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Entrevista – José Marcelo Amaral

Pós-graduado em Análise de Sistemas pela PUC do Rio e com MBA em Tecnologia da Informação na USP, o diretor de TI e Internet da SET, José Marcelo do Amaral, tem uma extensa contribuição no setor de radiodifusão, atuando desde 1991 na Rede Record de Televisão, onde ocupa atualmente o cargo de diretor de tecnologia. Na  emissora, desenvolveu sistemas para as áreas de operação comercial de rádio e TV; implantou sistema para produção de notícias; gerenciou projeto de sistema de gestão integrado (ERP) e criou sistema de acompanhamento de audiência a partir de dispositivos móveis, dentre outros trabalhos. Como diretor de tecnologia participou de iniciativas para implantação de sistemas de edição não lineares, arquivamento digital e fluxo de trabalho tapeless. Nessa época, também passou a se envolver com questões relativas a vídeo digital e transporte de vídeo utilizando protocolo de internet (IP). No grupo Abert/SET, teve como principal desafio difundir e implantar a tecnologia de televisão digital. A atuação de Amaral se estende ainda ao Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital como membro do Conselho Deliberativo e vice-coordenador do Módulo de Mercado. “Meu mais novo projeto e um dos mais desafiadores foi o lançamento do portal de Internet, o R7”, conta ele. Nesta entrevista, Amaral fala da convergência TV/Internet, para quem no modelo ideal “preservamos as características importantes da TV e agregamos valor ao conteúdo, utilizando a Internet como um importante meio complementar”. Acompanhe.

Como está vendo o processo de convergência TV/Internet?
Neste momento há mais divergências do que convergência. As propostas que aí estão têm a pretensão de sobrepor um modelo em detrimento do outro. Vejo a TV digital e a interatividade como um modelo ideal de convergência. Neste modelo, preservamos as características importantes de uma TV convencional e agregamos valor ao conteúdo, utilizando a Internet como um importante meio complementar; isso para mim é convergência. Agora, não há como negar que a Internet por si só evoluiu muito nos últimos tempos fazendo com que as coisas no fundo se confundam. Já temos hoje vários exemplos de dispositivos que recebem e redes que transportam todo tipo de conteúdo, resta agora encontrar um modelo mais harmônico entre TV e Internet.

Quais são os passos ainda necessários para que ela ocorra de forma integral? São coisas incompatíveis Ou então assumimos que a TV vai deixar de existir e vamos passar a assistir todo e qualquer conteúdo audiovisual no computador.
A TV tem a sua força, é o meio mais popular e deve continuar assim ainda por muito tempo. Nela há um trabalho de pré-seleção de conteúdo feito por um grupo limitado de pessoas. Essas pessoas têm o desafio de encontrar algo que desperte a atenção de milhares de outras pessoas. Ainda estamos dispostos a aceitar esse modelo porque há muita gente competente fazendo isso. Por outro lado, há diversidade na internet e total liberdade de expressão, jamais vista em qualquer outro meio. Isso também nos atrai e desperta uma vontade de buscar ilimitadamente conteúdos que jamais seriam ofertados pelos meios tradicionais. Por esses motivos é que vejo a convergência integral como totalmente incompatível.

Então você não acredita que vai surgir uma nova mídia dessa convergência. TV e internet vão continuar existindo separadamente?
A história nos indica que continuarão existindo separadamente. Porém, olhando para o futuro será muito difícil estabelecer os limites entre TV e internet. Vamos ter uma mídia com multiplicidade de conteúdos, vindos de diversas fontes, totalmente relacionados, formando uma cadeia de valor capaz de atender aos interesses de todos. O mundo ideal.

Como você avalia o nível dos profissionais de TI atualmente e quais as deficiências de ensino hoje em dia?
Existe uma infinidade de opções para quem deseja se especializar em uma ou outra área de atuação. Neste quesito, acredito que há excelentes opções, dentre as escolas, universidades, programas nacionais e internacionais e profissionais.

Como você analisa a relação de profissionais de TI e de conteúdo que a cada dia têm que estar cada vez mais próximos?
Vejo que o profissional de TI é mais flexível para estabelecer relações com um mundo muito diferente do que foi acostumado, um mundo de improvisos e não linear. A produção de conteúdo é um processo muito dinâmico e exige que o profissional de TI quebre paradigmas constantemente, em prol da informação. Não são todos que se dispõem e poucos são os que realmente conseguem se adaptar a essa realidade.

Quais tecnologias ainda estão por vir que podem revolucionar a convergência da internet com a TV?
Algumas delas já estão por aí, mas ainda sem escala de consumo. São elas: transmissão de dados por rede elétrica (PLC), WIMAX Móvel, 3D, fibra ótica em casa (FTTH), dentre outras.

Como você avalia o atual estágio da Diretoria de TI/Internet na SET?
Não temos ainda resultados concretos. A partir desse ano, vamos organizar encontros para identificar necessidades e interesses comuns nas empresas. De qualquer forma nosso papel e propor maior sinergia entre essas áreas e de conteúdo.

Como os profissionais de engenharia estão se preparando para o universo TI? Existe resistência?
Os profissionais de engenharia, principalmente aqueles oriundos do mundo analógico, mais hard do que soft têm uma resistência natural. Alguns demonstram maior interesse e vão buscar uma nova especialização, essencial para os que pretendem se manter atualizados e adaptados à nova realidade. A maioria se restringe a utilizar TI como ferramenta de trabalho. É mais comum encontrarmos técnicos em início de carreira mais adeptos a TI. Por outro lado, vemos pessoal de TI migrando para os departamentos de engenharia, principalmente aqueles especializados em gestão de ativos de rede e softwares.

Qual a sua sugestão para que profissionais de TI e de engenharia trabalhem de forma integrada? Quais as maiores necessidades das emissoras nestes aspectos? E na área de transmissão, com a TV digital haverá a necessidade de maior integração ainda principalmente no controle e operação das redes. Como os profissionais estão se preparando?
Há algum tempo a TV vem sendo invadida e controlada por equipamentos baseados em softwares e redes. Engana-se quem imagina que isso simplificou o controle e a operação, pelo contrário. É preciso se aprofundar nas configurações de cada equipamento para obter os benefícios trazidos pelo mundo TI. A TV digital, com os seus componentes, aumentou ainda mais a necessidade de termos profissionais com esses conhecimentos e ainda pensando de forma integrada e sistêmica. Minha recomendação é que os profissionais das áreas de Engenharia e TI se predisponham a discutir os seus projetos sempre de forma conjunta. Isso promove troca de experiências e conhecimentos, fundamentais para termos projetos bem-sucedidos.

Perrone é editor da revista da Set – perrone@ composita.com.br

Revista da SET –  ANO XXI – N.113 – MAR/ABR 2010