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Mudança e evolução para 4K e IP

Nº 146 – Out/Nov 2014

por João Martins em Amsterdã

Reportagem

Depois de uma edição alucinante em Las Vegas, onde o NAB 2014 trouxe fortes ventos de mudança para a indústria, estávamos curiosos de ver como a perspectiva mais Europeia e internacional da International Broadcasting Convention 2014 nos faria ter uma visão diferente. Não foi bem assim. A feira de Amsterdã foi também marcada por forte agitação, contrabalançada de certa forma por alguma euforia pelo retorno de investimentos que já não se viam há algum tempo. A questão que ficou no entanto no ar é: Será que aquilo que os fabricantes estavam promovendo está em linha com as prioridades das televisões e produtoras?

Omaior encontro do mercado broadcast europeu, o IBC (International Broadcasting Convention), realizado de 12 a 16 de Setembro na RAI (Amsterdam RAI Exhibition and Congress Centre), em Amsterdã, Holanda contou com mais de 1.500 expositores que receberam nos seus cinco dias de exibição mais de 55 mil visitantes de mais de 170 países.
As estações de televisão que iniciaram há alguns anos atrás a transição para alta definição e mesmo muitas ainda que ainda nem sequer fizeram a transição de SD para HD têm perante si um forte dilema. Tal como se viu no IBC 2014, a indústria está mudando a um ritmo mais rápido do que nunca – e não falamos apenas da evolução para Ultra-Alta Definição UHD a 4K ou 8K, mas sobretudo no que diz respeito à tecnologia de infraestrutura, cada vez mais TI e IP.

Os temas dominantes do IBC 2014 implicavam obrigatoriamente a transição para 4K e a migração para operações em cloud. No estande da União Europeia de Radiodifusão (EBU/UER) havia demonstrações de conteúdos em HDR (high dynamic range), codificação 4K HEVC e especificações de orquestração FIMS com soluções de infraestrutura em cloud

Mas essa transição está ainda muito longe de estar consolidada, embora as peças do puzzle ainda em falta estejam todas começando a surgir.
A complicar as coisas, entretanto os fabricantes mais conhecidos vão sendo comprados, vendidos, as fusões vão acontecendo e os grandes players do sector são cada vez mais empresas outrora completamente estranhas à indústria, como a Cisco, a Ericsson, Akamai ou Amazon.
Outras simplesmente adoptaram nomes novos, tal como acontece com a Imagine Communications que resultou do processo de separação da Harris Broadcast (para as soluções de produção e emissão) e na GatesAir (para as soluções de transmissão).
E foi precisamente o seu novo CEO, Charlie Vogt, um executivo que transitou da indústria de TI que melhor traduziu esse sentimento ao afirmar: “Acredito que esta indústria vai passar por mais mudanças nos próximos 18 meses do que tudo aquilo porque passou nos últimos cinco – ou mesmo nos últimos 20 anos!” (em entrevista ao diário do IBC, Vogt disse mesmo 50 anos!…).

Referindo-se em concreto ao fato de a indústria precisar de alguma concentração de esforços para concluir a transição da migração de processos de sinais de banda base SDI para IP e para tecnologias TI que potenciem finalmente sistemas multifuncionais, não se cansou de promover em todas as suas intervenções as soluções em Cloud e arquiteturas de plataformas definidas por software e TV Everywhere.

As demonstrações das imagens do Mundial recolhidas no Brasil em 8K pela NHK foram o grande destaque das demonstrações que a organização japonesa promoveu no IBC 2014

Não deixámos de notar por parte de Charlie Vogt alguma obsessão mesmo em referir parcerias com empresas como a Microsoft e a IBM, quase que se esquecendo de referir o fato de, ainda há pouco tempo, a sua empresa ter comprado a Digital Rapids – que já há muito era um parceiro estratégico da Microsoft nesta indústria.

Quando a Akamai e a Amazon começam a apostar em estandes de grande dimensão em feiras como o IBC, podemos estar seguros que a migração para serviços CDN e infraestruturas em cloud está mesmo a se transformar numa realidade na indústria de televisão

E o discurso não é original, porque na verdade já há dois anos que ouvimos o presidente e CEO da Avid, Louis Hernandez, Jr. Afirmando que há demasiados “players” na indústria broadcast e que é necessário maior concentração. De certa forma, o IBC veio contradizer um pouco estas atitudes, uma vez que são conhecidas precisamente as parcerias dos gigantes de TI com empresas relativamente pequenas do setor, tal como se viu este ano no enorme esforço da Microsoft em licenciar tecnologias e fazendo-se representar com importantes executivos em apresentações relativamente “modestas”.

Conectividade, integração e inovação
Por outro lado, o IBC é um evento que, em contraste com a NAB em Las Vegas, há muito conta com uma presença esmagadora de grandes players do setor das telecomunicações, sendo evidente que o mercado Europeu fez uma transição radical para as plataformas de cabo, satélite e IPTV em detrimento das redes terrestres tradicionais do broadcast, sendo que o setor está agora vivendo uma nova etapa de transição para modelos OTT e de convergência com as redes móveis.
Isso mesmo, aliás, ajuda a explicar o fato de a IBC ter atraído tantos participantes que ali acorreram para a conferência e conhecer as propostas dos expositores. Quando se observam as multidões que percorrem os corredores dos 14 pavilhões do RAI, nota-se que estes não são de setores de produção e criativos, mas predominantemente executivos e técnicos de grandes operadores de distribuição e comunicações – um setor de onde continuam a originar os grandes investimentos.
A organização do IBC não hesitou em divulgar que a edição de 2014 foi a mais bem-sucedida de sempre, atraindo um total de 55.092 visitantes, um aumento de 4% em relação a 2013.
A conferência do IBC 2014 foi efetivamente uma das maiores e mais completas de sempre, com mais de 280 palestrantes num programa de sessões alinhado tematicamente que obrigava os participantes a definir previamente qual o seu principal interesse.
E a apresentação keynote por parte de David Abraham, CEO do Channel 4 inglês, deu um mote interessante.
“A televisão em modelo broadcast continua sendo relevante. Mas os espectadores querem mobilidade e conectividade e não há nenhum motivo para que os broadcasters percam essa relevância”, afirmou. Na exposição, assim como nas conferências, discutiu-se bastante o tema de como os espectadores estão acedendo aos conteúdos de televisão mais populares usando cada vez mais outras plataformas “on-demand” e não obrigatoriamente sentados no sofá da sala.
Uma alteração que confirma a importância da produção de conteúdos de qualidade e do papel das estações de televisão como fonte de conteúdos e informação, mas que representa em simultâneo um enorme desafio técnico, comercial e operacional. Para discutir precisamente esse e outros temas, o IBC contou com intervenções do presidente da Google Europe, Matt Brittin; do CEO e diretor Global da BBC Worldwide, Tim Davie; do Presidente da AMC Global e Sundance Channel Global, Bruce Tuchman; entre muitos outros executivos.
Esta edição do IBC 2014 serviu também para o lançamento do IBC Content Everywhere Europe, o primeiro de uma série de eventos orientados para a discussão da transformação profunda em curso nos mídia provocada pelas novas formas de distribuição e acesso. O evento de lançamento foi inserido diretamente no IBC 2014 como uma forma de visitantes e expositores se familiarizarem com o conceito que irá agora ter igualmente edições no Médio Oriente e África e no Brasil/América Latina. Nesta primeira edição, a organização promoveu espaços de debate e divulgação de novas tendências, com a designação IBC Content Everywhere Cloud Solutions Theatre, IBC Content Everywhere Workflow Solutions Theatre e o IBC Content Everywhere Hub Theatre.
Os conteúdos destas sessões e destaques podiam ser igualmente conhecidos durante os seis dias de emissão da IBC TV, este ano transformado num serviço de 24 horas em web streaming e igualmente disponível para os mais populares modelos de smartphones e tablets. Estes conteúdos permanecem disponíveis e podem ser vistoson-demand em www.ibc.org/VOD.

FIFA e Brasil em destaque
Outra importante iniciativa foi o IBC Leaders’ Summit que trouxe até ao evento mais de 100 CEOs e executivos de alto nível para um debate exclusivo sobre a transição digital de serviços e de como a inovação nas indústrias relacionadas está promovendo alterações no mundo dos mídia.
Como sempre, algumas das tecnologias mais avançadas e programas de desenvolvimento podiam ser conhecidos na IBC Future Zone, tendo a Cisco aproveitado a oportunidade este ano para mostrar a sua visão do mundo conectado num futuro próximo, enquanto a televisão japonesa NHK demonstrava o seu sistema Super Hi- Vision 8K, incluindo já alguns novos modelos de câmeras. O destaque em termos de conteúdos foram naturalmente as imagens captadas pela NHK na Copa do Mundo Brasil 2014.

Na área de apresentações do IBC Future Zone, o Instituto ETRI promoveu uma demonstração prática de uma emissão 4K UHD em serviço de televisão digital terrestre (DVB-T2) contendo uma emissão híbrida 3DTV e HDTV para plataformas móveis, tudo no mesmo canal

Na apresentação promovida pela NHK, para além dos habituais visionamentos das mais recentes imagens em 8K (Super Hi-Vision), este ano o principal destaque ia para a apresentação de imagens captadas a 120 frames por segundo, um formato em que a cadência superior de imagem efetivamente permite fazer justiça à resolução acrescida, suprindo um dos principais problemas com imagens em movimento que há tempo vem sendo apontado pelos especialistas.
As demonstrações de elevado número de frames por segundo (high frame rate), eram igualmente complementadas por apresentações de latitude dinâmica expandida (high dynamic range) e outras inovações que vêm provocando reações cada vez mais positivas em relação a estes esforços de inovação japoneses, iniciados já há 10 anos.
O Dr. Sugawara, responsável dos NHK Science and Technology Research Laboratories, afirmava: “Trata-se de um momento de grande importância para o desenvolvimento da tecnologia 8K. As nossas apresentações públicas das captações efetuadas no Mundial do Brasil foram extremamente bemsucedidas. Acredito que a implementação do novo sistema de elevada cadência de imagem vai tornar as imagens de conteúdos com sequências de ação rápida, tal como no esporte, numa experiência sensacional”.
Segundo a NHK revela, o sistema está muito próximo da primeira implementação prática, estando proposta já uma primeira emissão experimental via satélite em 2016, com o lançamento das primeiras emissões regulares no Japão em 2020. Segundo a NHK, os mais recentes desenvolvimentos em tecnologia de comunicações já permitem transportar os sinais 8K sem compressão a 144 Gbps em tempo real, num único cabo de fibra.
A NHK já está usando, igualmente, o codec HEVC para processar sinais nativos 8K para transmissão via satélite, num único canal a 100 Mbps.
Por outro lado, as sessões que decorreram o auditório do IBC Big Screen Experience contaram este ano com a oportunidade – pela primeira vez – de se assistir à projeção integral de filmes de longa-metragem – neste caso “The Life of Pi” e “Dawn of the Planet of the Apes”, cortesia da 20th Century Fox – em projeção 3-D de alta luminosidade com um projetor laser 6P da Christie.
No espaço IBC Big Screen decorreram ainda uma série de eventos e conferências, incluindo uma demonstração de correção de cor em tempo real em 4K e uma intervenção de Douglas Trumbull onde este apresentou a nova curta-metragem “UTOFOG”, captada em estereoscopia 3-D em 4K a 120 frames por segundo.
Aproveitando a infraestrutura do IBC Big Screen, decorreu ali igualmente a cerimónia dos IBC2014 Awards onde o destaque foram naturalmente a FIFA, pela sua cobertura da Copa do Mundo, tendo sido atribuído um Prémio Especial à Vienna State Opera pelos seus serviços de transmissão broadcast e online de espetáculos de ópera e ballet para audiências de todo o mundo.
Entre os premiados, destaque igualmente para o Best Conference Paper Award, atribuído à conferência “DVB -T2 Lite – explorando redes HDTV para serviços de recepção móvel”, um paper científico de G. Alberico, A. Bertella, S. Ripamonti e M. Tabone da RAI de Itália, e que aliás foi destacado com uma apresentação na própria exposição, no estande do consórcio DVB.

Nas demonstrações de novas tecnologias para emissões de televisão em 4K, impressionavam positivamente as apresentações de elevado número de frames por segundo (high frame rate), complementadas por apresentações de latitude dinâmica expandida (high dynamic range) e inovações tal como áudio binaural e som imersivo em MPEG-H

TI ou IP?
Passando diretamente para as propostas tecnológicas, vamos tentar aqui refletir um pouco sobre a transição em curso para infra-estruturas de produção baseadas em tecnologia TI e para a transmissão sobre IP. O IP no campo das infraestruturas de produção, tal como já havíamos comentado na reportagem do NAB2014, está bastante mais atrasado, sendo que com a transição para 4K, pelo menos para já, ninguém quer arriscar propor a substituição da distribuição de sinais de banda base em SDI para cablagem de rede.
No IBC 2014 ouvimos muitas empresas falando de vídeo sobre IP, mas na verdade ou se tratava de simples aplicações de distribuição de sinais com forte compressão em circuitos fechados ou então – tal como demonstrado pela Sony – de simples contribuições de vídeo sobre IP.
No entanto, a discussão não abrandou e sobretudo no campo do AVB (audio video bridging – IEEE 1722), onde se continua fazendo progressos – basicamente todos em compasso de espera por causa da atualização da tecnologia Ethernet para 25, 40, ou 100 Gigabits por segundo. Mas ainda não foi este ano que se viram progressos dignos de nota.
Como sempre, Jan Eveleens, CEO da Axon e responsável pelo grupo de trabalho de vídeo no consórcio AVB, foi o maior promotor da necessidade da indústria adotar o padrão. A Axon, por outro lado, tenta demonstrar os méritos da tecnologia, tendo mesmo efetuado demonstrações de vídeo 4K sobre Ethernet-AVB – o que vale a pena referir, não é nada de revolucionário, tendo em conta a cadência de dados disponível A Axon continua acima de tudo demonstrando o fato de o padrão AVB eliminar os requisitos da gestão de endereços de IP, uma vez que a solução basicamente mantém apenas os layers básicos do padrão Ethernet (layer 2), permitindo que os dispositivos possam estabelecer ligações entre si de forma automaticamente assim que se ligam à rede, estabelecendo ligações que permitem sincronização com latência reduzida.
O problema, claro está, é que a tecnologia que está sendo implementada e demonstrada pela Axon, continua a ser basicamente da Axon, apesar de respeitar a especificação AVB publicada, sendo necessário que outros fabricantes solicitem a certificação respectiva para garantir a interoperacionalidade entre equipamentos. Enquanto isso, múltiplas empresas continuam desenvolvendo os seus próprios esforços de implementação sobre IP de forma proprietária, na esperança de encontrarem nichos lucrativos de mercado – como o da contribuição – em vez de tentarem de uma vez, substituir por si toda a infraestrutura SDI existente.

Se alguém tem dúvidas que todas as peças do puzzle 4K estão disponíveis, basta ver como no IBC 2014 até já havia soluções de legendagem anunciadas como preparadas para UHD

Por outro lado, quando se fala de transição TI na indústria broadcast, podemos falar de múltiplas transições, algumas já ultrapassadas, tal como a transição para servidores e processos baseados em arquivos, sistemas de controle de transmissão totalmente baseados em computador, sistemas de edição e produção não-linear em rede etc.
No IBC 2014 começou agora a se falar de um patamar novo, assente nas soluções em cloud e na virtualização – tema onde curiosamente algumas empresas tradicionais da indústria broadcast, tal como a Quantel, têm vindo a dar cartas.
Mas quando se fala de IP, virtualização e cloud, alguns fabricantes dão quase a sensação de que deixa de ser necessário ter hardware pelo meio. No entanto, as empresas que efetivamente desenvolvem o hardware necessário são precisamente as que estão fazendo todas as instalações críticas de “broadcast na cloud” – mesmo que se usem simplesmente servidores blade e o chamado hardware COTS (commercial off-the-shelf) que quer dizer que está disponível em qualquer lado.
Mas basta perguntar a empresas relativamente novas, como a Blackmagic e a AJA Video, para perceber como o hardware de televisão (dedicado se quiserem) é não apenas necessário, como continua a ser um mercado extremamente lucrativo – simplesmente as coisas já não custam tão caro como custavam há 10 anos atrás.

Demonstração de codificação HEVC de sinais 4K com base na plataforma VOD da Harmonic

Por outro lado, o “hardware” que se utiliza atualmente em televisão e produção audiovisual é quase todo atualizável por software/firmware. Muitas das visões de sistemas “cloud” na verdade – para a indústria de televisão – não passam de bastidores preenchidos com servidores blade “estúpidos” à espera do software adequado para a aplicação dedicada, necessitando em todos os extremos de um mundo de hardware periférico que, atualmente continua a ser o mercado a que grande parte dos expositores presentes no IBC se dedicam.
Do outro lado, estão cada vez mais as empresas de serviços – Amazon ou Akamai – que agora também se tornaram expositores do IBC, naturalmente.

A visão Harmonic
Entre outras empresas que dominam o setor, embora com uma ligação mais “umbilical” ao setor broadcast, está a Harmonic, outro dos grandes nomes que atualmente nenhuma estação de televisão consegue contornar e que, no IBC 2014, se propõe ajudar precisamente as redes de televisão a transformar as suas atuais infraestruturas de vídeo em soluções convergentes sobre IP que combinam desde o broadcast em redes terrestres, até ao cabo, satélite e telecomunicações, de forma a chegar a qualquer tipo de tela.
Desde infraestruturas de vídeo virtualizadas até à codificação e distribuição de sinais 4K Ultra HD, a Harmonic mostrava no IBC soluções que não só já estão disponíveis como apresentam custos extremamente competitivos.
“Todas as tecnologias e soluções que estamos destacando no IBC 2014 foram desenhadas para tornar mais simples, flexíveis, escaláveis e eficientes, a produção e distribuição de vídeo”, afirma Peter Alexander, responsável de marketing da Harmonic.
Reconhecendo que, para as estações de TV as coisas podem parecer cada vez mais complexas e desconhecidas à medida que esta migração para as redes IP vai acelerando, a Harmonic tentou transmitir uma mensagem de confiança, esforçando-se para mostrar que as inovações existentes podem precisamente ajudar a agilizar e tornar mais eficientes essas novas infraestruturas. “Na feira, a Harmonic está demonstrando as suas mais recentes inovações, incluindo soluções de distribuição definidas por software e virtualizáveis que unificam todas as funções de processamento de vídeo numa mesma plataforma”.

No IBC 2014 a Harmonic promoveu a sua arquitetura de softwareHarmonic VOS, em conjunto com o sistema de processamento virtualizado Electra XVM que assentam em infraestruturas TI emcloud

Para unificar esta proposta, a Harmonic promovia essencialmente a sua arquitetura de softwareHarmonic VOS, em conjunto com o sistema de processamento virtualizado Electra XVM que assentam em infraestruturas TI que podem estar localizadas fisicamente nas operações das redes da própria cadeia de televisão como podem estar instaladas num operador de distribuição remoto que oferece serviços à estação.
A Harmonic se esforçava por demonstrar que, com este conjunto de soluções, seja um operador de distribuição, uma rede de TV tradicional broadcast ou um operador de Pay-TV, todos poderão começar a evoluir as suas operações de oferta de conteúdos para qualquer tipo de plataforma, nomeadamente oferecendo já canais de distribuição em Ultra HDTV com o mais baixo custo de operação, sem esconder que, atualmente, empresas como a Harmonic vivem mais dos serviços e suporte técnico que proporcionam do que propriamente da instalação da própria infraestrutura técnica.

É preciso não esquecer que a Harmonic é a empresa que comprou a Omneon e que, por isso mesmo, continua a liderar na área das soluções de servidores para televisão, continuando a desenvolver a gama Spectrum agora com novas versões mais avançadas e com novos módulos ChannelPort

Nas demonstrações de serviços Ultra HD, a Harmonic destacava já a codificação HEVC e streaming em tempo real na sua plataforma VOS, mostrando igualmente a compatibilidade de distribuição de sinais HEVC 2160p50/60 no perfil Main 10 com soluções de outros fabricantes. Para potenciar soluções on-demand sobre IP, a Harmonic mostrava o sistema de servidor e gestão de streaming ProMedia Origin que, para além de serviços VOS, suporta igualmente serviços de distribuição diferidos para diferentes plataformas.

O codificador Harmonic Ellipse 3000 já está preparado para os novos padrões DVB-S2X e DVB-CID para operações DSNG

Não esquecendo nunca que a Harmonic é a empresa que em tempos comprou o líder de mercado em servidores de televisão, a Omneon, este ano a marca demonstrava já soluções de edição para equipamentos em rede e playout para emissão de sinais 4K, diretamente sobre a mais recente evolução do sistema de armazenamento partilhado MediaGrid, assim como novos desenvolvimentos no sistema de servidores Spectrum, suportando maior número de canais, maior densidade de armazenamento, suporte melhorado de legendagem, monitorização e ferramentas integradas de gestão.
Com o lançamento da solução Spectrum MediaCenter (MCP-2200A), a Harmonic é agora capaz de oferecer até 20 canais (a 50 Mbps ou 10 canais a 100 Mbps) num mesmo servidor, com até 32 TB de armazenamento SAS em apenas 2U!. A empresa mostrou ainda uma série de melhorias no sistema de emissão Spectrum ChannelPort em combinação com o novo servidor Spectrum MediaDeck para as referidas capacidades melhoradas de gestão de emissão, legendas, monitorização etc.
Para a continuidade de emissão a Harmonic anunciou o novo sistema Polaris, já desenhado para a gestão das novas infraestruturas sobre IP e que, em integração com os servidores Spectrum permite implementar uma solução de Media Orchestration. A chamada “orquestração de mídia” é um daqueles buzzwords que a indústria de televisão inventou, à medida que vai amadurecendo a noção de sistemas totalmente baseados em arquivos e que verdadeiramente permitem tirar partido dos mais recentes padrões de metadados e comunicação inteligente entre sistemas TI. De certa forma, podemos dizer que a solução Polaris está para o mundo da emissão já totalmente baseada em servidor, como os antigos sistemas de automação estavam para o controle remoto de máquinas estavam nas infraestruturas de televisão tradicionais. A diferença é que, agora, soluções como o Polaris, já permitem pensar na tal noção de virtualização de vídeo, uma vez que este pode estar distribuído em redes que se apresentam na emissão como um conjunto combinado de recursos remotos – neste caso de servidores e sistemas de armazenamento.

Para a continuidade de emissão a Harmonic anunciou o novo sistema Polaris, já desenhado para a gestão das novas infraestruturas sobre IP, em integração com os servidores Spectrum e com as soluções de automação da empresa inglesa Pebble Beach Systems

As vantagens, tal como a Harmonic descrevia, está na capacidade de se criarem “canais de vídeo” à medida das necessidades, numa fracção do tempo e dos recursos que anteriormente eram necessários. Em termos de “orquestração”, o sistema de emissão Harmonic Polaris se integra com as soluções de automação da empresa inglesa Pebble Beach Systems – numa colaboração que foi sempre destacada pelos executivos da empresa no IBC. Não por acaso, a Harmonic reforçou recentemente a sua participação estratégica no grupo Vislink PLC (Reino Unido) que é a empresa mão da Pebble Beach Systems, tornando-se assim num dos seus maiores acionistas.

A visão Imagine Communications
A agora denominada Imagine Communications – que era até ao ano passado a Harris Broadcast – falou exatamente dos mesmos temas da convergência IP, virtualização de vídeo, serviços de software em rede etc., que já destacámos para outras grandes marcas. Numa nota de curiosidade, na conferência de imprensa do IBC 2014 ficámos a saber que a razão do nome Imagine Communications se deve ao fato de que a empresa de investimentos Gores Group, que inicialmente comprou a Harris Broadcast, ter na época relações com uma pequena empresa de serviços e aplicações para distribuição de vídeo para tablets e dispositivos móveis denominada Imagine Communications.

Charlie Vogt, o novo CEO da Imagine Communications, fez-se acompanhar quase sempre por executivos da Microsoft, assinalando a aposta da sua empresa em soluções de software e arquiteturas em cloud, diretamente assentes na plataforma Microsoft Azure

Quando foi chamado a liderar a “nova Harris”, o atual CEO Charlie Vogt foi confrontado com a necessidade de encontrar um novo nome para a sua empresa e achou que o custo de aquisição da Imagine Communications de San Diego, nos Estados Unidos seria inferior ao custo de criar um nome e marca de raiz… Sendo um executivo que vem da indústria informática e telecomunicações, Charlie Vogt, acha que um nome como Imagine ajudará a construir uma imagem totalmente nova na indústria de televisão, ajudando a fazer esquecer o passado da Harris Broadcast – se terá razão ou não, apenas o sucesso das novas soluções da marca poderá dizer.
Querendo evoluir de um passado claramente assente na indústria broadcast, a “nova” Imagine Communications quer agora ser vista pelo mercado como um forte player nesta nova visão da indústria, cada vez mais TI e IP.

Para tal, a Imagine revelou no IBC 2014 a sua primeira solução integrada de “Playout em Cloud”, denominada VersioCloud. Segundo a Imagine esta solução permite que as empresas de mídia possam fazer a gestão de operações e criar novos canais no cloud de uma forma bastante mais flexível e rápida.

A Imagine Communications transformou-se radicalmente numa empresa que tem os temas da convergência IP, virtualização de vídeo e serviços de software em rede como principal objetivo

Segundo Charlie Vogt, “o consumidor atual tem um número crescente de alternativas desde a televisão linear até serviços Over-the-Top (OTT), o que cria uma pressão enorme sobre as empresas que querem manter quota de mercado e querem fidelizar as suas audiências. Uma solução como o VersioCloud torna-se assim numa proposta disruptiva que poderá representar uma enorme vantagem competitiva porque simplifica a criação e gestão de novos canais, acelerando a rentabilização de conteúdos junto de novos públicos e mercados geográficos. Enquanto outras soluções concorrentes se baseiam em codecs, em hardware ou GPUs, o VersioCloud é a única solução da indústria que se baseia 100% em software, correndo em plataformas de TI comercialmente disponíveis”.
O VersioCloud combina assim todas as funções de continuidade, incluindo grafismo e identificação de canais, automação e servidor, tudo numa solução em cloud.

Charlie Vogt, Ceo de Imagine Communications disse à Revista da SET antes da coletiva de imprensa realizada no IBC 2014 que “o Brasil e América Latina são mercados prioritários para a marca devido a transição para o digital pelas quais as emissoras estão passando e as mudanças tecnológicas que este processo implica”

Para a gestão desta solução, a Imagine propõe o software de orquestração (a tal palavra de novo…) Magellan SDN Orchestrator que, em conjunto com as plataformas de processamento e compressão Selenio permitem fazer a ponte entre a infraestrutura SDI, ASI e IP, fazendo assim a transição entre as soluções de banda base existentes na migração para IP.
Segundo a Imagine destaca, o sistema VersioCloud facilita a interação entre os produtores de conteúdos, distribuidores e operadores e organizações afiliadas, na criação de soluções multicanal que permitem ir ao encontro das tendências de acesso existentes em cada mercado, nomeadamente tornando mais simples a gestão da publicidade em múltiplas plataformas, ter métodos eficientes de recuperação em casos de catástrofe (disaster recovery) e a possibilidade de acomodar oportunidades sazonais ou temporais, tal como a transmissão de grandes eventos esportivos, criando canais para aceder a novos mercados, sem necessidade de investimentos de raiz.
A Imagine propõe este novo conceito como uma plataforma de serviços que se paga à medida que se usa, ideal para experimentar novos modelos OTT.
Igualmente para fazer a ponte entre as infraestruturas existentes e a nova geração de soluções baseadas em software e em cloud, a Imagine Communications anunciou o lançamento da nova Nexio Ingest Suite.
Trata-se de fazer a gestão do ingest de conteúdos e armazenamento, convertendo sinais de banda base em arquivos, através de uma série de ferramentas de software que complementam os servidores Nexio já existentes. A solução permite, nomeadamente, fazer a ingesta multicâmera em estúdio, diretamente de processos de trabalho em formato XDCAM (Sony) ou Panasonic (P2) diretamente para arquivos.
Na área de gestão de publicidade e gestão de direitos – uma área onde a Harris sempre teve uma importante quota de mercado – a Imagine Communications anunciou agora o lançamento das soluções de software Landmark Express.
Disponível em dois módulos que podem ou não ser instalados em cloud, a solução está disponível nos módulos Landmark Rights & Scheduling Express e Landmark Sales Express e que, segundo a empresa explica, permitem a migração de componentes de software existentes do portfólio de soluções da empresa Para complementar a migração para infraestruturas TI e IP, a Imagine Communications lançou também no IBC a sua nova plataforma de gestão Zenium, desenhada para assentar nos serviços Microsoft Azure. Na prática o software Zenium combina toda as funcionalidades de processamento, compressão, transcodificação e gestão de processos baseados em ficheiros que a Digital Rapids vinha desenvolvendo, numa solução diretamente integrada com a plataforma Microsoft Azure. Esta foi uma das razões porque Charlie Vogt andou sempre acompanhado de executivos da Microsoft, uma vez que a sua proposta de “virtualização” assenta fortemente na relação estratégica com a empresa de Redmond. Os executivos da Microsoft descreviam até as propostas da Imagine Communications, como “um ambiente de software modular para correr processos e tarefas especializadas” para as soluções emcloud Microsoft Azure. Difícil reconhecer que esta é a empresa que no ano passado se chamava Harris Broadcast.

A Vizrt apresentou no IBC solução de streaming por IP conectado ao Cloud permitindo que as emissoras transmitam múltiplos formatos e resoluções simultaneamente acelerando a criação de gráfico em tempo real

São toda uma série de conceitos meio abstratos que na prática implicam o licenciamento de software e a aquisição de serviços externos, com os quais nem todos os broadcasters e rede de TV se sentirão necessariamente muito confortáveis, mas que pode fazer todo o sentido na perspectiva Europeia, onde uma estação de TV nem sequer possui rede de transmissores, estando totalmente dependente de operadores de distribuição (cabo, satélite, IPTV e mesmo operadores públicos de Televisão Digital Terrestre (TDT).
Para complementar esta proposta de emissão em cloud, a Imagine Communications promoveu ainda o conceito de serviços de desenho de rede, comissionamento, monitorização, suporte e formação, MyImagine Services e MyImagine Watch.
São soluções de serviços para ajudar as organizações que não têm capacidades próprias de engenharia internas – e cada vez mais são os canais de televisão Europeus que não têm sequer uma direção de engenharia – a contratar externamente um pacote de soluções de serviços, complementares a essa necessidade de transição para serviços de TI, em cloud e “virtualizados”. Este tipo de abordagem permite reduzir custos operacionais numa primeira abordagem, mas coloca claramente as operações de televisão nas mãos de terceiros, tornando as suas operações, também, “virtualizáveis” a qualquer momento…

Cabo e Satélite sobre IP
Para além das preocupações de migrar as estações de televisão para arquiteturas totalmente IP, também na área da transmissão e distribuição foi possível assistir no IBC a múltiplas demonstrações de tecnologias que vêm facilitar esta migração com base nos padrões mais recentes.

Para além de soluções de transmissão com suporte para emissões e soluções de produção 4K completas na sua divisão DVS, a Rohde & Schwarz apresenta já soluções completas de teste e medida para este tipo de sinais

Numa das demonstrações de tecnologia avançada mais interessantes que decorreu no IBC 2014, a Eutelsat e a Cisco promoveram uma solução de vídeo em cloud sobre satélite, integrando a solução Cisco Videoscape com a tecnologia “smartLNB” da Eutelsat. Esta combinação permite obter streaming ao vivo sobre IP e serviços Push Video On Demand (VOD) para novos serviços de televisão. A solução integra a plataforma de vídeo em cloud Cisco Videoscape, incluindo o software de set-top box MediaHighway, acesso condicional VideoGuard e uma aplicação de interface de utilizador desenvolvida pela Cisco para acesso a um guia de programação avançado que permite aos espectadores selecionar conteúdos ao vivo e pré-gravados, trazendo funcionalidades avançadas VOD para serviços via satélite. Basicamente o sistema “smart LNB” da Eutelsat é um dispositivo de baixo custo que combina a recepção direta via satélite com um canal de retorno IP de banda estreita, transformando serviços lineares em serviços conectados para zonas geográficas onde o satélite é a única alternativa comercialmente viável.

Para serviços por cabo, no estande da Intel decorria uma interessante demonstração de implementação da mais recente tecnologia DOCSIS 3.0 Full-Spectrum Capture da MaxLinear para distribuição de pacotes de 32 canais numa cadência de dados até 1.6 Gbps com menos de 75mW de dissipação de potência por canal.
A MaxLinear e a Intel demonstravam este desenho de referência no IBC 2014. Combinando o receptor MxL268 Full-Spectrum Capture (FSC) de 32 canais, para aplicações DOCSIS 3.0, com a plataforma SoC Intel Puma 6, para serviços DOCSIS 3.0. Basicamente, esta tecnologia irá permitir aos operadores de cabo evoluírem as suas redes e serviços de pacotes de 16 e 24 canais diretamente para sistemas de 32 canais com base na mesma rede coaxial, competindo assim com operadores de fibra FTTH (fiber-to-the -home). As soluções de chip da Max- Linear são compatíveis diretamente com as existentes atualmente no mercado, permitindo substituir rapidamente os receptores existentes nos operadores e acelerar a migração dos serviços de cabo para DOCSIS 3.0.

A Rohde & Schwarz fez a demonstração no IBC 2014 das primeiras soluções de teste, medida e geradores de sinais para redes de televisão por assinatura com base no padrão DOCSIS 3.1

A MaxLinear demonstrava igualmente uma solução 4K Satellite Full-Spectrum Capture (FSC), combinando a sua plataforma MxL862 com um receptor de satélite MxL581 de 8 canais para recepção de sinais 4K via satélite, o que significa que os operadores de satélite vão dispor de uma solução económica para distribuir estes novos canais aos assinantes existentes. A demonstração mostrava a cadeia de sinal desde a transmissão à recepção de um serviço 4K UHD com base na tecnologia FSC, usando uma plataforma de codificação e descodificação HEVC/H.265 da STMicroelectronics.
Por outro lado, no estande da Rohde & Schwarz, demonstravam-se já os primeiros equipamentos capazes de analisar sinais DOCSIS 3.1. Os sistemas de software de análise R&S DSA DOCSIS em conjunto com os analisadores de espectro R&S FSW estão já preparados para assistir os operadores e fabricantes de equipamentos na medição de equipamentos de rede e processos na migração para a especificação de dados DOCSIS 3.1 que já suporta redes híbridas de fibra a coaxiais.
A migração dos operadores de TV Paga para esta tecnologia é uma das áreas em que a Rohde & Schwarz apostava, oferecendo igualmente um gerador de carga de sinais DOCSIS 3.1, o primeiro no mercado a nível mundial.
Por outro lado, a marca alemã mostrava um novo sistema da empresa GMIT Gmbh, uma subsidiária da Rohde & Schwarz, para simplificar a monitorização de headends de cabo, redes broadcast e IPTV. O sistema Prismon é uma interessante solução de monitorização compacta que permite controlar diferentes tipos de sinais de televisão, diretamente a partir de fontes SDI, ASI, feixes de transporte (TS) sobre IP e sinais T2MI, detectando automaticamente erros de vídeo e áudio. Um único sistema pode monitorizar até 36 programas de TV em paralelo e detectar erros em qualquer etapa da cadeia de transmissão e distribuição com gestão e alarmes via SNMP. Para além da detecção de erros, o sistema gera um mosaico visual de alta qualidade para monitorização de todos os programas, incluindo suporte de metadados e dados auxiliares. Além disso, esta solução pode ser totalmente gerida por conexões IP, com o mosaico codificado localmente como um único sinal HD para ser acedido remotamente em simples browsers, nomeadamente através de iPad e iPhone.

Continuará….