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O Rádio Digital em debate

COBERTURA CONGRESSO SET 2012

Por Gilvani Moletta

A sessão destinada ao rádio digital no Congresso SET 2012, coordenada por Marco Túlio Nascimento (Sistema Globo de Rádio), rendeu um acalorado e produtivo debate. No ano no qual o governo federal tem dado fortes indícios que decidirá por um modelo de digitalização a ser implementado no país, os representantes brasileiros dos sistemas High Definiton Radio (HD Radio) e Digital Radio Mondiale (DRM), expuseram suas propostas de maneira mais contrastante e incisiva em relação a eventos anteriores.

Atualizações técnicas
A primeira parte dos debates foi dedicada às atualizações técnicas. Cristiano Barbieri, da Harris Corporation, apresentou a evolução observada na infraestrutura de transmissão, dividida em 4 gerações. A chamada primeira geração de transmissores digitais iniciou em 1998 com um excitador que trabalhava apenas com um único canal digital e compressão AAC, sem SBR.

A segunda geração, ocorrida em 2001, já dispunha de um excitador baseado em software, mais robusto e estável, tornando-se o “carro chefe” para definição dos padrões digitais HD Radio, conforme descreveu Barbieri. Em 2002 a Harris passou a oferecer comercialmente a multiplexação de serviços para multicast e em 2003 o seu importer para áudios suplementares, viabilizando os canais adicionais de áudio e serviços de dados.

Já na terceira geração, toda compressão de áudio, dados e multiplexação passaram a ser controlados do estúdio, enviando o fluxo de sinal para o site de transmissão. Na quarta geração o destaque foi no aspecto de RF, com transmissores trabalhando com a redução do fator de crista (melhorando a eficiência dos amplificadores de potência), a geração das bandas laterais assimétricas e cálculo do MER interno para melhoria na modulação.

Scott Martin, da Electronics Research (ERI), tratou de novas formas de combinações entre antenas, transmissores e filtros para aumentar o sinal digital. O engenheiro considerou a combinação entre antenas como sendo a mais simples, obtendo 45 dB de isolação entre sinais analógico e digital com uso de diferentes polarizações circulares (RHCP para analógico e LHCP para digital). Foram apresentadas duas modalidades de combinações: a “Side Mounted Dual Input” e “Dual Input Panel Array”.

Ambas experiências descritas por Scott Martin e Cristiano Barbieri foram balizadas em estações que trabalharam em HD Radio, no entanto Barbieri frisou que a Harris “não defende um ou outro modelo”.

HD Radio – High Definition Radio
A segunda parte da sessão, destinada aos representantes dos modelos de digitalização, foi iniciada por Cassiano Rodrigues, da empresa brasileira Tel-lHD, em defesa do sistema HD Radio.

Para Cassiano “o mercado de radiodifusão não pode esperar o desenvolvimento de uma nova tecnologia nacional, o rádio está perdendo espaço para novas mídias (…) por isso a solução está em buscar a tecnologia mais avançada”. A escolha pelo HD se daria por ser “o sistema mais robusto, com viabilidade comercial consagrada, com política de continuidade, com 400 milhões de dólares investidos no desenvolvimento da tecnologia, com baixo custo de transmissores e experiência na implementação comercial do modelo”.

Para relevar o aspecto comercial da implementação tecnológica, o representante citou o exemplo do Canadá, que tinha implementado uma “tecnologia muito boa” (DAB), mas que a abandonou pois “não soube como a viabilizar comercialmente”.

Segundo Cassiano, 32 emissoras já estão com o sistema instalado no Brasil, assim o objetivo da Tel-lHD é: “continuar a desenvolver e adaptar o HD para a realidade brasileira, difundir a tecnologia para outros países, apoiar a indústria brasileira, incentivar a transição tecnológica nas emissoras e criar parcerias”. Foi ainda destacada a disponibilização de transmissores de baixo custo e a importância do trabalho com receptores não convencionais (como instalados em celulares), aumentando a penetração do meio.

Sobre os royalties, o representante comentou: “A TellHD não vai cobrar nenhuma taxa. O modelo de negócio é o mesmo que qualquer outro provedor de tecnologia digital. Temos custos, que serão pagos pela produção em escala. Hoje um receptor digital já é mais barato que um analógico nos Estados Unidos (…) Quem ganha com isso? O consumidor, a radiodifusão, o mercado de serviços e conteúdos, indústria brasileira, as universidades, os centros de pesquisa”.

Cassiano indicou que a parceria da TellHD com iBiquity, empresa estadunidense detentora da tecnologia HD Radio, permitirá aos brasileiros desenvolver “novas parcerias e criar novas funcionalidades ao modelo”.

DRM – Digital Radio Mondiale
O engenheiro Carlos Acciari, da Rádio França Internacional, falou em defesa do sistema DRM. Para Carlos o DRM “não é de um país, mas de um grupo de pessoas e empresas que defendem uma norma de digitalização global, aberta e pública de digitalização de todo espectro eletro-magnético, uma norma que trabalha com todas as faixas de radiodifusão”.

No VHF, onde o sistema é conhecido como DRM+, o representante comentou que o DRM permite 4 conteúdos com 100 kHz de banda, especialmente na futura faixa estendida eFM (76 a 88 MHz), “permitindo 120 canais full digital, perfazendo 480 serviços”. Para ele o planejamento da multicanalização é uma alternativa para a “falta de canais e redução das interferências”.

Sobre o oferecimento de serviços multimídia, Carlos destacou as mensagens de texto, journaline, slide show, EPG, mensagens TPEG/TMC, surrounding e mesmo uma nova aplicação em estudo: vídeo de baixa definição para funções educacionais (Diveemo).

O representante também associou o oferecimento de mensagens emergenciais a operação multifaixas, considerando o sistema “o único que pode responder a todos os tipos de emergência” trabalhando nas Ondas Médias, Ondas Tropicais, Ondas Curtas e VHF (FM).

Carlos comentou que é “muito importante a perspectiva das Ondas Curtas, a emissão para populações isoladas. O Brasil precisa manter estas formas de comunicação pois, não podemos nos esquecer desta população, eles também fazem parte do futuro. A tecnologia deve apresentar novas perspectiva para todos”.

Sobre os royalties, Carlos disse que “DRM é uma organização sem fins lucrativos cuja função é a aprovação da norma. O consórcio não está ligado a royalties, os custos das empresas estão absolutamente disponíveis para qualquer empresa que desejar implementar seus produtos finais no Brasil”.

Por fim ele comentou que mercados externos, possíveis destinos para exportadores brasileiros, emergentes como Rússia e Índia, adotaram o DRM, sendo que este último já encomendou 72 transmissores, sendo um de 1000 kW (1 MW) em OM. Carlos disse que no Brasil todos os testes foram feitos dentro das normas e exigências do governo federal e que o DRM é adaptável às exigências do Brasil.

Integração com TV Digital
Rafael Diniz, do Instituto de Pesquisas Eldorado, também defendeu o DRM no aspecto da eletrônica digital e middleware convergente. Para ele o fato do DRM trabalhar com o AAC-HE, já utilizado no one seg e full seg, permite uma maior economia ao fabricante brasileiro, além de integrar as mesmas plataformas de decodificação para a TV e o rádio digital. Segundo Rafael isso contrasta com codec utilizado no HD Radio, entendido como “segredo industrial”.

Rafael também citou que os chipsets HD Radio são os mesmos que o DRM, porém sendo o último “mais barato pois seus royalties são referentes apenas ao estágio final da produção, enquanto para o HD são pagos royalties em todas as etapas de fabricação”.

O representante observou a possibilidade de “uma única plataforma de interoperabilidade com chipset aplicável à TV digital e o DRM, incorporando os elementos como o Ginga sobre o DRM”, possibilitando num único equipamento, operações integradas ISDB-T proposto no SBTVD e o DRM.

Para Rafael, o “HD depende apenas de uma empresa”, enquanto o “DRM é uma norma. Se você não quiser determinado aplicativo oferecido, você pode ler a norma e escrever seu produto, o que não acontece no HD”.

Por fim o representante comentou que o DRM já está dentro das universidades por ser um sistema aberto e que o governo do Equador utilizará transmissores recentemente desenvolvidos no Brasil em DRM para realizar testes naquele país, como exemplo de mercados abertos junto com esta tecnologia.

Debates
A parte final do fórum foi dedicada a debates, espaço aproveitado por representantes da AESP e da ABERT. Alfio Rosin, da consultoria Sulrádio, apresentou uma pesquisa baseada em dados da FCC, mostrando que 87% das emissoras estadunidenses ainda não aderiram ao HD Radio, questionando a viabilidade do sistema. O engenheiro comentou que apenas 289 estações AM e 1710 FM estavam licenciadas para emissão HD num universo de mais de 6000 estações AM e mais de 7400 FM: “se seguirmos o mesmo ritmo de implementação dos Estados Unidos, levará mais de 2500 anos para o AM e 102 anos para o FM se digitalizarem”. Cassiano Rodrigues comentou que a crise econômica dos EUA se reflete nesses números e que “vamos implementar este modelo mais rapidamente que outros países. Temos mais cultura de rádio”

 

Flávio Aurélio Braggion Archangelo
Assessor Especial da LABRE para Gestão e Defesa Espectral . Membro da CBC-2