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O dia seguinte

O dia do “Switch-Off” no Brasil (desligamento dos canais de TV analógica) está chegando. Será que a sua emissora está preparada para esse momento?

Nº 139 – Dez 2013 e Jan 2014

Por Luiz Gurgel

Artigo

Se você já concluiu a digitalização do segmento de transmissão, provavelmente vai responder que sim, que tudo está pronto. Mas será que tudo está pronto mesmo? Será que o dia seguinte ao desligamento não vai trazer surpresas profundamente desagradáveis para sua emissora? E, problemas sérios para você, responsável técnico da emissora? É bom estar bem seguro de que isso, realmente, não vai ocorrer.
O desligamento dos canais de TV analógica, no Brasil, estava inicialmente programado para ocorrer em junho de 2016 – todos ao mesmo tempo. Essa data, contudo, foi modificada pelo Decreto 8061 de 29/07/2013 que estabeleceu um cronograma mais elástico e realista para os desligamentos. O “Switch-Off” agora vai acontecer de forma progressiva, ao longo de quatro anos, com início previsto para 01 de janeiro de 2015 e término em 31 de dezembro de 2018.
Qualquer que seja a data na qual o desligamento dos canais analógicos da sua cidade vá ocorrer, há uma série de medidas que precisam ser tomadas, com antecedência, para evitar prejuízos financeiros e de imagem da sua emissora. A primeira, e mais importante dessas medidas, é certificar-se de que o canal digital apresenta a mesma cobertura do canal analógico, isto é, confirmar que todos os pontos hoje atendidos pelo canal analógico apresentam condições de recepção do canal digital.

Essa condição é tão óbvia que pode parecer desnecessário estarmos listando entre as nossas preocupações. Acontece que há umas “pegadinhas” quando falamos de levantamento de cobertura de um canal digital. É que os parâmetros utilizados para avaliar a cobertura de um canal analógico, geralmente, são inadequados quando se trata de um canal digital. O mais importante deles e que para um canal digital, precisamos fazer medições em um número muito maior de pontos do que em um canal analógico, isto é, precisamos aferir as condições de recepção em pontos separados por distâncias muito menores. Isso porque, entre dois pontos aferidos, pode sempre haver uma redução de sinal significativa (erro de interpolação) e a probabilidade de que isso ocorra aumenta muito à proporção que aumentamos a distância entre os pontos considerados. Essa redução, quando ocorre em um canal analógico, provoca, em geral, apenas uma perda na qualidade relativa da imagem, entretanto, quando ela ocorre em um canal digital o resultado pode ser catastrófico, pois pode inviabilizar completamente a sua recepção.
Você deve estar pensando que a solução é simples, basta fazermos o levantamento da cobertura em um número um pouco maior de pontos. Isso é verdade, só que o número razoável de pontos a serem aferidos precisa ser não apenas “um pouco maior”, mas muito maior. Senão, vejamos: considere uma situação hipotética em que você precisa garantir o atendimento com sinais digitais numa área de 30km x 30km (15km para cada lado, a partir da antena de transmissão da emissora).
Admitindo que se pretenda obter dados razoavelmente consistentes, podemos imaginar levantamento das condições de recepção a cada 200m. Isso nos levaria, contudo, a 22.500 pontos de medição, o que é absolutamente impraticável. Aumentando a separação dos pontos para 400m, teríamos 5.625 pontos o que é ainda um número muito elevado – demandaria 281 dias de trabalho para uma equipe que fizesse 20 medições diárias. Acima de 400m de separação entre os pontos, o levantamento fica tão impreciso que vai ter muito pouco valor. Uma solução para esse impasse poderia ser a alocação de uma quantidade maior de equipes de campo, trabalhando simultaneamente. Isso, contudo, iria agravar outro problema paralelo, que é o custo do levantamento – o custo total aumenta significativamente à proporção que aumentamos o número de equipes, já que precisamos adquirir para cada equipe todo o material necessário. Uma forma de contornar essa dificuldade, sem comprometer muito o resultado do levantamento, seria marcar num mapa pontos separados de, no máximo, 400m e depois eliminar pontos de medição intermediários naqueles locais onde o relevo do terreno não apresente obstáculos significativos à propagação do sinal e a natureza da cobertura do solo urbano seja de pouca elevação. Mesmo procedendo dessa maneira, ou utilizando outra forma qualquer de eliminação de pontos de medição, provavelmente, ainda ficaremos com um número grande de locais a aferir.
Numa situação real, essa quantidade de pontos pode variar bastante de um caso a outro e vai depender muito do tempo e orçamento disponíveis. E, é claro, a confiabilidade do resultado obtido, também, vai variar bastante em função dessas escolhas.
Na grande maioria dos casos, a aferição e regularização da cobertura de uma emissora de televisão digital podem demandar muitos meses de trabalho e planejamento, além de investimentos nada desprezíveis. O nosso objetivo, ao abordar essa questão, não é estabelecer aqui um manual para realização de levantamentos de campo e sim o de chamar a atenção dos engenheiros para a necessidade de fazerem esse levantamento, se já não o fizeram, o mais rápido possível, pois ele irá balizar os investimentos a serem feitos, depois, com a instalação dos gap fillers.
O gap filler é uma solução especial que permite resolver problemas de recepção (áreas de sombra) nas transmissões digitais. Não devemos, contudo, subestimar as dificuldades de instalação de gap fillers, imaginando, erroneamente, que se trata apenas de instalar um transmissor de baixa potência num local qualquer da região de sombra. Não é bem assim. É preciso cuidado, pois um gap filler mal dimensionado pode, facilmente, ampliar sua área de sombra ao invés de eliminá-la. Há, contudo, softwares específicos, embora um pouco caros, que ajudam no cálculo dos parâmetros a serem utilizados nos projetos de gap fillers. É importante não esquecer que, muitas vezes, ao efetuarmos os cálculos, descobrimos que o local inicialmente previsto para instalação do transmissor de baixa potência não é adequado e temos que recomeçar tudo do zero, novamente.
Lembre-se que depois de concluído o projeto do gap filler, teremos que negociar com o proprietário do local para instalação dos nossos equipamentos além de providenciar junto aos fabricantes a aquisição de todos os itens que iremos instalar. Lembre ainda que, dependendo da situação, cada emissora do país precisará instalar um número razoável de gap fillers. E os fabricantes são os mesmos para atender todas elas.
Você, e mais provavelmente o acionista da sua emissora, pode estar pensando em só fazer esses investimentos após o desligamento do sinal analógico e à proporção que forem sendo demandados pelos telespectadores. Parece-me uma atitude arriscada, pois, se assim proceder, sua emissora vai perder, literalmente da noite para o dia, uma parcela dos seus telespectadores. Como será que vão reagir os anunciantes diante de um número elevado de pessoas dizendo, de repente, que deixou de receber os sinais da sua emissora? Pense que, se apenas 1% das residências deixarem de receber os sinais da sua emissora (o que é uma suposição muito otimista), isso já representará milhares de pessoas reclamando.
A quantidade de residências que ficarão incapacitadas de sintonizar sua emissora será maior entre aquelas que se encontram mais distantes da sua antena de transmissão e que hoje recebem o sinal analógico com alguma deficiência. Elas, certamente, não terão acesso aos sinais digitais.
Outro problema que todos terão de enfrentar é a adaptação plena dos consumidores ao mundo da TV Digital. Hoje, mesmo naquelas cidades onde há emissoras com transmissões digitais funcionando há meses, ou mesmo há anos, muitos consumidores ainda não adquiriram televisores capazes de sintonizar os canais digitais e outros, que já possuem esses equipamentos, não sabem muito bem como utilizá-los. Há várias residências que possuem tais equipamentos e, contudo, continuam sintonizando os canais analógicos.
Já pensou no prejuízo, se vários desses telespectadores que estão em áreas de sombra, ou não sabem sintonizar corretamente o seu canal digital, fizerem parte da amostra que o IBOPE utiliza para aferir a audiência dos canais da sua cidade?

Eng. Luiz Carlos Gurgel

Eng. Luiz Carlos Gurgel é Diretor Executivo da TV Jornal Recife e Diretor Regional Nordeste da SET.