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Novo modelo de negócios

Um bate-papo sobre tecnologia e futuro com Marcos Lopez, presidente da Miranda Technologies.

Nº 137 – Outubro 2013

Por Flávio Bonanome

Entrevista

Quando a Miranda Technologies anunciou sua fusão com a fabricante Belden, muitas especulações surgiram no cenário mundial do broadcast. Como era de se esperar, durante a NAB, em abril, as empresas trataram de esclarecer o máximo de informações possíveis para seus clientes e representantes, visando manter uma estabilidade de mercado.
Como estratégia para mudar este cenário, o presidente da companhia canadense, Marcos Lopez, fez sua primeira visita oficial ao Brasil fora de uma feira de negócios. “É mais agradável o que estou fazendo agora do que ficar confinado num espaço de convenções”, brinca.
Lopez visitou o Rio de Janeiro e São Paulo para conhecer as instalações de seus clientes, onde seus produtos estão sendo usados e os potenciais negócios no País. “Deixe-me dizer porém que apesar de ser bastante interessante esta incursão, eu entendo a importância das feiras de negócios também”, completa.
Durante esta visita, Lopez arranjou um tempo em sua agenda para bater um papo com a Revista da SET, onde abordou as novas estratégias, falou da possibilidade de fabricação no Brasil e até das novas tecnologias que devem surgir na indústria.

Revista da SET: Entendemos que muita coisa mudou na Miranda desde sua aquisição pela Belden. Focando mais em um cenário regional, o que muda?
Marcos Lopez: Eu acho que uma das grandes áreas que muda é a estratégia geográfica. Claramente a Belden já começou a fazer um investimento grande aqui na América Latina. Eles possuem uma grande fábrica no México, além de este incrível escritório em São Paulo. Desta forma podemos trabalhar com os recursos da Belden para formar uma única frente para nossos clientes de broadcast.
Por exemplo, com estes novos recursos nós estamos conseguindo colocar suporte e pessoal direto aqui no Brasil, e também estamos fazendo todo o trabalho quando se fala de peças sobressalentes para servir nossos consumidores da melhor forma possível.

Revista da SET: Houve alguma coisa que a Miranda teve que deixar para trás após esta aquisição?
Lopez: Não, na verdade uma das coisas que nosso CEO John Stroup sempre fala é que a Belden não compra empresas que estão com problemas financeiros, estratégicos ou de posicionamento de marketing. Eles investem em empresas que estão indo bem. Desta forma, eles compram empresas que já tem boas estratégias, funcionam e dão lucro, assim não há muito o que se deixar para trás.
Não houve nada que precisamos mudar com relação aos mercados que atendemos e as estratégias de produtos que estávamos avançando. O que estamos fazendo é focar em novas regiões onde éramos fracos. Outra grande mudança é que a Belden é uma empresa que já existe há uma centena de anos, eles tem processos bastante robustos quando se fala em gerência de talentos, operações, finanças e estes processos são algo que trouxemos para dentro da Miranda.

Revista da SET: Tratam-se de processos administrativos ou industriais? Lopez: Um pouco de cada. Uma das coisas que a Belden tem como valor é o aprimoramento contínuo. E como parte deste princípio, a Belden adotou a filosofia de Lean Enterprise. Muita gente acha que Lean é uma política de operações, o que é verdade, pois uma parte bastante importante é a fabricação, mas uma parte muito importante é que eles adotaram Lean em recursos humanos, vendas e marketing, e também agora nós estamos trazendo isso para a Miranda. É uma longa transição, mas todo mundo na Miranda está vendo as vantagens.

Revista da SET: A ideia da Belden é criar uma Super- -Marca com a Miranda no setor Broadcast?
Lopez: Para responder isso vou dar um passo para trás. Uma das estratégias que a Belden adotou há cinco anos é olhar para aquisições por dois motivos:
1 – Preencher um papel importante numa linha de produtos;
2 – Ter presença geográfica.
No caso da Miranda, foi uma evolução lógica do que eles fazem. A Belden vende excelentes cabos de broadcast e o próximo passo era comercializar um pouco da eletrônica do broadcast. Então a Miranda era uma parte importante do que eles queriam fazer no mercado. Seguindo a compra da Miranda, eles tomaram uma atitude muito importante. Pegaram a empresa de 2 bilhões de dólares e quebraram em quatro plataformas de negócios. Uma delas é broadcast e nesta plataforma a marca principal é a Miranda.

Revista da SET: Depois desta aquisição, o que mudou na visão da Miranda para o mercado brasileiro?
Lopez: Para começar, há mais de 9 meses atrás, a Miranda não tinha sequer uma pessoa de vendas aqui no Brasil. O que nós fizemos primeiro, e é o mais importante, foi identificar o pessoal chave para estar aqui localmente. Então agora temos uma pessoa comercial, contratamos um engenheiro de suporte e estamos completando a contratação de uma pessoa de pré-venda.

Revista da SET: Um dos desafios do Brasil é que não se trata de um mercado novo, mas sim um mercado maduro onde vocês já possuem uma porção de concorrentes. Como lidar com isso?
Lopez: Eu acho que não é muito diferente de outras regiões que estamos tentando entrar. Uma das coisas que eu tento falar para nossos clientes é olhar para cada empresa sob um ponto de vista. Temos aqui concorrentes como a Grass Valley e a Harris. Uma das coisas que estes dois concorrentes tem é que eles foram comprados por entidades financeiras. E estas empresas tem como foco o lado monetário da coisa, ou seja, eles normalmente compram empresas que não estão em seu melhor momento, fazem delas companhias muito eficientes, e tem por objetivo vender a companhia em quatro ou cinco anos para ter lucro. Já com a Belden, é um investimento puramente estratégico. Eles compraram a Miranda e vão comprar outras empresas para atingir certos objetivos e entrar em determinados mercados com suas estratégias de produtos. Eles estão por aqui há 100 anos, não estão pensando em sair do mercado nos próximos dois ou três anos, como outros grupos financeiros estão fazendo.
Então os clientes estão começando a entender o quão importante a Belden é como apoio financeiro neste mercado, e como vai crescer ainda por muitos anos. Os clientes querem esta estabilidade, eles precisam de estabilidade e acho que a família Belden e a marca Miranda entregam isso.

Revista da SET: Em termos práticos, o que isso significa para o mercado brasileiro?
Lopez: Agora queremos aumentar suporte e vendas e ter certeza que teremos o inventario aqui no país, por que a alfândega não é fácil. Precisamos conseguir reagir imediatamente a qualquer problema de nossos clientes. Vamos crescer nossa capacidade nisso. Outra coisa é pensar em fabricar no País. Eu não estou confirmando que vamos fabricar produtos aqui, mas é algo que estamos de fato estudando por que há alguns benefícios em trazer mais valor a nossos clientes fabricando localmente do que no fazendo tudo no Canadá.

Revista da SET: Mudando um pouco de assunto, vimos vários produtos Miranda sendo usados nos testes 4K na Copa das Confederações. Como foram os testes para vocês?
Lopez: Muito bem sucedidos. O caminhão tinha sete câmeras 4K e eles usaram para fazer este teste. Isto é parte da estratégia da Miranda em sermos inovadores, acreditamos que 4K é a nova evolução da resolução. O que fizemos com a Telegenix (empresa responsável pela Ob-Van) não foi só o router para o quad-link 4K, mas também o Multiviewer, amplificadores de distribuição e também o down coverter para HD. Temos uma boa história para produção 4k e vamos continuar investir nisso. Eu acredito que o 4K será o catalisador de novas tecnologias, como a tecnologia Ethernet para o mundo broadcast. Ethernet já esteve no mundo broadcast, já temos muitos produtos IP hoje, mas eu estou falando de Streaming Ethernet em alta qualidade e resolução, não mover arquivos, estou falando de transmissão. Isso vai levar tempo, mas já estamos trabalhando nestas soluções.

Revista da SET: Estão prontos então para a Copa do Mundo em 4K?
Lopez: Sim, não teremos problemas com a Copa 2014 nem Olimpíadas. Eu acredito, porém, que até 2016 veremos 4K via Ethernet, mas por agora ele precisará ser feito em quad-link por duas razões: As câmeras e os switchers são quad-links. É importante que para o operador não haverá diferenças práticas. Pode ser HD, 3G, 4K, tanto faz, operar tem que ser a mesma coisa.

Revista da SET: Interessante você falar da transmissão em Ethernet, que é algo que já aconteceu nos últimos anos no áudio profissional. A ideia é a mesma?
Lopez:
Bom ponto. Vemos historicamente esta transição acontecendo com áudio antes do vídeo. Da maneira que hoje o áudio adotou Ethernet, o vídeo também o fará. O desafio com o vídeo é sempre a largura de banda, que é muito maior. Outro desafio é que enquanto tentamos mudar a forma de conectar as coisas, temos esta nova resolução que é 16 vezes maior que o HD.

Revista da SET: No mundo do pró-áudio, um dos problemas da Ethernet é a falta de padronização de protocolos…
Lopez: Outro excelente ponto. Nós estamos trabalhando com a EBU e o SMPTE para garantir que o que quer que façamos se torne um padrão. Não queremos que aconteça conosco o que aconteceu com o áudio, onde temos AVB, Dante, RockNet, REAC etc. todo mundo tem seu próprio padrão e ninguém pode interoperar com cada um. Isso é muito triste. Mas eu acho que a comunidade broadcast pode superar isso, pois já fizemos algo parecido. O SDI é um exemplo de bom trabalho em padrão e hoje centenas de equipamentos funcionam com SDI. Eu acho que uma das coisas que não devemos esquecer, é que com o crescimento da demanda de banda, o investimento para aumentar a capacidade de banda do Ethernet vai sempre ser crescente. Hoje 10G e 40G é barato, 100G já tem mais caro, se você olhar para a curva, verá que chegaremos a bandas nos próximos 10 anos que outras soluções nunca chegarão perto. E é por isso que Ethernet parece ser a plataforma correta para olhar para vídeo broadcast.

Revista da SET: Você acredita que o 4K veio para ficar ou é uma escada para o 8K?
Lopez: Bem, se nossos amigos no Japão tem algo a dizer, eles estão confiantes que em 2020 eles vão transmitir em 8K…

Revista da SET: Mas isso é real, ou é só um sonho japonês?
Lopez: Eu acho que até pode ser um sonho japonês, mas a NHK já fez algo parecido. Eu lembro quando eles falaram que iam transmitir em 1080p, todos pensaram que era um sonho, mas eles fizeram e foi no cronograma que eles disseram que iam fazer. Então eu acho que eles são confiáveis em seus cronogramas.

Revista da SET: Dá para dizer que isso dependerá mais da boa venda de televisores 4K?
Lopez:
Ok, vamos olhar para o 3-D, que foi um desapontamento para a maioria das pessoas. O que aconteceu com o 3-D é que o consumidor não gostou dele. Então medir a resposta do consumidor à tecnologia é uma coisa boa. Outra coisa é o ponto de vista de produção. O 3-D trazia novos processos, pessoas e equipamento para dentro do fluxo de trabalho. O que eu gosto do 4K é que o fluxo de trabalho não é muito diferente do SD, HD, 3G.

Flávio Bonanome
Revista da SET.