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Os desafios da Reportagem Externa

Nº 150 – Abril/Maio 2015

por Tereza Mondino, Camilla Cintra, Deisi Wosch e Adones Guerra*

ARTIGO

O Setor de Radiodifusão aguarda a análise da Anatel relativa aos pleitos que podem equacionar as dificuldades da Reportagem Externa. Neste artigo apresentamos a visão da SET sobre a questão e os principais tópicos apresentados a Anatel.

Linha do tempo ilustrando a progressiva redução da faixa disponível para o SARC

Reportagem Externa enfrenta, hoje, um desafio diário para ser realizada. O principal motivo é a redução gradual do espectro que vem acontecendo para essa modalidade de Serviço Auxiliar de Radiodifusão e Correlatos (SARC), fundamental para as transmissões de TV no Brasil.
Basta observar que, em 1978, quando as faixas do SARC foram canalizadas pela primeira vez, a faixa de 2 GHz se estendia de 2300 a 2700 MHz. Tínhamos, então, 400 MHz disponíveis. De lá para cá, 100 MHz da faixa foram compartilhados com sistemas de spread spectrum, o que inviabilizou seu uso pela radiodifusão, em função das interferências, demonstrando a necessidade de exclusividade em faixas de Reportagem Externa, e mais 200 MHz foram destinados para MMDS (posteriormente para outros serviços, agora incluindo o 4G), resultando na disponibilidade atual, de somente 100 MHz livres de interferência.

Número solicitações de uso temporário de frequências de uma emissora de TV nos últimos anos

Apesar da redução do espectro disponível para o serviço, as transmissões ao vivo aumentam cada vez mais, tendência geral do Jornalismo, que vem gradativamente saindo dos estúdios e se transferindo para as ruas.
Além do Jornalismo diário, a situação também é crítica para a cobertura de eventos, como, por exemplo, os Jogos Olímpicos Rio 2016. Evento único, histórico, que exigirá, por sua relevância, uma cobertura jornalística impecável, com a melhor qualidade possível de sons e imagens, o que está diretamente ligado à disponibilidade de espectro, atualmente longe de atender à demanda das emissoras.

A Difícil Realidade da Operação da Reportagem Externa das Emissoras
Nos grandes centros, a subfaixa de 2GHz destinada ao SARC não é capaz de atender às necessidades das emissoras para transmissões ao vivo de telejornais e eventos, devido às citadas interferências provenientes dos sistemas de spread spectrum operando em 2,4 GHz. Com isso, a maior parte das transmissões, por volta de 70%, acaba utilizando outras subfaixas da faixa de 2,0 GHz, não destinadas ao SARC, ou ainda, outras faixas de frequências, principalmente a de 7 GHz.
Apesar de haver destinação ao SARC em outras faixas de frequências, mais altas, a faixa de 2,0 GHz é fundamental para o Serviço Auxiliar de Reportagem Externa, pois somente ela permite a agilidade necessária na cobertura diária do Jornalismo e real, de eventos, como shows, acidentes, catástrofes e esportes.
Como consequência, houve um aumento significativo de solicitações para uso temporário de espectro, o que trouxe um impacto econômico muito grande para as emissoras, ao mesmo tempo em que essa operação não tem proteção contra interferências, uma vez que se tratam de autorizações em caráter secundário.

Regionalização do conteúdo
Não só nas capitais dos Estados o SARC enfrenta dificuldades. A necessidade pela regionalização do jornalismo é crescente, e a tendência é de se intensificar no futuro.
Dentro dessa tendência, as emissoras necessitam cada vez mais utilizar o Serviço Auxiliar de Reportagem Externa, não só nas localidades das próprias geradoras, mas também em municípios menores, onde estão suas retransmissoras.
A legislação atual, que é antiga e traz o conceito de realização de reportagem externa apenas na localidade da geradora de televisão, não permite realizar reportagem externa em localidades onde estão as retransmissoras. A SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão) propõe que a regulamentação torne isso possível, permitindo que matérias ao vivo, enviadas das localidades das retransmissoras do interior, sejam veiculadas pela geradora e retransmitidas por todas as suas retransmissoras.

Workshop sobre SARC na Anatel
Há alguns anos, um grupo formado por diversas emissoras de televisão vem se reunindo, com o objetivo de preparar propostas à Anatel de canalização digital nas faixas de SARC e RpTV e de solução para a demanda de faixas adequadas para esses serviços. Esse grupo iniciou os trabalhos sob a coordenação da ABERT, e em 2014 passou à coordenação da SET.
Essas propostas foram finalizadas e submetidas à Anatel em documento protocolado na Agência.
Atendendo a solicitação do grupo, a Anatel possibilitou a realização de um workshop, que aconteceu no dia 14 de outubro e contou com engenheiros de operação de Reportagem Externa, que puderam passar a sua vivência pessoal das dificuldades, levando situações práticas, que mostraram os problemas enfrentados por uma estação de televisão para colocar reportagens no ar, nesse cenário em que as transmissões ao vivo são cada vez mais necessárias e corriqueiras, como parte da evolução natural da Televisão.
Márcio Reis, do SBT e Francisco Sérgio Ribeiro, da TV Cultura, definiram as diferentes modalidades de SARC e a RpTV.
Deisi Worsh, da RPC, detalhou a preparação de uma matéria de Reportagem Externa, da pauta até a entrada no ar, com vídeo ilustrando todo o processo. Também abordou a necessidade de regionalização do conteúdo, da cobertura ao vivo e da autorização de Reportagem Externa para as retransmissoras do interior.
Carlos Lobo e Josemar Cruz, da TV Globo, descreveram, com riqueza de detalhes, as dificuldades de operação da Reportagem Externa, no Jornalismo do dia a dia e dos grandes eventos, mostrando os problemas de interferência, os equipamentos mais utilizados, os equipamentos e serviços alternativos, com suas vantagens e desvantagens.
Adones Guerra, também da TV Globo, mostrou a distribuição de frequências nas grandes capitais face à necessidade de espectro para a Reportagem Externa e a distorção existente na frequente adoção de uso temporário de espectro como solução para os problemas diários e eventuais.
Fabíula Andrade, da Band, apresentou as alternativas adotadas para alguns dos grandes eventos cobertos pela emissora, os problemas de interferência ocorridos e as soluções adotadas.
Novamente Francisco Sérgio Ribeiro, da TV Cultura, apresentou a solução adotada em 1992, estabelecida em acordo operacional firmado entre o Ministério das Comunicações e as emissoras da Grande São Paulo, de autogerenciamento das frequências de Reportagem Externa. Mesmo com os 400 MHz de largura de faixa disponível para o serviço na época, dificuldades já eram enfrentadas com o uso do espectro.

Destinação atual e proposta de novas faixas para uso do SARC na faixa de 2 GHz

Francisco Peres, da TV Globo, apresentou as Propostas de Destinação de novas Faixas para Reportagem Externa em 2 e 3 GHz e da Canalização Digital para todas as faixas.
Fábio Fonseca, da Rede Vida, levantou os problemas existentes para o autocadastramento e apresentou diversas sugestões para melhoria do tratamento das autorizações. As apresentações do Workshop estão disponíveis no site da SET.
Proposta da SET para ampliação e Canalização das Faixas de SARC Para a faixa de 2 GHz, foi proposta a inclusão de 2 subfaixas, 2025 MHz a 2110MHz e 2200 MHz a 2290 MHz, atualmente muito utilizadas para cobertura de eventos, além da faixa já destinada ao SARC, 2290 MHz a 2500 MHz.
Uma nova canalização também foi proposta, com canais de 20 MHz, possibilitando manter o legado analógico nas faixas já existentes e a utilização de transmissores digitais com taxas mais altas, e canais de 10 MHz que atendam a demanda atual para vídeos SD e HD.

Para a faixa de 3 GHz, foi proposta a inclusão da atribuição para Serviço Móvel e da destinação para Reportagem Externa, já que essa faixa é utilizada atualmente pelo SARC apenas para enlaces fixos, além de uma nova canalização que possibilite a digitalização do serviço.
Para a faixa de 7GHz, atualmente já destinada ao SARC, foi proposta uma nova canalização possibilitando a digitalização do sistema, mantendo a faixa exclusiva e de uso unidirecional, possibilitando que seja utilizada como alternativa à faixa de 2GHz, principalmente nos grandes centros. Para as faixas mais altas, acima de 12 GHz, atribuídas ao SARC, foi proposta a inclusão das modalidades de RpTV, Telecomando e Telemedição, devido às características bidirecionais dos equipamentos. E para faixas acima de 13,5 GHz, o compartilhamento com outros serviços, uma vez que não há muitos equipamentos disponíveis nessas faixas, e a entrada de outros serviços pode estimular sua produção. A SET e todo o Setor de Radiodifusão aguardam agora as decisões da Anatel, com esperança de ver diminuídos os problemas para a operacionalização do Serviço Auxiliar de Reportagem Externa.

A expectativa é que seja possível a Radiodifusão continuar utilizando as subfaixas de 2.027,5 – 2.107,5 e 2.200 – 2.290 MHz, mas com elas destinadas à Reportagem Externa e não ao uso eventual.
A destinação das subfaixas para outros serviços comprometeria irremediavelmente o uso da faixa de 2 GHz, eventual ou não, inviabilizando a evolução da Reportagem Externa dentro das tendências atualmente observadas.

Tereza Mondino da TM Consultoria.

Camilla Cintra da TV Globo.

Deisi Wosch da RPCTV.

Adones Guerra da TV Globo.