• PT
  • EN
  • ES

A radiodifusão e o consumo de energia eléctrica

Nº 140 – Fev/Mar 2014

Por Ronald Barbosa

Artigo

Setor de Rádio e Televisão, oficialmente chamado de Setor de Radiodifusão reúne um número expressivo de emissoras de altas, médias e baixas potências de radio e de televisão que demandam num período de 24 horas diário, energia e potências elétricas de valor significativo no cenário do Distrito Federal, nos Estados e em todo Brasil.
A radiodifusão propugna por oferecer à população sinal de entretenimento, informação, educação e cultura, bem como disseminar os programas de utilidade pública que são estabelecidos pelos diversos níveis no Governo Federal.
Durante muitos anos buscaram-se informações e ofertas de condições para a atualização dos parques instalados das emissoras, de forma a assegurar uma economia de consumo de energia e a que a energia gerada pudesse ser aproveitada por toda a população, sem riscos futuros de apagões e falta de energia. Em um momento que há incentivos governamentais para empresas que investem em tecnologia que favoreça a sustentabilidade do ecossistema, trazemos a público um quadro de consumo energético das emissoras de rádio e televisão e gostaríamos da consideração sobre a possibilidade de discutirmos uma nova proposta de tarifação para as emissoras que são nossas afiliadas.
O preço da energia elétrica para o setor da radiodifusão, não tem sido levado em conta em nenhum cenário de discussão da regulamentação de energia elétrica no Brasil, nem faz parte da segmentação clássica de consumidores de energia elétrica existente. Nas considerações abordadas neste documento, primeiro será feita uma apresentação das diferentes características do setor da radiodifusão brasileira. Em segundo lugar, uma estimativa de consumo de energia elétrica do setor da radiodifusão, bem como a caracterização do que é um grande consumidor de energia elétrica.
Uma inferência dos resultados de consulta a A BRA – DEE sobre comercialização de energia pelas distribuidoras, e ao impressionante valor de produção de potência gerada de 118.866.137 kW (Fonte: Banco de Dados da Geração / ANEEL, agosto de 2012).
Se junta a esse dado, as informações da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica – CCEE, como única operadora do mercado brasileiro de energia elétrica, reconhecida pela A gência Nacional de Energia Elétrica – A NEEL, responsável pela viabilização do ambiente de negociação. Assim é possível reconhecer um grande consumidor de energia elétrica.
Um ponto importante é o consumo por setor para identificação e nova divisão, para inclusão do setor da radiodifusão como um grande consumidor de energia elétrica. Um importante dado comparativo é o custo da energia de consumo entre os países para saber a real situação brasileira frente aos consumidores de outras nações.
Os novos conceitos de energia sustentável e renovável, bem como a de energia limpa que podem ser adotados pelas emissoras de rádio e televisão, no sentido de contribuir com uma política de energia sustentável.
Com o advento das transmissões digitais, as emissoras deverão num longo período realizar dupla transmissão de televisão, uma analógica e outra digital, devido a migração pela população para a tecnologia digital ser lenta e com isso, encarecendo sobremodo o custo de exibição de programas.
Nas considerações finais iremos abordar os resultados que são esperados nesse primeiro trabalho, pioneiro e, portanto, original, sobre as possibilidades de ter o setor da radiodifusão como um grande consumidor de energia elétrica. Assim, pode-se ter uma grande avaliação do índice tarifário que é utilizado por diversas emissoras em todo o território nacional.

Consumo eléctrico do setor
Quando se quer avaliar o consumo elétrico do setor da radiodifusão depara-se com uma informação de classificação, que muitas vezes é apresentada em cenários internacionais, onde essa classificação se baseia em nível de tensão ou usuário final doméstico, criando uma dificuldade para enquadramento dos serviços de radiodifusão e suas estações.
No trabalho intitulado “Segmentação de Energia Elétrica por Nichos Especiais” de A na Lúcia Rodrigues da Silva e Gilberto De Martino Januzzi é dito que: “A segmentação clássica dos mercados consumidores utilizada inclui apenas nível de tensão, classe tarifária e segmentos econômicos, sendo utilizada para as projeções de mercado de energia elétrica.” Isso significa que a vontade em classificar os diferentes nichos especiais de consumidores de energia elétrica começa a despertar nos pesquisadores a necessidade de uma nova lista que contemple ou tros setores da sociedade, que são consumidores de expressão, contribuem para que a sociedade tenha uma alternativa de entretenimento, operam seus equipamentos durante 24 horas, diuturnamente, mas que fazem parte de um mercado cativo de consumo de energia elétrica, onde a relevância do seu papel, não recebe nenhum destaque governamental.
A radiodifusão atualmente conta com um número expressivo de estações divididas da seguinte forma: Emissoras de Rádio (OM, OC, OT e FM): 10.000 licenciadas. Emissoras de Televisão (Geradoras): 600 estações. Retransmissoras Primárias de Televisão: 8.000 estações. Retransmissoras Secundárias de Televisão: 15.000 estações. Estações de Radiodifusão Comunitária: 6.000 estações.
Esse impressionante número de estações em seus estados, municípios e comunidades carecem de uma política de consumo de energia elétrica que certamente aglutinará a indústria dedicada a produzir equipamentos de estúdios, transmissão e recepção.
O público doméstico consumidor tem entre outros produtos de consumo de energia elétrica, cerca de: 300 milhões de receptores de rádio; 60 milhões de receptores de televisão; 5 milhões de Tablets e celulares.
Esses produtos ainda são dedicados, exclusivamente, à recepção de sinais de rádio e televisão.
Futuramente, com a consolidação da transmissão digital o receptor ampliará sua capacidade de oferta de serviço, contemplando outros setores. Por exemplo, um Tablet não é simplesmente um receptor de televisão ou de rádio.
Existem características de consumo que podem ser identificadas como características comuns entre setores ou clientes. Isso facilitaria uma participação mais efetiva na segmentação do setor de energia elétrica. Não sabemos como tratar essas características comuns, mas gostaríamos que elas fossem levantadas numa ampla discussão, inclusive com a participação do setor de radiodifusão.
As estações de radiodifusão são divididas em cada modalidade de serviço em classes de estação que variam, de baixa potência a alta potência, em cada serviço. Por exemplo, uma estação de FM C omercial de baixa potência transmite com potência efetiva irradiada de 300 W. Por outro lado, uma estação de FM Comercial Classe Especial transmite com potência efetiva irradiada de 100 kW.
O consumo de energia elétrica no Brasil já ultrapassou a marca de 412,130 TWh e, logicamente, em dois setores a radiodifusão pode estar incluída. No setor comercial pela característica de seu serviço, que teve um consumo de 58,535 TWh e no setor industrial pela atividade ininterrupta no dia-a-dia, mesmo em feriados e dias santos, que teve um consumo de 192,616 TWh. Esses dados são de 2007, porém publicado pelo Boletim Energético Nacional – BEN, 2008.
Segundo informações do BEN, 2013, de todo o consumo energético nacional, a energia elétrica está com 16,9% por fonte o que equivale 498,4 TWh. É imprescindível uma identificação dos usuários desses dois setores, pois a estimativa do número de consumidores ligados à rede elétrica pelo Programa Luz Para Todos nas grandes regiões foi possível graças a um grande esforço do Ministério das Minas e Energia. Sabemos que nos últimos anos houve um aquecimento econômico no Brasil e isso se refletiu claramente no consumo doméstico, pela facilidade na aquisição de novos produtos elétricos e eletrônicos, bem como nas facilidades de crédito. No caso das emissoras está havendo também uma expansão no consumo, em virtude da necessidade da transmissão em dois formatos, analógico e digital, pois existe um legado analógico e a migração para produtos de consumo digital não é tão rápido quanto imaginamos.
As emissoras precisam ampliar sua base instalada para transmitir com duplicidade sua programação, não há possibilidade e nem interesse em interromper sua transmissão analógica. Por outro lado, o setor de radiodifusão poderia, mesmo num período de transição da tecnologia analógica para a digital, ter uma tarifação diferenciada da sua energia consumida, como incentivo para uma rápida migração.
A tecnologia digital é sem dúvida alguma um avanço em termos de produtos melhores acabados. Isso ocorre tanto na produção de conteúdo, nos equipamentos de transmissão quanto nos equipamentos de recepção.
Para as emissoras, uma tarifa de energia elétrica diferenciada, particularmente para aquelas que utilizam a energia de distribuidoras, e mesmo as que buscam no mercado livre, seria uma forma de mostrar a outros setores da sociedade que o governo está atento para quem investe em qualidade e tecnologia e busca um uso eficiente da energia elétrica que está disponível.

O que é um grande consumidor de energia eléctrica
Segundo a própria A NEEL, um grande consumidor de energia elétrica é medido pela demanda e pelo consumo de energia elétrica, bem como pela tensão de fornecimento que recebe e essa pode variar até um patamar de 230 kV ou mais. Essa característica não define plenamente os diferentes atores de consumo em determinado setor, para caracterizar um grande consumidor de energia elétrica.
Essas características acabam criando bandeiras tarifárias que fazem distinção entre consumidores. Porém, essas bandeiras não informam sobre a singularidade de cada consumidor. Na R esolução nº 479, de 3 de abril de 2012 é prevista essa condição: “Art. 2º: V-A – bandeiras tarifárias: sistema tarifário que tem como finalidade sinalizar aos consumidores faturados pela distribuidora por meio da Tarifa de Energia, os custos atuais da geração de energia elétrica”.

Um quadro-resumo que poderia servir de informação sobre as potências utilizadas na radiodifusão é dado a seguir:

Não há uma diferenciação com relação a energia utilizada, nem quanto aos fins a que se propõem os clientes, como também às suas diferenças. É gerada uma tabela, em que se classificam consumidores to tipo “A” e do tipo “B” que não demonstra claramente esses consumidores. Ver tabela. R esolução Aneel nº 418, de 23/11/2010 e R esolução A neel nº 479, 03/04/2012.
Há uma necessidade de segmentação diferenciada, baseada nas classes sociais, por exemplo, que são atingidas pelo produto de determinada empresa comercial. A radiodifusão atinge todas as classes sociais sem distinção, por ser um serviço gratuito. Sabemos que a maioria das empresas comerciais atende determinado nicho da população. Porém, não tem a abrangência no atendimento de toda a população em suas representações, características e poder aquisitivo.
Outro ponto importante é com relação ao montante constante da fatura de energia elétrica. Esse é um ponto de destaque no trabalho da Prof.ª Ana Lúcia Rodrigues da Silva. Quando ela em suas conclusões cita os seguintes pontos:
“Foram considerados como potencialidades de segmentação industrial os seguintes critérios: localização geográfica da unidade consumidora, montantes envolvidos nas faturas de energia elétrica, setor de atividade produtiva, tipos de composição acionária e gestão das empresas clientes, tipos de utilização da energia elétrica nas instalações dos clientes, grau de sofisticação tecnológica empregada no processo produtivo e de comercialização, relação custo-benefício representada pelo cliente, fatores comuns de compra no que se refere à quantidade e freqüência, e características de burocracia, flexibilidade e fidelidade das unidades de decisão de compra; abordagem de compras (níveis de decisão e filosofia); fatores situacionais (urgência em relação aos produtos e serviços, sua aplicação e volume), características pessoais dos compradores e finalizando, o segmento representado pelos ex- -clientes da empresa.”
Por exemplo, o custo anual médio de consumo de energia das emissoras de rádio e televisão poderia ser uma referência para avaliação da característica de um grande consumidor de energia elétrica.
Outra referência poderia ser o setor como grande consumidor de energia elétrica, nesse caso a identificação dos setores consumidores viabilizaria uma classificação para grandes consumidores de energia elétrica.
Embora a demanda de eletricidade possa variar ao longo do dia de forma momentânea é certo que para as emissoras, esses períodos de demanda atípicos variam de emissora a emissora, de cabeça- -de-rede a cabeça-de-rede, bem como ao longo de determinado mês e ano. Em todos os casos, há um padrão de demanda que caracteriza as emissoras e é conhecido pelas empresas distribuidoras de energia elétrica. Por exemplo, uma demanda da empresa PJM Interconnection durante uma semana, no mês de julho de 2013, dados da EIA.
O conhecimento de uma curva de demanda para o setor de radiodifusão seria de vital importância, para balizar futuros entendimentos de consumo, tarifação e economia. Claro, que se não disponibilizamos de dados nessa forma, pode-se começar com uma curva anual sobre demanda e consumo para o setor.
Um transmissor de baixa potência até 5 kW tem uma alimentação monofásica em 220 V, por outro lado, um transmissor de alta potência de 200 kW tem uma alimentação trifásica de 380 V, podendo ser também 440 V (depende do formato de alimentação).
De toda a forma, o consumo de uma grande emissora em kWh ou kVAh, varia de município para município, de potência e de serviço, assim podendo ser bem superior a 34 kVA. Isso já permitiria abrir um diálogo sobre como classificar todos os atores envolvidos no setor.
A tecnologia digital permite a todas as emissoras, uma atualização do parque instalado para a implementação da tecnologia na estação e a implantação em todo o território nacional.
A televisão digital, por exemplo, uma tecnologia digital disponível às emissoras e à população, que está em plena fase de implantação pelo País, sem dúvida alguma trará inúmeros benefícios para a população em geral, primeiro por causa da ótima qualidade de áudio e vídeo disponível, segundo por causa da flexibilidade em termos de robustez e payload, terceiro por causa da interatividade e também a mobilidade.
Todos são fatores para que a população tenha produtos de alta tecnologia e baixo consumo de energia. O mesmo ocorre com as emissoras. Ao atualizar equipamentos de produção, pós-produção, gravação, externas, distribuição e transmissão, a tecnologia digital para as emissoras promoverá uma revolução em todo o parque instalado das emissoras.
Contudo, essa atualização não está se dando no formato de substituição de um equipamento por outro mais moderno. O que ocorre realmente é que as emissoras se veem na condição de duplicar os equipamentos instalados. Isso significa que se há redundância em equipamentos para a transmissão analógica, o mesmo ocorre com os equipamentos para a transmissão digital.

* Continuará na edição 141 da Revista da SET

Ronald Siqueira Barbosa
Consultor de Tecnologia da Associação Brasileira de Radiodifusores – ABRA , e Prof. de Sistemas de Comunicação no IESB