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Futuro Broadcast para agora e além

Por Flávio Bonanome e Fernando Moura*

Reportagem

Durante o NAB 2014, o SET e Trinta trouxe especialistas de grande nome para debater os caminhos que o negócio e a tecnologia da televisão devem tomar no futuro e também quais são as transformações mais imediatas para o setor.

ANAB é muitas vezes chamada de a maior feira de tecnologia broadcast, produção e novas mídias. O que nem todos se atentam é que o que sustenta toda a agitação que toma os corredores do Las Vegas Convention Center, ou seja, o que traz o público qualificado para dentro da feira é o Congresso da Sociedade Americana de Broadcast (NAB). Durante quatro dias, as principais mentes da engenharia de televisão debatem os rumos e problemas que concernem à este mercado em nível mundial.
Já tradicional durante o evento, o SET e Trinta, ou, “Brazilian Breakfast” como consta na programação oficial, é a contribuição brasileira para o debate tecnológico da NAB. São três dias onde todos acordam cedo para partilhar o café da manhã (6.30AM) e participar de um ciclo de palestras (7.00 até 9.00AM) de diferentes temas do mercado broadcast.
Nesta edição do evento, além das informações sobre novas tecnologias, falou-se muito de política. Como já tem sido recorrente, desde que o Ministério das Comunicações decidiu pela transferência da faixa dos 700 MHz para a banda larga móvel, o assunto mais uma vez foi pauta, mas desta vez com a presença dos próprios representantes do governo tentando acalmar os ânimos dos radiodifusores. Praticamente como momento inaugural do SET e Trinta 2014, o secretário de telecomunicações do Ministério das Comunicações, Maximiliano Martinhão, o conselheiro da Anatel, Marcelo Bechara e Patrícia Ávila, secretária de Serviços de Comunicação Eletrônica do Ministério das Comunicações, representando o secretário executivo do MiniCom, Genildo Lins tomaram alguns minutos dos painéis à convite do presidente da SET, Olímpio Franco. O objetivo era dar posicionamentos oficiais sobre o andamento do trâmite político. “O governo não vai realizar o leilão dos 700 MHz antes de termos toda a situação técnica das interferências sob controle”. O primeiro a trazer a afirmação foi Martinhão, mas os três representantes do governo fizeram questão de fazer um discurso pautado na perspectiva de que os radiodifusores não precisam temer um leilão “às pressas” para agradar as empresas de Telecomunicações.

“O setor de radiodifusão, em particular a TV Digital, é muito importante para o Brasil”, explicou Martinhão. “Vocês todos são testemunhas do esforço do governo em promover o padrão ISDB-Tb Internacionalmente e do sucesso que temos alcançado com este processo”, concluiu.
Quem bateu mais forte, porém, foi o conselheiro da Anatel. “Nós não vamos jogar a poeira para debaixo do tapete”, afirmou Bechara, e continuou: “Governo nenhum, nem este nem qualquer outro, vai cometer qualquer tipo de ação irresponsável, que é deixar os telespectadores prejudicados, sem receber o seu sinal de televisão”.
Bechara enfatizou que o governo tem consciência da importância e força que a televisão aberta possui no Brasil. “Sabemos da importância desta mídia, não só como fonte de informação, mas também como, em alguns casos, única fonte de lazer para muitos brasileiros”, explicou.
O conselheiro disse entender as críticas que têm sido feitas à Anatel com relação à pressa no cronograma para leiloar a faixa, mas prometeu não medir esforços para resolver a situação das interferências. “Nós vamos fazer todas as reuniões técnicas individuais e coletivas, e eu vou pessoalmente onde quer que precise, vou levar técnicos, fazer debates, levar pancadas… Não tem problema, mas não vamos publicar nenhum edital enquanto as questões técnicas estiverem sanadas”, afirmou Bechara.
Por fim, o conselheiro deixou claro há presença de pressões vindas também do setor de telecomunicações. “O próprio setor de telecom está preocupado com a interferência. Não há mais espaço no Brasil para a irresponsabilidade de colocar um serviço caro, como é o 4G, à disposição da população e ele não funcionar corretamente”, completou.
Já Patrícia Ávila foi mais política. Representando o secretário executivo do Ministério das Comunicações Genildo Lins, Patrícia começou seu discurso exaltando as conquistas que a atual gestão trouxe para o setor.
“Desde 2011 atendemos diversas das demandas que vocês trouxeram para nós. Simplificamos a burocracia do Ministério, como a possibilidade de alteração do quatro diretivo, renovação e toda a parte técnica”, afirmou.
A secretária de Serviços de Comunicação Eletrônica do MiniCom abordou, também, o crescimento da TV Digital e os avanços do Rádio Digital durante a gestão, trazendo os números do rápido crescimento das outorgas de canais digitais. Ainda enfatizou o lançamento do sistema eletrônico do Ministério, que deve ser lançado no fim de abril de 2014, e que segundo ela, gerará ainda mais celeridade à todos os processos.
Para terminar, mais uma vez reassumiu o compromisso do governo de não leiloar a faixa dos 700 MHz sem que a questão da interferência esteja plenamente resolvida.

Há futuro para televisão
Paralelo ao debate político e a polêmica que tem se instaurado entre os setores de broadcast e telefonia, houve espaço também para o debate de alto nível. Dois debates realizados durante o evento trouxeram especialistas de diferentes lugares do mundo para debater as transformações que a tecnologia, e principalmente, o modelo de negócio da televisão têm passado.
Figurando como principal destaque do segundo dia de programação do SET e Trinta, o painel “O Futuro da TV: A TV tem futuro?”, trouxe uma discussão sobre todas as tendências que o broadcasting passará pelos próximos anos. Moderado pelo diretor geral de Engenharia da TV Globo, Fernando Bittencourt, a sessão levantou questões sobre a largura do espectro, modelo de negócio híbrido e como a evolução dos sistemas VOD devem interferir na forma de fazer televisão.
Philip Laven, da EBU/FOBTV abriu sua palestra de maneira bastante original. Exibiu um slide que mostrava um anúncio de revista publicado nos anos 1940 com dizeres: “O futuro está chegando” acompanhado do desenho de uma mulher fazendo compras através da tela de uma TV Plana. “Isso prova uma máxima que todos já conhecemos: é fácil prever o que vai acontecer, difícil é prever quando vai acontecer”, brincou.
Em seguida, Laven apresentou uma série de estatísticas relativas ao mercado europeu. De acordo com os dados do pesquisador, 93% da audiência broadcast do velho mundo esta voltada à produções ao vivo. O restante fica dividido entre programação gravada (5%) e VOD (2%). Em seguida apresentou dados bastante reveladores sobre o BBC iPlayer. “A maioria das empresas que trabalham em Over the Top não divulgam informações estatísticas de seus serviços, como número de usuários, picos de consumo e tipos de programa, mas a BBC é uma exceção”, afirmou.

O painel “O Futuro da TV: A TV tem futuro?”, trouxe uma discussão sobre todas as tendências que o broadcasting passará pelos próximos anos.

O BBC iPlayer é um serviço de VOD e Streaming da programação de Rádio e Televisão da emissora inglesa homônima lançado em 2008 e que é bastante popular no Reino Unido. De acordo com o relatório, cerca de 88% do conteúdo buscado no serviço para programação de TV é para programação On-Demand, e o restante para live streaming. Já para rádio a situação é inversa: 81% fica por conta do live streaming.
Outras duas estatísticas bastante importantes para os broadcasters são sobre a real dimensão de alcance destes serviços. “Enquanto o canal de TV tradicional tem um pico de audiência de 27 milhões de pessoas simultâneas, o iPlayer alcança 700 mil”, contou. Afirmando ainda mais a contra-tendência, os dados de custos trouxeram mais espanto: Enquanto o iPlayer corresponde a 2% de toda a audiência da BBC, ele representa 12% de todos os custos da emissora.
“O problema dos serviços baseados em internet é que seu crescimento exige investimento em servidores e largura de banda, enquanto o broadcast tem o custo fixo independente do tamanho da audiência”, comentou Laven, e ainda brincou “Imagine se a radiodifusão tivesse sido inventada depois da internet. O inventor chegaria dizendo que criou algo que consegue transmitir informação para infinitos espectadores sem aumentar o custo. Os provedores ficariam embasbacados com a ideia, e seria tratado como a invenção do século e com certeza este inventor estaria rico”.
Outro assunto que concerne ao futuro da televisão é o crescente da resolução. A NAB 2014 foi marcada pela chegada do fluxo completo (workflow) em 4K, de forma que há quem já esteja pensando no próximo passo da evolução, como é o caso dos engenheiros da emissora pública japonesa, NHK.
Toru Kuroda, engenheiro do departamento de P&D da emissora japonesa participou do SET e Trinta para trazer um andamento do cronograma das pesquisas 8K da emissora. Batizado pela estatal como SHV (Super High Vision), o projeto teve uma aceleração com relação às expectativas iniciais. “Em 2016 começaremos as transmissões teste em 8K (a data anterior era 2020).
Em 2020 seremos capazes de transmitir abertamente em 8K, e em 2030 teremos estereoscopia sem óculos e sem fadiga”, afirmou Kuroda.
Em seguida o pesquisador ilustrou os equipamentos usados para a produção 8K, desde o aparelho receptor com 33 milhões de pixels e áudio em 22.2, até as câmeras de mão com capacidade 8K passando pelos equipamentos de transmissão. “Estamos usando H.265 com um input de 7680×4320, 60Hz, 4:2:0, 10 bit de cor com 30 Gbps”.
De acordo com Kuroda, o Japão já está se preparando para fazer a transmissão de SHV via Satélite, Terrestre (com uma reformulação do padrão ISDB-T), CATV e também IP. Outro ponto importante destacado pelo pesquisador foi o plano de usar o 8K para conteúdo exibido em televisores e manter o conteúdo Mobile em 2K.
Por fim, Kuroda mostrou os resultados de um recente teste de transmissão, onde conseguiram transmitir em SHV por uma distância de 27,3 km usando somente 6 MHz de largura de banda com o novo padrão ISDB-T. “Para completar, gostaria de informar que os jogos olímpicos de Tóquio 2020 já devem ser transmitidos em SHV”, concluiu.
Encerrou a conferência, Michael McEwen, da NABA (North American Broadcasters Association). A associação, que representa o interesse dos radiodifusores do Canadá, Estados Unidos e México, abordou o futuro da televisão na América do Norte, prevendo uma grande reformulação no padrão de TV Digital do continente.
De acordo com McEwen, a Associação preparou um White Paper com as demandas de todos os broadcasters do continente com os principais pontos para a evolução da tecnologia broadcast. “Apresentamos este paper ao ATSC e o FOBTV. Qualquer tecnologia que viermos a adotar precisa ser flexível, eficiente, escalonável e preparada para o futuro”, comentou.
Entre os principais pontos do paper esta a criação de um novo padrão de transmissão digital, a necessidade de cooperação entre diversos setores da indústria para agilizar a compatibilidade à este novo padrão, já que o padrão precisa ter capacidade de meta-dados, interatividade, multiplataforma e image scaling. Outras preocupações são a necessidade do padrão ser adaptável ao 4K e 8K, e interoperatividade entre o sistema, IP e LTE.

Philip Laven, da EBU/FOBTV afirmou que “o problema dos serviços baseados em internet é que seu crescimento exige investimento em servidores e largura de banda, enquanto o broadcast tem o custo fixo independente do tamanho da audiência”.

Para concluir a palestra, o moderador Fernando Bittencourt questionou os palestrantes sobre a crescente restrição de largura de espectro sofrido pelo broadcast em todo o mundo. “Converso com muitas agências reguladoras ao redor do mundo e eles dizem que tem muita dificuldade em decidir o que fazer com a disputa Teles vs. Radiodifusores. Eles têm medo de tomar a decisão errada. Então deixam o dinheiro decidir, e sabemos o que acontece quando o dinheiro decide,” explicou Philip Laven. “Os CEOs dos grandes grupos de broadcast precisam começar a fazer o Lobby político para mudar isso, este assunto precisa sair da engenharia e ir direto aos executivos, por que se não, acabará o broadcast”, concluiu.

Muitos desafios
Outro debate com temática semelhante tomou espaço no terceiro dia de evento. Chamado “Desafios e Oportunidades para a Televisão”, e moderado por Liliana Nakonechnyj: Directora de Engenheira de Transmissão e apoio as afiliadas da TV Globo, o fórum abordou a evolução do padrão ATSC, as estatísticas da Segunda Tela, e as problemáticas do espectro ao redor do mundo.
Quem abriu o painel foi Rich Chernok, engenheiro da Triveni Digital e principal responsável pelos grupos de estudo do ATSC 3.0, novo padrão de TV Digital que deve ser adotado pelos países da América do Norte. “Estamos buscando criar um padrão que seja configurável, escalonável, eficiente, interoperável e adaptável”, começou o especialista.
A apresentação de Chernok trouxe então todas as premissas que se está levando em conta para os debates da renovação do padrão. Dentre eles estão uma maior capacidade de tráfego de dados, um PHY mais poderoso e robusto, flexibilidade de uso do espectro, suporte para UHDTV, suporte para dispositivos móveis, broadcast híbrido (radiodifusão e banda larga integrados) e áudio imersivo.
De acordo com Chernok, três principais pontos têm sido os guias dos grupos de estudo. O pesquisador afirmou que, não basta se preocupar com a tecnologia, mas também garantir que o modelo de negócio do broadcast continue viável e que o espectro da televisão continue protegido. “Nossos pilares são a especificação técnica, o ponto de vista do negócio da televisão e o aspecto regulatório do espectro”, afirmou.
Com relação às novidades que o sistema deve apresentar, o que chama a atenção é a inclusão do IP também como plataforma de entrega. “O ATSC 3.0 será o primeiro padrão de TV Digital totalmente híbrido”, afirmou Chernok. Além deste destaque, o pesquisador mostrou que o objetivo do sistema é ser UHD e HD, mas que as ferramentas para transmissão em 8K estarão lá e que, além dos televisores convencionais, os dispositivos móveis estão sendo levados em grande consideração.
Por fim, Chernok falou do áudio que deve permear o sistema. “Teremos ferramentas como controle de diálogo, possibilidade de faixas alternativas, serviços de assistência, idiomas extras, faixas para comentários, música ou efeitos diferenciados etc”, contou.

Lobby e estatística
As duas apresentações que fecharam o painel foram quase contrapontos. Enquanto que Chuck Parker, presidente da Second Screen Society Tela trouxe uma porção de dados e cases que provavam a importância de se investir em novas mídias, Simon Fell, da EBU (European Broadcasting Union) usou estudos estatísticos que provavam que a importância do broadcast tem sido subestimada em detrimento dos novos formatos de comunicação.
“Segunda Tela é sobre a geração dos Millennials (pessoas nascidas na virada do milênio), que é quem está trazendo uma enorme transformação comportamental na forma de consumir mídia”, começou Parker. Com isso em mente, diversas empresas têm apostado em modelos de publicidade para segunda tela com o intuito de emplacar marcas na mente da geração em formação.
Em seguida, Parker trouxe uma série de estatísticas interessantes sobre o comportamento de consumo do conteúdo em Segunda Tela. De acordo com o presidente, hoje cerca de 40% dos vídeos do Youtube são assistidos em plataforma Mobile, o que é uma grande quantidade se levamos em conta que só nos Estados Unidos cerca de 46 bilhões de vídeos foram acessados em 2013.
“O audiovisual em Mobile é um mercado crescente, 65% dos proprietários de tablet passam mais de uma hora por dia vendo vídeos em seus dispositivos”, explicou. E não é só no consumo de conteúdo que os números estão crescendo. De acordo com Parker, até 2016 a receita de publicidade dentro de dispositivos de segunda tela deve crescer quase 40%, alcançando uma receita de US$ 10 bilhões somente nos Estados Unidos.
Já quando Simon Fell tomou a palavra, a coisa se contrapôs. “Já que estamos falando de estatísticas aqui, eu também trouxe umas. Um estudo realizado pela EBU prevê que até 2020 cerca de 80% do conteúdo audiovisual ainda será consumido de forma linear pela televisão”, começou o Fell. De acordo com o especialista, hoje na Europa, 46% das pessoas consomem televisão por recepção terrestre, o que totalizam 275 milhões de habitantes. “Por isso que qualquer decisão relativa ao espectro precisa ser muito bem pensada”, explicou.
Fell se referia às recentes políticas de cessão de faixas de espectro para serviços de internet móvel, que têm ganhado força em todo o mundo. “É preciso lembrar que o sucesso de novas formas de comunicação, como a Segunda Tela, estão totalmente ligadas à existência de transmissão linear ao vivo”, afirmou.
Outro ponto tocado por Fell foi a real necessidade que as empresas de telecomunicação têm de mais espectro. “Um estudo recente do EC (European Commission), mostrou que 71% dos dados acessados por dispositivos móveis acontecem por redes Wifi. Será que é preciso mesmo de tanta banda quanto as teles solicitam?” questionou.
O especialista destacou ainda a questão da qualidade. De acordo com Fell, a existência de um serviço de TV aberta de qualidade, força os serviços pagos a serem ainda melhores, sem a TV aberta esta “concorrência” deixaria de existir. “Há ainda a questão do preço versus banda. Aqui em Las Vegas hoje um pacote com 4 Gb de internet 4G custa 70 dólares. Um conteúdo HD do Netflix consome cerca de 2.4 Gb por hora. Há um grave problema de eficiência aqui”, concluiu.

Tecnologia para agora
Além do espaço para o debate sobre o futuro da televisão, e suas diversas tentativas de prever o que está para acontecer, o SET e Trinta também trouxe preocupações tecnológicas para um momento mais imediato.
Seguindo o que foi tendência em todo NAB, das salas de congresso aos corredores da feira, o principal tema debatido nos painéis do evento da SET foi a migração da infraestrutura de transmissão para IP.
O primeiro a abordar o tema foi Tobias Kronenwett, da Lawo/LineUp. Durante sua palestra, o especialista abordou as vantagens da nova arquitetura e as possibilidades concernentes à produção remota. “Parece que está cada vez mais real deixar de lado toneladas de cabos SDI para usarmos cabos Ethernet leves e comuns”, começou.
Em uma apresentação bem-humorada e franca, Kronenwett deixou claro que a empresa que representa não é a única que está abordando o tema do futuro em IP exaustivamente, e começou sua palestra com uma série de vantagens que fazem do IP uma estrutura superior aos sistemas atuais. “A primeira, e mais importante, é o fato de se tratar de uma arquitetura à prova de obsolescência. Com empresas como a Cisco puxando a capacidade de banda e integração a uma velocidade absurda, pode-se ter certeza que as redes IP vão sempre estar prontas para suportar as demandas do broadcaster”, explicou.
Outras vantagens que o especialista abordou foram: a ausência de protocolos proprietários; a existência de componentes padrão, que podem ser comprados facilmente; Redundância já bem estruturada; e a possibilidade de WAN nativo. “Outra vantagem clara é a segurança da rede. Muitos profissionais de televisão dizem não confiar na segurança de uma rede IP. Estes senhores precisam lembrar, porém, que toda a parte de Archiving das emissoras já é IP… então, se a emissora confia seus ativos de mídia à esta tecnologia, é por que sabe que é segura”, brincou.
Por fim, Kronenwett, apresentou uma forma de fazer transmissões esportivas totalmente por IP. “Colocando roteadores dentro das unidades de estádio, tiramos a necessidade de plugar cada equipamento, cada câmera e cada microfone, à unidade móvel. Basta plugar tudo em um roteador dentro do estádio que ele leva a informação toda para a Unidade Móvel”, explicou.
O especialista mostrou ainda o conceito de Cabeamento Virtual, onde é possível substituir os cabos que leva o sinal até a UM por um sistema de computação em nuvem. Com este modelo, é possível, inclusive, dispensar a presença da unidade de controle in-loco, já que ela pode receber tudo diretamente da nuvem, estando onde estiver.
Quem também abordou o tema foi Erick Soares, especialista da Sony, que levou o tema para um pouco além. Com tantos fabricantes falando em migração de infraestrutura e tentando vender caixinhas de roteamento, Soares falou sobre o funcionamento de sincronização e Clock para broadcast em rede IP.

Philip Laven, da EBU/FOBTV afirmou que “o problema dos serviços baseados em internet é que seu crescimento exige investimento em servidores e largura de banda, enquanto o broadcast tem o custo fixo independente do tamanho da audiência”.

“O 4K já é uma realidade para o consumidor. A venda de televisores UHD já nos deu a padronização no que diz respeito à profundidade de cor e quadros por segundo, por exemplo”, começou Soares. Outro ponto destacado pelo palestrante foi a já evidente escolha do HDMI 2 (4K, 60p, 4:2:2 e 12 bit) como a forma que a imagem vai entrar na televisão.
“Com estas tecnologias acessíveis já há fluxo 4K completo da produção ao consumo, então precisa- -se repensar o transporte”, explicou. De acordo com Soares, a quantidade de cabeamento padrão se torna um problema quando é preciso de 4 conexões 3G para trafegar 4K. “Em nossa UM da Copa das Confederações 2013, foram 360 cabos BTN, ou seja, 260 kg.
Se tivéssemos feito tudo em rede, este número cairia para 88 cabos com 11kg (ou 40kg em caso de cabos trançados)”, ilustrou.
Em seguida levantou as duas principais preocupações que devem ser levadas em conta quando se pensa na sincronização do sistema. A primeira diz respeito à adotar o padrão IE1588 para garantir o tráfego de vídeo. “Outro ponto crítico é o controle de qualidade do serviço da rede. É preciso de um grande controle de banda e alocação para garantir que o vídeo sempre tenha prioridade máxima e ininterrupta”, concluiu.
Para finalizar, fomos lembrados que não é só de facilidades que é feito o fluxo de trabalho IP. Existe uma série de variáveis e particularidades que precisam ser levadas em conta quando se projeta uma infraestrutura para broadcast baseada em um fluxo tapeless. Foi com o propósito de ilustrar estes desafios que Silvino Almeida, da Tektronix, veio ao SET e Trinta da NAB 2014.
“É muito importante lembrarmos que as redes IP não foram concebidas como formas dedicadas para trafego AV”, começou Almeida. De acordo com o especialista, devido à esta característica, é preciso que haja um controle de qualidade extremamente eficiente para garantir que a infraestrutura entregue um produto final de qualidade.
Em seguida, Almeida listou quais são os principais desafios para quem está migrando para fluxo de trabalho IP. “O primeiro grande problema é a não existência de um padrão forte, como o SDI. Na verdade o que existe é centenas de diferentes tipos de arquivo, como variados formatos de MPEG2, por exemplo”, explicou. Desta forma, ao projetar a infraestrutura, é preciso obter hardware e software que seja capaz de lidar com todos os formatos.
Outro desafio esta na dificuldade de localizar onde estão os problemas quando estes surgem. “Em uma estrutura IP, cada dispositivo é um interpretador de protocolo, portanto, se um anúncio trava no playout, como fazemos para saber se o problema foi no arquivo em si, ou no servidor de playout?”, questionou o palestrante. Almeida levantou ainda os problemas que ocorrem em momentos de pico de uso da rede IP, o que pode gerar latências. “É muito importante superar estes desafios por que a infraestrutura IP é barata e a migração é necessária”, afirmou.

Mais de 400 broadcasters brasileiros participaram das sessões durante os três dias de SET e Trinta em Las vegas

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Dentre os processos que podem servir como solução para estes entraves, está a necessidade de ter dentro da estrutura ferramentas analisadoras que permitam “debugar” o processo e encontrar os erros. “Temos acompanhado o surgimento desta ferramenta chamada QCloud, que é um conceito novo de distribuição em nuvem usando o Amazon Web Services”, explicou. De acordo com o palestrante, o QCloud é um serviço que permite gerenciar a estrutura de maneira extremamente simplificada, com a geração de diversos relatórios de fácil interpretação para encontrar onde estão os problemas. “Um serviço como este permite um controle total e além disso pode ser operado por alguém sem uma grande especialização, baixando custos de mão-de-obra”, concluiu.

Áudio e contribuição
Controle do Loudness é um tema que tem sido extremamente recorrente nos últimos anos da indústria de radiodifusão. Após um grande esforço de marcas e especialistas, e inúmeras palestras e workshops, finalmente parecia que todas as dúvidas sobre funcionamento de como controlar o nível percebido de áudio de uma transmissão estava resolvido… mas sempre há mais para se aprender.
Com o crescimento da preocupação com distribuição multi-plataforma e aplicações de segunda tela, outro problema do Loudness ficou aparente: como manter um nível confortável para um espectador que acessará o conteúdo de qualquer um das dezenas de milhares de dispositivos móveis disponíveis hoje no mercado? Explicar esta questão foi a missão de Mike Daskalopoulos da Linear Acoustic.

Rich Chernok, do ATSC 3.0 falou do futuro da TV.

De acordo com o especialista, o grande desafio da produção deste tipo de conteúdo está em compreender que a arquitetura dos sistemas de som dos dispositivos móveis funciona de forma bastante diferente dos alto-falantes dos televisores e home theaters. “Devido ao tamanho diminuto, os dispositivos móveis possuem uma eficiência bastante reduzida com relação aos equipamentos com alto-falantes convencionais”, explicou.
Outro desafio é a quantidade de dispositivos disponíveis. Não dá para prever se os usuários estaram consumindo conteúdo em um celular de grande porte, em um menor, em um tablet ou em seu notebook. E mais, se estará usando os falantes internos ou usando fones de ouvido. “Fora isso há os diferentes sistemas operacionais, como iOS, Android e Windows Mobile, cada um com codecs e formatos proprietários e bibliotecas de áudio funcionando de forma totalmente diferente”, explicou.
Após apresentar todos estes desafios, Daskalopoulos não trouxe exatamente uma solução, mas sim uma série de dicas de trabalho relevantes para o tema. “Primeiramente, é mais fácil trabalhar com o nível de Loudness do produto original mais baixo, como os -23 LKFS e depois adaptar para os volumes de dispositivos móveis, funciona melhor assim”, afirmou.
Outras dicas incluíram empacotar o áudio separado do vídeo e fazer mixagem de faixas de fala separadamente e antes de masterizar para o dispositivo móvel.
“É preciso também conhecer bem os dispositivos, pois muitos deles fazem um processamento próprio de equalização, e é importante que o profissional de áudio saiba como as coisas soam melhor, não o fabricante de smartphone”, brincou.
Guilherme Castelo Branco, da Phase Engenharia veio ao SET e Trinta para apresentar uma ideia. “Sabemos que todos os modelos de contribuição e distribuição possuem vantagens uns sobre os outros, mas, e se pudéssemos tirar partido de todas as vantagens ao mesmo tempo?”. A solução, segundo o palestrante, são as novas possibilidades de soluções híbridas de mobilidade.
Castelo Branco abriu sua palestra listando todas as demandas que uma infraestrutura de Unidade Móvel de Jornalismo precisa ter. “Confiabilidade, mobilidade, agilidade de operação, suporte à alta definição e facilidade de distribuição de conteúdo são os requisitos para o funcionamento de uma UMJ”, afirmou.
Em seguida o palestrante fez uma análise rápida de todos os prós e contras de cada um dos modelos de contribuição usados hoje pelas UMJs. “Hoje é preciso estar preparado para se trabalhar com COFDM, DVB- -S2/SX, Codificação MPEG e H.264, Recepção em diversidade, Celular News Gathering e distribuição por IP”.
Para aproveitar as vantages de todos os modelos, a proposta de Castelo Branco é a adoção de um modelo híbrido. “Se compararmos todos os modelos, veremos que não existe nenhuma solução ideal. Se um único sistema pudesse fazer tudo, o engenheiro já tem muito mais versatilidade, permitindo migrar entre todas as soluções”, explicou. Além disso, um modelo híbrido permite dar usos diferentes para mesmos equipamentos.

Olimpio Franco e inumeros broadcasters brasileiros participaram do SET e Trinta realizado em Las

Novas parcerias para a SET
Durante as apresentações do último dia do SET e Trinta, o presidente da SET, Olímpio Franco aproveitou o intervalo entre as palestras para chamar ao palanque Alexandre Jobim, presidente da AIR (Associação Internacional de Radiodifusão). Durante seu discurso, Jobim agradeceu o esforço técnico da SET e prometeu firmar formalmente uma parceria de cooperação mútua para trazer mais relevância às questões do setor.
“Sabemos que a SET é uma entidade com excelência em nível técnico e nós temos um imenso relacionamento e força política. Desta forma, quero colocar a AIR à inteira disposição da associação”, afirmou Jobim. O presidente disse ainda esperar firmar este acordo formalmente no retorno da NAB 2014.
Outra questão abordada por Jobim foi com relação ao atual problema do leilão da faixa dos 700 MHz. “Temos consciência do problema que o governo está gerando com esta pressa para vender a faixa para o 4G”, afirmou. “Estamos preparados para dar apoio jurídico e político para suportar o conhecimento técnico da SET neste assunto”, completou.
A AIR é uma associação que defende os interesses dos broadcasters no que diz respeito à liberdade de expressão e proteção ao direito autoral e representa mais de 15 mil emissoras nas Américas. Alexandre Jobim é o primeiro brasileiro a ser presidente da entidade nos últimos 22 anos.

Roberto Franco, presidente do Fórum SBTVD pediu maior envolvimento dos broadcasters nas questões políticas do setor.

Outra intervenção veio no fim do ciclo de palestras. Desta vez, Roberto Franco, presidente do Fórum SBTVD e diretor de Assuntos Regulatórios do SBT, pediu a palavra para falar um pouco de tecnologia e das preocupações do broadcast no momento. “Todos nós precisamos nos envolver mais com as questões relativas ao setor, sobretudo ao próximo WRC 2015”, começou.
De acordo com Franco, os radiodifusores estão pagando pela apatia política dos últimos anos. “Em algum momento os broadcasters ficaram complacentes do que estava acontecendo, uma espécie de síndrome do patinho feio com relação às novas tecnologias”, afirmou Franco. “Esquecem porém, que as novas tecnologias são muito legais, mas precisam do conteúdo que o broadcaster tem. Não tem Segunda Tela sem a Primeira Tela”, explicou.

Por fim Franco exaltou o modelo brasileiro de Televisão Digital. “Vivemos um momento interessante por que os países que foram pioneiros na migração digital, agora correm atrás de atualizar os seus modelos, enquanto que nós com o ISDB-T estamos bem avançados e tranquilos. Nosso padrão já suporta todas estas tecnologias”, afirmou. “Além disso vemos o Japão puxando o modelo para frente. Acredito estarem no caminho certo ao fazerem a migração direto do 2K para 8K”, concluiu.
Outra parceria que foi firmada durante o primeiro dia do SET e Trinta ocorreu logo após os painéis. Com o fim das apresentações, representantes da SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão), ABTU (Associação Brasileira de Televisão Universitária) e da TV Universitária de Guadalajara, México, reuniram-se para a assinatura de um Convênio de Cooperação Mútuo.
“Estamos muito felizes com a assinatura deste convênio, pois abrimos a possibilidade de construirmos algo comum durante a SET Expo, SET Regionais e também para a Revista da SET”, afirmou Olímpio Franco, presidente da SET. “Além disso, podemos esperar um novo público e palestrantes nos eventos que realizamos, fazendo crescer em quantidade e qualidade nossa comunidade de profissionais”, completou.
O presidente da ABTU, Fernando Moreira, também está bastante animado com a parceria. “Esta aproximação entre comunicação e engenharia já é um fato de mercado. Esta abertura de espaço da SET será muito aproveitada por nós, e já deve gerar frutos este ano”, afirmou. Segundo o presidente, já para os eventos regionais Sudeste e Sul (fim de Abril e começo de Maio), podemos esperar novidades.
Por fim, Gabriel Torres, da TV Universitária de Guadalajara afirmou que este convênio pode ser um grande primeiro passo para a existência de maior cooperação entre as associações e televisões latino-americanas. “Hoje a televisão precisa cada vez mais de intercâmbio tecnológico. Estamos em uma etapa comum em toda a América Latina que é a migração para o digital, além do surgimento de novos formatos, novos modelos… tudo isso pode ser debatido quando há maior troca de conhecimento”, concluiu.

Os presidentes da SET, ABTU (Associação Brasileira de Televisão Universitária) e da TV Universitária de Guadalajara, México, reuniram-se para a assinatura de um Convênio de Cooperação Mútuo.

*Parte deste material foi publicado no blog da Revista (www.revistadaset.com) como parte da cobertura em tempo real do SET e Trinta