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Entrevista – Dante Conti

Revista da SET – ed.107

Diretor industrial da SET vê sobrevida da TV analógica além da data-limite

*Roberto Perrone

Nascido em Campinas e torcedor da Ponte Preta, até debaixo d’água, o diretor industrial da SET e diretorexecutivo da Trans-Tel, Dante Conti, não teve dificuldades para decidir seu caminho profissional. Afinal, conviveu desde sempre com uma oficina eletrônica dentro de casa. É que seu pai iniciou as atividades da Trans-Tel em março de 1969 – quando Conti tinha apenas 10 anos – nos cômodos do fundo da residência da família. “Entre outras diversões, como andar de bicicleta ou jogar botão, ficava vendo os técnicos trabalharem”, conta.

Fez o colégio técnico, na escola salesiana São José, partiu para a graduação e pósgraduação em engenharia elétrica com ênfase em telecomunicações. Primeiro no Inatel (Instituto Nacional de Telecomunicações) e depois do terceiro ano, na Unicamp. Reativou a Trans-Tel em 1995, ao deixar o CPQD Telebrás, após 11 anos de trabalho.

“A parte técnica não tinha problemas, mas precisávamos fazer a empresa ser novamente conhecida no mercado”, conta ele.

Atualmente, como diretor da SET, Conti acompanha de perto o processo de digitalização da TV brasileira, o que faz aliás, desde as primeiras discussões no final da década de 1980, pelos grupos ABERT/SET. “Não acredito que em 2016 teremos apenas a TV digital. Quem determina esse limite é o mercado”, analisa ele, lembrando que quem financia a implantação da TV digital é justamente a TV analógica. Ao falar de sua trajetória profissional e da TV digital, Dante Conti concedeu a seguinte entrevista:

Atualmente, como diretor da SET, Conti acompanha de perto o processo de digitalização da TV brasileira, o que faz aliás, desde as primeiras discussões no final da década de 1980, pelos grupos ABERT/SET. “Não acredito que em 2016 teremos apenas a TV digital. Quem determina esse limite é o mercado”, analisa ele, lembrando que quem financia a implantação da TV digital é justamente a TV analógica. Ao falar de sua trajetória profissional e da TV digital, Dante Conti concedeu a seguinte entrevista: cômodos dos fundos de nossa residência. Uma das minhas diversões, entre andar de bicicleta ou jogar botão, era ficar vendo os técnicos trabalharem. Ainda adolescente, cheguei a ter uma empresa de sonorização para festinhas, montava amplificadores, luz seqüencial, rítmica. Na época de faculdade já tinha convicção do que queria estudar.

E seu primeiro emprego?
Foi quando estava concluindo a graduação em 1983. A Unicamp tinha convênio muito forte com CPQD Telebrás. O laboratório era muito visado pela graduação e consegui fazer os dois estágios lá, com o primeiro registro em carteira. Depois fui efetivado como engenheiro.

E quando o senhor decidiu assumir a Trans-Tel?
Pedi demissão do CPQD em 1995. Participei de três projetos completos de pesquisa aplicada e de desenvolvimento, da parte industrial de transformação de protótipo em produto; normas Telebrás e normas internacionais. Meu pai trabalhava para uma grande emissora e a Trans-Tel, que era ele, na verdade estava de molho. Nessa época, ele se aposentou e desfez o vínculo com a emissora.

O Plano Real foi um estímulo?
Ajudou muito no início. Ou seja, alguns erros que cometemos não tiveram grandes conseqüências por conta do Plano Real. Reiniciei a Trans-tel onde nos encontramos hoje. De apenas um funcionário, rapidamente em 1995 já eram quatro; 1996, oito; 1997, catorze; 1998, dezesseis 16; tivemos um pico em 2002 com 35 e hoje estamos estáveis em 30 pessoas. Nossa atuação representativa no mercado foi construída nesses últimos 15 anos, diante de um cenário de muitas mudanças. O setor de Radiodifusão é restrito, comparado à Telecom.

Como o senhor vê o mercado da venda de receptores hoje e as tendências para os próximos anos?
Desde dezembro de 2007, passou a ser visível a decisão do operador do serviço de investir, mesmo sem ter um plano de negócios. E quem tem sabe que o negócio não se paga em curto prazo. A implantação da TV digital não está sendo diferente de como foi com a chegada da TV em cores ou das primeiras transmissões de FM. O operador do serviço sempre teve que sair na frente para criar o desejo. A penetração do serviço seguirá uma curva que no início é lenta, vira exponencial até chegar ao pico. Quem determina o preço dos aparelhos é o público consumidor de primeira tecnologia. Quem produz terminal de recepção não regula o preço simplesmente pela expectativa de venda. Depois de um ano e meio do início da implantação da TV digital, não são mais do que 50 emissoras hoje em dia transmitindo sinal digital. Ainda é muito pouco. Isso sem considerar a variável crise. A oferta de novos serviços além da Alta Definição, como a interatividade, com receptores integrados embutidos já definidos pelo fórum SBTVD, com certeza será um dos vetores que farão essa curva crescer. Mas os fabricantes que trabalhavam com 5% de crescimento, como nível mínimo, agora já falam em meta para esse patamar.

O que ensina a experiência norteamericana?
O mercado americano, que está em processo de implantação desde 1997, começou a desligar agora em fevereiro algumas estações analógicas. Aproximadamente 50% das estações americanas analógicas que transmitiam em simulcast já desligaram o sinal analógico. Fevereiro já foi uma primeira prorrogação, e depois que o Obama assumiu a presidência, prorrogou a data para 12 de junho. O fato é que quem sustenta o investimento em antenas, transmissores, câmeras, estúdios, switches, encoderes e tudo o mais é o canal analógico.

Há capacidade de investimento por parte das emissoras brasileiras?
Um grande componente que alavancou e continua viabilizando os investimentos das emissoras são questões que o governo sabiamente trabalhou com a desoneração fiscal de uma série de tributos, como PIS, COFINS, ICMS e impostos de importação. Isso é um componente muito forte que, se mantido, cria condições para as emissoras trabalharem em planos de investimento e acelerarem seus cronogramas de implantação. Não podemos ignorar que o grande parceiro da TV digital é o governo brasileiro, o Ministério das Comunicações e o BNDES, com linhas de financiamento. Quando, no final da década de 1980, nos grupos ABERT/SET, discutíamos as definições do padrão brasileiro, tínhamos muita convicção no seu potencial técnico. Nossa dúvida era sobre qual seria a resposta do governo, enquanto diretrizes de políticas industrial, econômica. Felizmente, todo o trabalho de milhares de mãos tem sido coroado por uma ação estratégica eficiente do governo. Não sou governista, mas tenho que aplaudir.

E como tem se dado o processo de digitalização nas emissoras?
Na grande maioria ocorre em três grandes áreas: transmissão, geração de sinal e de conteúdo – captação, câmeras e na parte de controle – e no tráfego de sinal dentro da emissora. E à medida que transmissão, recepção e captação são digitais, não faz sentido permanecer analógica. O processo de digitalização como um todo, obriga a emissora a repensar todas as suas etapas sem exceção. A grande questão é: em que momento ela vai atacar cada uma das etapas? Para transmitir digital, tem que investir no mínimo no transmissor e na antena. Depois precisa ter programas captados e produzidos em alta definição. Há as que já estão com o processo de digitalização completo e praticamente em paralelo, com toda a parte de processamento e armazenamento, controle-mestre, servidores, encoders.

E quanto aos equipamentos analógicos? Como a SET acompanha esse mercado?
Aparelhos analógicos dentro de uma emissora você não vai encontrar mais daqui para frente. Vai encontrar a maioria dos equipamentos digitais, mas não necessariamente em Alta Definição. O decreto estabelece de 2016 como o ano limite para digitalização das TVs do país inteiro. Mas o que determina este limite é o mercado. A menos que o governo brasileiro faça como o americano e subsidie a compra de set-up boxes para a população. Se olharmos a nossa realidade sócio-econômica, e tiver que ser estabelecido por decreto, grande parte da população ficará sem TV em casa. Aqui no Brasil, a sobrevivência do analógico tende a ser maior do que qualquer previsão que alguém possa fazer.

Mas o mercado de TV digital está garantido, inclusive em outros países, como os da América do Sul que já estão aderindo ao padrão brasileiro?
O padrão brasileiro se não é o melhor é um dos melhores do mundo. O Peru já aderiu, a Argentina está quase e outros países da América do Sul estão analisando e devem aderir. Esse movimento vai alavancar a indústria nacional e a perspectiva é a melhor possível, porque seremos aqui na região o principal país, com nosso sistema sendo exportado, gerando negócios. Mas claro que teremos de respeitar o timing de cada um.

Como a SET tem se posicionado nesse processo?
Nosso papel, por meio de seminários regionais e do congresso nacional, que ocorre todo o mês de agosto, é trazer e mostrar todos os desenvolvimentos do setor, nacionais e internacionais, com os profissionais das empresas e das diretorias, relatando as tendências, as diretrizes de tecnologia, que determinam produtos e arquiteturas de configuração de sistemas. Em resumo, a SET contribui com o gerente de engenharia, diretor técnico, operador técnico, engenheiro projetista, no fornecimento de um conjunto muito rico de informações para a tomada de decisões.

*editor da Revista da SET