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Medo Paralisante – 10 anos já se passaram, agora só faltam 90

*Ronald Siqueira Barbosa
A repetição de fatos históricos demonstra ser um fenômeno incessante na história da humanidade. Para tanto, basta observar os livros de história, bem como a Bíblia. Vale lembrar também que no campo tecnológico não é diferente. A repetição cíclica dos fatos aparece com bastante freqüência. A Revolução Industrial teve em James Watt um de seus primeiros exemplos ao inventar a máquina a vapor. Na época, o invento foi recebido com bastante entusiasmo e mais tarde foi possível observar que se tratava de uma nova era. Naquele momento, se iniciava a era das máquinas. Tratava-se de uma época que mudaria não somente a relação entre os homens, mas a relação do ser humano com a natureza. Apesar das particularidades de cada país e das discussões calorosas que antecederam sua adesão por parte de alguns países, a Europa foi se adaptando com o tempo à nova conjuntura.
No entanto, deve-se frisar que, como toda novidade, a Revolução Industrial não foi capaz de conquistar a todos em um primeiro momento. Havia uma certa desconfiança sobre as implicações que aquilo poderia trazer, bem como demasiada confiança nas técnicas até ali empregadas. De qualquer forma, foi possível notar claramente que países como a Inglaterra, que aderiu no primeiro momento à Revolução Industrial, foram capazes de aperfeiçoar grandemente sua técnica. Tornandose rapidamente rainha dos mares e senhora dos mundos. Conforme se costumava dizer: “o Sol nunca se põe no Reino inglês”.
Tamanha prosperidade causou grande reflexão em países vizinhos e ocasionou uma necessidade drástica de acelerar as discussões sobre a vantagem em ingressar nesse novo modo de produção e organização econômica da vida em sociedade. A França, por exemplo, levou quase 100 anos para iniciar seu processo industrial. No entanto, deve-se frisar que tamanha demora não saiu sem consequências. Já não mais possuía a influência de antes e saiu com grande atraso na conquista das novas colônias.

Danos pela inércia
O Brasil que teve no trabalho dos nossos noir frères toda a base de sua economia até o final do século XIX, iniciou sua industrialização um tanto tardiamente. Um famoso intelectual já dizia que “As dificuldades porque passamos hoje em dia foram devido à demora na promoção da industrialização do País, mas os males que passaremos no futuro, serão devidos às dificuldades no investimento à Comunicação, à Informação e à Ciência e Tecnologia”.
Alia-se a toda essa verdade, a história da Declaração da Constituição Americana, que Benjamin Franklin teria dito ao Comitê formado por ele, Thomas Jefferson e Samuel Adams que não poderiam ficar mais tempo discutindo a Constituição, pois os danos ocasionados pela inércia seriam ainda piores. A ausência de uma Constituição fragiliza os Direitos dos cidadãos e enfraquece a democracia. Deixou-nos ainda o legado das virtudes que é sempre bom lembrar:
1 TEMPERANÇA “Não coma demasiadamente; não beba até embriaguez.”
2 SILÊNCIO “Não diga nada além daquilo que beneficie outros ou você mesmo; evite conversas tolas.”
3 ORDEM “Mantenha todas as coisas em seus devidos lugares; faça com que cada parte de seu negócio tenha o seu próprio tempo.”
4 RESOLUÇÃO “Decida realizar aquilo que você quer; realize sem erro o que você resolver.”
5 SOBRIEDADE “Não tenha despesas além daquelas que proporcionarão o bem aos outros ou a você mesmo, isto é, não desperdice nada.”
6 DILIGÊNCIA “Não perca tempo; esteja sempre ocupado com algo útil; elimine todas as tarefas desnecessárias.”
7 SINCERIDADE “Não cometa fraude; pense inocentemente e com justiça; e, se você falar, fale verdadeiramente.”
8 JUSTIÇA “Não erre, prejudicando os outros ou omitindo os benefícios que são de sua obrigação.”
9 MODERAÇÃO “Evite extremismos; não fira os outros, apesar de achar que mereçam.”
10 LIMPEZA “Não tolere sujeira no corpo, roupa ou habitação.”
11 TRANQÜILIDADE “Não fique nervoso por ninharias ou com acidentes comuns e inevitáveis.”
12 MODÉSTIA “Dê vital importância apenas a saúde e o bem-estar; evite a estupidez, fraqueza e as coisas que possam prejudicar você e os outros.”
13 HUMILDADE “Imite Jesus Cristo e Sócrates.”

Sem padrão
Toda essa discussão é essencial para sabermos onde desejamos chegar explicitamente com o Rádio digital, pois já temos mais de 10 anos de debates e uma grande mudança não acontecerá somente com palavras. Passado esse tempo, ainda não temos um padrão mas temos uma série de sugestões que nos levam a lugar nenhum e atrapalham aquilo que realmente queremos, digitalizar as transmissões das nossas estações de rádio.
Os padrões disponíveis continuam sendo os mesmos, recomendados inicialmente pela União Internacional de Telecomunicações – ITU na sigla em inglês, e disponibilizados em seu site por meio de inúmeros documentos que permitem a leitura, a discussão e a reflexão do que se quer. Não posso deixar de continuar lembrando da história de Benjamim Franklin, pois ele como membro de um comitê que através da Convenção redigiu a Constituição dos Estados Unidos da América teria dito: “há várias partes desta Constituição que não aprovo agora, mas não estou seguro que nunca as aprovarei. … Duvido também se alguma outra Convenção que pudéssemos conseguir fosse capaz de fazer uma Constituição melhor. … Portanto surpreende-me, Senhor, encontrar um sistema que se aproxima tanto da perfeição como este; e creio que isto surpreenderá os nossos inimigos …”
A partir daí precisamos refletir realmente naquilo que nos interessa, pois temos padrões e temos prazos, uma não decisão será para o rádio um atraso danoso e irreparável. Os contrapontos que temos não se comparam com os ganhos que teremos. A digitalização é apenas o primeiro passo. A robustez será melhorada, mas o modelo de negócio precisa ser discutido agora entre as emissoras.
Como discutí-lo se as emissoras não estão com suas transmissões digitalizadas? Acordos precisam ser feitos, principalmente acordos comerciais, mas é preciso que alguém dê um primeiro passo. Pergunta-se: A nossa maior preocupação está em resolver os problemas das ondas hectométricas ou adotar uma tecnologia digital para as ondas hectométricas? Não se acredita que em uma faixa de radiofrequência, como é a das ondas hectométricas, surjam padrões com resultados tão diferentes a ponto de nos causar dificuldades em decidir. Por outro lado, qualquer padrão que não tenha pelo menos 100 (cem) estações no mundo utilizando- o, particularmente estações comerciais, não pode fazer parte do rol dos padrões que queremos para as nossas mais de 4.500 estações comerciais. Providências precisam ser tomadas com relação às inúmeras fontes de ruídos gerados nessa faixa de radiofreqüências e nas interferências causadas em razão da não redução de potência no horário noturno.
Os novos serviços como o PLC (Power Lines Comunications) precisam deixar claro que não interferem em parte da faixa de radiodifusão que vai de 530 kHz a 120 MHz.
Por melhor que venha a existir um padrão, há que se ter o cuidado em não ter um medo paralisante, que nos impeça de tomar uma decisão, esperando o melhor e deixar de ter acesso à tecnologia digital, iniciando-se um novo governo sem nada ter sido decidido.

Riscos aceitáveis
O Presidente Lula disse uma vez: “A Esperança venceu o Medo”. Chega uma hora em que temos que tomar uma decisão, pois a nossa inércia gerará mais danos do que a nossa ação com riscos aceitáveis. Vivemos numa sociedade de riscos, o mito da atitude perfeita caiu na Modernidade. Então teremos que decidir quais riscos serão aceitáveis.Para nós que somos engenheiros, o risco faz parte do nosso dia-a-dia. Por exemplo, um engenheiro civil não deixa de construir um edifício por causa dos riscos de desabamento. O risco sempre existirá a despeito da perfeição do projeto e de sua construção.
Mas nós temos responsabilidade por nossos trabalhos e sabemos quando uma sociedade será beneficiada pela nossa ação. Nós temos preocupação com o bem-estar de todos.Vamos fazer quantos testes forem necessários, mas não devemos esperar mais 90 (noventa) anos para ingressar com as emissoras de rádio na tecnologia digital, assim como aconteceu na revolução industrial francesa.Pois, dessa forma, chegaremos ao final dizendo:
– Finalmente conseguimos a perfeição em padrão para a digitalização, mas infelizmente não existem mais emissoras de rádio para que possamos introduzi-la.
Ou seja, como popularmente se diz: “o remédio chegou, mas o paciente morreu.”

…”Para evitar excessiva veemência, toda expressão de opiniões categóricas e toda contradição direta foram depois de algum tempo consideradas infrações e proibidas sob pena de pequenas multas.”… Benjamin FRANKLIN.

*Ronald é diretor de rádio da SET e assessor técnico da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) (ronald@set.com.br)

Revista da SET – ANO XXI – N.110 – OUT/NOV – 2009