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“Industrializar e compartilhar” nas empresas de M&E

Por Carles Rams Foto: Divulgação

ARTIGO

Aindústria audiovisual tem experimentado muitas mudanças nas últimas décadas. Começamos com os aparelhos de duas polegadas nos anos de 1950 e temos evoluído passando da bobina aberta às cassetes (betacam, DVCAM, DVCPRO etc.) até a revolução digital que trouxe a digitalização dos conteúdos, transformando-os em arquivos digitais. No início da digitalização se geriam arquivos em armazenamento, mas sem nenhum tipo de metadados. Só o prefixo era representativo do seu conteúdo e obviamente o controle das versões não era tarefa fácil. A inventividade e a liberdade dos operadores em nomear os clipes geravam situações complexas de gerenciamento quando encontravam cinco arquivos com o mesmo conteúdo, mas com nomes que iam desde xxx1.mov até xxx.1ultimo.mov, passando por xxx1ultimo2. mov. Descobrir qual era o correto não era tarefa simples e era fácil exibir uma versão intermediária de conteúdo em lugar da versão definitiva.
O aparecimento dos sistemas de Media Asset Management (MAM) trouxe a solução a esta gestão. O conceito de Asset, introduzido já nos sistemas de tráfico, tomava uma nova dimensão nos MAM quando ao arquivo de vídeo se adicionava uma camada de metadados. Isso permitiu a catalogação dos conteúdos nos sistemas digitais para depois poder realizar pesquisas complexas que permitiram encontrar esses planos que eram necessários para a edição ou automatizando o envio dos conteúdos aos servidores de emissão. Sempre trabalhando em um ambiente único e vendo o proxy a todo momento.
Qualquer ambiente digitalizado pode evoluir para vários cenários, a gestão integral por processos, a possibilidade de externalização de algum deles, assim como o uso dos modelos de negócio SaaS, em Cloud. Neste artigo vamos discutir o primeiro cenário.

A caminho da gestão por processos
A gestão por processos não é uma invenção nova. No último quarto do século passado as organizações em geral adotaram este modelo de gestão para melhorar a sua eficiência. Podemos definir um processo como valor acrescido sobre uma Entrada para conseguir um resultado, e uma Saída que, por sua vez, preencha os requerimentos do cliente. Além disso, os processos são capazes de cruzar vertical e horizontalmente uma organização pelo que os converte numa ferramenta vital para a boa gestão empresarial.
Além disso, nas últimas décadas a indústria de software tem desenvolvido diversas soluções para poder gerir esses processos. Ferramentas como o BPM (Business Process Manager) ou o BI (Business Intelligence) são habituais nas organizações de todo o mundo. A partir delas, as empresas conseguem um estreito controle das atividades da sua cadeia de valor, e isso se transforma em uma melhor eficiência de toda a organização.
Poderíamos resumir esta ideia na frase: “Industrializar e compartilhar”, com ela queremos transmitir a visão de que a indústria audiovisual necessita mudar para uma gestão por processos se quer continuar sendo competitivo em um novo ambiente como são as multiplataformas, as redes sociais ou qualquer novo modelo de negócio que vem complementar a exibição linear tradicional. Industrializar mudando para uma gestão por processos e partilhando os recursos disponíveis para melhorar a eficiência da organização audiovisual. Outro dos objetivos desta visão é alinhar a infraestrutura com os requerimentos do negócio, ou em outra aproximação, alinhar o negócio com as operações.
Todos vemos que o ambiente muda de forma vertiginosa. A Internet está transformando a indústria audiovisual e, nos novos modelos, o “Time to Market” é vital para o êxito. Isso nos leva a acreditar que as mudanças nas tarefas têm de serem executadas rapidamente, mas além disso, de uma forma economicamente viável. A gestão dos processos permite efetuar essas mudanças sem que isso afete dramaticamente a produção normal da empresa. Ainda, essas mudanças podem ser realizadas pela mesma equipe de TI que a organização possui, com isso se consegue uma rapidez importante na resposta ante o novo requerimento. Para isso é necessário dispor dessas ferramentas e como foi dito anteriormente, as mesmas estão disponíveis no setor de TI há muito tempo.

As particularidades da nossa indústria
Mas todos sabemos que nossa indústria não é fácil. Nossos arquivos são de grande tamanho, falamos de codecs, wrappers, transcodificações, e um longo etc. de aspectos concretos que só ocorrem no nosso setor. Como gerir tudo isso em um só BPM e um BI? Como podemos fazer essa integração?
Para poder tornar realidade essa visão de “industrializar e compartilhar”, necessitamos algumas ferramentas adicionais. Em primeiro lugar precisamos somar uma gestão de usuários corporativos. Hoje, a maioria das corporações dispõem de uma gestão de usuários baseada em AD (Active Directory) ou LDAP (Lightweight Directory Access Protocol). As aplicações como o gestor de correio ou a intranet utilizam os mesmos nomes de usuários e senhas, assim como a mesma gestão de permissões. Essa gestão unificada também há de ser integrada dentro da área audiovisual para que, por um lado, o operador utilize as mesmas credenciais para ingressar ao MAM que o seu correio eletrônico, e por outro, para que seja mais fácil para o administrador do sistema gerir as contas, perfis e permissões.

Para poder concretizar a visão de ´Industrializar e compartilhar´ nas empresas de M&E, é necessário dispor de plataformas integradoras.

O segundo ponto a considerar é um protocolo de aceleração que permita o movimento de arquivos de vídeo de uma maneira encriptada, portanto segura e acelerada. As linhas de dados da rede pública podem ter problemas de segurança assim como altas latências que geram perdas de dados. O uso da rede pública vai ser cada vez mais importante, portanto há que assegurar- se que os protocolos permitam essa segurança e velocidade de transferência. Ainda, a funcionalidade de “Transfer While Increasing” é crítica para que os conteúdos cheguem a tempo a parte de produção. Trata-se basicamente de poder transferir os conteúdos enquanto se está realizando o ingest. Dessa maneira não há de esperar que o ingest acabe para poder, por exemplo, começar a edição do material. Poderíamos estabelecer paralelismos com o ´just in time´, mas neste caso não estamos considerando a melhora da loja ou do seu estoque, mas sim o ´time to market´ com os conteúdos.
As vantagens das ferramentas de BPM e BI são claras e, portanto, não há dúvida de que há que dispor destas camadas de gestão e análise, más como as conectamos com os dispositivos de armazenamentos de vídeo como as NAS, os servidores de ingest e de emissão, os KSM, os armazenamentos compartilhados de produção? É necessário um Bus de Mídia que permita esta interconexão. Através deste MediaBus, o sistema BPM de orquestração pode executar as tarefas relacionadas com a mídia que reside nestes sistemas. Ainda, o MediaBus deve permitir definir as peculiaridades de cada um dos armazenamentos. Desta maneira, quando chega a ordem de transferência de um armazenamento para outro – por exemplo de um servidor de emissão de uma marca a outro de outra marca – se podem definir ações como o reencapsulamento do arquivo para que a mídia resultante seja compatível com o servidor de destino. E não podemos esquecer que o armazenamento que deve gerir o MediaBus pode estar em Cloud, sejam públicos ou privados e, portanto, também com configurações Multisite. Esta característica é muito interessante para os projetos que requerem um único gestor em um ambiente distribuído de sedes. O exemplo típico seria uma rede de televisões com um único MAM distribuído, mas que dispõe de uma única base de dados e de uma só camada de orquestração. Dessa maneira, se reduzem os custos assim como se faz muito mais simples a operação da plataforma.
Para finalizar, em uma gestão orientada a processos é necessário dispor de uma plataforma de gestão baseada numa Arquitetura Orientada a Serviços (SOA) padronizada. Nesse ponto considero muito importante o projeto FIMS (Framework for Interoperable Media Services) promovido pela EBU-AMWA. O objetivo desse projeto é a definição de um padrão para a inter-operação entre sistemas relacionados com o nosso setor. Os âmbitos desse projeto englobam toda a cadeia de valor de uma empresa audiovisual como a captura de conteúdos, a transferência, a transcodificação, a análise da qualidade etc. Com os conectores SOA se consegue gerar uma conexão entre o BPM e as diferentes aplicações que intervêm na cadeia de valor. Ainda mais, o FIMS assegura a substituição de uma aplicação por outra com a menor customização possível no que se refere a sua API.
Para poder concretizar a visão de ´Industrializar e compartilhar´ nas empresas de M&E, é necessário dispor de plataformas que integrem essas ferramentas definidas nos parágrafos anteriores. Com isso, a organização estará preparada para enfrentar os novos desafios que impõe o novo paradigma audiovisual. A flexibilidade, o Time to Market e conseguir implantar novos modelos de negócios ao menor custo possível, tanto em recursos humanos como econômicos, são os aspectos chave para qualquer empresa audiovisual do século XXI.

Carles Rams é diretor de tecnologia e serviços profissionais de VSN
crams@vsn.es

 Nº 133 – Maio/Junho 2013