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Entrevista – Fernando Pelégio

De Fernando Pelégio, “paulista, paulistano e são-paulino”, como ele mesmo se define, pode-se dizer que praticamente cresceu vendo, fazendo e ouvindo televisão. Seu pai, José Pelégio, é fundador das TVs Tupi, Record e do SBT. “Desde que me conheço por gente frequento esse ambiente. Já vi em ação muita gente boa. Vi também como era difícil fazer televisão na década de 60, em que quase tudo era ao vivo e não havia dinheiro para nada”, diz Pelégio. Ele começou a trabalhar em TV em 1980, com 15 anos de idade. Ou seja, completará 30 anos de carreira no ano que vem. Não tem nenhuma saudade daquela época inicial. “Também era muito difícil. A cada ano que passa, fica mais fácil e mais prazeroso trabalhar nesse ramo”, constata.
Pelégio acha que trabalhar no principal passatempo dos brasileiros, com possibilidade de lidar com tecnologia de ponta – sem falar no cheiro e barulho dos filamentos dos monitores e viewfinders das câmeras nos estúdios – é o que o atrai. Diretor de TV Aberta da SET, da qual é membro há 10 anos, Pelégio foi o diretor de eventos das últimas quatro diretorias. “Confesso que sempre tive muita honra em atuar na SET, especialmente nesse período de transição do sinal analógico para o digital. Pude colaborar com a SET num período muito importante para nosso ramo de atividade”, afirma. Para falar sobre estes e outros assuntos, ele concedeu a seguinte entrevista:

Por qual universidade se formou?
Fez algum curso técnico antes? Sou formado em Rádio, TV e Cinema pela Universidade de Miami. Consegui uma bolsa de estudos do empresário Sílvio Santos e me mudei para lá no início da década de 80. No Brasil só me aprimorei com os engenheiros. Gostaria de agradecer ao Cícero Marques, hoje diretor de Engenharia do SBT, por esses 25 anos de informações técnicas que ele tem me passado. Muito embora não seja engenheiro, sempre entendi que, para se fazer uma boa televisão, é necessário apresentar um bom nível técnico. Programas de TV que fazem sucesso e apresentam baixo nível técnico são efêmeros. Os programas que fazem sucesso e apresentam um bom nível técnico (e que procuram estar constantemente evoluindo) são os que sobrevivem na cabeça das pessoas.

Qual é a sua especialidade: geração, estúdio, transmissão?
Estúdio. É onde podemos aliar nosso lado artístico ao nosso lado técnico.

Em que empresas já trabalhou?
Estou no SBT há 29 anos. Comecei como office-boy e hoje sou diretor de criação. Tive uma passagem na WPBT de Miami como operador de câmera.

Na sua área, do que o senhor foi encarregado pela presidente da SET, Liliana Nakonechnyj?
Liliana me pediu para ficar atento às novas regras da radiodifusão. “Temos que ficar atentos às propostas governamentais”, disse ela. Em paralelo, novas tecnologias que afetam a TV aberta também estão no escopo.

O que o senhor já fez para implementar essas diretrizes?
Ainda estou estudando a melhor maneira de abordar os assuntos pertinentes. Estou de olho na maior utilização da transmissão 3D de programas e com o futuro lançamento comercial do Ultra High Definition.

Recentemente surgiram algumas mídias que ameaçam a TV aberta. O celular e o Iphone, por exemplo. A digitalização do sinal veio com atraso?
Ela poderia ter vindo antes. Porém, devemos admitir que, caso a tivéssemos adotado antes, as especificações técnicas não seriam tão boas. Hoje temos a TV digital mais avançada do mundo, melhor que em qualquer lugar. Quem saiu na frente perdeu a mobilidade gratuita do jeito que é hoje. Nem o Japão tem o mesmo sistema de transmissão que o nosso. Lá eles não têm o H.264. Os sistemas disponíveis de TV digital são “alvos em movimento”. Constantemente mudam, mas uma vez adotados, fica difícil alterar. Muito em breve estaremos fazendo pesquisas para o Ultra High Definition. Vamos precisar iniciar o processo de normas e convencimento do governo e população e (pasmem) dos próprios donos de concessão dos canais, os radiodifusores, que também estão custando a investir no sinal digital. Fico cansado só de imaginar o trabalho que vai dar.

A digitalização é suficiente para que a TV aberta faça frente à convergência de mídia?
Ela não é suficiente para conter a hemorragia que está acontecendo na TV aberta. Mas navegar na internet é uma atividade solitária e egoísta. Isso me preocupa no sentido familiar. Hoje cada membro da família tem seu computador e navega na internet isoladamente. Com isso, se separam uns dos outros no período em que supostamente deveriam estar juntos conversando sobre o seu cotidiano. A boa nova é que a geração atual é “Multi Task” (multi- tarefas). Eles conseguem fazer diversas coisas ao mesmo tempo… Para mim, assistir TV é uma atividade agregadora. A família brasileira ainda gosta de ficar em frente à televisão para comentar as notícias, torcer pelo time do coração, assistir às belezas do Pantanal ou para falar mal da vilã da novela.

A TV aberta vai continuar perdendo influência ou, com o One Seg e outros benefícios da digitalização, vai brecar a perda?
O One Seg é uma invenção maravilhosa. Ainda está inexplorada ou muito pouco explorada. Vai virar febre muito rapidamente. Mas a hemorragia é inevitável. Ela será estancada, mas ainda tem muito tempo para isso acontecer. Portanto, novas tecnologias devem ser incorporadas constantemente. Por isso o 3D e o Ultra High Definition precisam ser incorporados. São atrativos dos quais os brasileiros irão gostar muito.

O que a TV brasileira deve fazer para acompanhar as novas tecnologias? Esperar e não pagar o preço do pioneirismo? Ou investir já?
A Ultra High Television pode ajudar a manter o público. Qualquer novidade tecnológica é bem recebida pelo público. Quando adotá-la? Não sei. Mas pelo jeito, será no mínimo em 15 anos. Com o 3D é mais fácil. Pode ser implementada agora. A emissora que sair na frente irá gerar muita mídia para si e, como consequência, terá um bom resultado comercial.

E a SET? O que deverá fazer?
Deve estar atenta às novidades e fazer as propostas para serem adotadas. Como profissionais de TV, não podemos deixar nosso ramo cair na obsolescência. Estamos vendo o Rádio perder espaço comercial. Se não fizermos nada que atraia o público, correremos o risco de a TV perder receitas necessárias à sua existência para outras mídias que se atualizam constantemente. A SET deve ser também o “anunciador” das novas tecnologias e brigar por essas inovações. Por mais caras feias que recebamos, não podemos nos acomodar.

Individualmente, o que deve fazer cada engenheiro de televisão frente a esse quadro futuro?
Deve estar constantemente se reinventando e se atualizando com o que está acontecendo lá fora. Costumamos brincar com os engenheiros ao dizer que o que estiver mais desatualizado será o que irá trocar a “luzinha da torre da antena”.

Deter a perda gradativa de audiência passa apenas pela questão técnica da digitalização, ou também envolve outra parte tão importante quanto a da programação?
A TV aberta deve estar cada vez mais atraente para o telespectador. O conteúdo precisa melhorar, pois o produto “enlatado” e outras mídias que oferecem concorrência estarão sempre aí. O fato de o brasileiro preferir programação própria é um costume que deve ser preservado pela TV aberta por meio da melhoria de sua programação. Graças à nossa competência, a TV a cabo, que traz muito conteúdo internacional, não proliferou como em outros países.

A digitalização está andando a passos lentos ou rápidos demais?
As emissoras estão com o cronograma em dia. O público é que ainda não está bem informado. Campanhas sobre a TV digital poderiam ser utilizadas pelas emissoras para acelerar o processo. Se eu fosse motorista de taxi, já estaria com uma TV One Seg no meu carro para entretenimento do passageiro. Seria mais um diferencial. Poucos táxis hoje se utilizam disso. Mas eu me recordo que quando era criança nenhum taxi tinha ar condicionado. Hoje, todos têm. O taxista que não tiver poderá perder público. Com o passar do tempo, isso se tornará verdade também para o metrô e o sistema de ônibus.

Revista da SET – ed. 105