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RONALD BARBOSA – ENTREVISTA

Revista da SET – ANO XXI – N.115 – JUL/AGO 2010
Desafios e oportunidades para o Rádio.
Por Adriana Ferreira

Ronald Barbosa

A busca por tecnologias que adaptam o rádio aos novos tempos é a principal bandeira de Ronald Barbosa.

Os fatos históricos parecem mesmo repetir-se. Assim como ocorreu na década de 1950, quando surgiu a televisão e o rádio passou por uma grande transformação, mais uma vez o veículo experimenta um momento de transição, dessa vez impulsionado pela internet e pelo surgimento de novas tecnologias de recepção e transmissão.

E novamente as opiniões se dividem, alguns decretam o fim dessa mídia, outros enxergam para ela uma vida longa, acreditam que é uma questão de adaptação e de aproveitar as oportunidades emergentes. Ronald Siqueira Barbosa, diretor de Rádio da SET, defende a segunda teoria e atua, na prática, para introduzir o rádio nesse novo patamar tecnológico.

Barbosa sabe do que está falando, pois dedica grande parte de sua vida à radiodifusão. Com apenas 15 anos, ouvinte fiel de rádio, fez dois cursos por correspondência de técnico em rádio e televisão, anos mais tarde entrou no curso de engenharia da Universidade de Brasília, estagiou na Secretaria de Serviços de Radiodifusão e depois de formado foi contratado pela Radiobrás.

Além de dirigir a área de Rádio na SET, ele trabalha na ABERT desde 1981, é diretor de tecnologia. Faz parte do Grupo ABERT/SET de Televisão Digital que realizou os testes para a indicação de um padrão de transmissão para o Brasil. Coordena também o Grupo ABERT/SET de Rádio Digital.

Embora o governo ainda não tenha definido o padrão de transmissão digital para o Brasil, Barbosa continua acreditando na adoção do sistema e trabalha para que o rádio esteja adaptado às novas tecnologias e aos novos tempos. Na entrevista que nos concedeu expõe seu ponto de vista e fala sobre os desafios e oportunidades para essa mídia.

O senhor acredita que o padrão para rádio digital será definido ainda este ano? E em favor de qual padrão, o americano ou o europeu?
Este é um ano de muitos eventos, copa, eleições, portanto um ano difícil de ter resultado. Nossa esperança é que ainda neste governo tenhamos a definição do padrão, pois o governo está conduzindo os testes no padrão DRM (Digital Radio Mondiale), e ele precisa mostrar para a sociedade as conclusões desse trabalho com um relatório e resta ainda a comparação de resultados HD Radio e DRM.
Se não sair nesse governo, ficaremos dependendo de uma decisão de um novo governo que talvez não saiba do esforço despendido até agora e não dê a devida prioridade ao assunto. Porém existe um interesse muito grande e a diretoria da Abert está empenhada na busca de uma solução ainda este ano.

Quem sabe ambos (IBOC (In-Band On- Channel) para FM e DRM para AM) podem ser adotados?
Isso seria tecnicamente possível? Só vejo uma única alternativa de viabilidade se você tiver o DRM para ondas curtas. Porque o padrão DRM ainda carece de muito mais coisas em termos comerciais do que o IBOC (HD Rádio). Não há receptores no mercado internacional, não há um modelo de negócio e precisa ver se a Europa vai caminhar para o DRM. Ate agora nada indica que isso acontecerá.

E a solução de migrar as FM’s para o canal 6? O que o senhor acha disso?
Esse é um assunto antigo. Ele não tem muito a ver com a discussão do rádio digital. Mas tecnicamente, o canal 6 já é contíguo à faixa de FM. Por isso muitos pensam se tratar de uma simples questão. Mas a questão é mais profunda, pois no rádio se você fizer uma expansão, vai desocupar o canal de televisão para ocupálo com o serviço de rádio e isso pode levar muito tempo ainda, no mínimo até 2016, que é o que prevê o decreto da televisão digital. Por outro lado, o rádio é um serviço que internacionalmente tem o mesmo comportamento, reconhecido pelo Governo Brasileiro e aprovado por legislação, no Congresso Nacional. Há que se acompanhar o que acontece no mundo para se ter uma visão melhor. Há receptores? Embora muitos afirmem que produzir receptores que atendam a essa prerrogativa seja fácil, a pergunta continua; haverá receptores no mercado mundial? O certo é que rádio é o mesmo serviço em qualquer parte do mundo.

Não teria sido melhor que o Brasil tivesse desenvolvido o seu próprio padrão – quem sabe conjuntamente com outros países da América Latina?
Isso é muito bonito, mas deveria ter sido feito há 10 anos, pois não se gasta menos tempo que isso para desenvolver um padrão porque você tem indústrias de transmissão e recepção que precisam ser ouvidas para ver como vão fazer a adaptação de seus equipamentos. E o rádio sempre teve uma tecnologia com tendências mundiais, nunca foi uma tecnologia localizada. Há que ressaltar ainda a questão de recursos para pesquisas e o tempo de reconhecimento internacional do padrão brasileiro.

O que é mais viável acontecer: adotar o IBOC, adotar o DRM, os dois?
Na verdade, o que temos buscado nesse tempo todo é um caminho para que o rádio migre para tecnologia digital na transmissão e recepção e possa oferecer ao público uma qualidade melhor de sinal, porque no estúdio muitas emissoras já estão digitalizadas.
O rádio teria mais facilidade na oferta de novos serviços para o público com a digitalização. O que precisa agora é introduzir o setor de rádio na transmissão digital e abrir a discussão de novos modelos de negócio. E o melhor modelo para que o radiodifusor possa aproveitar o que ele já tem implantado é o IBOC, uma transmissão na mesma faixa que ele utiliza atualmente e no mesmo canal.
Se você for buscar um padrão na faixa de microondas, como o DAB ou mesmo num canal de televisão como o japonês, você vai ter de esquecer todas as suas estações para ir para uma instalação nova em outra faixa, outros receptores. Comercialmente o HD Radio está mais bem posicionado, continua sendo a melhor solução para o radiodifusor.

No aspecto tecnológico quais são as principais mudanças/adaptações que as rádios sofrerão para implantar o sinal digital?
No caso do AM você aproveita o sistema irradiante, vai fazer poucas adaptações na transmissão, desde que ele seja de algum fabricante que já tenha a tecnologia do IBOC prevista, é mais fácil fazer a adaptação para o IBOC. Eu não sei se os transmissores da indústria nacional estão prontos para essa adaptação. Muitos afirmam estar, resta apenas uma discussão comercial.
No caso do FM, pode ser que precise de outra antena para fazer a transmissão digital, isso vai depender da configuração que for utilizada. No AM é a mesma torre, apenas tem de verificar as condições de uso dela.
De modo geral, este momento pode servir como uma oportunidade para os radiodifusores reavaliarem as condições de toda a sua estação.

E quanto aos famigerados royalties para adotar o IBOC? Realmente não precisarão ser pagos, como foi anunciado pelo iBiquity? Os opositores do sistema usam os royalties como argumento para não adotá-lo.
O royaltie é uma questão de indústria, não se cobra royaltie de radiodifusor. O que o radiodifusor ia pagar e não paga diretamente ao iBiquity é uma licença, que já vem disponibilizada através dos fabricantes que detém a tecnologia em seus equipamentos. Quando você comprar o equipamento, teoricamente, estará tudo feito. Essa é a grande confusão. Na verdade, todos os padrões no mundo têm royaltie porque a indústria trabalha com royaltie. Mesmo aqueles que dizem trabalhar com uma tecnologia aberta, ela não é grátis. O fabricante nacional pode até ler a tecnologia do DRM, mas ele não pode produzir essa tecnologia aqui sem a DRM ou representantes do Consórcio virem aqui cobrá-lo pelos royalties.

Qual o reflexo da digitalização para a indústria brasileira de equipamentos?
Isso dá oportunidade para a indústria nacional ampliar sua abrangência de atuação, seja na recepção ou na transmissão porque se trata de uma tecnologia que está nascendo mundialmente. E não ocorrerá o mesmo que houve com a tecnologia analógica, que começamos com 30 anos de atraso. O que necessitamos é de recursos do governo para pesquisa e desenvolvimento, e não estamos vendo de onde vai sair.

Os engenheiros de radiodifusão estão preparados para trabalhar com o modelo digital?
Depois de toda essa discussão acho que não temos totalmente a expertise das tecnologias disponíveis no mercado. O que precisamos é ter acesso na prática, porque de tanto ouvir falar o engenheiro sabe os caminhos para conseguir informação, mas esse conhecimento só se torna efetivo quando ele tem esse equipamento em mãos para avaliar e manuseá- lo, variando alguns parâmetros, vendo o resultado que ele obtém, em termos de qualidade e robustez.

Muitos radiodifusores acreditam que o processo de digitalização perdeu o time e foi atropelado pela internet. Qual sua opinião?
Minha opinião é que a internet é um grande aliado, suporte à radiodifusão, mas eu não a vejo como algo que veio para substituir a radiodifusão, primeiro porque o Brasil é um país de dimensões continentais e não tem uma internet acessível uniformemente em todos os cantos, pois não tem um sistema de telecomunicações consolidado. E não sei se o governo vai oferecer internet grátis, porque o que sabemos é que depois das 18h00 o número de acessos à internet cai para menos de 10% da população.
Leva-se muito tempo para ampliar esse acesso. Se o governo trabalhar muito agora, pode ter resultado daqui a 20 anos. Não é à toa que o governo quer ressuscitar a Telebrás.

Sem a digitalização, o rádio vai morrer? Quanto tempo mais o rádio agüentará sem se digitalizar?
Quem sou eu para determinar a morte de quem quer que seja, muito menos de um setor. Nós estamos trabalhando, buscando uma tecnologia para adaptar o rádio aos novos tempos. A mobilidade e a portabilidade, que eram exclusivas do veículo rádio, agora já são um objetivo de todos os outros setores de comunicação. Então, o que nós queremos é ver o rádio inserido em todas as mídias que forem entregues ao público. Se demorarmos muito, não haverá rádio nas outras mídias. Nós já observamos que muito pouca gente entra num shopping center para comprar exclusivamente um receptor de rádio. No setor, nunca avaliamos o número de receptores que são vendidos ano a ano.
Precisamos trabalhar para incluir em todas as mídias o veículo rádio, por exemplo, se você gosta do serviço por assinatura você pode ter o seu sinal de rádio dentro da sua TV por assinatura. Estou falando em fazer rádio, não transmissão apenas de áudio. Rádio é locução, é vida, é a manifestação viva da população.

Qual o papel da SET nesse processo de transição do rádio?
O importante papel da SET é que ela consegue disseminar o que tem de importante de rádio digital para os engenheiros, do mesmo jeito que fez para a televisão. De alguma forma a SET se envolve nessa discussão, que é técnica, política e até gerencial. Mas é importante que o engenheiro associado da SET esteja a par dessa tecnologia.

Quanto à migração de canais, o que o senhor acha: da faixa de FM ser estendida para os canais 5 e 6 de TV, para atender as emissoras de FM? E da faixa de FM ser estendida para os canais 5 e 6 de TV, para migrar as emissoras de AM?
Estão querendo ampliar as faixas para abrigar as estações de AM, uma proposta antiga, de estender a faixa no canal 6 e agora estão indo para o canal 5. Mas até 2016 pode ser que surja algo novo que requeira a permanência da televisão ainda nessa faixa por outro período.
Isso não tem nada a ver com rádio digital e sim com planejamento de espectro e com a legislação que está envolvida nisto. Você vai passar uma estação AM, que muitas vezes é uma concessão, para um serviço de FM, que é uma permissão. Outra coisa, o governo ainda não demonstrou para nós que ele tem controle sob as estações piratas e, logicamente, a estação AM individual pode querer ir para a FM, mas junto com ela podem estar indo centenas de estações piratas. Temos de esperar os países desenvolvidos migrarem para essas faixas também, senão não teremos receptores para elas. Não é simplesmente querer e na seqüência o fabricante passar a produzir.

Adriana Ferreira é editora da Revista da SET – email: adriana@embrasec.com.br