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Como a Band e a Rede TV! montaram a transmissão digital via satélite

Que a TV Digital do Brasil vai seguindo bem o seu caminho, muitos já sabem, pelo menos aqueles já com acesso às transmissões terrestres em HD. Polêmico para uns e necessidade para outros, o que talvez ainda esteja obscuro, tanto para o público quanto para os profissionais do meio, é o consórcio HDSat Brasil, uma das faces do SBTVD.

O HDSat é um sistema de transmissão que foi lançado no ano passado simultaneamente à TV Digital terrestre para levar o sinal em alta definição a regiões do Brasil onde só é possível chegar via satélite. Seu idealizador é Amilcare Dallevo Júnior, presidente da Rede TV!

A trajetória dele é interessante. Depois do trabalho, por 14 anos, como vendedor em uma revendedora da Volkswagen, Dallevo suou, mas se formou em engenharia elétrica na USP e gerenciou o setor de telecomunicações do grupo Citibank. Ali Dallevo percebeu que informática e telecomunicações iriam se juntar.

Tornou-se, então, dono de uma pequena empresa de informática que criou um sistema pelo qual o público participaria da televisão de forma interativa e em tempo real, recurso que permitiu ao Intercine da TV Globo, por exemplo, fazer as escolhas dos filmes transmitidos no programa. Com o dinheiro ganho, ele comprou as concessões da TV Manchete e formou a Rede TV!

Juntando as pontas
“Comecei a juntar as pontas para fazer TV Digital pelo satélite já em 2007, pouco antes do advento da TV Digital em São Paulo”, recorda Dallevo. Ele chamou Gunnar Bedicks, pesquisador chefe do Laboratório de TV Digital da Universidade Mackenzie e Alfonso Aurin, presidente da SpeedCast. Depois, Dallevo procurou a Band, que aceitou ser parceira do consórcio, a fim de dividir os custos do projeto. Sua interface na rede parceira é Frederico Nogueira, vice-presidente da Band.

Então, Band e RedeTV! conversaram com Aurin, parceiro ideal porque tinha os requisitos necessários para implementar todo o processo, desde a recepção dos sinais das emissoras no teleporto da SpeedCast até o transporte e a distribuição do sinal. Aurin, um dos fundadores da SET, é ex-superintendente de engenharia do SBT. Com o interesse que sempre teve por transmissão via satélite, o engenheiro saiu da emissora no início desta década e montou a SpeedCast. “Comprei os equipamentos iniciais de uma empresa que se chamava Link Sat”, recorda, sem esquecer que demorou um pouco para ter trânsito no meio porque era tratado como “Aurin do SBT”. “Quando você fica muito tempo em uma emissora, sai com o logo na testa”, brinca. Aurin ficou 20 anos no SBT.

Para Aurin, o HDSat veio no momento certo. “Eu tinha os equipamentos certos para subir o mais rápido possível o sinal”, afirma. Então, com a ajuda da Tecsys – empresa que fabricou os dois processadores (receptores/ demoduladores com saída ASI e taxa de saída de até 23 Mbps) de sinal no padrão ISDB-T, os que recebem os sinais das geradoras da Band e da RedeTV, e também os dois multiplexadores digitais em MPEG-2, produtos desenvolvidos pela empresa com tecnologia própria -, o corrido trabalho, feito em pouco mais de um mês, foi mostrado ao ministro das Comunicações Hélio Costa em uma situação um pouco inusitada. “Chegamos com o equipamento dentro de uma van, colocamos a antena em cima dela, ligamos um geradorzinho para mostrar que não tinha truque, colocamos a TV de plasma no porta-malas, ligamos e falamos ‘olha, o sinal que está aqui está no Brasil inteiro’”, conta. E foi quando a história, até aqui de sucesso, começou.

Afiliadas
“O objetivo do HDSat é facilitar a contribuição do sinal digital para as afiliadas”, afirma Gunnar Bedicks, também da SET. Possivelmente há outros, não confessados.

O laboratório que Bedicks comanda acompanha e aprimora o andamento das tecnologias e também desenvolve outras novas para melhorar os resultados. São cinco doutores, três mestres e dez alunos de mestrado e doutorado, num total de 18 pessoas na equipe.

Foi apoiada nessa retaguarda que Band, Rede TV! e Speed Cast se entenderam para fazer o que, para muitos, pode levar problemas a muitas emissoras afiliadas. “Algumas vêem isto como uma ameaça, porém se espera que em breve elas montem sua transmissão local”, diz Aurin.

O HDSat foi pensado como um sistema onde a forma de transmissão, a codifi- cação e tudo mais sirva também para o parque de antenas parabólicas atual, ou seja, nem mesmo aquela antena de tela que o usuário possui precisa ser trocada – estima-se que hoje existam mais de 18 milhões instaladas no Brasil. “Basta instalar um receptor que se terá imagem e som satisfatórios”, explica Aurin.

Essa foi uma das principais preocupações do consórcio, que precisou descobrir uma solução que permitisse operar o padrão de TV do Brasil com todas as suas características. “A codificação é, tanto no ISDB-TB quanto no HDSat, com o MPEG-4. Ou seja, é igual, com vídeo H.264 e Áudio AAC+”, explica Bedicks.

O caminho do sinal
“Antes de tudo foi necessária a elaboração de um projeto analisando como o sinal deveria ser encodado. Preferimos utilizar o satélite C2, que transmite também em analógico, para não causar problemas aos telespectadores”, afirma Dallevo.

Band e Rede TV! pretendiam usar uma infra-estrutura que não demandasse muitas alterações para que o custo fi- nanceiro e de tempo não impactasse negativamente o projeto. “O dinheiro que tivemos que investir foi direcionado para a distribuição de sinal”, diz Nogueira, sem dar números.

A SpeedCast, de Aurin, é a responsável pela emissão do sinal digital. Em seu teleporto, em Alphaville, na Grande São Paulo, a empresa capta diretamente do ar os sinais digitais em alta definição gerados pela Band e RedeTV!. “Além deles, capturamos também o sinal destinado à recepção móvel, o chamado one seg”, lembra Aurin.

Esses sinais são multiplexados. O mux recebe os sinais separados e entrega a soma na saída. Dessa forma, os dois sinais HDTV mais os sinais one seg são modulados através da tecnologia DVBS2 8PSK e configurados de forma a manter a robustez do sistema.

Depois, o sinal multiplexado e modulado é transmitido para o satélite por meio do sistema HPA (up-converter e amplificador) e antena parabólica de transmissão. Finalmente, as programações são enviadas do satélite às antenas parabólicas domésticas. Os sinais em HD das duas emissoras, claro, são recebidos somente por quem tem os conversores, fabricados pela Zinwell e pela Century.

No receptor o processo ocorre ao inverso. O Transport Streaming de cada canal é recuperado. Esse TS soma todos os sinais emitidos pelo satélite e compõe uma portadora de 18 MHz de largura com capacidade para 32 Mbps, permitindo que cada emissora utilize 16 Mbps para a transmissão dos programas que desejar, desde que caibam nesse espaço.

Vantagens
Transmitir em HD já é usual há anos no Japão. Lá a modulação utilizada é a mesma daqui. Mas uma das diferenças é que no HDSat estão preservadas as características de áudio e vídeo do ISDB-T. Outra é que no país do Sol Nascente a distribuição do sinal é feita às retransmissoras e não às residências. Lá, como cá, há boas vantagens no sistema. Talvez a maior delas seja a impossibilidade da limitação da cobertura do sinal. “A partir do momento que foi realizada a subida ele atinge todo o Brasil”, aponta Aurin. Isso leva Bedicks a acreditar que todas as emissoras vão transmitir em digital via satélite. No entanto, até o momento nenhuma das outras emissoras de TV aberta se comprometeram a entrar ou não no consórcio.

Outra boa vantagem que o HDSat proporciona são os 16 Mbps disponíveis à cada emissora. Isto significa que é possível a inserção de várias configurações diferentes de sinais. Para transmitir uma programação em HD, cada emissora utiliza 11 Mbps, sobrando ainda para cada uma delas 5 Mbps. Essa sobra pode ser aproveitada para várias aplicações, visto que o one seg utiliza apenas 0,4 Mbps e a transmissão em Standard Definition usa entre dois e quatro. “Não temos nenhum projeto para nosso espectro, mas esperamos usá-lo em parcerias futuras”, afirma Nogueira, o vice-presidente da Band.

Revista da SET – edição 103