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Programa Piloto

PRODUÇÃO DE PONTA A PONTA

Produção

Por Nadia Hatori

A produção de programas para televisão requer altos investimentos por parte de emissoras e produtoras. As produtoras precisam “emplacar” seus projetos e as emissoras exibidoras precisam ter retorno financeiro com inserção de publicidade comercial, patrocínios e outras modalidades de captação de recursos que são diretamente proporcionais ao sucesso que tais programas obtêm junto à audiência. A avaliação das ideias e projetos para novos programas é uma preocupação constante de todos os profissionais que dirigem uma empresa de comunicação de massa como é a televisão. Um dos instrumentos utilizados por eles é o programa piloto.

O programa piloto ou simplesmente “piloto” é um programa de televisão que dá inicio (ou não) à produção de um número maior de programas. Não se trata do programa de estreia, mas sim de um programa produzido e gravado para fins de avaliação, dependendo de aprovação para se transformar em série ou programa regular de uma grade de programação. Existem diferentes tipos de programas pilotos. Vejamos alguns.

Piloto teste de audiência
Um piloto pode ser utilizado por uma emissora de televisão com a finalidade de sondar a reação da audiência. Neste caso um determinado programa é levado ao ar e os índices de audiência obtidos são utilizados para medir o interesse do público por aquele produto. Se os índices forem favoráveis, a emissora passa então a investir na produção de um número maior de programas e planejar a sua estreia como programa regular da grade de programação.
Além da medição feita pelos institutos de pesquisa de audiência, o programa pode ser avaliado por um focus group (grupo de discussão). Este tipo de pesquisa oferece dados mais detalhados sobre a percepção do público e pode orientar mudanças, aperfeiçoamentos ou até mesmo o abandono do projeto. Os produtores atualmente dispõem de outro recurso potencial de pesquisa de opinião que é a internet. Embora a utilização da web para este fim ainda não esteja devidamente sistematizada, seus usuários já criaram as próprias redes de troca de informação sobre as programações das emissoras de TV. Nos Estados Unidos o TVGuide.com continua a expandir suas características de social TV com o lançamento do Social Power Rankings, uma lista atualizada constantemente dos mais comentados programas de TV com dados obtidos via Internet e usando vários aplicativos. (Fonte: http://www.lostremote. com/2011/09/08/tvguide-com-launchessocial- tv-power-rankings/)

Spin-off
Um spin-off é, genericamente falando, alguma coisa desenvolvida a partir de outra coisa já existente. Pode ser um novo produto que utiliza a marca de outro produto bem conhecido ou mesmo uma transação empresarial na qual uma empresa é gerada a partir de outra. O conceito de spin-off é muito conhecido nos meios de entretenimento; são produtos midiáticos criados a partir de outros que já existem e que conservam um ou mais personagens ou cenários do produto original. Desta forma histórias em quadrinhos se transformam em filmes, livros em séries de TV, séries de TV em games e por aí afora. Estimuladas pelos canais de televisão as produtoras se incumbem de gerar inúmeros spin-offs que alimentam as programações. Neste caso, a série original acaba funcionando como piloto para a criação de outra série, extraindo da primeira os elementos que foram melhor avaliados e mais bem aceitos pelo público telespectador.

O reallity A Fazenda comprado pela Rede Record foi criado pela Strix Television uma produtora sueca e vendido para mais de 40 países. No Chile tornou-se La Granja na primeira temporada, La Granja VIP na segunda e Las Granjeras protagonizado só por mulheres, na terceira temporada. O seriado Law & Order é um campeão de spin-offs. Mas, isso nem sempre é garantia de sucesso. Joey é um spin-off da série de enorme sucesso, Friends, da NBC porém, não obteve o resultado esperado e saiu do ar abruptamente após a segunda temporada . (Fonte: http://www.crazyabouttv. com.html)

Os diretores artísticos das emissoras usam de várias estratégias para testar uma ideia, um formato, um personagem ou um apresentador. É comum escalarem como convidado de uma ficção um ator ou uma atriz cogitado para estrelar um próximo projeto.

Piloto demo ou piloto para “pitching
Pitch é uma palavra do inglês relacionada ao ambiente comercial e diz respeito aos argumentos utilizados para valorizar um produto no ato da venda e persuadir alguém a comprá-lo.

No caso da televisão, consiste de uma apresentação a um grupo de diretores de uma emissora de um ou mais projetos de programas de TV pelos seus criadores, roteiristas ou diretores artísticos.

Não é da tradição das emissoras de radiodifusão brasileiras a compra de programas realizados por terceiros. Esta realidade, entretanto, vem mudando paulatinamente, primeiro com a concessão de exploração de canais a cabo e por satélite na década de 1990 e, mais recentemente, com a digitalização de sinais de televisão que permitiu a ampliação expressiva do número de canais, acirrando ainda mais a disputa pela audiência. Neste novo cenário do mercado de telecomunicações no Brasil (e em várias partes do mundo) o barateamento dos custos, a criação de novidades, e o estímulo à produção independente têm movimentado o mercado de produção audiovisual.

Veja o anúncio publicado recentemente pela TV Brasil em seu site:

TV Brasil lança pitching para a série Nova África A TV Brasil lançou nesta segundafeira, 22 de agosto, o Edital do Concurso/Pitching para a produção da segunda temporada da série de programas jornalísticos intitulada “Nova África”. […] A série será composta por 26 episódios de 26 minutos de duração cada um. As inscrições podem ser feitas a partir desta terça-feira, 23 de agosto, até o dia 6 de outubro de 2011. Os programas deverão retratar a realidade. (Fonte:http://tvbrasil.org.br/pitching/)

Quando os projetos são aprovados num pitching as produtoras investem, então, na realização de um programa piloto que passará ainda por outras avaliações para finalmente obter o apoio financeiro total ou parcial, em sistema de co-produção, para realização de um determinado número de programas (geralmente treze) que serão exibidos numa primeira temporada. Dado os custos elevados de produção, o programa piloto demonstração ou “demo” tem entre 15 e 20 minutos de duração. Na etapa do programa piloto, a proposta inicial pode ser aperfeiçoada ou modificada de acordo com as orientações da direção da emissora que aceitou o projeto.

Nos Estados Unidos, onde o mercado de produção para televisão é muito forte, a temporada de “pitching” acontece principalmente no outono (setembro/ outubro) logo após as estreias que ocorrem nesta época. Este é um período de muita movimentação no mercado de entretenimento daquele país e as disputas por bons projetos, bons roteiristas, bons diretores e por elencos qualificados movimentam milhões de dólares. Estima-se que para 300 pitches realizados, cerca de 50 roteiros são autorizados e apenas de seis a dez pilotos são efetivamente produzidos. (Fonte: http://www.museum. tv/eot vsection. php?entrycode=pilotprogram)

Piloto não intencional
Acontece, com certa frequência, de um programa exibido como ” especial”, ser muito bem aceito pelo público, funcionar como um programa piloto não intencional e transformar-se em série ou programa da grade de programação de uma emissora. A série humorística Batendo Ponto, estrelada por Ingrid Guimarães, se originou de um especial exibido pela rede Globo no fim de 2010. Enquadrado no formato de série, o programa estreou no dia 3 de abril e durou pouco mais de um mês no ar devido à baixa audiência que obteve. (Fonte: http://www.odiario.com/blogs/tvtudo/tag/ batendo-ponto/)

Às vezes apenas parte de um programa é reaproveitada para gerar um novo programa, outras vezes é um personagem ou um participante que cai no gosto do público que pode tornar-se o astro principal de uma nova série ou de um novo programa.

O caso do humorista Tom Cavalcante pode nos dar bom exemplo desta situação. O sucesso de seus personagens João Canabrava, no humorístico Escolinha do Professor Raimundo e Ribamar, o porteiro da série Sai de Baixo, ambos da Rede Globo, o guindaram a protagonista de um programa solo chamado Megatom.

Mais recentemente a atriz Andrea Beltrão passou a protagonizar Sueli no seriado Tapas & Beijos, criado por Claudio Paiva para a Rede Globo, a partir de sua personagem Marilda em A Grande Família – série que já teve o mesmo Claudio Paiva como roteirista. “Brinco que a Marilda era o balão de ensaio de Tapas e Beijos”, disse o roteirista à jornalista Heloisa Tolipan que o entrevistou para o Jornal do Brasil.

Programa piloto/ avaliação final
A idéia de um novo programa foi aprovada pelos executivos da emissora de TV. O diretor já foi escalado. A mais recente versão do roteiro está pronta. O elenco foi selecionado. A produção está trabalhando sobre o roteiro. O projeto cenográfico está em execução. O pessoal de marketing está no mercado à procura de apoios, patrocínios, anúncios, permutas. A data de estréia foi decidida. Agora é hora de concretizar aquilo tudo que se pensou, criou e planejou. É hora de gravar o programa piloto. Mas, será que isto é mesmo necessário? Será que não é perda de tempo? Afinal, já se falou tanto sobre o assunto, muitas reuniões foram feitas, pequenas e grandes discussões aconteceram… Será!?…

A resposta é sim. É necessário e é prudente gravar um piloto porque a partir da avaliação artística, de conteúdo e da análise cuidadosa dos procedimentos de cada uma das equipes – produção, operacional e técnica -, durante a execução do piloto, podemos obter o melhor resultado para uma série de programas, pelo menor custo possível.

O que os responsáveis pelas áreas envolvidas devem observar durante a execução de um piloto? Comecemos pelo diretor do programa que é a figura que deve liderar o processo de gravação e posteriormente de finalização (edição, sonorização) do piloto sendo ele o responsável pela parte artística do trabalho.

O espaço onde a gravação se desenvolve deve ser uma das primeiras e grandes preocupações de um diretor de programa e merece uma análise muito cuidadosa porque, além da beleza e da função dramática, este espaço tem de estar voltado para a funcionalidade. O tamanho do cenário deve ser proporcional ao tamanho do estúdio para permitir a correta movimentação de talentos e câmeras, a colocação de trilhos, grua, microfones, iluminação de solo, monitores, produtores, pessoal operacional e de apoio. Se estas coisas estiverem atrapalhando umas às outras é sinal de que alguma coisa está errada e precisa ser corrigida. Nas gravações externas, realizadas em locações, o espaço cênico é mais crítico. Neste caso o diretor deve visitar o local com antecedência, acompanhado de uma equipe composta de um coordenador de externa, de um cenógrafo e de um produtor experiente. Maquiagem e figurinos fazem parte do espaço cênico, portanto devem ser observados também.

O próximo ponto focal da atenção do diretor deve estar posto no desempenho de atores, animadores de auditório, dançarinos, narradores, manipuladores de bonecos, dublês, enfim, de todos os tipos de ” talentos” que podem fazer parte de uma produção. Muita gente pensa que esta preocupação só ocorre nos programas dos gêneros show ou ficção, mas isto não é correto. Os programas tipo jornalísticos e os educacionais devem receber igual atenção por parte de seus diretores e o desempenho de âncoras, repórteres e apresentadores, frente às câmeras, deve ser criteriosamente avaliado, principalmente, porque a naturalidade, a postura, a segurança demonstradas contribuem para dar credibilidade aos programas.

Sem luz não há imagem, portanto avaliar a iluminação é fundamental. Uma luz bem feita pode contribuir muito para o bom resultado de um programa, ou pode derrubá-lo; portanto, foco na iluminação. O iluminador responsável deve preparar um mapa de luz para que numa próxima gravação ela seja repetida sem erros mesmo que o profissional escalado seja outro.

A mesma importância deve ser dada à captação do som. Embora possamos realizar verdadeiras obras de arte com apenas poucos sons ou até mesmo sem eles, isto não é o usual em televisão e fica restrito às obras de ficção. Então, ficar “de orelha em pé”, é obrigatório.

Para resumir, tudo que entra na safe area do monitor que o profissional está utilizando para se orientar durante as gravações É IMPORTANTE. Seja o monitor do estúdio, seja o monitor do switcher, seja o da externa.

A safe area é uma área delimitada no viewfinder das câmeras de forma a garantir que tudo aquilo que está alí enquadrado será visto pelo telespectador. Essa garantia se baseia na convenção que cerca de dez por cento da imagem mostrada no viewfinder não será vista nos receptores domésticos.

Na figura 01, a imagem delineada pelo retângulo branco será vista na maioria dos monitores. O retângulo amarelo garante que a imagem nele inserida será vista por todos os monitores, e dentro dessa área deverão estar todos os textos relativos à imagem.

Nas produções de ficção é comum que a equipe conte com um diretor de fotografia, que é o profissional responsável pela qualidade artística da imagem, aquele que trabalha afinado com o diretor do programa no planejamento das tomadas, dos planos e ângulos de câmera e do resultado da iluminação e da paleta de cores de cenários e figurinos no vídeo. Como são muitos os aspectos que devem ser observados durante a gravação de um piloto, não dá para confiar apenas na memória, portanto é aconselhável que o diretor tenha ao seu lado um assistente que anote todas as modificações e correções que devem ser feitas, inclusive, possíveis ajustes do roteiro.

O diretor de TV ou diretor de imagem faz a seleção das imagens captadas em estúdio, externa ou locação. Cabe a ele orientar os operadores de câmera nas diversas tomadas que são feitas e inserir no programa, via switcher, todas as imagens complementares geradas por outras fontes. Como é ele quem organiza todos os elementos visuais, pode perceber muito claramente onde ocorrem os “furos” numa gravação e apontá-los aos responsáveis pelas áreas envolvidas. O diretor ou coordenador de produção trabalha nas três etapas de realização de um programa – na pré-produção, na produção e na pós-produção. Durante o período de pré-produção ele e sua equipe devem se empenhar no planejamento da execução do projeto, criando cronogramas realistas e executáveis, orçamento detalhado, mecanismos de controle de gastos, entrosamento entre as equipes artísticas, operacional e técnica entre outras atividades. No período de captação do programa piloto a equipe de produção atuará para que todos os recursos previstos no orçamento estejam disponíveis para utilização, solucionando problemas de última hora dando, desta maneira, boas condições de trabalho a todos os envolvidos no projeto. Desnecessário será dizer que o coordenador de produção deve registrar minuciosamente todas as ocorrências e posteriormente tomar as providências para corrigir as possíveis falhas. Como em muitas outras atividades tempo é dinheiro e em televisão esta é uma verdade incontestável.

A colaboração da equipe técnica e operacional num programa piloto é fundamental desde o início, ainda no período de pré-produção. A participação nas reuniões de produção, onde são fornecidas explicações detalhadas do roteiro, habilita os responsáveis pelas áreas técnicas a terem os equipamentos requisitados preparados, revisados e à disposição daquele projeto. Alguns cuidados, no entanto, são cruciais. Nas gravações em estúdio, especial atenção deve ser dada para a quantidade de câmeras necessárias, microfones, VTs ou servidores para gravação e reprodução de matérias. O material de iluminação deve ser muito bem dimensionado, principalmente quando há mudanças rápidas de cenários evitando-se perdas de tempo que prejudiquem o fluxo da gravação. É importante ressaltar que, de todos os recursos de produção, a captação em estúdio é o mais dispendioso e por isso o mais controlado pela direção da emissora. Regra básica para todos os envolvidos no programa piloto: não deixem para “inventar” no estúdio. Lembrem-se de que o piloto deve ser um referencia real do que será gasto no programa. Em gravações externas atenção para o número necessário de baterias e recarregadores, quantidade suficiente de monitores ajustados no mesmo padrão, cartões de memória para armazenamento, microfones, parque de luz. Na escolha de locações é muito importante a avaliação técnica dos pontos de fornecimento de energia elétrica que serão utilizados.

Hoje em dia, muitos programas ao vivo utilizam recursos de interatividade para se comunicar e interagir com o público. Além do tradicional telefone, temos a internet , incluindo as redes sociais, e os serviços de mensagens da telefonia móvel. Ainda em implantação, a web TV e a interatividade da TV digital. Estes são recursos técnicos que precisam ser muito bem avaliados e testados pela equipe de engenharia e TI da emissora. Um excesso de fluxo, seja no sistema de telefonia ou rede de dados da emissora, pode levar a panes nos sistemas com danos imprevisíveis.

Como podemos notar, o trabalho para realização de programas pilotos para televisão é exigente, necessário e sem o qual podemos colocar em risco todo um projeto de renovação e de identidade de uma programação. Ao entregar o produto finalizado para avaliação dos dirigentes da emissora a equipe deve ter a certeza de que fez o melhor trabalho possível com os recursos que foram oferecidos.

Nádia é professora/orientadora de Projeto Experimental na FAITER/FOC-FACULDADES OSWALDO CRUZ. Email: nadiahat@terra.com.br