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Radiodifusão e satélite: Uma dupla com futuro

Nº 148 – Jan/Fev 2015

por Carlos Espinós

ARTIGO

O setor da radiodifusão via satélite está em um momento de plena efervescência e oferece um interessante horizonte para a inovação tecnológica que terá de responder aos múltiplos desafios

Osetor da radiodifusão vive um momento apaixonante de mudanças e novidades de todo tipo, mudanças de tecnológicas, de hábitos de consumo e de modelos de negócio. Alguns já fazem prognósticos proféticos sobre a morte, que dão por certa, da televisão linear, aquela que se vê na tela de casa, com programações preestabelecidas. Dizem que em um futuro quase imediato a televisão só será vista na Internet e à la carte, em diferentes dispositivos e em qualquer lugar.
No entanto, não será exatamente assim, pelo menos na próxima década. É verdade que estão surgindo novas formas de se ver televisão, mas os dados mais rigorosos e recentes apontam, primeiramente, que o número de residências com televisão no mundo vai aumentar em mais de 120 milhões até final de 2015. Outro dado importante é que, de todas as tecnologias que transportam estes conteúdos, as que mais vão crescer são as plataformas de televisão DTH, que emitem através de satélites, com um aumento de 100 milhões de residências (de fato, segundo um estudo da Digital TV Research, os lucros da televisão via satélite ultrapassarão os da televisão a cabo ainda nesse ano), enquanto a TV a cabo crescerá mais 62 milhões e a IPTV não ultrapassará os 45 milhões.
Assim, a tela e os formatos mais tradicionais para se assistir a conteúdos audiovisuais continuam a ter sucesso.

A Euroconsult prevê que a oferta de canais lineares aumente 50% em 10 anos, atingindo 48.000 em 2021. Dentro destes, o aumento dos canais em alta definição (HD) será ainda maior, já que se triplicarão, passando dos 5.600 de 2012 aos 17.000 estimados para 2021.
Nos últimos anos, notoriamente, o consumo de televisão também está aumentando, mas ainda hoje é claro o predomínio da televisão linear como tendência face à televisão sob demanda. Segundo um estudo da consultora IHS, esta prevalência continuará nos próximos anos: mesmo que a proporção vá decrescendo, em 2017, os canais tradicionais ainda ultrapassarão no mínimo 75% do mercado televisivo inclusive nos países mais avançados tecnologicamente, enquanto o consumo de televisão on-line não passará de 7% e o vídeo pago atingirá no máximo 5%. Dentro da televisão paga, em 2017, a quota de mercado dos serviços OTT não ultrapassará 10% nos Estados Unidos, um dos países com maior desenvolvimento dos mesmos; e isso apesar de que quase vão duplicar os números de negócio neste período.

Todas estas informações nos indicam, portanto, que estão sendo dados os primeiros passos para uma mudança de paradigma no mundo dos conteúdos audiovisuais e na forma de consumi-los, mas que esta mudança não vai significar o fim da televisão tal como a conhecemos até agora. O que sim está evoluindo muito depressa é a exigência dos usuários com relação à qualidade das imagens e a possibilidade de vê-las onde e quando quiser, assim como as tecnologias que permitem responder a estas demandas. Estas exigências são as que vão marcar o futuro da televisão.

O 4K como carro-chefe
A tecnologia que está permitindo aumentar sensivelmente a nitidez das imagens e melhorar a experiência imersiva dos usuários é a Ultra Alta Definição (UHD). O 4K multiplica por quatro o número de pixels da alta definição convencional, conseguindo uma resolução muito maior (4.096 x 2.160). Mas não é só isso; a UHD significa também maior frame rate, que aumenta a resolução temporal para perceber as imagens em movimento com maior qualidade, uma gama de cor mais ampla e maior profundidade de bit, o que permite melhorar a transição entre cores, bem como um aumento do range dinâmico para visualizar melhor os detalhes em condições de pouco contraste.
A qualidade de imagem é um dos fatores mais relevantes para o cliente de TV paga, o que torna a distribuição de canais em 4K uma vantagem competitiva para as plataformas de televisão. Além disso, os preços das televisões UHD diminuíram de forma exponencial no último ano, e espera-se que em um ou dois anos sejam equivalentes às atuais televisões HD. Por outro lado, já existem muitos conteúdos, como as produções cinematográficas, que estão sendo produzidas em 4K. Tudo isso nos faz acreditar que o desenvolvimento comercial desta nova tecnologia vai ser rápido, mais ainda do que foi o do HD. E esperamos que o satélite, que teve um papel preponderante no desenvolvimento da alta definição ou no da digitalização da televisão por ser o canal mais eficiente para difundir tanta quantidade de informação, possa ser também o meio de referência neste novo processo.
No entanto, para conseguir uma rápida implantação desta tecnologia nas residências, o uso de diferentes complementos que tornem viáveis a sua implementação será imprescindível. Um deles é o padrão de codificação HEVC (High Efficiency Video Coding), que foi publicado em Janeiro de 2013 e está destinado a ser um elemento chave no desenvolvimento da difusão em 4K, melhorando em 50% a eficiência da codificação em comparação ao padrão anterior, o MPEG-4. Esta via de trabalho também está sendo explorada no setor dos satélites. Para conseguir uma maior eficiência na transmissão, se desenvolveu uma atualização do sistema DVB-S2, chamada DVB-S2X, que permite um aumento de 30% a 40% na eficiência para serviços bidirecionais e em torno de 10% para serviços unidirecionais, como as plataformas de DTH clássicas.
A utilização combinada do HEVC e o DVB-S2X permitirá uma melhora na eficiência de até 60%, o que facilitará enormemente a implementação da UHD ao conseguir uma melhor utilização das bandas de frequência e preços mais ajustados. Espera-se que coincidindo com os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, estes novos sistemas de codificação e transmissão permitam transmitir o 4K em larguras de banda similares aos do HD em seu início. O calendário, similar ao da implantação da alta definição, poderia se concretizar inclusive em um menor período de tempo, graças ao entusiasmo que desperta esta nova tecnologia entre indústria, operadores e consumidores.

Liberdade multi-tela
Além de maior qualidade de imagem, os consumidores querem ter acesso aos conteúdos audiovisuais a partir de qualquer dispositivo, em qualquer momento e lugar.
Não seria uma renúncia à televisão linear, que continua sendo a rainha das telas domésticas, mas agora se somam outros dispositivos e outros formatos e se consome cada vez mais televisão fora de casa, mesmo que em proporções ainda pequenas. A televisão multi-tela já é uma realidade em todo o mundo, mas a maior parte do consumo televisivo continua sendo feito de casa em todos os tipos de dispositivos: televisões, computadores de mesa, portáteis, smartphones ou tablets.
Recapitulemos. Se o consumo de conteúdos audiovisuais multi-tela cresce, se este continua a ser realizado especialmente em casa e se os canais tradicionais são assistidos maioritariamente, a conclusão é que o satélite é o melhor meio para a transmissão dos mesmos por sua capacidade, cobertura global, alta qualidade e versatilidade. A integração dos serviços de radiodifusão por satélite nas redes IP (Internet Protocol) e, assim, a conversão do sinal do satélite para IP é o elemento estrutural da experiência multi-tela em casa, já que permite a distribuição destes conteúdos, em alta qualidade e de forma simultânea e personalizada, para qualquer um dos dispositivos conectados à rede IP doméstica. As vantagens da distribuição IP são evidentes: expande a experiência da televisão tradicional para os novos dispositivos em qualquer localização, libera o tráfego das redes de banda larga e fornece valor agregado ao conteúdo dos operadores de TV por assinatura. Esta integração dos sinais satelitais nas redes IP vai permitir que todas as melhorias alcançadas até agora em termos de qualidade, quantidade e ubiquidade dos conteúdos televisivos do satélite possam ser desfrutadas de forma mais rentável por operadores e consumidores, já que as redes já existentes poderão ser aproveitadas e otimizadas. No Grupo HISPASAT, trabalhamos em diferentes projetos para alcançar este objetivo, como a implantação do protocolo de telecomunicações SAT>IP, através do qual o sinal do satélite é transformado em IP no ponto de recepção graças a um pequeno servidor que pode ficar localizado na própria antena ou na casa do usuário, sem ter de realizar instalações complexas nem gerar custos adicionais. Assim, esta tecnologia permite oferecer conteúdo via satélite de alta qualidade em todas as telas da casa de uma forma mais eficiente.
Estes mesmos princípios guiaram o projeto de inovação ICT2020, liderado pela HISPASAT, que trabalhou na otimização das Infraestruturas Comuns de Telecomunicação (ICT), com o fim de aproveitar os recursos já existentes nos prédios para o desenvolvimento de tecnologias e serviços de telecomunicações e de melhorar a sua utilização para suportar maiores volumes de informação, com soluções que permitem a integração entre o satélite e a fibra óptica.

Um horizonte híbrido
Definitivamente, o setor da radiodifusão via satélite está em um momento de plena efervescência e oferece um interessante horizonte para a inovação tecnológica que terá de responder aos múltiplos desafios, tais como a demanda dos usuários, a convergência de formatos e redes e as mudanças que já estão acontecendo no modo de se ver televisão. Um horizonte que, como vimos, será híbrido e onde conviverão diferentes formas de consumo de conteúdos audiovisuais, lineares e sob demanda, de transporte de sinais e de tipos de tela.
Para os profissionais do setor de satélite se abre, assim, um interessante caminho no setor de radiodifusão, já que os conteúdos audiovisuais estão se tornando o serviço mais apreciado pelos usuários. O interesse que as operadoras de telecomunicações estão demostrando em oferecer este tipo de serviço de valor agregado a seus clientes o coloca em evidência. As empresas telefônicas não querem ficar à margem do crescente mercado de conteúdos nem se limitar a ser apenas aquelas que transportam voz e dados, e estão adaptando as suas estratégias comerciais para integrar televisão e cinema.
E o satélite pode ter um papel muito importante em toda esta evolução. Ele já é um elemento chave na distribuição de conteúdos audiovisuais, tanto de forma direta nas plataformas de DTH, que transmitem seus sinais através de satélites, como nas redes de TDT (Televisão Digital Terrestre) e de TV por Assinatura, onde atua muitas vezes como conexão entre as cabeças de rede. Além disso, também poderá se integrar às redes IP para distribuir conteúdo via satélite a todos os tipos de dispositivos domésticos. E está liderando a difusão de conteúdo 4K de alta qualidade. Pela sua grande capacidade, que permite uma transmissão com altíssimos níveis de qualidade; porque pode chegar a qualquer ponto da Terra, coisa que as redes terrestres nem sempre conseguem; e pelo seu alto desenvolvimento tecnológico e a facilidade de desenvolvimento de sua rede, o satélite está destinado a tornar-se uma das principais tecnologias para a radiodifusão. Agora nos cabe trabalhar para transformar todas estas potencialidades em vantagens competitivas que nos permitam atingir este objetivo. Um desafio apaixonante para todos os atores envolvidos neste filme.

Carlos Espinós é CEO do Grupo HISPASAT. Trabalha na área desde 1990 ocupando cargos directivos de grandes empresas. Em 2014 foi escolhido pelo Colégio Oficial de Engenheiros de Telecomunicação de Espanha (COIT) e a Associação Espanhola de Engenheiros de Telecomunicações (AEIT) como o Engenheiro do ano no país.