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Entrevista – Roberto Franco

ENTREVISTA

Entrevista - Roberto Franco

Não foi fácil conseguir um espaço na agenda de Roberto Franco. Também, além de seus trabalhos à frente da diretoria de rede e assuntos regulatórios do SBT, ele é presidente do Fórum Nacional SBTVD e do Fórum Internacional ISDB-T e faz parte do Conselho de ex-presidentes da SET. Apaixonado por tecnologia desde a adolescência, Roberto se mostra satisfeito com todos os feitos que o Brasil tem conquistado no setor de radiodifusão e, principalmente, do empenho dos profissionais que trabalham nesta área, que mesmo com objetivos e interesses diferentes caminham juntos no desenvolvimento do setor. Ele fala com orgulho do Brasil ter sido escolhido para presidir o Fórum Internacional por unanimidade pelos países que participaram do encontro que aconteceu em março, em Santigo, no Chile.

Em entrevista dada à Revista da SET – leia íntegra na edição 118 – a presidente da SET, Liliana Nakonechnyj, disse que, o senhor levou a SET a um patamar de respeito nacional e internacional sem precedentes, em especial por liderar com maestria o processo de contribuição da SET à escolha do sistema de televisão digital brasileiro. Como o senhor avalia esta declaração?
Envaidecido. Porque tenho muita admiração pela Liliana, uma pessoa generosa e amiga. Mas eu não concordo que eu levei. Eu acho que nós levamos. Eu fui apenas um líder, a pessoa que estava na liderança de um processo com pessoas fantásticas que estavam trabalhando pelo mesmo fim. Esta questão da TV digital ou da própria SET é a soma de esforços, de conhecimento, de competência, de energia e a transparência com que estas pessoas se relacionam. Apesar das diversidades de interesse o objetivo é sempre comum. Eu digo com toda tranquilidade: reconheço a importância do que a SET fez nestes anos, mas não me sinto o autor ou o responsável direto destes acontecimentos. Eu acho que fui parte de um trabalho de muitas mãos, muitas cabeças, muito esforço e muito suor. Acho até que a SET é motivo de estudo. Como uma entidade totalmente sem fins lucrativos, aberta e democrática pode dar tão certo? Uma vez a nossa presidente Dilma Rousseff, à época Ministra da Casa Civil, em visita ao Congresso da SET perguntou: “Roberto, como a SET consegue tudo isso e funciona desta forma se nem fonte de recurso tem? Eu disse: Ministra, isso aqui é uma soma de várias pessoas que acreditam e desejam algo em comum. Ela “O Brasil se mpre foi um excelente usu ário de tecnologias , mas co m o siste ma de TV digital nós te mos um novo marco , a oportunidade de ser um pa ís indutor de tecnologia “. Lourival Ribeiro Por Gilmara Gelinski 7 ficou encantada e a partir daí passou a ser nossa fã.

Como surgiu a vontade de ser presidente da SET? O que o incentivou a assumir este cargo na época?
Eu não diria que foi uma vontade de ser presidente. Eu sempre fui uma pessoa participativa. Sempre gostei de trabalhar em equipe. Na gestão do presidente José Munhoz ele me convidou para começar a participar das reuniões de diretoria da SET. Eu não tinha cargo formal, mas sendo a SET uma entidade muito democrática, muito aberta, muito participativa, quem quer participar sempre tem espaço. Eu aceitei o convite, não tinha um cargo formal, mas comecei a participar das reuniões, me envolver nos projetos, tornei-me vice-presidente e depois fui eleito presidente. Então muito mais que um ato de planejamento e vontade foi a consequência de um trabalho desenvolvido, de uma indicação dos colegas e aquelas missões que não temos como recusar pelo orgulho e satisfação que dá.

O senhor foi eleito novamente o presidente do Fórum Nacional SBTVD. Quais são as principais ações para a sua gestão?
O processo de implantação da TV digital no Brasil é um sucesso. O processo de escolha foi muito rigoroso, participativo, muito discutido, muito longo – até mais do que desejávamos na época -, mas hoje temos que reconhecer que apesar de longo ele gerou segurança, certeza e tranquilidade muito grandes. A SET, como propulsora e indutora do processo, e o Fórum SBTVD, como conseqüência e como uma entidade gestora de toda a implantação e harmonização das regras, têm um trabalho muito forte de responsabilidade, mas de obrigação de permanência deste espírito de discussão, de envolvimento dos interessados em fazer uma implantação segura, tranquila, que não seja cheia de problemas. Na implantação do sistema da TV digital no Brasil nunca houve aquilo que nós chamamos de implantação step back (um passo atrás). Isto é, nunca houve interrupção do que se está fazendo, para voltar e fazer novamente. Isso aconteceu em vários processos do mundo. Aqui, por termos um processo muito profundo e intenso não temos isso, e o Fórum é uma das entidades que propicia um dos ambientes desta discussão.

Qual é a responsabilidade do Fórum SBTVD agora?
O Fórum é responsável pela manutenção deste processo, da manutenção do sistema e do desenvolvimento do futuro do sistema. O Fórum, a SET, o Brasil e o governo são os grandes responsáveis pela disseminação do sistema brasileiro em vários países. Então nós temos uma responsabilidade muito grande não só com o processo brasileiro, mas em mantermos o nível de colaboração, de intercâmbio de informações e de suporte aos países que de alguma forma foram influenciados por nós a terem sucessos em suas implantações. O senhor falou em responsabilidade com os países que adotarem o sistema brasileiro. Quais são as ações do Fórum para que novos países adotem o sistema brasileiro? O Fórum tem sido líder de um processo de harmonização internacional das normas. Nós entendemos que é importante que todos os países que adotaram o ISDB-T tenham um ambiente de harmonização das normas para evitarmos diferenças de implantação, mesmo pequenas, mas que ao longo do tempo podem se tornar grandes. Que elas sejam administradas e harmonizadas e que nós consigamos permanecer com um sistema único e interoperável. O Fórum tem feito um trabalho muito grande de intercâmbio com estes países, de contribuição e colaboração. Ele foi uma das entidades indutoras da criação do Fórum Internacional, que é um ambiente mais formal, estruturado para que haja colaboração e desenvolvimento em conjunto.

Atualmente o Fórum Internacional é um ambiente consolidado?
Hoje o Fórum Internacional já está fundado, é algo concreto, que existe graças ao Fórum Nacional que foi um dos grandes propositores e estruturadores do processo. Nós estruturamos a organização desse Fórum, o memorando de entendimento e o estatuto do Fórum. Com isso fomos indicados e assumimos a presidência do primeiro período de gestão do Fórum Internacional e a coordenação do módulo técnico de harmonização também. O Brasil foi indicado para presidir o Fórum Internacional e eu como presidente do Fórum Nacional assumo a presidência das duas entidades. Então mais uma vez, somos motivo de orgulho, mas também de responsabilidade e dedicação porque toda esta confiança creditada merece uma contrapartida em termos de trabalho.

Quais são os pontos críticos do sistema da TV digital brasileiro?
Um ponto crítico que está resolvido, mas que precisa ganhar massa é a questão da interatividade, do Ginga. Ele já é uma realidade, já está maduro, é um sistema bem estruturado, reconhecido internacionalmente como o sistema mais completo e potente para a interatividade da TV aberta, mas precisa chegar à massificação. Toda a política adotada no Brasil até então de introdução da TV digital é uma política de mercado livre. Isto é, oferta de produto e serviços e aderência da população à sua livre espontânea vontade. Não existe nenhum processo indutor através de subsídios ou imposições. Existe um processo em um ambiente propício em desenvolvimento, competição, inovação e oferta. O público em geral faz a adesão quando, como e na categoria de produto que quiser. Isso funcionou com a adesão do sistema de TV digital e esperamos que o mesmo aconteça com a interatividade. Claro que alguns processos de aceleração podem ser feitos e serão muito bem vindos. E o outro ponto crítico é fazer com que a TV digital continue sendo massificada, é fazer com que ela chegue em 100% do território nacional nos prazos que estão planejados. É uma tarefa árdua, tendo em vista a dimensão do Brasil e as distribuições econômica e populacional bastante desiguais. Aqui, há uma concentração grande na costa enquanto na parte interior há uma pequena densidade populacional.

O que está sendo feito para melhorar esses pontos?
Num processo de livre economia é um desafio muito grande e o Fórum tem que dar suporte para que não haja nenhum problema adicional desnecessário no processo de implantação. A manutenção ganhando velocidade e mantendo essa implantação “smooth”, quer dizer uma implantação suave, tranquila, sem percalços, sem nenhum problema que obrigue alguém reinvestir ou perder o que já fez, ou que o consumidor compre um aparelho e tenha que trocar em curto prazo porque houve uma mudança na norma. Esta é a grande responsabilidade do Fórum. Na interatividade como algo que ainda está em implantação e no restante como algo que foi implantado com sucesso.

O senhor acha que a TV digital está consagrada no Brasil? E que o sinal analógico está com dos dias contados?
O sistema é totalmente estável, confiável e é o melhor do mundo. O conhecimento dos radiodifusores da indústria de softwares, recepção, retransmissão, dos acadêmicos brasileiros é dos melhores do mundo, dos mais completos. Quanto à massificação de 100% da população é uma questão de ação de mercado de convencimento, de divulgação, e de adesão livre da população. Os números de venda de receptores do ano passado e as previsões para este ano mostram que o processo está no caminho adequado, que ganhou massa crítica, que chega hoje a um número expressivo com relação ao percentual da população e que alcançou o ponto de crescimento geométrico. O ano passado foi um ano marcante. Hoje quase toda a produção de televisores no Brasil é com conversores embutidos. É claro que existe uma planta construída ao longo de muitos anos que precisa ser substituída. Nós temos um volume de produção brasileira histórica, em torno de 10 milhões de aparelhos por ano que deverão ser trocados. O ritmo de introdução é bastante significativo. Será capaz de substituir tudo até 2016? Ainda não é possível afirmar, mas a TV analógica será substituída pela TV digital e o ritmo é bastante interessante em âmbito nacional.

Eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas podem interferir nesse ritmo?
Com certeza. A TV e o rádio são os únicos veículos que chegam em todas as classes de uma maneira massificada e universal. A TV digital segue este caminho, mas ela precisa de tempo para ganhar velocidade. Nós sabemos que Copa do Mundo e Olimpíadas são indutores. E esses próximos eventos, por serem no Brasil, terão uma força ainda maior. E todos os demais eventos – Copa das Confederações e Panamericano – que acontecerão antes, também serão indutores para esta mudança. No ano passado, o maior número de venda de televisores se deu no primeiro semestre, em função da Copa, e normalmente esse aumento acontece no segundo semestre.

Como estão as concessões de frequência para a transmissão em digital fora dos grandes centros?
Estão obedecendo ao cronograma criado pelo Ministério das Comunicações. Inclusive há providências para que as concessões aconteçam cada vez mais rápidas. O cronograma é balizador de tempos máximos e não impede que o setor antecipe. Se olharmos a introdução no Brasil em termos de cidades a implantação está à frente dos prazos estabelecidos.

Como está a implantação do middleware Ginga?
Ele já está implantado e existem fabricantes de televisores que possuem a linha completa de produtos com o Ginga. Agora, se ele vai massificar em 2011… Ainda é muito cedo para falar porque a maior parte das vendas de televisores acontece no segundo semestre. Exceto em anos de copa. Todas as emissoras emissoras de televisão têm aplicativos. O SBT, por exemplo, tem um aplicativo 24 horas por dia. A TV Globo e a TV Bandeirantes têm aplicativos. Existem produtos de mercado de televisão e existem produtos de interatividade na televisão. A gente espera que cresça significativamente o número de produtos com o Ginga da mesma forma que a gente espera que os radiodifusores invistam cada vez mais em produtos utilizando a interatividade. E isso faz com que aumente o interesse da população pelo produto interativo.

Como o setor da radiodifusão vê esta nova tecnologia de TV 3D?
Não só a tecnologia 3D, mas a questão do audiovisual 3D é algo que está ainda no campo experimental para a radiodifusão. As salas de cinema ainda têm um percentual menor do que o filme em 2D mas está ganhando um aumento de oferta significativo. Na TV aberta ele não é disponibilizado comercialmente, mas assim como foi a alta definição, é um caminho sem volta. O mercado audiovisual 3D vai acontecer. Fazer uma previsão… É difícil. Mas eu posso afirmar que as ondas tecnológicas, hoje, são cada vez mais velozes. Então, não se pode dar o luxo de se preocupar com o assunto no futuro. E por isso, a SET já está discutindo, estudando e acompanhando o assunto.

E o que as emissoras estão fazendo para que essa tecnologia se torne uma realidade?
As emissoras vêm fazendo experiências em 3D com seus conteúdos, já produziram conteúdos, estão analisando as consequências, vendo quais os conteúdos que ganham mais valor e quais não tem tanta relevância em ofertar em 3D. Elas estão tentando entender o comportamento do público, porque assim como o HD, é algo que aumenta muito o valor da percepção visual, o senso de realismo, o envolvimento e a imersão do telespectador. Essa tecnologia agrega valor ao que estamos fazendo. Ele vai acontecer em um período muito mais rápido do que foram outras tecnologias e é preciso ficar atento. Precisamos aprender a utilizar, adaptar e saber como esta tecnologia se comporta na nossa cultura, nos nossos conteúdos, na nossa forma de perceber e assistir televisão. E a SET vem fazendo isso. Em todos os seus eventos tem abordado o tema, na Revista da SET também são vistos artigos sobre o 3D.

Como o senhor avalia os trabalhos da SET para ajudar na divulgação de todas estas tecnologias?
A SET tem a missão de prover um ambiente de colaboração, troca, criação e intercâmbio de conhecimento. Cada vez mais nós temos novidades, inovação, desenvolvimento e cada vez mais as coisas são perenes, quer dizer, o conhecimento adquirido hoje tem que ser renovado, a sua responsabilidade e missão ficam cada vez mais densas, importantes e relevantes. É essa preocupação que a diretoria da SET tem discutido para inovar não só dominando e distribuindo estes conhecimentos, mas buscando formas de disseminar este conhecimento que sejam capazes de atrair a atenção dos profissionais e dos agentes envolvidos. A grande força motriz da SET é a contribuição, por isso, a Liliana na presidência, a Valderez com a revista, o Comitê de Educação da SET, estão cada vez mais sendo desafiados em criar mecanismos para reter o foco e motivá-los a contribuir.

E o Fórum Nacional?
O Fórum com a missão um pouco mais específica em cima da TV digital tem como objetivo manter entidades e pessoas com motivação e compromisso em participar de um processo em construção de uma plataforma estável e disseminá-la em toda sociedade. É um trabalho árduo e caro e que é feito em cima de colaboração.

O Brasil está preparado para absorver as novas tecnologias que estão para chegar?
O Brasil sempre esteve preparado, principalmente, no campo da radiodifusão. Historicamente, o Brasil foi um dos países que entrou totalmente contemporâneo com a TV analógica. Nunca houve atraso do uso da tecnologia da radiodifusão e do estágio tecnológico do Rádio e da TV no Brasil. E no sistema de TV digital nós temos um novo marco – o Brasil que era um país reconhecidamente excelente usuário das tecnologias por usar bem dentro das ondas tecnológicas, inclusive, inovando quanto ao uso –, a oportunidade de ser um país indutor de tecnologia. Além de ser um país follow passou a ser um país propositor. E em todos esses movimentos futuros – 3D, OTTs e outros – o Brasil tem sido convidado a discutir, tem sido ouvido e participado de todos os fóruns de discussão em âmbito mundial. Inclusive eu acho que é a esse marco, esse patamar, que a presidente Liliana se refere na entrevista dela.