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Entrevista – Ronald Barbosa

ENTREVISTA
A RENOVAÇÃO DO RÁDIO NA ERA DIGITAL

Ronald Barbosa, diretor de Rádio da SET, Assessor técnico da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) e coordernador do grupo de trabalho para o rádio digital do brasil, conta os caminhos que o rádio digital está percorrendo no país, bem como soluções para o setor, no que diz respeito à eficiência na migração tecnológica e aos testes técnicos realizados com os padrões digitais existentes, para buscar a melhor solução para a radiodifusão brasileira.

Ronald BarbosaSabe-se que existem várias emissoras de rádio AM e FM em teste. Conte-nos um pouco sobre o panorama do rádio digital no Brasil.
Diferentemente do que o ocorreu com a escolha do padrão de televisão, onde qualquer sistema escolhido precisaria de nova transmissão em canal separado, necessitando, portanto, de um replanejamento na faixa de UHF para acomodar os canais contemplados com a transmissão digital, o rádio, pela impossibilidade de ter duas transmissões separadas e pela necessidade de promover uma transição suave e sem interrupção para o público ouvinte, estabeleceu, como princípio, a manutenção da mesma faixa de transmissão e do mesmo canal.
No caso da televisão também não haverá interrupção para o público mas, para o radiodifusor, a manutenção de duas transmissões simulcasting é onerosa. Assim, buscaram-se entre os padrões existentes, aqueles que permitiriam a manutenção da transmissão na mesma faixa de freqüências original e de preferência no mesmo canal.
Atualmente, algumas emissoras em diferentes regiões do Brasil procuram adaptar suas instalações para testes do rádio digital. Aqueles radiodifusores que decidiram investir na tecnologia digital, submeteram-se a testes que são autorizados e acompanhados pela Anatel. O objetivo dos testes é verificar a compatibilidade de cobertura analógica e o desempenho digital das transmissões.

Porque o padrão utilizado nos testes em andamento é apenas o IBiquity?
Na verdade, o padrão IBOC, que tem o nome HD Radio, não é o único disponível para testes. As emissoras comerciais AM e FM não têm outra opção para fazê-lo. A empresa IBiquity, que desenvolveu o HD Radio, conseguiu oferecer um padrão que permite adicionar o sinal digital ao sinal analógico que as emissoras transmitem. Isso é uma vantagem que não é possível em nenhum outro sistema, sem que haja a necessidade de replanejamento de canais ou nova faixa de freqüências para transmissão.

“o projeto drm completará 10 anos e
não permite que estações de fm migrem para
a transmissão digital”

Então o DRM (Digital Radio Mondiale) ainda não possui um padrão adequado ao modo IBOC (In Band On Channel) para ser utilizado no mesmo canal do analógico e para as emissoras de OM e FM?
Nem sei se o DRM está tentando desenvolver um padrão adequado ao modo IBOC. O que sei é que o DRM tem realizado experiências em diversas partes do mundo nas faixas de Ondas Curtas e em Ondas Médias. Contudo, essas experiências têm sido apenas com transmissão digital.  Não há simulcasting. Atualmente, existe a expectativa de serem realizadas, no Brasil, experiências do DRM com simulcasting, não como o HD Radio, mas com a possibilidade de transmissão do sinal digital em um dos lados do sinal analógico. Isso não resolve totalmente as questões do DRM, haja vista que comercialmente não há receptores no mercado. No ano que vem, o projeto DRM completará 10 anos e eles não têm a possibilidade de permitir que estações em FM migrem para a transmissão digital. Acredito que a grande esperança do DRM esteja na faixa de 26 MHz. A Conferência Mundial de Radiocomunicações que será realizada em Genebra no final do ano, no item 1.13 de sua agenda, deverá ser um balizador das pretensões do DRM para Ondas Curtas e, conseqüentemente, para Ondas Médias. Todo o projeto DRM, acredito, depende dos resultados dessa conferência.

Em termos de vantagens e desvantagens destes dois padrões, o que você considera mais importante para a nossa realidade?
O mais importante para a nossa realidade é possibilitar, ou melhor, fazer acontecer a migração das emissoras AM e FM, permitindo o acesso do público à programação das emissoras com tecnologia digital, mas tudo isso de forma suave, sem necessidade de tornar obsoletos os receptores que o público tem em suas residências e automóveis. O  radiodifusor poderá atualizar a sua planta de transmissão sem sobressaltos. Do ponto de vista da indústria, é importante que tenhamos um mercado vivo e participativo, que ofereça os produtos que tanto radiodifusores quanto o público em geral necessitam.
Para isso é necessário um investimento na indústria de receptores e de transmissão, de modo que tenhamos uma produção com a qualidade mínima necessária para o bom desempenho do setor.

E sobre a disponibilidade de receptores. É verdade que o Brasil já produz e exporta para o mercado americano?
É verdade, na Zona Franca de Manaus, a empresa Visteon produz para a JVC e para a Kenwood receptores HD Radio, para o mercado dos Estados Unidos. É importante que outros fabricantes no Brasil iniciem o processo de produção para suprir um mercado que, atualmente, pelas transmissões existentes em testes, já alcançam uma população de pelo menos 30 milhões de pessoas.

Neste caso, a implantação da rádio digital utilizando o sistema da empresa IBiquity, sob o ponto de vista do receptor fica menos complexa?
De fato, havendo receptores disponíveis no mercado, a novidade tecnológica atrairá diversas pessoas, criando mercado primeiro nos automóveis e depois nos receptores domésticos. O custo dos receptores dependerá da escala, contudo, o rádio é o setor cujo receptor é o mais barato do mundo e, portanto, pretende continuar com essa bandeira. Sabemos que 80% da população mundial têm acesso ao rádio e promover a migração dessa população é um desafio que tem provocado os padrões digitais existentes. Pelas características do HD Radio e pelas empresas de ponta que ele tem unido, acredito que ele reúna condições para se tornar um padrão mundial em AM e FM.

Em contrapartida, a única opção para as emissoras em Ondas Curtas é o padrão DRM. Aqui no Brasil, as emissoras de Ondas Curtas quase que desapareceram. Qual sua “dica” para quem ainda opera estas estações? Você vê um futuro promissor?
Claro, o HD Radio chegou a fazer algumas experiências em Ondas Curtas, mas o DRM é o único padrão em Ondas Curtas aprovado pela União Internacional de Telecomunicações – UIT. Não tenho receio em sugerir o DRM como solução para Ondas Curtas. É um caminho longo a percorrer, pois a população mais carente do mundo tem em mãos 2,2 bilhões de receptores em Ondas Curtas e não será fácil promover essa migração. Um país de dimensão continental como o Brasil tem no turismo, no esporte amador, na religiosidade das pessoas, um manancial de ofertas que as Ondas Curtas podem suprir. Tudo é questão de política governamental e incentivo. Se alguém achar que um país pode desprezar seus serviços de Ondas Curtas, seguramente não acompanha o que acontece no mundo. O mundo todo busca mais faixas de freqüências para transmissão em Ondas Curtas. Até os mais desenvolvidos países não abrem mão de suas transmissões em Ondas Curtas.

Sobre o Eureka, você tem algum comentário?
O Eureka 147 está passando por algumas transformações. Ele foi implantado há quase 20 anos em alguns países da Europa, como a Inglaterra, a Alemanha, mas mesmo para um público com condições financeiras, os seus receptores permanecem muito caros. O Eureka veio para oferecer uma qualidade digital de altíssimo nível de áudio, como um novo serviço de radiodifusão, numa nova faixa de freqüências. Contudo, as emissoras AM e FM continuariam com suas transmissões analógicas. Teoricamente, cada emissora analógica receberia um canal digital do Eureka 147.  Portanto, os radiodifusores ficariam com uma transmissão AM analógica, outra FM analógica e outra no Eureka 147 digital. Isso é bastante caro para o radiodifusor europeu. Sem contar que algumas emissoras em grandes centros não foram contempladas com um canal no Eureka 147 e, portanto, continuaram apenas com suas transmissões AM e/ou FM analógicas. Com os problemas decorrentes de propagação e qualidade do sinal na recepção, o Eureka 147, conhecido também como DAB (Digital Áudio Broadcast), está mudando seus codecs e passando para uma tecnologia de compressão através do AAC+ e com isso ele passa para DAB+. O que acontecerá com o legado criado do DAB ninguém sabe. Agora a Coréia criou um concorrente poderoso para o DAB, que é o DMB multimídia. Será o componente para a transmissão móvel da televisão digital na Coréia. O que acontecerá com o DAB? E com o DAB+? E com as emissoras AM e FM analógicas? E ainda tem o DRM.

Recentemente, através da portaria 83/2007, o Ministério das Comunicações criou o Conselho Consultivo para Rádio Digital. Qual será a participação da SET?
A SET tem o seu papel destacado como foi na escolha do padrão da televisão digital. Há uma diferença, pois para a televisão digital havia três padrões a serem testados pelo chamamento inicial, através de Consulta Pública da Anatel e um site de teste para todas as emissoras, que foi o site da TV Cultura. No caso do rádio, diversos sites foram disponibilizados para testes e apenas um padrão tem sido de interesse de todos. A Anatel publicou recentemente uma consulta pública sobre procedimentos de testes para o rádio digital AM, no padrão IBOC, visando padronizar a obtenção de dados de medidas nos testes realizados. O resultado dessa consulta deve ser publicado o mais breve possível. Com isso, outras consultas públicas podem ser criadas e a SET, seguramente, deverá contribuir nessas consultas.
Além disso, o Conselho Consultivo para o Rádio Digital terá ainda as câmaras temáticas e os representantes técnicos das emissoras e dos fabricantes de equipamentos. Nesse caso, a SET tem um vasto campo para atuar e ajudar.