• PT
  • EN
  • ES

Entrevista – Carlos Capellão

ENTREVISTA
“HÁ UM CRESCENTE DISTANCIAMENTO TECNOLÓGICO DO BRASIL EM RELAÇÃO AOS PAÍSES DESENVOLVIDOS”
Entrevista: Carlos Capellão

O carioca Carlos Capellão, 55 anos de idade, é diretor de indústria da SET e ex-presidente e diretor técnico da entidade. Todos os cargos foram prazerosos, mas o melhor, para ele, foi o de diretor técnico. Por falar em prazer, viajar lhe dá muita alegria. O mar também. Dono de um barco a motor, mantém a esperança de se tornar amigo de alguém que tenha um belo veleiro e assim poder velejar um pouco sem ter a trabalheira que estas embarcações exigem… “Nos fins de semana o meu encanto está na mistura do verde e do mar de Angra dos Reis. Não há nada melhor que um dia numa ilha da Baía de Angra”, declara. Exceto, talvez, a eletrônica. O gosto por ela foi inoculada nas veias de Capellão na adolescência. Bits, bytes e pixels são o seu mundo. Antes mesmo da universidade ele fez, no final dos anos 60 do século passado, cursos técnicos de eletrônica por correspondência. Graduado pela UFRJ em 1974, cursou pós-graduação pela COPPE-UFRJ e tem um MBA pela FGV. Já em 1980, Capellão fundou a Phase Engenharia, do Rio de Janeiro. “A Phase iniciou suas atividades fabricando equipamentos de áudio e vídeo de minha lavra e desenvolvidos com limitados recursos, mas com uma grande aceitação no mercado. Os módulos com o logo da Phase estão em emissoras de todo o Brasil”, diz, orgulhoso da cria. Não é para menos: apartir de 1990 a Phase passou a representar com exclusividade no Brasil a Ikegami e posteriormente outros fabricantes de equipamentos de televisão. Por isso, hoje em dia a empresa tem uma participação de mercado bastante considerável no fornecimento de sistemas profissionais de TV. Para falar sobre a sua “pasta” na SET – o principal ponto é a questão da formação dos engenheiros – e seu papel na fundação e consolidação da entidade, Capellão concedeu a seguinte entrevista:

O senhor está no setor de televisão e na SET desde que ano?
Desde 1973. Trabalhei na TV Globo, na TVE, no SBT, na Radiobrás e na Embratel. No SBT e na Radiobrás ocupei cargos de direção tanto na área de engenharia como empresarial. Sou sócio fundador da SET. Sempre procurei atuar efetivamente na sociedade, o que tem me dado muito prazer. A SET, para além do lado profissional, é um ponto de encontro de colegas e de estabelecimento de networking.

Quais foram os papéis que o senhor já representou na SET?
O Adilson Malta, primeiro presidente da sociedade, me incumbiu de organizar os nossos congressos. Naquela época, a SET era desconhecida e muitos engenheiros não tinham o prazeroso costume de participar de associações profissionais e congressos. Com o Jayme de Barros eu desenvolvi um trabalho duro de convencimento de profissionais e empresas a fim de que apresentassem seus trabalhos e participassem da sociedade. Posteriormente, a convite do Fernando Bittencourt, então presidente da SET e do grupo SET/Abert de TV Digital, participei dos estudos para a escolha do sistema de TV Digital Brasileiro. Dá-me muito orgulho ver as cristalinas transmissões de HDTV e os pequenos receptores móveis de TV Digital. O país deu um raro exemplo de boa estratégia e capacidade de decisão com base técnica.

Como o senhor analisa o atual estágio da indústria brasileira de equipamentos para televisão? Ela é competitiva?
A indústria eletrônica brasileira tem bastante capacidade. Nos produtos profissionais temos transmissores digitais, multiplexadores e moduladores digitais. São produtos muito complexos e avançados, que mostram a capacidade técnica e empresarial destas indústrias.

E as de consumo?
Vê-se nas lojas uma grande oferta de TVs digitais de altíssima qualidade e sofisticação. Há ainda o desafio de trazer estes produtos a preços mais acessíveis a todas as classes, proporcionando a sua maciça adoção. Isso vai se dar com o tempo. O problema é a enorme desnacionalização da produção. As telas planas acarretaram uma mudança drástica no processo produtivo. Os painéis de LCD e plasma representam um percentual elevadíssimo do custo dos televisores, deixando a agregação nacional de valor reduzida a parcelas insignificantes.

Quais medidas o senhor proporia para termos aqui a produção de telas planas e de plasma e LCD? Que vantagens deveriam ser ofertadas às empresas fabricantes desses receptores?
Plantas como as das coreanas LG e Samsung exigem investimentos de altíssimo valor e um volume de produção mundial. Caso contrário elas não se viabilizam. Portanto, elas só seriam instaladas aqui se houvesse uma grande vantagem competitiva. Contudo, o Brasil é um país difícil, com onerosas e travadas legislações, especialmente a aduaneira. Para piorar, há também a questão da formação de engenheiros. Parece-me que os cursos de excelência de engenharia não tiveram o esperado crescimento; em alguns casos, hoje forma-se menos engenheiros que anos atrás. Creio ainda que a capacidade de atuar em projetos, no desenvolvimento de produtos e tecnologias, ficou prejudicada. Estamos muito voltados à formação de profissionais de aplicação. Especialmente no caso da Engenharia Eletrônica há falta de oportunidades na indústria e conseqüentemente de profissionais qualificados.

A que se deve isso? E no que isso vai resultar? Que obstáculos o senhor vê para o desenvolvimento da indústria de eletrônica do país?
Ao fato de termos ido, nos anos 1990, do extremo de querer fabricar tudo ao oposto de passar a importar tudo, ambos desastrosos: a indústria foi reduzida a um volume irrelevante. Assim, os engenheiros se viram sem demanda para sua atividade principal, a indústria. Por estar mais protegida de soluções prontas sobreviveu a Engenharia de Aplicação, que envolve o projeto de sistemas, sua integração, implantação, operação e manutenção. Mas, mesmo nesta atividade, há carência de profissionais quali- ficados. Então, não podia dar outra coisa senão o crescente distanciamento tecnológico do Brasil em relação aos países desenvolvidos. Hoje em dia há uma distância abissal a nos separar da indústria eletrônica de ponta. Isto fica muito claro sempre quando visito as fábricas das companhias representadas pela Phase. Em cada uma delas há centenas de engenheiros desenvolvendo tecnologias e produtos. É gente treinada e altamente capacitada numa série de funções. O desafio que os centros de tecnologia das nossas universidades têm de enfrentar é grande. Contudo, com o mercado em situação de demanda, a procura pelos cursos de engenharia deve aumentar significativamente, nos fazendo crer que as universidades investirão mais nestes cursos.

Apesar da capacitação existente, a indústria de produtos para televisão parece ser ainda muito dependente do Governo. Na exportação ela está na dependência de esforços e pressões diplomáticas, na América Latina.A indústria não deveria ousar mais e deixar de esperar pela ajuda do Governo?
A balança comercial da indústria é fortemente deficitária porque quase todos os insumos são importados. Não há, no Brasil, fábrica de semicondutores e mesmo os componentes de menor nível de tecnologia, como os passivos, sofreram uma enorme desnacionalização de produção desde o início da década de 90. Exportar à América Latina em grandes volumes significa competir com a indústria asiática, o que não é fácil. O esforço diplomático com os países sul-americanos é para a adoção do ISDB-T. Se bem sucedido ele trará alguma vantagem competitiva à nossa indústria. A maior seria o aumento de demanda por produtos e componentes semicondutores do padrão ISDB-T, com o conseqüente incremento na economia de escala e redução de preços.

O que o senhor espera deste Congresso e da feira da SET?
A SET-2008 vai mostrar os grandes avanços produzidos no broadcast brasileiro, em especial em relação à implantação de TV Digital e à produção de conteúdo em HDTV. O incremento de negócios foi muito grande, há em andamento um número recorde de projetos de ampliação e implantação de novos sistemas. O nosso Congresso tem ao longo dos anos se aperfeiçoado e enriquecido e este ano não será exceção; vejo um programa muito interessante e atraente. Todos os profissionais deste nosso setor vão gostar. Para a nova diretoria da SET há uma excelente oportunidade de renovação e de integrar mais fortemente à sociedade profissionais que despontaram nos estudos de TV Digital.

Quais são os seus planos para o futuro?
No Conselho de ex-presidentes espero poder continuar colaborando com a SET. Especialmente procurando voltar o foco das nossas atividades para a valorização dos profissionais de Engenharia. Afinal, este é o motivo da criação e a razão fundamental de existência da Sociedade.