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Entrevista – Liliana Nakonechyj

ENTREVISTA LILIANA NAKONECHYJ
“A MAIOR CONVERGÊNCIA OCORRERÁ NO TERMINAL DO CIDADÃO”
Revista da SET – Edição 102

Liliana Nakonechyj, formada em en­genharia elétrica pela PUC-RJ, é dona de MBAs em gestão em finanças e estratégia. Ela sempre gostou de exatas e da idéia de ser engenheira, e isso numa época em que não era comum o curso ser freqüentado por moças. Quase não chegou lá, pois por alguns meses, durante o colegial, deixou-se encantar pela Medicina. Mas, já no pré-vestibular, recuperou o bom senso e voltou à engenharia. Ainda bem, pois não fosse assim Liliana não seria a nova presidente da SET. Ela também é diretora da divisão de engenharia de transmissão e apoio às afiliadas da TV Globo, onde entrou como estagiária e fez carreira. “Nunca me incomodou e também nunca tive qualquer problema em viver em um ambiente de homens. Acho que tive sorte, pois não me senti discriminada ou desrespeitada como estudante ou como profissional”.

Na SET Liliana está desde o início tem muito orgulho de ter participado do grupinho que ajudou Adilson Pontes Malta, o idealizador da SET, a desenhar a estrutura. Seu primeiro cargo foi de diretora técnica. Nele Liliana adquiriu tarimba e jogo de cintura à toda prova. Ela relembra: “Na época já havia o SET e Trinta, mas precisávamos tornar mais técnico e menos comercial as apresentações no programa. Lembro-me que marquei reuniões prévias no fim-de-semana para repassar cada uma das apresentações com seu palestrante. Isso me tornou, na ocasião, super ‘querida”…

Para falar de seus planos e projetos à frente da entidade, Liliana concedeu a seguinte entrevista:

Quais são as linhas mestras da sua presidência?
A missão da SET é a valorização dos engenheiros de televisão. Mantendo-os atua­­lizados, motivados e atuando de acordo com as melhores práticas do mercado, a televisão brasileira terá condições de continuar no estado da arte e oferecendo o que há de melhor, em termos de qualidade e inovações, à população brasileira.

O que a senhora e sua diretoria pretendem aperfeiçoar?
Com a implantação da TV Digital e a necessidade de difundir conhecimento necessário à digitalização, minha idéia é buscar convênios com instituições de ensino em todo o país.

O que a senhora vai mudar?
A princípio, nada. As gestões do Roberto Franco foram fantásticas e não há nada a consertar.

Mas, e as modificações no organograma da SET?
Com ajuda da antiga diretoria procurei fazer uma chapa que trouxesse sangue novo para a Sociedade. Espero trazer mais gente jovem para ir, aos poucos, substituindo o atual grupo de fundadores. Também atraímos professores competentes e de­dicadíssimos. Fizemos ainda um pequeno ajuste da estrutura da SET a fim de adequá-la à transição digital. A diretoria de internet agora é de TI/internet. Isso visa chamar a atenção sobre o enorme papel da tecnologia da informação na televisão, na medida em que servidores substituem hardwares dedicados e tudo passa e ser interligado em rede.

Por quê foram criadas outras atribuições para a diretoria de TV por Assinatura e mesmo uma nova diretoria?
Com a adição de novas mídias à diretoria de TV por Assinatura, o objetivo é estudar os impactos e a convergência da televisão não só com meios tradicionais como cabo ou DTH, mas com todas as novas mídias, como IPTV e digital signage. Já a nova diretoria de interatividade visa dar atenção a esse desafio a ser enfrentado pelas emissoras, o de fazer com que a interatividade venha a ter para os brasileiros o mesmo imenso valor e a importância ímpar do conteúdo audiovisual. O Ginga traz as ferramentas, mas elas precisarão ser utilizadas corretamente, e os talentos criativos treinados, para que possa ser desenvolvida essa nova área. Uma outra área de atenção é a indústria de consumo. A meu ver, a maior convergência digital ocorrerá no terminal do cidadão seja ele o televisor, o celular, o futuro servidor doméstico, enfim, os aparelhos concentrarão várias funções e estarão interconectados a várias redes. Esses aparelhos precisam ser fáceis de operar pelo consumidor, mas também devem ser bem entendidos por todos aqueles que contarão com eles para alcançar seu público. Estou certa de que nossa atual diretoria industrial terá uma atuação forte nesse sentido.

Como a senhora avalia a preparação para a digitalização da TV aberta?
O Fórum SBTVD fez um trabalho fantástico ao criar, em apenas um ano, as especificações técnicas que permitiram o lançamento da TV digital. Agora dispomos das ferramentas digitais mais poderosas e avançadas. Elas possibilitam a cada emissora o oferecimento simultâneo de HDTV e mobilidade. No momento, o Fórum finaliza a última parte desse trabalho, a da interatividade.

Daqui por diante, que papel caberá aos engenheiros de televisão no processo de levar a TV digital aberta a todo o país? E à SET?
Os profissionais de engenharia de televisão precisarão estar bem preparados para esse trabalho. A modificação da infra-estrutura das emissoras, as operações em paralelo do SD e do HD, a manipulação dos metadados que acompanham o áudio e o vídeo nesse mundo digital, a implantação, tudo isso exige novos conhecimentos. Também o desenvolvimento e a operação de aplicações interativas representam novos e grandes desafios. Acima de tudo, o profissional de televisão precisará estar preparado a fim de ajudar o empresário e os talentos criativos a entenderem esse novo mundo com todas as suas nuances. Embora a SET tenha tido, desde o princípio, associados de centros de pesquisa, esse vínculo com a academia tem aumentado consistentemente ao longo dos últimos anos. Tenho certeza: esse é um ativo importantíssimo. Só com a ajuda das entidades de ensino centros técnicos, universidades e cen­tros de pesquisa, conseguiremos multiplicar os novos conhecimentos necessários à transição digital.

A SET vai estreitar os laços com a academia? A diretoria pensa em aumentar o número de eventos pro­movidos? Que destinação será dada à sala inaugurada recentemente em São Paulo?
No quadro de eventos anuais da SET temos o Congresso, o SET e Trinta e os cinco encontros regionais no Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Esses encontros continuarão ocorrendo, com um compromisso da SET de conteúdos programáticos atualizados e adequados às particularidades da região. Neste ano, fizemos um primeiro encontro da SET no IBC, na Holanda. Foi um café da manhã ao qual compareceram umas 40 pessoas, um bom número levando-se em conta as dificuldades para se organizar isso a partir do Brasil. Quanto aos próximos IBCs, estamos pensando em montar um happy-hour. Nos encontros internacionais percebemos o papel importante da SET. Ela congrega os brasileiros de nosso setor. Já no Brasil os encontros têm como objetivo principal a difusão de conhecimentos. Estamos verificando a viabilidade de promover pequenos workshops, em conjunto com fornecedores de equipamentos nacionais e internacionais, utilizando inicialmente a sala montada em São Paulo. Também pretendemos estabelecer convênios com instituições de ensino, de nível técnico e superior. Assim os associados da SET terão à disposição cursos que os ajudarão a atuar no novo mundo digital.

Como a SET pretende se tornar mais influente entre os formandos e universitários?
A SET tem se aproximado muito da academia uma parceria fundamental. Com a adição de sessões acadêmico-científicas e o recente registro de nosso congresso no ISSN-International Standard Serial Number, que o incluiu na lista de conferências em que a apresentação de trabalhos acadêmicos é reconhecida formalmente, passamos a ter a participação de um número crescente de pós-graduandos e universitários. No dia-a-dia, contamos com os professores universitários. Eles aceitaram vir trabalhar conosco para fazer e ssa aproximação, propondo a participação de membros da SET em eventos acadêmicos e convênios para o desenvolvimento de trabalhos com grupos de alunos. É muito importante formar uma mão-de-obra interessada e motivada a fim de garantir o sucesso da televisão e rádio do futuro.

Quais conselhos a senhora daria aos formandos?
Há uma infinidade de novos desafios nas áreas de tecnologia de televisão e rádio nesse novo mundo digital que se inicia. Muitos de nós, com décadas de trabalho na área de engenharia de televisão, somos apaixonados por ela, diria quase viciados. Mas precisamos ir passando o bastão para eles, são pessoas já nascidas na era digital e que, dedicando-se à área, terão condições para desenvolver as tecnologias corretas e assim atender aos desejos das gerações futuras. Portanto, está aberto o desafio a eles.

A SET pretende ter mais influência política? Como isso será conseguido?
A SET é uma sociedade eminentemente técnica. Ela busca manter seus membros atualizados e ajudar no desenvolvimento das melhores práticas e tecnologias de televisão e rádio no Brasil. Não temos qualquer pretensão de influir politicamente, mas simplesmente de estar à disposição e preparados para opinar relativamente ao desenvolvimento e à adequação das tecnologias que ofereçam os melhores serviços à população.

O Brasil está para exportar nosso padrão de TV Digital aberta para outros países com a Argentina já temos um protocolo de intenções assinado. Que benefícios poderemos esperar disso?
A TV analógica está acabando em alguns países já acabou e a maior parte dos países desenvolvidos têm data para finalizá-la. Nosso padrão é, no momento, o mais avançado, o mais à prova de futuro em todo o mundo. Acabo de presenciar a dificuldade enfrentada pelas emissoras européias por causa da falta de espectro para oferecer alta definição. As emissoras dos EUA estão ansiosíssimas para iniciar a mobilidade. Nosso padrão oferece tudo isso. Em breve, ele também disporá de um middleware poderoso e sem problemas de royalties. Assim, os países que desejam uma TV aberta cumprindo seu papel de informar e distrair a população devem iniciar a digitalização de  imediato e nada mais apropriado para bem servir à população que adotar nosso padrão. A longo prazo, essa adoção também trará benefícios adicionais para nosso país, com o aumento da base de aparelhos de consumo de mesmo padrão, e as parcerias a serem feitas em todas as áreas, em especial a de interatividade.

A SET terá papel importante ou decisivo nisso?
Esperamos atuar como agregadores das áreas técnicas dos vários países. Aliás, é um velho sonho da SET trabalhar com os setores similares dos outros países, promovendo o intercâmbio entre as indústrias latino-americanas.

É uma boa oportunidade para engenheiros de televisão?
Claro, um mercado de trabalho pan-regional é bem mais dinâmico, oferece mais oportunidades.

O que os engenheiros e consultores do setor devem fazer para não perder esse bonde?
Manter-se sempre atualizados.

A seu ver, a implantação da TV digital no Brasil já é um sucesso? Por quê?
É um sucesso, sim. Lançamos a TV Digital somente 18 meses após a decisão do governo, e entre a decisão e o lançamento foram escritas as especificações de nosso sistema. Desde o lançamento, já havia produtos de consumo disponíveis no mercado. Sete meses depois, a TV digital está presente em outras três regiões metropolitanas, surgiram inúmeros novos produtos de consumo, houve uma queda significativa nos preços de vários deles e há dez redes diferentes transmitindo em HD a maior parte com vários programas em alta definição. Não corro qualquer risco afirmando que nosso lançamento foi um dos mais bem sucedidos do mundo! Claro, também sei do longo caminho a percorrer.