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A primeira Unidade Móvel totalmente IP será brasileira

REPORTAGEM ESPECIAL – IBC 2015

Nº 155 – Out /Nov 2015

por Fernando Moura, em Amsterdã

A edição 2015 do IBC, que se realiza em Amsterdã, mostrou mais um degrau na evolução de uma indústria que corre atrás da qualidade de imagem e da monetização dos conteúdos com a implantação de plataformas baseadas em redes IP e com o 4K HDR despontando como a tecnologia de cabeceira para 2016.

IBC2015, realizado entre os dias 10 e 15 de setembro de 2015 no RAI Amsterdam Conference, em Amsterdã, Holanda, teve mais de 55 mil visitantes, recorde para o evento. Os 55.128 visitantes chegados de dezenas de países de vários continentes mostraram, mais uma vez, que é um evento tecnológico, mas também acadêmico e que atrai principalmente profissionais da indústria provenientes da Europa, Oriente Médio e Ásia. Porém, a presença brasileira cresce ano após ano.
O evento, dividido em conferência e exposição ocorrendo simultaneamente, debateu por cinco dias o futuro da mídia eletrônica e a TV. As conferências contaram com mais de 250 congressistas. A área de exposição teve mais de 1800 expositores que deixaram claro aos visitantes que as empresas fornecedoras de equipamentos apontam para soluções onde a qualidade de imagem é cada vez mais importante, por isso lançamentos de novas câmeras 4K, codecs para esta tecnologia, workflows wearables (adaptáveis) já sejam 4K, 8K ou HD, infraestruturas IP, e virtualização de estruturas tanto de contribuição como de distribuição e armazenamento, foram os principais destaques da maior feira de broadcast da Europa.Na conferência, destaque para o futuro da TV e as novas mídias. Na sessão de abertura da “IBC2015 Conference: The Future of Media in an Age of Disruption”, David Butorac, CEO da Orbit Showtime Network (OSN) no Oriente Médio, afirmou: “Temos que nos adaptar, temos de reconhecer que o consumidor está agora no comando, mas o futuro é brilhante para os radiodifusores”.

Na mesma sessão, Fran Unsworth, diretor da BBC World Service, acrescentou: “O futuro é digital e precisamos expandi-lo, mas não à custa da televisão e do rádio”.Por sua parte, Michael Crimp, CEO de IBC, afirmou no encerramento da conferência que hoje a indústria da mídia é radicalmente diferente do que era cinco anos atrás. “Passamos de uma indústria que era definida pela tecnologia para outra em que exigimos o tempo todo novas funcionalidades de nossos fornecedores. Uma indústria em que os radiodifusores estão vendo o que os espectadores Iquerem e onde consumir,” o que trouxe mudanças “quase sísmicas para a indústria” em todos os níveis.
Dentro desse cenário, as soluções baseadas em estruturas IP ganham espaço a cada exposição e grande evento de broadcast que a reportagem da Revista da SET participa. No IBC2015, mais uma vez foi perceptível que esta já não é uma tendência da indústria, senão uma constatação, já que nos corredores da exposição holandesa marcas das mais variadas origens, tamanhos e segmentos apostam em fornecer aos seus clientes soluções que permitam migrar de estruturas SDI para IP. A reportagem indagou alguns deles nos corredores da feira. Constatamos que os maiores dilemas a resolver no momento de realizar algum investimento são: Será que é o tempo certo? Será que é inevitável? Qual será o padrão? Apostamos ao SMPTE 2022? Esperamos que se defina o padrão?

Uma das tecnologias mais recorrentes no IBC 2015 foi a demonstração do UHD/4K HDR. Na foto, uma demostração no estande da Cisco das diferenças da captação e exibição com e sem o recurso do High Dinamic Range (HDR)

Entretanto, há empresas que já optaram pelo SMPTE 2022 e avançam com soluções completas baseadas em infraestruturas IP-Based. Esse é o caso da Sony que na sua coletiva de imprensa, mais uma vez deu destaque para o Brasil. Em 2013 a empresa nipônica juntamente com a FIFA TV anunciaram, como noticiado pela Revista da SET na ocasião, que iriam realizar as primeiras transmissões ao vivo em 4K da história da televisão na Copa do Mundo Brasil 2014. Foi assim que a Globosat montou a primeira unidade móvel em 4K da América Latina e, meses depois, realizou as transmissões de 3 jogos da Copa em 4K. Agora, em 2015, na coletiva da Sony Europa, ela e a TV Globo anunciaram a aquisição da primeira Unidade Móvel totalmente IP, e destacaram, ainda, três novos produtos para produções 4K/IP: as unidades XVS-8000, BPU-4500 e PWS-4500.
Raymundo Barros, diretor de Engenharia da TV Globo, afirmou na coletiva referida que a sua emissora adquiriu a primeira unidade móvel totalmente IP da indústria para trabalhar em ambiente UHD/4K. “Essa nova unidade móvel constituirá um componente chave nos planos de produção da TV Globo para os próximos grandes eventos esportivos que acontecerão no Brasil a partir de 2016. A TV Globo sempre considerou a Sony como uma grande parceira, de modo que somá-la a este projeto estratégico nos dá a confiança de que sua implementação será bem sucedida. Além disso, a visão da Sony quanto à tecnologia de produção ao vivo em 4K sobre IP está muito bem alinhada com a nossa”, afirmou.
Katsunori Yamanouchi, VP de Sony Europa, explicou que a aquisição é parte de um acordo assinado pela sua empresa e a TV Globo “para desenvolver a primeira unidade móvel de transmissão exclusivamente projetada para transmitir em formato 4K sobre IP”.

Raymundo Barros, CTO da Globo, afirmou que este é o primeiro passo da transformação do SDI para o IP-based na emissora

A UM/IP estará disponível a partir do próximo ano, “mas não temos data definida”, confirmou Luiz Padilha, VP de Sony PSLA à Revista da SET no IBC. “Novamente a TV Globo nos escolhe para dar um salto tecnológico. Em 2014 avançamos com a primeira Unidade Móvel 4K para o Mundial, agora a Globo escolheu a Sony como sua sócia para a migração de seu sistema a um sistema baseado em IP”.
Em entrevista após a coletiva, Barros afirmou que esta aquisição acontece depois de a “TV Globo ter acabado um processo importante de reorganização da nossa estrutura de tecnologia unindo as antigas estruturas de TI corporativo e da engenharia, criando uma única unidade de tecnologia, que é a única forma que a emissora entende que pode apoiar a TV Globo neste processo de transformação digital” que está baseado, segundo o CTO de Globo, na conjunção do “cloud-based e IP-based, por isso fizemos o anúncio aqui [Amsterdã] em conjunto com a Sony do nosso caminhão IP/4K, a primeira experiência deste tipo onde teremos uma estrutura totalmente IP-based para produção ao vivo de eventos”.
Barros disse que “este é o início da renovação das infraestruturas de produção da TV Globo que ainda são baseadas em estruturas HD-SDI. Este é o início de um grande desafio de renovação”, com destaque para a produção de conteúdo no Projac, no Rio de Janeiro.
Junto ao desenvolvimento de soluções para a produção IP ao vivo, a Sony desenvolveu uma nova interface de transmissão audiovisual denominada Networked Media Interface, que, segundo os executivos da Sony consultados pela reportagem, transformará todos os sinais de gravação ao vivo em IP, como áudio, vídeo, metadados, sinais sincronizados e de controle.

Raymundo Barros, CTO da Globo, afirmou que este é o primeiro passo da transformação do SDI para o IP-based na emissora

“Isso permitirá o intercâmbio de recursos entre sistemas de produção, o que fará possível integrar sistemas baseados em arquivos e sistemas ao vivo em um único sistema. Deste modo, não só aumentará a produtividade, mas também produzirá uma significativa redução de custos para as emissoras, pois as mesmas já não terão que duplicar seus investimentos para cada sistema de produção”, referiu Yamanouchi.
Como parte da Networked Media Interface, a Sony apresentou à SMPTE (Society of Motion Picture and Television Engineers) um documento registrado de declaração contendo a especificação técnica do codec de vídeo de baixa latência que foi desenvolvido para a transmissão de 4K sobre IP a 10 Gpbs, e propôs os elementos tecnológicos necessários para realizar uma produção ao vivo sobre IP, que entrarão em vigência na definição do padrão SMPTE ST 2022.

Grande destaque da Sony Europa para a primeira Unidade Móvel totalmente IP do mundo, unidade que será construída para TV Globo do Brasil

Dos novos produtos da Sony expostos nas instalações da RAI, destaque para o servidor AV PWS-4500 que admite tanto a interface Networked Media Interface (com um cartão opcional) como a interface convencional SDI. Inclui a nova função “Share Play” com conexão de rede de 10 G, o que permite monitorar e intercambiar arquivos entre servidores localizados lugares diferentes, por exemplo, entre diferentes instalações ou móveis de exteriores. Também inclui alimentação redundante e reprodução em câmera lenta de 8x em formato HD (opcional).

A Sony ainda destacou a câmera HDC-4300 4K/Super-slomo/HD, apresentada na NAB 2015, mas agora já disponível para venda, e que foi utilizada na final da UEFA Champions League que se realizou no Olympiastadion, em Berlim no sábado, 6 de Junho de 2015, durante a transmissão 4K do evento.

Sem dúvidas, o High Dinamic Range (HDR) foi o tema mais importante do IBC 2015. No estande da EBU, mais uma vez, como em 2014, destaque para soluções com esta tecnologia. Na foto uma demostração de distribuição “End2End – Live HDR”, 4K

Os drones chegaram para ficar, tanto que no últimoIBC desafiaram o clima da capital holandesa. O IBC Drone Zone foi uma das maiores sensações ao ar livre da exposição.

 

Pavilhão Brasileiro em Amsterdã

Empresas brasileiras participam novamente do maior evento de broadcast na Europa com saldo positivo e previsões de mais de 2 milhões de dólares em negócios.

Pelo quarto ano consecutivo o Brasil esteve representado no Pavilhão Brasileiro, na edição 2015 do IBC com a participação de 7 empresas, duas a mais que na edição de 2014, mostrando o interesse que o empresariado brasileiro tem neste tipo de evento.
Na visita ao pavilhão, a Revista da SET notou ânimo das empresas expositoras, que basicamente procuram na participação a internacionalização da marca mediante novos canais de distribuição e venda direta a possíveis clientes.

© Foto: Fernando Moura

As empresas expositoras foram: EiTV, Biquad, Media Portal, Playlist, TSDA, TQTVD e Opic Telecom. O estande desse ano foi um pouco maior que de 2014 (60m2 para 72m2) e “sua localização foi bem melhor, ficamos ao lado de grandes empresas de broadcast e dos pavilhões internacionais”, disse Daniela Saccardo, gerente do PS Eletroeletrônicos Brasil, “o pavilhão teve muito mais visitação esse ano do que nos últimos 3 anos de exposição”.
Daniela disse à reportagem da Revista da SET, na capital holandesa, que devido à nova localização do estande foram realizados cerca de 200 contatos provenientes de países tão diferentes como: Alemanha, Argentina, Austrália, Chile, China, Croácia, França, Estados Unidos, Espanha, Holanda, Índia, Inglaterra, Japão, Cazaquistão, Polônia, Portugal, Rússia, Tailândia, Taiwan e Turquia.

O pavilhão brasileiro no IBC teve visitantes de países tão diferentes como: Alemanha, Argentina, Austrália, Chile, China, Croácia, França, Estados Unidos, Espanha, Holanda, Índia, Inglaterra, Japão, Cazaquistão, Polônia, Portugal, Rússia, Tailândia, Taiwan e Turquia

Para ela, a feira é uma excelente oportunidade para as empresas expandirem seus negócios para países da Europa, Ásia e África. “Com a quarta participação consecutiva do pavilhão, estamos conseguindo aumentar a divulgação da tecnologia brasileira de broadcast para países que não conseguimos atingir durante a Feira NAB Show, nosso principal evento, onde reunimos 20 empresas brasileiras expositoras. Buscaremos manter a participação do pavilhão brasileiro nos próximos anos da feira com o apoio dos parceiros: Fórum SBTVD, SET e da Apex-Brasil”.
Ainda que durante o evento não tenham sido fechados negócios, “oportunidade de novos distribuidores em países europeus surgiram para algumas das nossas empresas, o que nos deixa muito satisfeitos”, agregou já que, segundo previsões de Daniela e dos empresários brasileiros presentes em Amsterdã, “estima-se que nos próximos 12 meses sejam fechados negócios na ordem de US$ 2,15 milhões”.

TurquiaSete (7) empresas brasileiras cruzaram o mar rumo à capital holandesa com o objetivo de internacionalizar suas marcas

A visão dos brasileiros
A MediaPortal participou pela primeira vez no Pavilhão Brasileiro em Amsterdã, e o fez com saldo positivo, afirmou Fábio Tzusuki, seu diretor. Para ele o mais importante nesta etapa da empresa é “desenvolver novas parcerias para desta forma internacionalizar os produtos da empresa”.
Tzusuki disse à Revista da SET que durante os dias do evento passaram pelo estande profissionais e executivos de diversos países, mas é um trabalho difícil. “Equipamentos como os nossos (MAM) há muitos, mas para fazer um bom produto no país precisamos trabalhar com recursos escassos, por isso do nosso servidor aproveitamos o máximo que ele pode dar, as funções que eles têm são utilizadas ao máximo. Nosso diferencial é que a nossa solução faz algo mais do que armazenar, ela faz gestão de recursos. Se considerarmos que agora tudo está indo para nuvem, podemos dizer que nela existem recursos abundantes. Então, estamos aproximando nossa gestão de recursos escassos com gestão de recursos abundantes, sendo que esta combinação pode ajudar os clientes a ter soluções de acordo com as suas necessidades por baixos preços”.
André Salvador, diretor da Biquad, afirmou no estande na marca que o principal objetivo da empresa é “a expansão do mercado, projetando nossa marca a partir de novos distribuidores internacionais”.
O empresário de Santa Rita do Sapucaí (MG) afirmou à Revista da SET, em Amsterdã, que a sua empresa possui “uma tecnologia digital de processamento de áudio muito interessante e por um preço muito competitivo, que nos faz ter uma expectativa de internacionalização importante. O resultado da feira é muito positivo, se bem é uma avaliação primária que tem como objetivo continuar participando do IBC, e não só, fazer um trabalho de contatar os clientes que nos conheceram aqui, enviar as informações solicitadas, e se requisitarem amostras, as enviaremos para que avaliem e aprovem os nossos produtos. Nossa intenção é dar continuidade a este trabalho para colocar o nome da empresa mundo afora”.
Marcello Costa Junior, gerente de TI na Playlist Software SolutionS, foi mais adiante no seu comentário. Ele disse à reportagem que o principal objetivo da empresa é “realizar um estudo do mercado europeu e dessa forma trabalhar para atingir o mercado local de cada país. Não pensamos grande, pensamos atingir alguns clientes e distribuidores locais. Antes de vir aqui fizemos um trabalho de contato, e estamos muito contentes com a recepção dos clientes e dos canais de distribuição que nos visitaram”.
David Brito, CTO da TQTVD e coordenador do Módulo de Mercado do Fórum SBTVD, se mostrou satisfeito com uma nova participação da sua empresa no IBC. “Para nós é muito importante estar aqui. IBC serve para trazer as ofertas do mercado brasileiro e do sistema ISDB-T para a Europa visando Ásia e o norte de África”.
“Nossa participação aqui também tem a ver com ter maior proximidade com os fabricantes de equipamentos, já seja set-top boxes, conversores ou inclusive nos televisores que queiram explorar o mercado ISDB. Alguns agora já enxergam e demandam algumas soluções ISDB-T, mais associadas com OTT (Over-the-Top), uma opção que podemos oferecer”, comentou.
Desta forma, afirma Britto, a diversificação de produtos e mercados é necessária, mas faz parte da matriz da empresa. “No nosso caso ainda temos um discurso broadcast, mas pensando no broadband. Desde 2009 quando apresentamos a nossa solução pela primeira vez, e sem haver uma razão para existir uma diferenciação entre broadcast e broadband, uma vez que o mesmo conteúdo broadcast pode ser distribuído via IP, pensamos nas duas possibilidades. Pensamos que o que se discute é o modelo de negócio, e temos claro que quem não incorporar a longo prazo a distribuição de mídias via IP no seu modelo de negócio estará se suicidando”.