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Entrevista Carlos Nazareth

Aos 14 anos, o carioca de Rio Bonito, Carlos Nazareth Motta Marins, desembarcou na cidade mineira de Santa Rita do Sapucaí para fazer a escola técnica em eletrônica. Já naquela época, a cidade pintava como o futuro Vale da Eletrônica brasileiro. Ao término do curso, partiu para São Paulo a fim de trabalhar na implantação de cabos óticos. Mas não ficou muito. Voltou à cidade para cursar engenharia no concorrido Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel). “É que, ao terminar o curso técnico já tinha decidido que queria ser engenheiro de telecomunicações”, recorda ele.

Ingressou na vida profissional trabalhando na Linear, com transmissores. Não demorou para dividir o trabalho nessa empresa com uma atuação no Inatel, para, mais tarde, ficar somente no instituto. Torcedor do Vasco, o atual diretor de ensino da SET caiu de amores pela vida acadêmica e, no instituto, as funções de professor se misturam com a de consultor e prestador de serviços.

Aos 38 anos, casado e pai de duas meninas, Carlos Nazareth vê, entre outras, uma missão muito importante da entidade: a de aproximar os engenheiros de radiodifusão da produção acadêmica. Tanto é que já no Congresso da SET este mês haverá um dia para a apresentação de trabalhos acadêmicos. “É importante porque, ao levar para os engenheiros de radiodifusão o que está sendo produzido em termos de inovação na academia, podemos adiantar os processos de implantação dessas inovações. Por sua vez, o pesquisador conhecendo mais profundamente a rotina dos profissionais consegue verificar de imediato suas necessidades e tem mais condições de buscar soluções”. Veja mais do pensamento de Carlos Nazareth nesta entrevista.

O senhor adotou Santa Rita do Sapucaí como sua cidade? Conte um pouco do seu trabalho. Realmente, moro há muitos anos em Santa Rita. A cidade cresceu muito nos últimos anos e se transformou. Ela tem por volta de 40 mil habitantes e mais de 130 empresas de eletroeletrônicos, de pequeno, médio e grande porte. Grande parte nasceu de ex-alunos das instituições de ensino locais. Atuo no Inatel como professor na área de engenharia e consultoria. Sou formado em engenharia elétrica com ênfase em eletrônica e telecomunicações, fiz mestrado no próprio Inatel e estou em processo de doutoramento na Unicamp.

Como avalia a missão como diretor de ensino da SET?
Temos que extrapolar um pouco, porque imagino ser a missão de qualquer diretoria de ensino da SET. Por ser uma sociedade de engenheiros na área de engenharia de televisão, uma das missões da entidade é difundir conhecimento no ramo de atuação dos engenheiros da SET, especificamente de TV, mas que envolve uma quantidade enorme de subáreas. Nos próximos anos, com essa evolução tecnológica absurda, a grande missão é atualizar todo mundo. E fazer algo um pouco mais abrangente que é a integração de todas as funcionalidades que o mundo digital nos traz. No passado, era comum o engenheiro de TV não conhecer nada de outras áreas porque o sinal de TV trafegava por uma rede específica Tínhamos um sinal apenas para radiodifusão, no máximo as redes por satélite e cabo. Hoje em dia, digitalizado o sinal de vídeo pode trafegar por diferentes redes, oferecer recepção móvel de alta qualidade, pode ser colocado na web, cabo, satélite. Vai ser cada vez mais necessário conhecer outras áreas. Esse é o grande desafio da SET na questão do ensino para os próximos anos.

Essa é uma das maiores carências de ensino nesse segmento? Quais outras carências o senhor observa com relação a esse tema?
O grande problema no Brasil é que a maioria das escolas forma engenheiro eletricista para a área industrial ou para área de informática, e os cursos de telecomunicações estão mais voltados para a área de Telecom, para as operadoras de serviços. Então, existe uma lacuna no que diz respeito ao profissional de televisão. Por esse motivo, muitos dos profissionais que hoje em dia atuam no mercado têm uma formação baseada na experiência que ele vai adquirindo ao longo dos anos de trabalho. Acredito que isso tenha que mudar daqui pra frente porque o mundo de TV está se tornando cada vez mais complexo e não dá apenas adquirir conhecimento por meio de experiência, porque o processo fica muito longo e pode ser deficiente.

Até pela tua resposta anterior, podemos dizer que essa lacuna existe porque o sinal era em uma rede única e não havia interesse em desenvolver o ensino nessa área?
Acredito que TV era apenas uma parte do processo. Atualmente o tráfego de imagens pela internet consome mais banda do que qualquer outro tipo de serviço. E tem outra questão, o mercado de TV no Brasil é diferente dos mercados nos Estados Unidos e Europa. Aqui temos uma produção muito intensa, fazemos muita coisa, mas o número de redes abertas é relativamente pequeno para um país com a nossa dimensão. Temos Globo, SBT, Record, Bandeirantes, Rede TV… São umas 15 a 20 redes de TV abertas para atender ao país como um todo. Uma grande elite de profissionais de engenharia de TV acaba se concentrando nas cabeças de rede, nas maiores cidades das regiões Sul e Sudeste e nas capitais dos outros estados. Com a digitalização do sinal e a capacidade de distribuição em outras mídias, a tendência é que os profissionais do interior do país tenham maior necessidade ainda de se capacitar e participar desse processo de migração.

Seria porque as exigências agora chegam ao mesmo tempo para todos?
Exatamente, as exigências são as mesmas e a SET tem a possibilidade muito grande de levar esse conhecimento não só para os engenheiros e as áreas tecnológicas dos grandes centros do país, mas também disponibilizar esse conhecimento para todos. Nesse aspecto, a SET está fazendo um trabalho interessante reforçando os eventos regionais.

É justamente sobre a questão regional a minha próxima pergunta. Como está se estruturando o ensino regional da SET?
Bom, temos os minicursos e estamos entrando em um novo projeto que é criar cursos por meio da internet, que são os cursos a distância. Existe a possibilidade de treinar muita gente, de levar informação a muitas pessoas com uma ferramenta de custo relativamente baixo que é a internet, com qualidade de conteúdo e possibilidade de fazer isso com uma velocidade muito maior do que os cursos presenciais. Estamos no início de uma parceria com o SENAC. Neste modelo os profissionais da área técnica podem se inscrever em um programa de EAD com tutoria e acompanhamento através de diferentes formas de avaliação. Por outro lado, estamos trabalhando em um outro projeto paralelo de ensino a distância no qual vamos ter conteúdos dentro de programas para serem seguidos, mas não vai existir a tutoria convencional. O usuário poderá responder seus questionamentos através de listas de discussões ou através de documentos com dúvidas mais freqüentes. Com este programa o associado da SET poderá ter acesso a um conteúdo pedagogicamente planejado sem custo. Atualmente já existe muita informação disponibilizada no site da SET. Estas informações são contribuições valiosas dadas por profissionais de alto nível, mas que não foram desenvolvidas para proporcionar um aprendizado passo a passo, para outros profissionais que ainda não tiveram contato com os assuntos. A proposta então é que nos próximos anos possamos oferecer tudo isso de maneira pedagógica. Para que realmente aconteça a disseminação desse conteúdo e um acesso de forma produtiva.

Como está a participação da academia na SET?
Esse ano, a SET lançou a parte acadêmica do Congresso por meio do site e recebeu várias contribuições, que foram julgadas por uma comissão da entidade. O resultado foi a escolha de vários trabalhos para serem expostos no evento. Isso acontece na sexta-feira, último dia do congresso. Nos últimos anos, percebemos um movimento muito interessante. Com a mudança da TV analógica para a TV digital, a SET acabou se aproximando de algumas instituições de ciência, tecnologia, pesquisa e desenvolvimento. A intenção é estimular os engenheiros de radiodifusão, que trabalham no dia-a-dia das TVs, das produtoras, a ter contato direto com a produção acadêmica. Essa interação não se deu de forma plena ainda. Mas não é um processo tão simples, porque quem está no dia-a-dia da TV não tem tempo de fazer pesquisa. E quem faz pesquisa está vendo as coisas na fronteira, estudando temas totalmente novos, ou procurando novidades.

E essa aproximação é fundamental…
Sim. É importante porque, ao levar para os engenheiros de radiodifusão o que está sendo produzido em termos de inovação na academia, podemos adiantar os processos de implantação dessas inovações. Por sua vez, o pesquisador conhecendo mais profundamente a rotina desses profissionais, consegue verifi- car de imediato suas necessidades e tem mais condições de buscar soluções. Para intensificar esse processo, a SET criou um espaço para a apresentação desses trabalhos no Congresso.

E quanto aos cursos presenciais, quais as novidades?
Para os cursos presenciais, a SET foi buscar parceiros, sendo que o primeiro foi o próprio Inatel. O instituto participa nos eventos regionais levando minicursos de engenharia de telecomunicações. São cursos que contribuem para o processo de migração da TV analógica para a TV digital. Além disso, há uma parceria para que aconteça na sede da SET, em São Paulo, um curso de pós-graduação em TV digital. Já foi assinado o acordo e a SET está preparando as instalações para que ele aconteça já neste semestre (veja nota no Inside SET). SET e Inatel foram bastante ativos, porque a primeira pós-graduação de TV digital no Brasil foi lançada pelo Inatel em parceria com a SET há alguns anos. Foi realizado em um hotel em São Paulo porque na época a SET não tinha a sede paulista. Além da parceria na pós graduação o Inatel e a SET estão trabalhando para oferecer um programa de cursos abertos em diferentes áreas de telecomunicações para os associados da SET.

*Roberto é editor da Revista da SET

Revista da SET – ed.108