio seja beneficiado em sua transmissão. Tornando-se imune ao ruído e a interferência, e que se busque reconhecer receptores com nível bom de qualidade e robustez.

Os produtos que geram radiofreqüências – que nunca passaram pelo crivo da Agência Reguladora chegando às residências e gerando ruídos e interferências prejudiciais ao serviço da radiodifusão – tenham a partir de agora um mecanismo de avaliação do grau de ofensa aos diferentes serviços que usam o espectro e foram aprovados em suas respectivas faixas de frequências.

Ao mesmo tempo, os dados levantados, testados e constatados de radio-interferência, que o Grupo Permanente de Radio-interferência – GPRI -, da Anatel, em seu trabalho constante e incansável, sejam objetos de divulgação e informação para fabricantes, usuários e a população em geral.

Muitos problemas de ruído e interferência poderiam ser resolvidos simplesmente se algumas regras básicas fossem adotadas, inclusive pela população que adquire um bem. Essas regras básicas são ditadas no mundo inteiro, como a verificação da qualidade do sinal que está recebendo; a segurança da instalação do equipamento de recepção; se os produtos utilizados estão gerando radiofrequências desconhecidas.

Aliados a isso, um programa do órgão regulador para facilitar a identificação e classificar os produtos que são disponibilizados no mercado e seu poder em gerar ruído será bem vindo, tornando necessário um selo de qualidade ou outra identificação qualquer para o produto criado pelo órgão regulador.

É uma preparação ao terreno para uma nova era que chega ao setor da radiodifusão e como diz o sábio Comandante Djalma Silveira Ferreira, “interferência é problema da recepção e não da transmissão. Cuidemos, pois dos nossos receptores.”

Não importa se hoje temos streaming de vídeo ou áudio, serviços de informação de trânsito, etc., o importante é que todos esses serviços precisam de confiabilidade em suas operações e caso não tenhamos sucesso no controle do ruído e da interferência, mais espectro será necessário para uma redundância cada vez maior dos bits de proteção, em detrimento dos bits de informação nessa era digital que mal começou.

 

Ronald é diretor de rádio da SET e diretor de tecnologia da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). Email: ronald@set.com.br