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Digitalização à moda dos pampas

O Morro da Polícia, em Porto Alegre, por ser o mais alto ponto aproveitável para telecomunicações, concentra quase a totalidade das antenas das emissoras de rádio e televisão da cidade. As torres da RBS TV – afiliada da Rede Globo – localizadas neste morro, receberam recentemente novas antenas para as operações analógica e digital da emissora, cuja estréia se deu em 4 de novembro. A antena digital é de painéis e tem 10 faces. A analógica é de polarização circular. Ambas são de fabricação da RFS.

Parece estranho investir numa antena analógica quando o sistema tem data de morte anunciada. Mais estranho ainda porque a RBS TV comprou, além de dois transmissores digitais Nec, de 4 kW, um novo transmissor analógico, da Harris, de 30 kW, 5 kW mais potente do que o antigo.

Fernando Ferreira, diretor de engenharia da RBS TV, desfaz a estranheza: “a RBS não teve que comprar uma nova antena; ela quis comprar”. A RBS TV, ciente que o sistema analógico terá sobrevida mínima de oito anos, deseja, neste período, entregar o melhor sinal. “A nossa filoso- fia é facilitar ao máximo a recepção do sinal para as pessoas. Elas devem perceber o ganho de qualidade. É isso que nos diferencia”, afirma Ferreira.

O transmissor analógico tem 21 anos e funciona perfeitamente. “Mas a falta de peças de reposição faz dele um risco inaceitável”, afirma Ferreira. Por isso, já que se deveria trocar o transmissor analógico, trocou-se também a antena.

Em ambas as torres há espaço para todas as antenas de TV e rádios – o grupo RBS tem quatro emissoras de FM instaladas no mesmo local e três de AM em Porto Alegre -, incluindo a do novo canal digital das FMs. “Com duas torres focamos a redundância dos sistemas. Colocamos as antenas principais na torre maior, de 105 metros, e as reservas na segunda torre, de 91 metros. O sistema é robusto, é confiável e visa não deixar nada fora de operação”, diz Ferreira.

Investimentos
O sítio de transmissão é diferenciado mesmo e, por isso, custou caro. O investimento total feito pela RBS TV em Porto Alegre foi de 14 milhões de reais, compreendendo transmissão e estúdio. (Ele veio acompanhado de outro, de nove milhões de reais, em Florianópolis, onde a RBS TV é igualmente afiliada à Rede Globo. Ali, o sinal digital deveria ter estreado em 25 de novembro. Ficou para janeiro em virtude da tragédia que se abateu sobre Santa Catarina).

Nesse valor está incluída a construção de um novo prédio de transmissão e um novo sistema de refrigeração – mais eficiente por insuflar o ar de baixo para cima, o que economiza energia.

“Temos dois grupos geradores e um conjunto de nobreaks. Foi refeita a subestação de energia. Se esta faltar, eles cobrem as necessidades da TV analógica e da digital e de todas as emissoras de rádio ao mesmo tempo”, garante Ferreira. “Eu penso que uma emissora de TV após iniciar sua operação não mais pode interromper. É o mesmo cuidado que se tem em uma sala de cirurgia”.

Por isso também, o tráfego dos sinais entre os estúdios e o local da transmissão, além da redundância com fibra óptica e rádio enlace, agora é monitorado, por telemetria, o tempo todo.

Padrão
A RBS TV começou a executar o plano de digitalização três anos atrás. Primeiro cuidou-se da infra-estrutura necessária nos estúdios, que foi readequada. As redes elétrica e de refrigeração foram refeitas. De maneira geral, a empresa seguiu as recomendações da Globo na concepção dos projetos.

Nos estúdios, três blocos de racks contêm os equipamentos da nova TV, como os encoders e os multiplexadores, todos da NEC. Já o controle mestre é o Maestro, da Thomson. A parte do comando, de automação e os multiviews são da Harris. “Não antecipamos investimentos para produzir em HD. Necessitávamos substituir as câmeras de estúdio e seria lógico substituir por câmeras HD”, diz Ferreira.

A emissora comprou três câmeras de estúdio da Thomson – ela vai gerar programação própria em HD em 2009 -, mas não pensa, por enquanto, em adquirir câmeras HD para cobrir jogos de futebol. As câmeras de jornalismo são da Sony. Da mesma empresa foi comprado ainda equipamento de captação, o XDcam HD, visando compatibilizar todas as imagens no formato 16×9.

“Escolhemos soluções de fabricantes conceituados e equipamentos com alta confiabilidade e qualidade e que atendam todos os parâmetros do padrão brasileiro”, explica Ferreira. Ele recomenda cuidado nesses itens às geradoras que ainda não digitalizaram o sinal.

Automação
De acordo com Cauê Franzon, engenheiro da área de estúdios da RBS TV, “os sistemas de exibição e comercialização do controle mestre foram automatizados”. O sistema gera uma lista com todos os comerciais que são veiculados, permite acessos online e pode gerar diferentes tipos de relatórios. Outra adequação se deu na capacidade de transporte do sinal HD dentro do estúdio, de 3 Gbps (1080p).

Tanto em Porto Alegre quanto em Florianópolis, a RBS TV já possuía uma infraestrutura de estúdio, que possibilitava o tráfego e processamento de sinal digital em SD. “Para o HD incorporamos alguns equipamentos como roteador/multiview, controle mestre, vídeo servidores, processadores e monitoração técnica operacional”, conta Ferreira.

Mais uma adequação: um switcher de produção digital que funciona hoje como reserva da RBS TV, da TVCom e do Canal Rural, foi comprado, em 2006, pensando no sistema HD. Hoje esse equipamento controla o estúdio de cenário virtual e grafismo para previsão do tempo e ainda serve aos jogos e eventos. “Já adquirimos a parte necessária ao upgrade”, informa Ferreira.

Operação
O projeto, além de atender às necessidades atuais, se antecipou, no que é possível, ao futuro. A infra-estrutura está preparada para operar com 16 canais de áudio – no momento o áudio da Rede Globo é gerado em oito canais.

Nas duas capitais, o controle mestre do HD foi instalado no mesmo ambiente do SD. Foram adotados ambientes separados no controle mestre. Num está o conteúdo HD e SD e noutro o móvel (one seg). “No futuro poderemos operar de forma diferenciada o sinal HD e o sinal do one seg”, diz Ferreira. “Acredito que futuramente poderemos ter conteúdo e comerciais diferentes nesse segmento. Então já preparamos a infra-estrutura para quando isso for possível”.

O projeto de Florianópolis difere do de Porto Alegre porque o estúdio está fi- sicamente no mesmo local do site de transmissão. Com isso, não necessita de equipamentos para enviar sinais do estúdio ao transmissor.

Em Porto Alegre, o ponto crítico foi adaptar e ampliar a infra-estrutura existente às necessidades demandadas pelos novos equipamentos. Atender a cobertura da cidade de Florianópolis, dona de uma topografia muito acidentada e, por isso, difícil de ser coberta, é o desafio em Santa Catarina, onde os equipamentos são os mesmos de Porto Alegre, mas com dimensões adequadas à localidade.

Medições
Na capital dos barrigas-verdes, a exemplo de Porto Alegre, a medição dos sinais e a delimitação das áreas de sombra serão feitas ao longo do ano que vem. “Eu acho que isso deve ser feito paulatinamente”, justifica Ferreira, escorado na experiência de terceiros.

Passado esse período, o diretor de tecnologia da RBS TV cuidará de assuntos correlatos. O que fazer, por exemplo, do acervo? “Isso deverá ser pensado para os próximos anos”, diz Ferreira. “Esse é um processo gradual e vai andar conforme a demanda. Nossa expectativa é que, com esta migração, associada a ferramentas de busca inteligente por conteúdo, os processos relativos ao arquivo terão um desempenho superior ao atual modelo”.

Outro assunto é o processo de expansão da digitalização rumo às geradoras do interior gaúcho e catarinense, a ser tocado com um olho no prazo fixado pelo Governo e outro nos critérios de investimentos fixados pelo Grupo RBS, sempre em sintonia com a Rede Globo. Nos dois estados, as geradoras mais importantes serão digitalizadas primeiro.

Outro procedimento é adotar soluções adequadas para cada localidade. “Não sabemos o valor dos investimentos necessários à digitalização de todas as geradoras”, confessa Ferreira. “Evidentemente, no interior não teremos equipamentos com as mesmas características das duas capitais. São mercados distintos e é a eles que os equipamentos devem ser adequados”.

Produzir em HD vai depender muito do momento do investimento. Com o mundo caminhando rumo à recessão, o grupo RBS não os antecipará a fim de produzir em HD. “Faremos quando da necessidade de reposição dos equipamentos”, enfatiza Ferreira. Mas, para a RBS TV uma coisa é certa: só haverá TV Digital nas suas 16 geradoras do interior quando a indústria nacional, que na opinião de Ferreira “está avançando de forma expressiva”, tiver equipamentos compatíveis a preços acessíveis.

Microondas
Com a digitalização, a RBS TV, mais adiante, terá de ir readequando suas próprias rotas de microondas digitais e, assim, dar suporte ao jornalismo em HD, ao tráfego de sinais de maneira geral e também aos aspectos mais ligados à administração. Elas vão facilitar também a adoção de novos sistemas de gerenciamento que poderão ser adotados de acordo com as necessidades da rede, como o remote casting.

Essas rotas são um dos alicerces nos quais o grupo escorou seu crescimento, pois interligam todas as geradoras a Porto Alegre, fazem o mesmo com as emissoras de Santa Catarina e chegam até São Paulo, onde existe um estúdio do Canal Rural e outros departamentos (veja o mapa das emissoras e da rede acima).

Foram essas rotas que viabilizaram a contribuição diária de conteúdos de cada região aos telejornais produzidos nas duas capitais – a RBS TV foi a primeira afiliada da Globo a ter este sistema – e também a contribuição com matérias para o jornalismo da Rede Globo.

Se esse material trafegasse via satélite, custaria uma fortuna, pois, diariamente, além da distribuição de Porto Alegre e de Florianópolis para as geradoras do interior, a rede de microondas efetua no sentido contrário a contribuição dessas emissoras, com matérias locais, dirigidas às mesmas capitais. As emissoras do interior também podem trocar materiais entre si sem intervenção das capitais.

Além dos sinais de vídeo e áudio, as rotas de microondas ainda trafegam dados, a intranet, serviços online do grupo RBS e de telefonia interna. No serviço de televisão, o sinal de vídeo e áudio é distribuído em canais de 34 Mbps das capitais para as emissoras do interior. “Dispomos também de oito salas de videoconferência que se utilizam das facilidades desta rede”, conta Ferreira.

Graças a essa mesma rede, as Operações Comerciais (Opec) acompanham todo o processo de exibição de comerciais no interior. “Dentro das Opecs de Porto Alegre e Florianópolis há uma central técnica. Por isso temos, o tempo todo, o sinal de todas as geradoras da rede do interior dos dois estados“, diz Ferreira.

É a rota de microondas que permite também o gerenciamento e o controle, via telemetria, de qualquer ponto remoto da rede a partir de Porto Alegre e Florianópolis. Com a telemetria se consegue monitorar, dentre outros, a temperatura ambiente nos sites de transmissão, qual placa tem que ser substituída e, assim, tomar as providências que se fizerem necessárias. “Não fosse isso seria impossível, pois teríamos de ter um técnico em cada lugar”, diz Ferreira.

Equipe
Ainda mais com a equipe enxuta de que dispõe o diretor de engenharia, há 32 anos no grupo, onde entrou como estagiário. Atualmente ele comanda 77 pessoas no Rio Grande do Sul e 36 em Santa Catarina.

Parece pouco, pois a RBS TV tem um total de 18 geradoras nos dois estados (12 no Rio Grande do Sul, com 319 retransmissoras, e seis em Santa Catarina, com 238 retransmissoras; o sinal está presente em quase todos os 496 municípios gaúchos e 293 catarinenses), além do Canal Rural, transmitido via satélite e da TVCom, em UHF.

Mais dia, menos dia, todos terão o sinal digitalizado, mas Ferreira diz que não deve contratar ninguém a mais. “Quando necessário, deslocaremos o pessoal de Florianópolis e Porto Alegre para ajudar na montagem dos equipamentos e no que mais for preciso“.

Revista da SET – ed.104