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CONJUTURA TECNOLÓGICA MOVIMENTA O SETOR DA RADIODIFUSÃO

CENÁRIO DA RADIODIFUSÃO

As mudanças na área de televisão são muitas e o impacto dessas mudanças se dá na forma de criar, produzir, transmitir e assistir TV. A convergência trouxe uma nova forma de produção. Agora, o desenvolvimento é para múltiplas plataformas televisivas. Segundo Salustiano Fagundes, diretor da HXD, o mercado de radiodifusão tem um grande desafio pela frente. Para ele a televisão é uma indústria em ruptura. “Cada vez mais vemos que a experiência televisiva não vai acontecer apenas nos aparelhos de TVs, mas em vários dispositivos tecnológicos e muitas vezes de forma simultânea, como nos casos em que se usam aplicativos de segunda tela”.

Para Fagundes, a televisão como conhecemos hoje não irá desaparecer, assim como o rádio não desapareceu. Mas a audiência, tal como a conhecemos, certamente, irá desaparecer. Entender que essa transição já começou e se preparar adequadamente para se posicionar frente às mesmas são ações imprescindíveis para as empresas que querem permanecer líderes nesse mercado.

De acordo com o superintendente de comunicação de massa da Anatel, Marconi Thomaz de Souza Maya, o balanço mais recente apresentado pela Anatel da cobertura da implantação da TV digital no Brasil mostra que estão em operação 107 emissoras de TV digital, 46 municípios com TV digital, 480 municípios cobertos por pelo menos um canal digital, a população coberta totaliza 87.712.775, que corresponde a 45,99%, e o número de domicílios atendidos é de 30.758.712 equivalente a 45,53%.

O principal benefício da adoção do ISDB-T foi a inserção das emissoras no contexto da revolução digital. Porém, apesar dos avanços no cronograma de digitalização das emissoras nos últimos quatro anos, Fagundes não acredita no cumprimento da meta estabelecida para o switch off, em 2016. “Basta analisarmos o que aconteceu no cronograma de outros países que não tinham as dimensões e os desafios continentais do Brasil. Mais de 80% da população dependem do sinal analógico, pois ainda possuem TV de tubo. Mesmo com o crescimento da economia, a renovação dos aparelhos de TVs está sendo feita de forma gradual”.

Os investimentos das emissoras necessários nesse processo precisam ser considerados e a esperança é que o governo desenvolva programas de incentivos para acelerar esse processo, pois quaisquer que sejam as ações adicionais criadas para apoiar o cumprimento do switch off são importantes. Crescente em todo mundo, o movimento do mercado de TV conectada precisa ser observado de perto. No Brasil, em 2011, ele representou 24% das vendas de TV de tela plana e para esse ano a previsão é que chegue a cerca de 40% da produção. Isso representaria um parque instalado de aproximadamente 6 milhões de TVs conectáveis no país em 2012. Segundo Salustiano, trata-se de um número bastante expressivo e é natural que as marcas e as próprias empresas de radiodifusão comecem a enxergar essa tecnologia como mais um canal para entrega de conteúdos.

Para Raimundo Lima, diretor técnico e operações do SBT, “o mercado na verdade sempre vem de encontro com as necessidades da radiodifusão. A demanda pela tecnologia é muito mapeada pela vontade do telespectador. Quando nós temos um olhar internamente da melhoria da nossa produtividade interna, temos uma consideração diferenciada do mercado. Às vezes o próprio fabricante acaba moldando o produto para atender a demanda. Cada vez temos menos fabricantes oferecendo sistemas fechados. As empresas começaram a perceber que o sistema aberto é mais eficaz para implantação. Atualmente, há uma mudança neste mercado, porque os sistemas que não conversam com o parque que a emissora tem ou não permitem se agregar a outros dispositivos estão se tornando inviáveis”.

A ruptura, citada por Salustiano Fagundes, é uma preocupação mundial. Os radiodifusores passam pelas mesmas inquietações em todos os cantos do planeta. E a grande preocupação deles é com o caminho que a TV aberta vai seguir, caso o setor não se una.

O movimento FoBTV demonstra essa preocupação e a vontade de muitos em mudar esse rumo para unificar mundialmente o setor da radiodifusão. Em novembro a presidente da SET Liliana Nakonechnyj participou do encontro realizado em Xangai. Representante do Brasil no evento, ela e os demais participantes saíram de lá com a missão de levar para seus países uma mensagem de otimismo e apresentar a iniciativa, que apesar de sonhadora, é essencial, pois leva em consideração a próxima geração mundial de televisão. Seu idealizador é o presidente do comitê ATSC, Mark Richer e está à frente do sistema americano de TV digital.

Mensagem FoBTV “Hoje os radiodifusores têm muitos desafios. Todos sabem que o espectro está sendo muito disputado no mundo inteiro, o tipo de mídia está mudando de forma muito drástica, pois além da TV em tempo real, existe a questão de ver o conteúdo gravado no momento determinado pelo telespectador, e as múltiplas telas. Esse é um movimento mundial, e é verdade que o radiodifusores do mundo inteiro têm um expertise muito grande de prover conteúdo de alta qualidade que interessa a muitas pessoas.

Diante dessas circunstâncias nós percebemos a necessidade de uma nova geração de TV radiodifusora que venha atender aos anseios da população. Sabemos que os sistemas existentes na televisão foram feitos para atender hábitos existentes e é preciso atualizá-los.

A proposta do comitê é definir uma nova geração de sistema que possa juntar todas as emissoras e iniciativas de televisão do mundo inteiro, juntando novas tecnologias que possam estar preparadas para a evolução dos hábitos de consumo. O sistema precisa ser: Wireless e suportar os dispositivos móveis em muitos lugares já é assim, mas em outros ainda não nos Estados Unidos, por exemplo, a geração atual foi prevista para fixo e a mobilidade foi integrada de uma forma muito rudimentar; Ser escalável, ou seja, para todas as pessoas; Ter características locais uma das grandes vantagens do radiodifusor é fazer produtos locais ; Ser real time e também possibilitar ver o conteúdo passado gratuitamente.

Um dos pontos da próxima geração que precisa ser pensado é o dispositivo em movimento. O grande objetivo é ter disponível, no dispositivo tablet, por exemplo, a televisão local do país onde estiver além da banda larga. Para que isso aconteça a nova geração tem que ser algo configurável, adaptável e escalável, até mesmo em função da canalização, que é diferente em cada país. Isto é, ela precisa ser eficiente em termos de espectro e interoperável com produto de broadband para poder juntar esses dois mundos.

O objetivo é difícil, mas é algo imprescindível para que os radiodifusores sobrevivam às tsunamis que há décadas estão acontecendo. No Brasil a realidade é um pouco mais confortável em função da importância da TV aberta, muito maior do que em outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, a TV aberta era super valorizada, hoje é perceptível a difícil situação dela. As existem e são diferentes em cada país.

Além dos dispositivos móveis, estão sendo consideradas outras tecnologias. Com o aumento das telas, que estão cada vez maiores, é necessário tecnologias para melhorar a qualidade de imagem. No nosso sistema o problema é a definição do one seg que é muito pequena. As telas pessoais aumentaram, porém não há qualidade suficiente on the movie. Talvez seja esse o maior desafio nos próximos anos”, finaliza a mensagem, a presidente Liliana.

A pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que as TVs aberta e por assinatura estão no mesmo patamar de receitas. Considerando as atividades de distribuição, programação e produção, as receitas da cadeia do audiovisual da TV por assinatura, de 2007 para 2009, tiveram um crescimento de 49%. Em 2009 as receitas totalizaram R$ 14,6 bilhões. No mesmo ano, as receitas das atividades de televisão aberta foram de R$ 15,7 bilhões, com crescimento de 23,4% em relação a 2007. Os números mostram que em dimensão de receitas, a TV por assinatura já faz frente à TV aberta.

Interatividade
Para incentivar a interatividade e impulsionar produtos destinados ao Ginga, o governo optou pela obrigatoriedade do middleware embutido em 75% dos televisores nacionais até o final de 2013 pelo Processo Produtivo Básico (PPB). Em 2014 esse percentual deve subir para 90%. De acordo com o diretor de interatividade da SET, David Britto, é a primeira vez no Brasil que um produto de eletrônica de consumo passou a ter uma obrigação de software. Embora a obrigação esteja valendo para 2013, a repercussão dessa medida do governo já começa em 2012, pois o processo da produção já começou.

Existe uma perspectiva de mercado, não oficial, de que atualmente existem dois milhões de televisores com Ginga no Brasil. Com o PPB a expectativa é que esse número, até o final de 2012, passe a ser de cinco milhões e até o final de 2013 chegue a 13 milhões. David chama atenção para o impacto que essa medida terá, pois o setor terá efetivamente oferta de produtos e volume. Com isso os radiodifusores precisam vislumbrar como irão trabalhar esse mercado promissor.

Para Raymundo Barros, diretor de tecnologia da SET, “existe a questão do perfil A e perfil B. Há anos estamos desenvolvendo experiências no perfil que está disponível, que é muito básico. Tendo em vista a era do tablet, over de top, smartphone, o que temos para trabalhar é ultrapassado e não será atrativo. Assim como os fabricantes tem a obrigatoriedade de embutir o Ginga, nós tínhamos a obrigação de conseguir construir um acordo entre radiodifusores para que possamos ter, se não em 2013, mas em 2014, uma ponte entre os mundos broadband e broadcast, para termos acesso a dispositivos externos. Se não fizermos isso, não teremos sucesso na questão interatividade”.

Na concepção de Salustiano, a interatividade é uma premissa básica para manter as novas audiências, mas só terá um efeito positivo se o conteúdo onde ela estiver inserida for atrativo. Também é preciso estar atento que as redes sociais estão cada vez mais presentes na experiência televisiva. Isso se deve ao fato de que as audiências não querem apenas interagir, mas também participar opinando sobre os conteúdos assistidos.

Do ponto de visto de radiodifusor, Raimundo Lima do SBT, levanta uma problemática na produção de conteúdo de interatividade. “A exemplo da TV conectada, existe a necessidade de fazer um aplicativo para cada marca de televisor. Porque não há padronização na linguagem. Com a digitalização da TV no Brasil, havia a sensação de que o Ginga seria a padronização da interatividade, mas não, cada fabricante adotou o seu padrão. Com isso para fazermos essas parcerias, os radiodifusores fazem um retrabalho de tempo e dinheiro”.

As empresas HXD e a TOTVS/TQTVD estão investindo para criar produtos que atendam o setor. De acordo com Salustiano, a empresa HXD começou a se preparar para trabalhar com o ambiente de convergência e interatividade na TV no início de 2006. Em 2007, a empresa fez o primeiro case comercial para o Ginga na TV Brasileira: o Habita TV. Nos anos seguintes foram trabalhados aplicativos para, entre outras emissoras, TV Bandeirantes, TV Globo, TV Integração, além de projetos para educação e entretenimento infantis e governo.

Em 2011 a HXD ganhou o Prêmio SET na categoria de Melhor Aplicativo de Interatividade com uma solução feita para a área de jornalismo da TV Integração.

A TOTVS/TQTVD disponibilizou sua ferramenta AstroBox, incluindo a JVM da Oracle, de forma gratuita para prover um ambiente de desenvolvimento completo de aplicações Ginga no intuito de incentivar a formação de desenvolvedores de aplicações e até mesmo a criação de laboratórios de interatividade dentro dos radiodifusores. Acreditando na capacidade do middleware brasileiro, a empresa investiu na construção de sua suíte de testes Ginga e a licenciou de forma gratuita ao Fórum SBTVD. Este por sua vez trabalha junto com os radiodifusores e fabricantes para publicar no segundo semestre a suíte de testes Ginga oficial do SBTVD. Outro ponto de investimento é na nova geração de interatividade envolvendo o produto Sticker Center (totalmente compliant com o novo padrão IBB – Integrated Broadcast and Broadband do ITU-T). O produto terá no futuro suporte à interatividade na segunda tela usando tablets e smartphones.

Para o diretor da TOTVS/TQTVD, David Britto, esse é o momento para começar a trabalhar as massas. O número de televisores e fabricantes que incluem o Ginga (NCL+Java) vem aumentando significativamente, este é o momento exato para que todos os radiodifusores e suas redes afiliadas comecem um plano de divulgação dos cenários e potenciais usos da interatividade. “Todas as áreas internas dos radiodifusores precisam olhar detidamente a interatividade como uma oportunidade para que os produtos dos anunciantes atinjam seus consumidores, inclusive com o potencial do uso na segunda tela, fazendo o consumo da interatividade uma experiência mais simples e direta, personalizada e integrada com o conteúdo. Acreditamos no enorme potencial midiático e de convergência que o uso da interatividade representa para os radiodifusores”.

Atualmente tecnologias de interatividade estão sendo exploradas por empresas como a Google, os fabricantes de TVs conectadas e logo terá a Apple. Atualmente existem mais televisores com Ginga no mercado do Brasil do que com o Google TV nos Estados Unidos. “Está na hora dos radiodifusores incentivarem, divulgarem e usarem a única tecnologia que coloca o controle da interatividade exatamente nas mãos deles próprios, sem depender de terceiros ou de plataformas proprietárias. A escolha de como construir seu negócios em torno da interatividade e da convergência é só do radiodifusor”, alerta Britto.

Capacitação Profissional
Tendo em vista o caminho que segue a radiodifusão nacional com a transmissão digital, TV mobile, interatividade, 3D, TV conectada, a criação e readaptações de novos cursos de capacitação e especialização são fundamentais para que os radiodifusores consigam adequar as tecnologias existentes aos novos padrões, porém esta área está presa ao sistema analógico. Segundo Valdecir Becker, diretor e coordenador pedagógico da entidade Cinemática Educacional, “a maioria dos cursos oferecidos atualmente ainda prepara o aluno para a TV analógica, unidirecional e desconectada. Poucas universidades conseguem acompanhar a velocidade das mudanças tecnológicas e inserir os novos conhecimentos necessários para dominar a produção de novos e modernos conteúdos”.

Há uma grande deficiência de cursos profissionalizantes nessa área. Os cursos existentes são de curta duração, que não conseguem formar ou habilitar um profissional em todas as linhas de atuação, como operação das ferramentas (câmeras, softwares, kits de luz), criatividade e visão artística. Para isso são necessários cursos de média e longa durações que preparam o aluno para resolver os problemas da produção, e não apenas apertar botões.

A produção nacional crescerá consideravelmente. Nos próximos cinco anos, em função dos eventos esportivos, Copa do Mundo, Copa das Confederações e Olimpíadas, a demanda terá um crescimento geométrico no Brasil. A nova lei 12.485 (antigo PL 116) também impulsionará o mercado de produção para televisão fechada. “Produziremos para canais internacionais com exigentes padrões de qualidade, que demandarão a sofisticação e a ampliação do nosso parque de pós-produção. Para que todo este processo possa caminhar de forma adequada, a formação da mão de obra qualificada terá que acompanhar o crescimento deste segmento de mercado”, explica Valdecir.

Na opinião do coordenador pedagógico, “com digitalização dos sistemas, a mão de obra de maneira geral é deficitária. As empresas precisam manter programas internos de formação de profissionais, uma vez que a universidade não consegue entregar o aluno pronto para assumir grandes responsabilidades. Nos últimos anos cresceu muito a demanda por serviços mais especializados, nivelados qualitativamente com o mercado internacional. Porém o mercado brasileiro não estava preparado para a demanda no tocante a quantidade de equipamentos disponíveis e na formação da mão de obra para setores como direção de fotografia e pós produção. A formação sempre se deu na prática e dentro das empresas, com raros cursos de curta duração oferecidos por empresas de treinamento de softwares. Nunca tivemos no Brasil uma sistematização deste tipo de formação”.

Cenário acadêmico
O diretor de ensino da SET, Carlos Nazareth, e Frederico Rehme, membro da diretoria de ensino, compartilham da mesma opinião no que se refere aos poucos investimentos no meio acadêmico. “Infelizmente um número bastante significativo de instituições que formam engenheiros na área de eletrônica, elétrica e telecomunicações, não possuem cadeiras específicas para TV. Por este motivo, muitas emissoras, fabricantes e empresas fornecedoras de equipamentos e serviços são obrigadas a formar a própria mão de obra. Existem Instituições de Ensino Superior (IES) que possuem bons cursos e muitas disciplinas que preparam os profissionais para o nosso mercado, mas levando em consideração o tamanho do Brasil e o número de empresas, precisamos avançar bastante em quantidade e qualidade”.

A parte de transmissão digital é uma novidade para TV, mas para o mercado de telecomunicações a digitalização já aconteceu há muitos anos. Com relação à TV conectada também não existem grandes barreiras, pois a tecnologia de redes IP já está consolidada. O grande desafio é apresentar aos profissionais recém formados as novas tecnologias no mundo da TV digital, para que eles possam associar os fundamentos às aplicações no mercado de TV. Na visão de Nazareth, “o ponto mais crítico é a parte ligada as tecnologias para produção em 3D. Este mercado é muito novo e tem muitos itens que ainda podem ser explorados dentro e fora do ambiente acadêmico, unindo profissionais da área de engenharia e artes”.

À frente do Inatel, Carlos Nazareth explica que “muitas universidades, institutos e faculdades que trabalham na área há muitos anos estão com seus cursos e com a sua infraestrutura básica montada para atender o mercado. Porém as mudanças ocorrem numa velocidade muito grande e nem sempre as IES conseguem ter o mesmo ritmo de inovações apresentadas pelo mercado. Existem ilhas de excelência no Brasil, mas que não conseguem atender toda a demanda. Além disso, um número significativo de alunos formados nestas instituições migra para outros mercados, como telecomunicações, automação industrial. É muito importante para o mercado de TV que as empresas do setor se aproximem das universidades, pois desta forma teremos cada vez mais instituições incluindo em suas ementas os cursos necessários para formação de um bom profissional para atuar em televisão”. As universidades estão investindo nos equipamentos e softwares, que estão muito mais baratos e acessíveis. Se anos atrás o aluno sonhava em trabalhar em uma emissora de TV ou grande produtora para manusear equipamentos profissionais, hoje, a prática começa no mesmo nível ou até mais elevada no meio acadêmico. No entanto, para a maioria dos cursos de audio-visual do país, falta vivência prática para elevar a formação à exigência do mercado. Outra questão está no conteúdo. “Os cursos são generalistas. Um curso superior em audiovisual, por exemplo, precisa ter na grade desde roteiro até direção de fotografia. Assim, o aluno tem uma boa noção de todas as áreas, mas acaba não se especializando plenamente em nenhuma. Essa especialização até agora acontecia dentro das empresas”, explica Becker.

Pensando no aprofundamento do conteúdo e prática, a entidade Cinemática Educacional, em conjunto com a Universidade Cruzeiro do Sul, criou uma parceria estratégica do ponto de vista pedagógico e dividiu as funções a Universidade administra os alunos e emite o certificado de pós graduação, e a Cinemática ministra as aulas, tanto teórico conceituais quanto práticas.

Recentemente os parceiros lançaram cursos de especialização lato sensu, reconhecidos como cursos de pós graduação pelo MEC, focados na capacitação prática nas áreas de direção de fotografia, correção de cor e roteiros transmídia. Os primeiros cursos são mais técnicos, enquanto que o terceiro é mais voltado para a criatividade. A ideia é capacitar profissionais habilitados para resolver problemas cotidianos e criar produtos audiovisuais mais bem acabados narrativa e esteticamente, dentro de uma emissora ou produtora.

Entre outras entidades, como Inatel, Mackenzie, Universidade Tecnológica Federal de Ponta Grossa (UTFPR), Universidade Federal da Paraíba e do Rio Grande do Sul também atuam nas áreas voltadas para TV. “O número de instituições na área de engenharia que oferecem disciplinas específicas para TV é ainda pequeno, mas cresce a cada ano. O cenário mais crítico é o da radiodifusão sonora, que nos últimos anos sofreu com uma grande redução do número de instituições que abordam em seus currículos as disciplinas específicas de rádio AM, FM ou digital”, lamenta Nazareth.

Conjuntura do Rádio
Esse ano o Rádio faz 90 anos no Brasil. Ele nunca teve uma (r)evolução tecnológica como a que está ocorrendo agora. Tivemos momentos em que passamos da Onda Média para FM com sinal estéreo e atingimos um nível em que dados são transmitidos digitalmente via canais analógicos (RDS). Agora, a transmissão no ar será digital. O Rádio, apesar de sua importância, está com o processo de digitalização atrasado se comparado a da TV, mas os esforços crescem para que sua digitalização aconteça brevemente.

O diretor de Rádio da SET, Ronald Barbosa, em seus artigos mostra constantemente a importância do Rádio e nos dá um panorama deste universo. Questionado sobre a realidade do Rádio brasileiro, ele diz que avaliar realidade deste meio de comunicação é um exercício um tanto quanto pretensioso. “Da minha parte, uma vez que a disparidade de situações e condições equivale à realidade do povo brasileiro, essa avaliação no mínimo deveria regionalizar a questão. Após as recentes pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA), podemos dizer, sem dúvida, que o povo brasileiro está alcançando melhor condição de vida, inclusive com aumento da renda média familiar. Desta forma, muitos podem pensar que isso extrapola a evolução tecnológica do Rádio e que estes vão direto para outros meios como a internet”.

Considerando a convergência, um grupo de pessoas defende que em um futuro próximo a co-existência do Rádio com outros meios de comunicação é impossível. Ronald prefere ser cauteloso e afirma que eles vão atender nichos diferentes que tendem a se estabilizar com o passar dos anos. A Associação Brasileira de Radiodifusores (Abra) acredita no potencial do mercado publicitário para o novo rádio digital que está vindo. “Seguramente estamos falando de uma segmentação diferente da que é atualmente observada. Hoje se transmitem programas para diferentes classes da população na mesma programação. Amanhã teremos públicos diferentes ouvindo e interagindo diferentemente por programação”, explica Barbosa.

Diferentemente da TV, o Rádio não reivindicará mais espectro do que já tem. Independentemente se milhões de pessoas estão ouvindo e interagindo em sua programação não haverá necessidade de mais faixas de frequência. Essa é uma vantagem do Rádio, que por si só já demonstra uma diferença substancial, uma vez que todos esses meios se utilizam de recursos escassos.

Estaremos numa nova era do Rádio, se considerarmos que a próxima geração de receptores terá a tecnologia touchscreen e o áudio digital até mesmo nos rádios com preços mais acessíveis para a população de baixa renda. Mesmo com receptor digital mais barato, o público terá acesso à maioria das facilidades que a digitalização permite, o que não ocorre hoje. Além disso, será mais fácil ter áudio com qualidade em ônibus, trem ou metrô facilitando o acesso a informação segmentada nesses transportes populares.

A maioria das emissoras de rádio terá que investir para ter acesso à tecnologia digital. “Não sabemos ainda em que momento o Ministro das Comunicações definirá um padrão para o Brasil, mas tenho certeza que todos os radiodifusores tirarão proveito do novo modelo de negócio que surgirá”.

De acordo com o secretário de serviço de comunicação de mídia eletrônica do Minicom, Genildo Lins de Albuquerque Neto, existem duas tecnologias sendo testadas, a européia (DRM – Digital Radio Mondiale) e a norte-americana (IBOC – In Band-On Channel). O rádio já está em fase de conclusão dos testes. E agora surgiu a tecnologia japonesa (ISDB-TSB – Integrated Services Digital Broadcasting -Terrestrial Segmented Band) que tem como vantagens poder ouvir o rádio pela televisão e ser a mesma tecnologia da TV, porém, sua desvantagem é não ter AM e ele usa o canal 4 na transmissão digital.

A previsão é que em julho os testes com todos os sistemas sejam concluídos. A partir daí, serão analisadas se as tecnologias são aplicáveis e compatíveis com as necessidades do Brasil. A tecnologia escolhida terá que trazer melhores e mais benefícios à população brasileira. Dentre esses benefícios está a produção nacional de todos os equipamentos. Genildo afirmou saber sobre a ânsia que existe pela escolha, mas que é necessária cautela. “Essa não é uma escolha eminentemente tecnológica. Ela é uma decisão de política industrial brasileira”.

Uma pesquisa recente elaborada por Nelia Del Bianco e Carlos Eduardo Esch, do Laboratório de Políticas de Comunicações, da Universidade de Brasília, nos deu importantes informações sobre o setor e indicam forte necessidade de incentivo por programas governamentais para que a tecnologia esteja acessível à população e também aos profissionais que estão envolvidos no dia-a-dia das emissoras, bem como a indústria e o comércio profissional especializado.

Para Ronald, atualmente, o setor precisa de incentivos fiscais nos componentes e produtos acabados a fim de que a indústria de transmissores e receptores possa produzir competitivamente. Outra grande dificuldade para a indústria é trabalhar sem definição do modelo do padrão do rádio digital brasileiro. Contudo, a indústria de transmissores e de receptores tem mantido um bom diálogo com governo e emissoras no sentido de fornecer equipamentos para testes nesse importante momento.

O grande desafio é atender a demanda da população que a cada dia tem novos produtos com formatos diferentes, tanto os equipamentos da radiodifusão na geração de conteúdo quanto os equipamentos na recepção para o público em geral deverão atender os requisitos dos dispositivos móveis que existem, a interoperabilidade com diferentes plataformas, tudo isso com qualidade digital e com as vantagens que a tecnologia dispõe.

Os radiodifusores estão empenhados no processo de digitalização do Rádio, tanto que em 2010, a Abra enviou um ofício ao então Ministro das Comunicações, Hélio Costa, sugerindo que ele encaminhasse algumas soluções para a rádio digital antes dele deixar o ministério. É importante diferenciar o processo de digitalização do rádio da definição de um padrão de rádio digital. Sem um padrão é muito difícil investir no processo de digitalização.

O processo de massificação começará pelos receptores que tem mobilidade, contemplando primeiro um grande público especialmente nos grandes centros. O receptor fixo aguardará a massificação para a totalidade do público. Um grande número de empresários já pensando no modelo de negócio a ser empregado no serviço de radiodifusão. Todos estão investindo pesado na internet apostando que a junção rádio-internet poderá gerar um bom modelo de negócio. Ao falarmos da junção rádio-internet estaremos também trazendo para a conversa o satélite que permitirá uma distribuição uniforme e promoverá uma diminuição na flacidez desse mercado publicitário que envolve o setor do Rádio. Algumas emissoras de rádio como a Bandeirantes, por exemplo, dão mostras de como esse modelo poderá ser desenvolvido.

A transição do pós-produção
O professor Valdecir Becker nos dá uma aula sobre a transição analógica para digital dentro do universo de pós produção. Com a transição da pós-produção analógica para a digital, os meios de finalização se ampliaram de maneira exponencial. Neste cenário de aumento de demanda, as áreas de direção de fotografia e de correção de cor foram umas das que mais evoluíram e se estabeleceram como atividades fundamentais nos mercados de publicidade, cinema e televisão. O cinema atual é totalmente manipulado digitalmente, e dentre as etapas de maior intervenção e criatividade está a de correção de cor.

A fotografia cinematográfica é dirigida em função da finalização como etapa fundamental na obtenção dos resultados técnicos e estéticos exigidos pela obra. Na publicidade, há décadas, a intervenção eletrônico/digital passou a ser um dos componentes mais destacados do resultado final dos comerciais de TV. Na televisão este fenômeno é mais recente no Brasil e teve a sua origem na aproximação das produções televisivas com as produtoras de cinema, que por sua vez foram influenciadas pelo mercado publicitário.

Em função da grande quantidade de diretores e produtoras de publicidade que passaram a produzir filmes na chamada retomada do cinema brasileiro, este processo já se deu dentro das chamadas novas tecnologias digitais. O passo seguinte foi o começo da produção de dramaturgia para televisão, agregando o padrão de finalização utilizado nas produções para o cinema. Essas produções isoladas das produtoras de publicidade, feitas pelas grandes emissoras de TVs, começaram a chamar a atenção pela diferença qualitativa, o que levou as redes a buscarem se aproximar deste padrão técnico/estético, primeiramente, nas minisséries e seriados, e depois em toda a linha de dramaturgia, incluindo todos os horários das telenovelas e dos especiais dentro de outros programas de cunho jornalístico.

Durante o seminário “Venha Conhecer o Novo Papel da Anatel e do Ministério das Comunicações na Regulação do Setor”, o secretário de serviço de comunicação eletrônica, Genildo Lins de Albuquerque Neto conversou com nossa reportagem e fez uma análise sobre a conjuntura da radiodifusão brasileira.Como o senhor avalia o cenário da radiodifusão nacional? Considerando o histórico, que não é bom, pois houve omissão do poder público durante um tempo, podemos dizer que a radiodifusão está bem. Pois agora essa omissão está sendo suprida, e o radiodifusor está se comportando muito bem, alguns estão lentos em responder aos pedidos do Ministério das Comunicações, mas eu acredito que com o tempo eles vão se acostumar com essa nova metodologia e os processos vão andar mais com cerelidade. O importante para o poder público, hoje, é que o setor tenha mais agilidade nas mudanças e respostas mais rápidas.

Como está a digitalização da TV no Brasil? A digitalização da TV está bem adiantada. Existem 506 geradores de TV no Brasil, cerca de cem não pediram canal digital. Dos pedidos que foram feitos, o Ministério já consignou o canal ou a consignação está em processo aguardando alguma informação do radiodifusor. É nossa meta digitalizar até o final deste ano, 2.200 retransmissoras. Nós já chegamos a 300, neste primeiro trimestre.

Como estão os trabalhos para o switch off em 2016? Ele irá acontecer? Não tem a menor dúvida que isto irá acontecer. O Ministério irá elaborar até o final do ano um plano de switch off, que vai incluir auxilio ao radiodifusor que não tem recurso, vamos estudar linha de financiamento, estudamos a possibilidade de os prazos de desligamento terem gradação conforme a região, e incluir auxilio para o usuário sem televisor digital.

Ainda faltam muitas cidades para serem digitalizadas . Como o governo está trabalhando a implantação digital nas cidades mais distantes? Nós estamos trabalhando muito. As geradoras já estão concluídas, já estamos nas transmissoras e até o final do ano concluiremos entre 25% e 30% das retransmissoras. Nós esperamos que até o final de 2013 todas transmissoras e retransmissoras estejam digitalizadas.

Quais são os trabalhos que o governo está fazendo em relação à implantação da interatividade? A interatividade é um produto a mais que o radiodifusor pode oferecer. Nós estamos fazendo um estudo para criar incentivos para o radiodifusor oferecer este produto. Estamos trabalhando para que até o final do ano, nós possamos dar esses incentivos.

Como o governo avalia a disputa pelo espectro? A disputa é normal. Qualquer bem escasso é muito disputado. O que nós vamos tentar fazer é chegar à melhor solução para atender aos setores de radiodifusão e telecomunicação.

Por que o radiodifusor está com muitas dúvidas com relação as novas normas para o setor de radiodifusão? Toda mudança gera muitas dúvidas e o que nós temos que fazer é sanar essas dúvidas. É normal as pessoas se assustarem com as mudanças. Nós tentamos mostrar que as mudanças são para melhor.

 

Gilmara é editora da Revista da SET . E-mail: gelinska@gmail .com