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Entrevista – Roberto Franco

ENTREVISTA

“A TV digital não é do Fórum, a TV digital é do Brasil”

Criado em 2006, após a assinatura do Decreto 5.820, como ferramenta de desenvolvimento e implantação da TV digital no Brasil, o Fórum Brasileiro de TV Digital, presidido pelo também presidente da SET, Roberto Franco, assessora o Comitê de Desenvolvimento do Governo Federal. Como entidade aberta, o Fórum define normas, padrões e regulamentos técnicos voluntários ou obrigatórios, capazes de atender e permitir que o mercado tenha a capacidade de inovar e a estabilidade necessária de lançar produtos e serviços, além de buscar a inclusão social.
Com o início das transmissões digitais, o Fórum passa a atuar na melhoria das especificações, expansão do mercado, além de servir como guardião do processo de transição, a fim de impedir a fragmentação do mercado com o surgimento de soluções pseudocompatíveis com o sistema.
Leia a seguir trechos da entrevista com o engenheiro Roberto Franco, onde são discutidos temas como a atuação do Fórum, preparação das emissoras para a era digital e interatividade.

Quais decisões foram tomadas desde a constituição do Fórum?
O Fórum de TV Digital é reativo no momento em que o Comitê de Desenvolvimento submete a ele questões a serem analisadas e que necessitam de um parecer, mas também é propositor, ou seja, independentemente de ser provocado ou não, no momento em que detecta alguma demanda, deve transforma-la num conjunto de especificações e, conseqüentemente, numa proposta de normas a ser encaminhada ao Comitê de Desenvolvimento e à ABNT, para ser publicada em forma de consulta pública e transformada em uma norma brasileira. Eu não seria capaz de enumerar as decisões tomadas pelo Fórum. Em um ano de trabalho o Fórum produziu mais de 2 mil páginas de especificações técnicas, várias recomendações, consensos, discussões, guias de operação. Produziu informações para seus sócios e a sociedade sobre a TV digital; participou ativamente de várias discussões em vários fóruns de discussão paralelos; participou das negociações com os japoneses e o grupo de trabalho; participou de congressos internacionais e de diversas ações de divulgação do sistema na América do Sul e em outros países do mundo. O Fórum tem uma atividade bastante intensa, com uma produção intelectual extraordinária, que colocou o Brasil, que antes tinha a televisão respeitada pelo conteúdo, por cobertura, por operação, numa posição de respeito internacional também por sua capacidade de propor soluções tecnológicas. Antes nós éramos seguidores da tecnologia dos países que criavam os formatos, as tecnologias. Hoje o Brasil tem uma capacidade muito grande de discutir e entender essas tecnologias, além de propor novas tecnologias, novos caminhos, novas soluções.

Como é a inter-relação das empresas e emissoras que participam do Fórum?
O Fórum é uma entidade aberta e as normas que ele propõe são normas voluntárias, que precisam ser respeitadas pelos membros do Fórum. Para isso, toda especificação do Fórum tem que ser criada num sistema de consenso e de equilíbrio, quer dizer, as partes envolvidas devem ter um equilíbrio de representação e suas visões diversas devem ser expostas, confrontadas e discutidas, em busca do consenso. No momento de constituir o Fórum, tínhamos que buscar as melhores práticas de governança corporativa, que garantisse não só a vontade da maioria, como o mais importante, respeitar as minorias e fazer que todas as visões tivessem peso igual nas discussões e que pudessem ser discutidas sempre buscando a melhor solução para o todo, ou seja, os interesses individuais deveriam ser deixados de lado, para construir a melhor solução para o todo, e o todo significa a televisão digital do Brasil. A TV digital não é do Fórum, a TV digital é do Brasil, do telespectador, do estado, da nação, do setor privado, do setor público, do setor estatal, do fabricante do transmissor, do fabricante do receptor, dos radiodifusores, ela é de todos.
Como será a atuação do Fórum agora que a TV digital está, finalmente, no ar?
O Fórum é uma entidade permanente, foi feito numa estrutura para ser mantido com perenidade. O Fórum continuará ouvindo a sociedade, o governo, o legislativo, o executivo, os telespectadores e todos envolvidos no processo. Continuará tendo visões claras do futuro e das tendências tecnológicas, para tentar entender o que vai acontecer no resto do mundo, porque não adianta a gente caminhar para soluções altamente exclusivas e diferenciadas, marchando contra uma tendência. Então o papel do Fórum é entender muito bem o que está acontecendo no mercado, o que é novo, o que vai ser simplesmente uma onda passageira, o que tende a se perpetuar e a se desenvolver. O Fórum continuará a ter voz, porque ele é propositor e assessor. Tudo é feito em cima da soma de todas as mentes que participam, de todas essas entidades que compõem a cadeia de valor da televisão digital. A televisão é um processo dinâmico e o esgotamento desta tecnologia está muito distante. Eu acredito que o Fórum vai ter muito trabalho para acompanhar este processo e manter o Brasil totalmente atualizado com o desenvolvimento tecnológico que está por vir.

Além da imagem de alta qualidade, a TV digital “vende” a interatividade, que é uma das coisas que chamam muito a atenção do público. Quando a interatividade vai estar disponível para a população e como será essa interação?
É difícil fixar datas. O que eu posso dizer é que todas emissoras têm trabalhado fortemente para entender que tipo de aplicações agregam valor ao telespectador, que tipo de aplicações a tecnologia suporta de maneira adequada e identificar as ferramentas já disponíveis no mercado. Mais uma vez o Fórum propõe e publica a especificação, mas a indústria, a fábrica de software tem que desenvolver as implementações. Então, no momento em que essas implementações estiverem disponíveis e estáveis, os radiodifusores conhecerão o desejo do  telespectador e o que ele é capaz de usar. A televisão brasileira sempre foi muito participativa, sempre promoveu uma interação muito intensa. A tecnologia vai facilitar e mais uma vez os radiodifusores farão melhor o que já fazem. Com o middleware é possível passar informação 24 horas por dia, informações resumidas na forma de texto, na forma de gráficos, na forma de vídeos de baixa resolução, que estarão por trás do programa principal e que o telespectador, individualmente, vai acessar no momento que quiser. Quando os canais de retorno estiverem disponíveis, aí teremos capacidade de monitoração mais completa. Eu não acredito e nem é intenção da televisão substituir a Internet, ou ser concorrente. A Internet tem seus atributos, suas virtudes, suas qualidades e tem excelência plena na relação 1:1, já que foi concebida para isso e pode prestar um serviço muito melhor. Na comunicação 24 horas, em que são enviadas informações de interesse geral, a televisão tem muito mais competência, ela foi concebida nesse modelo, então é claro que ela sempre vai ter muito mais eficiência. É isso que eu acho que a TV digital acrescenta, o desenvolvimento da Internet e de outras tecnologias, tais quais as tecnologias para a indústria do cabo, do satélite e das telecomunicações como um todo, que vão ofertar, cada vez mais, uma multiplicidade de serviços e quem vai ficar cada vez mais poderoso no processo é o cidadão, o consumidor final.

O ministro das Comunicações citou, numa coletiva de imprensa realizada no Ministério, que a interatividade irá acontecer em três fases. Você poderia explicar essas três fases?
Essas três fases que se fala, são formas de organizar um processo. Qualquer serviço novo é disponibilizado, muitas vezes, no estado Beta, no estado de teste, em que as pessoas começam a usar determinada aplicação, ou mecanismo e, de acordo com o uso, vão moldando o processo e a aplicação final. No Brasil, a geração é bastante interativa e a programação ao vivo sempre foi feita de acordo com o ritmo que ela se desenvolvia, seja com a participação do telespectador por telefone, carta, e-mail, depois por SMS. Na televisão digital, muitos desses serviços poderão ser feitos por controle remoto, só que num primeiro momento, a maioria das casas não têm canal de retorno ou não existe uma oferta maciça de canal de retorno de maneira clara, então seria difícil para o consumidor entender, num primeiro momento, uma caixa com canal de retorno. Hoje, quando o consumidor entra na loja ele vai solicitar melhor qualidade de imagem e som, ele vai querer alta definição. Então, num primeiro momento, o telespectador quer ver TV com uma qualidade muito melhor do que ele vê hoje. Num segundo momento, quando ele começa a visualizar recursos que já estão na televisão, como o guia eletrônico de programação, algumas informações de seqüências de canais, sinopse, ou entra numa loja e vê que ele pode ter além disso, como por exemplo informação 24 horas por dia, um conjunto de jogos e uma série de recursos com interatividade local, ele passa para um nível de interatividade maior. No momento em que o consumidor começa a usar, tirar proveito e agregar valor, ele vai querer partir para um outro nível de interatividade e vai se aprofundando, até ter um objeto altamente convergente e poderoso, chegando, assim, ao terceiro nível, com a necessidade de um canal de retorno.

Ainda existe uma certa dúvida da população, quanto ao que é TV digital e o que é HDTV. Como está a atuação do módulo de promoção do Fórum, para esclarecer a população e como o módulo de mercado está preparando os lojistas, para que os consumidores não levem para casa um produto, achando que é outro?
O Fórum também tem o papel de gerar conhecimento. Hoje o Fórum disponibiliza dois sites, um é direcionado às empresas, entidades ligadas ao processo e que tem informações sobre as normas, módulos de trabalho e sobre o próprio Fórum – www.forumsbtvd.org.br. O outro site, www.dtv.org.br, é direcionado ao público consumidor, com informações sobre o que é definição padrão, multiprogramação, interatividade entre outras coisas. Agora, o Fórum não tem estrutura e nem a missão de ser agente promotor final do processo. Ele oferece informação à sociedade e às empresas envolvidas, mas as próprias emissoras de televisão, a própria indústria de recepção, têm que desenvolver o processo de capacitação de profissional e o seu próprio consumidor. Vale lembrar que as pessoas têm que estar preparadas para receber determinadas informações e precisam ter interesse em adquirir aquele conhecimento, do contrário, acabam não absorvendo. O conceito alta definição é muito difícil de ser explicado, porque as pessoas não entendem o que significa 1.080 linhas. A experiência é nova e a mente humana tem muita dificuldade em imaginar e questionar o novo. Só no momento em que você defronta com o novo é que o choque o faz pensar e aí você começa a se perguntar o motivo daquilo ser diferente e fica muito mais apto a absorver as informações que estão disponíveis.

Como está a divulgação do sistema brasileiro junto a outros países da América do Sul?
O governo brasileiro, através do Itamaraty, tem feito um esforço muito grande e o Fórum, juntamente com a SET, têm contribuído através da participação em diversos seminários, grupos de discussão, consultas e envio de informações. Durante o congresso da SET nós tivemos reuniões com diversas delegações de outros países, promovidas em conjunto com o Itamaraty. Então, é um esforço muito grande de mostrar o que nós fizemos, o porquê fizemos e mostrar as vantagens de seguir o caminho brasileiro. E não é seguir importando a tecnologia, é seguir juntando-se a nós para contribuir no desenvolvimento. O convite brasileiro é muito interessante, porque ele não está ofertando tecnologia, ele não está ofertando soluções, o que ele está é convidando os países vizinhos a aderirem ao processo, a terem voz no processo, a terem o poder de influenciar no futuro do processo e também buscar demandas.

Existe a possibilidade do sistema ser disponibilizado para países de outros continentes e não apenas para a América do Sul?
Sim, até porque ao escolher a base dos japoneses, nós acabamos desenvolvendo um sistema nipo-brasileiro, ou seja, a busca não é ter um sistema brasileiro, é ter um sistema internacional. Esse sistema internacional, que já existe na prática e cujas formalidades estão sendo desenvolvidas, é um sistema que agrega a solução japonesa e a brasileira, criando um sistema muito mais amplo e dando espaço para que outras inovações sejam incorporadas, pelos países interessados na adoção. Nós sabemos que o sistema está sendo apresentado em outras partes do mundo e participaremos da sua divulgação e promoção.

Como será a convivência do padrão analógico e digital, durante o período de transição?
Os dois sistemas vão estar no ar, em respeito ao consumidor. Se nós interrompêssemos a programação da TV analógica e mantivéssemos só a digital, nós estaríamos forçando o consumidor a correr às lojas para comprar aparelhos. Ao manter a TV analógica no ar, mesmo que isso custe e custa muito para o radiodifusor, o que ele está dizendo para a sociedade é o seguinte: “Você tem uma nova opção, que é a TV digital. A TV digital tem tudo que tem a TV analógica, de maneira muito mais rica e ainda pode oferecer um novo conjunto de aplicações, que são as formas diferenciadas de você ver TV, ou seja, portátil, móvel, alta definição e oferece também capacidade de haver um certo individualismo, através da interação. No momento em que você quiser entrar nesse mundo, você tem que colocar uma antena de UHF, comprar um televisor integrado, ou comprar um conversor. E você faz isso no momento que você quiser, no momento em que você se sentir atraído e achar que aquilo é bom pra você”. O radiodifusor está ofertando o serviço e fazendo os investimentos, sem nenhum retorno no momento, para que a sociedade faça adesão quando ela quiser, individualmente.

Mas o que as emissoras ganham com isso?
No momento nada. As emissoras estão apostando no futuro. As emissoras acreditam no negócio, entendem que a TV analógica chegou em sua saturação, no seu limite de melhoria de oferta. Se vocês olharem na programação da TV brasileira, no conteúdo brasileiro de 10 anos atrás, vocês vão se assustar como a qualidade era muito inferior. A televisão sempre esteve atualizada em tecnologias, técnicas e em conhecimento de produção de conteúdo. O conteúdo da TV brasileira é um dos mais belos e bem acabados do mundo em termos de forma, estética, luz e qualidade de imagem. As câmeras utilizadas no Brasil são atualizadas em tecnologia e elas têm muito mais resolução do que o radiodifusor é capaz de entregar na casa do telespectador, mas isso ainda faz diferença na percepção visual e o radiodifusor sempre apostou em ter conteúdos produzidos da melhor forma. O Brasil é um dos poucos países do mundo, em que a televisão usa equipamentos de broadcast de última geração, porém a tecnologia de transmissão analógica limita e todo esse esforço chega a um ponto que, para o telespectador, faz muito pouca diferença. O radiodifusor entende que ele precisa continuar evoluindo e que sua competição é com a questão do entretenimento e da informação eletrônica, seja ela através do DVD, da Internet, do cabo, do satélite, ou do cinema. Todos os outros meios já são digitais e vão continuar se desenvolvendo. É muito mais justo quem explora o serviço investir para quem consome ter o benefício, que o contrário.

Mas todas as emissoras estão preparadas para investir no parque tecnológico e oferecer essa nova tecnologia?
Aqui em São Paulo todas as emissoras fizeram investimentos antecipando o prazo obrigatório, em um ano e alguns meses. O compromisso de acreditar e investir nesse setor tem sido renovado a cada dia pelo radiodifusor. É lógico que nós temos que fazer que o valor desses investimentos caiam ao longo do tempo. É preciso desenvolver a indústria nacional que já tem produtos, que está investindo em tecnologia, pessoal e inteligência, para ofertar produtos aderentes à realidade brasileira. Todos os fabricantes brasileiros de transmissores que estão envolvidos no processo, já têm produtos e algumas emissoras estão entrando no ar, aqui em São Paulo, com produtos da indústria nacional. Se nós conseguimos solucionar o problema da televisão no Brasil quando ela iniciou, transformou-se em cores e fizemos que a televisão em cores cobrisse 100% do país, eu não tenho dúvidas que o radiodifusor vai encontrar soluções para cumprir todo o cronograma e fazer que todo o Brasil tenha acesso à TV digital.