• PT
  • EN
  • ES

Entrevista José Marcos Freire Martins

ENTREVISTA

Entrevista

A era da convergência e tecnologias digitais movimenta toda a cadeia do país, principalmente, no aspecto industrial que precisa se atualizar para atender a demanda e vencer a concorrência. Nessa entrevista o engenheiro José Marcos Freire, diretor industrial da SET e diretor geral da empresa Tecsys do Brasil, nos dá um panorama da realidade da indústria nacional. Há mais de trinta anos trabalhando no desenvolvimento da indústria de radiodifusão frente às empresas Antenas Biasia, Equitronic, Tecsat, Orbisat, B&M Quasar e Amplimatic, em 2004 ingressou na SET como associado e há quatro anos trabalha ativamente na diretoria da entidade. Martins nos conta que a indústria nacional tem se adaptado a nova realidade através de projetos disponíveis pelo governo e com seus próprios recursos. O Brasil é a bola da vez com sua economia em ascensão, provedor de um sistema de transmissão digital ímpar, anfitrião de dois eventos esportivos importantíssimos, Copa do Mundo e Olimpíadas. A industrial mundial está de olho no país e quer tirar proveito desta fase. Para ele a concorrência é positiva e desafiadora para as empresas nacionais, que não dispõem das mesmas condições comerciais, financeiras e operacionais das estrangeiras. As nossas empresas estão no mesmo patamar tecnológico do mundo, prova disto é o nosso sistema ISDB-TB , atualmente um padrão internacional. Entidades como Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) e Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) são as vozes do setor juntamente ao governo, principalmente, no tocante a reforma tributária e trabalhista.

Como a indústria brasileira tem se adaptado para atender o setor da radiodifusão, tendo em vista o processo de digitalização nacional e o switch off programado para 2016?
Nos últimos anos foram feitos investimentos em pesquisa e desenvolvimento financiados por projetos de subvenção econômica da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e também com recursos próprios das indústrias. Laboratórios e instalações industriais foram equipados com novas tecnologias de produção, integração e teste, aumentando substancialmente a capacidade produtiva e para desenvolvimento de soluções customizadas.

O Brasil tem sido foco de muitas empresas internacionais em função da digitalização do sistema de transmissão e também dos eventos esportivos . Como o senhor avalia a entrada dessas empresas no mercado brasileiro?
A concorrência é positiva, pois é um desafio constante para o crescimento e o desenvolvimento das empresas. Todavia, as mesmas condições comerciais, financeiras e operacionais deveriam existir para que a concorrência seja saudável e não predatória.

As empresas internacionais contam com financiamentos de longo prazo e juros muitas vezes subsidiados. Muitas delas fornecem produtos de estúdio, de transmissão e equipamentos de teste. Quando ofertados em forma de “pacotes” é possível que o produto com similar nacional seja subsidiado por outros que fazem parte da proposta. Desta forma é, praticamente, impossível identificar a prática de “dumping”. As empresas brasileiras têm capacidade tecnológica e produtiva para atender sozinhas a demanda dos radiodifusores?
O ISDB-TB , atualmente um padrão internacional, é o maior exemplo da capacidade tecnológica da engenharia brasileira em todas as áreas de atuação – acadêmica, científica, empresarial e comercial. A demanda dos radiodifusores pode e será atendida, mas aqui existe uma definição importante: o que é empresa brasileira? Em nossa definição é aquela que possui uma operação industrial em nosso território, que invista seriamente na geração de empregos e no desenvolvimento tecnológico.

Com relação aos custos, na maioria das vezes, os produtos nacionais, como os dispositivos, por exemplo, são mais caros do que os vendidos nos Estados Unidos . No setor da radiodifusão também existe essa diferença no preço?
Essa diferença existe sempre que considerarmos a composição de custos e preços que incluem impostos, encargos, custos financeiros, etc.. A indústria brasileira mesmo com margens reduzidas tem plenas condições de competitividade desde que os produtos importados sejam corretamente classificados e tributados.

Quais são as dificuldades que a indústria brasileira enfrenta com relação aos encargos tributários?
Os encargos tributários refletem diretamente no preço de venda do produto. Por outro lado os produtos que vendemos possuem um fator muito alto de tecnologia, que precisa ser distribuído em cada produto vendido num mercado muito pequeno.

Mercado muito pequeno? O senhor está se referindo ao mercado nacional? Então por que as empresas estrangeiras estão de olho nele?
Refiro-me ao mercado neste momento que é pequeno. Nos próximos anos, até 2016, com o switch off ele vai ser muito grande, para as indústrias brasileiras de radiodifusão. Deixe-me explicar o termo “mercado muito pequeno”. Quando uma empresa desenvolve um novo código ou produto, hoje, ela visa o mercado mundial para ter escala e diluir o não recorrente do projeto. A maioria das indústrias nacionais está desenvolvendo seus produtos para um mercado nacional, com isso restringe e muito a quantidade de produtos vendidos e, consequentemente, aumenta o seu custo. Para diminuir estes custos as indústrias brasileiras já estão operando no mercado internacional com produção, desenvolvimento e projeto. Posso citar o exemplo da empresa em que sou direitor, a Tecsys Brasil, que abriu uma unidade em Israel -Tecsys Video Network -, para atender os mercados internacionais.

Como as entidades, como a SET e outras, estão trabalhando para que a indústria nacional tenha custos menos elevados e consiga competir com a indústria internacional?
As associações de classe Abinee e Fiesp têm levado a nossa mensagem para o governo, mas como é do conhecimento de todos estamos há anos cobrando a reforma tributária e trabalhista – e pouco ou quase nada aconteceu até agora. Acredito que com o atual agravamento da situação mundial, com a valorização do real e elevação substancial do custo de produção (salários, encargos, energia elétrica, gás, infraestrutura) alguma coisa precisa acontecer para evitar o sucateamento da indústria nacional.

Quais são as ações e/ou incentivos do governo para beneficiar a produção nacional dos equipamentos voltados para a radiodifusão?
Atualmente o governo tem incentivos disponíveis como a “Lei de Informática”, “Lei do Bem”, além de financiamentos através do BNDES e outros órgãos. Todavia seriam necessários ações como: redução dos encargos trabalhistas de forma geral e a isenção de tributos para compra de equipamentos destinados à pesquisa e à modernização dos processos industriais. Não existe coerência em pagar impostos sobre ativos que promovem o desenvolvimento tecnológico e industrial do país. A maior parte das patentes depositadas no mundo tem origem nos países que desoneraram completamente a cadeia de P&D.

A Finep tem sido uma das fontes que possibilita o desenvolvimento de pesquisas e inovações?
Sim, com grande sucesso. O processo dos editais tem melhorado sistematicamente. Nos últimos anos todos os projetos apresentados, que eram efetivamente aderentes e possuíam um bom plano de negócios, foram aprovados. Nossa empresa foi incentivada em cinco projetos na Finep e todos geraram produtos que hoje são comercializados aqui e no exterior.

Como as empresas podem ter acesso a esse apoio?
A Finep publica todos os editais através do site. Nele é possível também fazer um cadastro para receber os informativos da entidade. O mesmo ocorre com outros órgãos de governo que fomentam a pesquisa no país.

Muito se fala dos novos equipamentos e novos sistemas . E a mão de obra? A indústria quando está desenvolvendo um produto, ela pensa na capacitação da mão de obra que irá operar aquele equipamento?
Temos aqui duas questões importantes: a capacitação do profissional quanto aos conceitos relacionados às novas tecnologias e capacitação quanto à operação dos produtos. No primeiro caso existe uma forte demanda para formação desses profissionais quanto aos conceitos, mas por outro lado não existe a disponibilidade de cursos de formação técnica de forma regional. Existem excelentes cursos nas grandes capitais, mas precisamos levar o conhecimento a todos os profissionais no Brasil. No segundo caso, o acesso a ferramentas via web já proporcionam a operação remota dos produtos facilitando o suporte e também o treinamento desses profissionais.

Qual a importância de oferecer além do produto a qualificação para os profissionais das emissoras?
Neste momento de troca de tecnologia, é muito importante oferecer suporte no projeto sistêmico, equipamentos, customização e operação assistida durante a fase inicial incluindo treinamento. Nossa empresa, a Tecsys, tem se destacado nessa questão, vencendo concorrências com produtos importados graças à qualidade do suporte pré e pós-venda e em português!

O senhor acredita que quanto maior a oferta de equipamentos e sistemas, a conclusão da implementação do sistema digital possa ocorrer mais rapidamente? Ou o senhor acredita que tecnologias abertas, que conversem com maior número de equipamentos e sistemas, possam agilizar o processo?
Os equipamentos e sistemas são meios para transmitir o sinal e contribuem no processo. Todavia, para a implementação ser agilizada serão necessários investimentos em outras áreas, tais como produção de conteúdo em alta definição e interatividade.

Como está a atuação da indústria nacional em outros países?
Está sendo feito um bom trabalho no que tange à divulgação do ISDB-T no mercado externo, todavia existe uma forte concorrência devido à estagnação dos mercados da Europa e Estados Unidos. Nossos concorrentes têm linhas de crédito de longo prazo com juros baixíssimos, além da participação e apoio governamental na conclusão de grandes contratos de fornecimento.

O Brasil também exporta tecnologia? Em quais países fincamos nossas bandeiras?
Nossa presença é muito relevante em toda a America Latina, mas já podemos falar sobre a presença da indústria brasileira em mercados como Filipinas e África.

A radiodifusão de outros países é muito diferente da nacional?
Cada país tem aspectos culturais diferentes em relação à televisão. O brasileiro é apaixonado por TV e, normalmente, não pagamos por ela. Outros países tiverem a implementação da TV digital facilitada, pois já existia a cultura de uso da TV a cabo. Além disso, a qualidade da TV aberta brasileira é conhecida mundialmente, além de ser hoje uma grande exportadora de conteúdo.

Quais são os investimentos da indústria para atender às novas tecnologias de transmissão digital seja ela terrestre ou por satélite , produção 3D, interatividade, TV conectada?
Os custos de desenvolvimento de novas tecnologias são muito altos, pelos motivos já apresentados. O que fazemos normalmente é aguardar que essas tecnologias alcancem certo nível de maturidade para que façamos o investimento necessário no momento certo.

Quais são as perspectivas para indústria nacional em 2012?
O principal motor para mudanças significativas em 2012 será a liberação das novas licenças pela Anatel. Além disso, temos outros mercados similares como TV a cabo e DTH que também estão em processo de liberação, fazendo com que a produção de equipamentos digitais seja intensificada ainda este ano.

Em 2010, a sua empresa Tecsys ganhou o Prêmio SET de Melhor lançamento em Inovação Tecnológica para TV digital . Como o senhor avalia a iniciativa da SET ao criar essa premiação?
Iniciativas como essa devem ser incentivadas em forma e número, pois o Brasil não tem tradição nesse tipo de premiação. É importante que os trabalhos em inovação da engenharia Brasileira sejam amplamente divulgados, tanto para o público em geral quanto para a escolha dos premiados.

O que esse prêmio significa para sua empresa?
O prêmio foi muito importante e gratificante para nossa equipe, considerando-se a característica do Prêmio – inovação tecnológica. Para uma empresa que possui 30 engenheiros e técnicos só no laboratório de P&D, o prêmio é um reconhecimento ao esforço e dedicação dessa equipe.