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Big Data, Broadcasting Intelligence para a distribuição multi-telas

Nº 144 – Agosto 2014

Por Carles Rams*

ARTIGO

No entorno broadcast, qual é a relevância do dado? Tem valor a informação da audiência em tempo real? Tem valor se a podemos associar a informação de contexto relacionada com as tendências da atualidade dos entornos cercanos?

Na nossa opinião, sim porque permite aos broadcasters tomarem decisões dirigidas pelos dados e não como ate agora que as decisões estratégicas de emissão se tornam, na realidade a cegas. Se possui informação histórica do passado, mas não se tem informação do que está passando nesse momento. Se esse dado estivera disponível em tempo real, as decisões e as reações a esses dados inclusive poderiam ser sistematizadas. O explicado de outra maneira, é possível automatizar os processos e fluxos de trabalho a partir de dados.

Processos baseados em dados. Reações ao contexto
Um exemplo dessa automação é a publicidade condicional, uma publicidade que aparece em diferentes contextos segundo o perfil ou área geográfica onde o público está assistindo TV.
Hoje é possível definir produções de curso aberto dirigidas pelo usuário. É necessária a gestão interativa da grade em direto que se relaciona com os usuários e reactivas porque são sensíveis as preferências destes.
A grade de programação deveria ter múltiplos caminhos, agora as grelhas são geradas, o mais tardar 24 horas antes da data de emissão. De um dia para o outro. Em alguns casos especiais é possível escolher dois caminhos alternativos, mas só isso. A capacidade de reacção é muito pequena.
Inclusive se podem utilizar sistemas de predição para tarefas de background que tenham alto custo de processo e de tempo de trabalho, como por exemplo a recuperação do arquivo do material que sabemos que será necessário o que haverá alta probabilidade de ser utilizado. Em resumo, o dado importa, se é o dado de valor. No caso do broadcast, o dado é a audiência.
Que significa isso? Se temos que gerir estas interações em tempo real, temos um problema com o sistema atual de programação, basicamente de emissão.
As listas não servem. Fizemos muitas coisas com as listas, sincronizadas, subordinadas etc. Mas hemos chegado ao limite. Agora necessitamos de bolinhas, que representam uma árvore de decisão. Quer dizer que em cada momento, em função dos valores dos dados registrados nesse instante o sistema decide que ação executará. Esse esquema, as bolinhas ou árvore de decisão, permite estabelecer reacções em tempo real, inteligentes e condicionadas ao valor dos dados que nesse momento dispomos. Bem-vindos ao mundo das bolinhas e adeus ao rundown aplicado ao broadcast. Essa é a tendência.

Emissão de dados. Novos servições para o mundo conectado em tempo real
Mas temos alguma coisa há mais falando de dados, os broadcasters as vezes parecem desperdiçar uma vantagem que tem tido e continuam a ter, que é a experiencia em diretos e transmissões em tempo real. A TV tem sido fundamentalmente um sistema de emissão em direto, de gestão em direto. A configuração de um estúdio de televisão para poder emitir em direto qualquer evento é impressionante, é um espectáculo. Muitos leitores conheceram a especialização necessária do trabalho para poder realizar um evento em concreto, e para poder fazê-lo em tempo real, e sabem que é necessário muita coordenação. Mas esta mais-valia não se esta aproveitando para o mundo on-line em que estamos imersos, onde outros atores tem colhido a experiencia e agora tem, inclusive, mais requisitos de tempo real que a TV. Estamos falando de negócios on-line que possuem a capacidade de reacção de milissegundos em função do que se esta passando nesse preciso instante.
Como se deveria aproveitar? Esta é a oportunidade, e não é difícil. A informação que gere a TV em uma emissão convencional, e que utiliza para processos internos, pode ser de valor para outros negócios. Por exemplo, avisos em tempo real de conteúdo emitido. Agora não existe essa informação. Nenhum cala de TV esta gerando essa informação seja para um programa, um informativo, ou um comercial. No entanto, internamente se for requerido, seria necessário sincronizar muitos processos em função da emissão e com a precisão elevada ao frame!
Externamente há uma oportunidade de transmiti-lo e não se está fazendo. Um exemplo são as publicidades: estão todos os conteúdos catalogados, pelo que seria possível ir avisando conforme aparecem em um programa. Este é um aviso de valor para as pessoas que vendem estes produtos. Outro exemplo são os gráficos, de fato, a quantidade de informação que gera uma emissora para por na tela é muito grande. Se podem fazer colocar inserções em tempo real, para que outras aplicações mais enriquecidas de dados possam ser consultadas pelo usuário. Tudo isso tem um grande potencial se se estabelece uma política de emissão como Fonte de dados. Isso dá valor para outros negócios que tem, pela sua vez, seu entorno on-line que necessita saber que esta passando na TV para reagir de forma precisa sem ter que fazer interpretações.
O mesmo acontece em eventos em direto. Há uma quantidade de pessoas gerindo a informação que aparece na tela. Essa informação tem de ser rentabilizada. Resumindo, esses são exemplos de como os dados são, também, uma fonte de valor na TV lineal para entrar na cadeia de sincronização de todos os negócios on-line que podem ser mais efectivos com essa informação. É uma grande oportunidade.

Conhecer a audiência. A inteligência na demanda
Em broadcast há um mantra muito estendido: “A interação com o cliente é muito limita porque o canal é unidireccional”. Isso já não é assim. Graças a incipiente conectividade dos usuários, o canal existe, o que se passa é que há que utiliza-lo. E com esse canal podemos conseguir uma interação em tempo real do usuário com a emissão lineal, incentivando assim a participação dos usuários nos programas.
Nosso ponto de vista é que o on-line e o lineal são complementares, somam. Completamente. É mais, para apoiar o lineal, aconselhamos seguir a estratégia da promoção on-line, ou seja, aplicar as técnicas que já existem de promoção dos grandes portais de internet ao serviço da emissão lineal.
E quais são estas? Para a emissão lineal devem-se capitalizar as acções on-line oferecendo as ferramentas necessárias para captar as interações. Ou seja, conhecer que conteúdos são favoritos, que deseja o usuário, poder lançar promoções, que o usuário pode compartilhar conteúdos, poder fazer listas de leitura, o favorecer a participação do usuário na emissão. Todos esses são dados de grande interesse para poder reagir e conhecer o comportamento da audiência da TV lineal.
E, claro, as recomendações. Porque não se pode recomendar conteúdos da emissão lineal? Claro que se pode, se pode recomendar, se podem fazer promoções personalizadas. Estamos falando de usar metodologias para poder fazê-lo automaticamente e poder medir os resultados. Não só executar uma ação, senão ser metodológicos.
Nos negócios on-line, já faz tempo que estão utilizando a Big Data e o objetivo é acertar a oferta a procura, enquanto produto, preço e serviço. Portanto, se pode dar resposta a procura de maneira imediata, e saber se é o produto adequado no momento adequado, também na emissão lineal.

Personalizar a experiência. A inteligência na oferta
Como gerirmos esse conhecimento da audiência para adaptar nossa oferta em tempo real? Mediante as análises operativas. Se traduz em decisões automáticas dirigidas por dados, é a somatória de três conceitos: Big Data, Analítica e Automatização.
Por Big Data entendemos as ferramentas que permitem arquivar e recuperar grandes quantidades de dados caracterizados por as 3 V (Volume, Velocidade e Variedade). Qualquer atividade que gere grandes VVV de dados requer de ferramentas de Big Data. Há uma série de ferramentas que permitem arquivar, procurar e recuperar de forma muito eficiente está informação. Por Analítica entendemos os algoritmos baseados em princípios de IA combinados com a potência do cálculo e processo atual que calculam a dependência entre os dados a partir da informação arquivada. Podemse deduzir dados e predizer tipos de comportamento.
E finalmente, a Automatização são os mecanismos informáticos que permitem atuar sobre as aplicações e operações em tempo real para responder as necessidades de negócio detectadas e prenunciadas pela analítica.
Basicamente, a analítica operativa serve para personalizar os serviços, varias a oferta em função do entorno, ajustar as operações com as necessidades (as operações podem ajustar-se de acordo com a função da procura que existe no momento) e, claro, agregar e definir os dados de usuário independentemente da tela para detectar novas oportunidades de negócios.

Sincronização multi-tela. A inteligência nos processos
Como aplicamos tudo isso a nossa realidade? Há muitos programas que utilizam a figura do Community Manager no controle da realização analisando todas as redes sociais. Para isso utilizam ferramentas on-line que existem na rede e tentam ter uma interatividade com o telespectador. Mas isso é muito lento. Se através da analises fazemos algumas predições, o que não serve é depois realizar a ação manualmente, ou enviar um documento Excel o um email ao controle central para que difundam o gráfico. Tem de existir uma sincronização entre o mundo on-line e o mundo lineal. E, isso porque há uma serie de operações que tem de ser feitas a toda velocidade, não podem ser feitas a mão, já que se devem fazer de forma automática, e instantânea. Estas coisas têm que se realizar em milissegundos pelo que acções humanas não servem. Isso implica que todas as operações de uma estação de TV devem ser automatizadas.
E isto que significa? Há que orientar-se a processos, já não vale a pena o “correveydile” ou ligar dando instruções. Todo tem que estar predefinido, necessitamos orientarmos para uma gestão por procedimentos.
Os procedimentos se definem, se implementam e executam de maneira automática. E, depois é necessário adaptar estes processos as predições. É muito mais fácil adaptar um dos procedimentos automatizados que um procedimento manual.
E, também, temos que orientarmos para serviços, temos que usar arquiteturas onde os sistemas estejam orientados a servições, e os procedimentos possam ser chamados para executar ações de maneira imediata.
Quê significa orientarmos os procedimentos? Os procedimentos tanto manuais como automáticas têm que estar definidas e orquestradas por uma capa de gestão que permita unir os dois mundos, o mundo tecnológico com o mundo dos negócios, Para ser mais eficientes e poder aplicar automatizações.
Com quê ferramentas? Com um BOM, uma ferramenta de gestão. Os BPMs vêm do mundo TI, e as empresas de todos os setores o utilizam para ser mais eficientes. Perguntem a um diretor de banco se agora poderia viver sem um BPM gerindo os processos para outorgar um empréstimo. As TVs já estão começando a adoptar este tipo de ferramentas, e há fabricantes que já começam a oferecer sistemas de BPM e este é o caminho, que a nosso entender, tem de caminhar o setor.
Regras de Negócio. Se temos que tomar decisões, as regras do negócio devem basear-se, também, em parâmetros preditivos, por tanto, não podem ser estáticas.
Tem que haver um repositório onde a gente do negócio possa definir as regras que vão a ser as que executem um procedimento, seja de uma maneira, ou da outra. E, estas regras devem ser dinâmicas em função dos resultados da análise. Por exemplo, a frequência de publicação das mensagens no Twitter. Podemos fazer que o procedimento faça o lançamento de uma publicação a cada minuto. Mas, quê acontece se a demanda muda? Quê acontece se o entorno muda? Esta frequência deve ser dinâmica dependendo da predição da demanda que faz o sistema de análise.
E no fim, temos que ter uma arquitetura orientada a servições (SOA). Todas as nossas ferramentas, os transcodificadores, os MAM, e os sistemas de arquivos, os sistemas de QC, os sistemas de automatização de playout etc. Todos os que participam em um processo audiovisual têm que falar com todas as partes do negócio de uma forma automatizada e independentemente da aplicação. Ou seja, se nos montamos um processo de negócio, não podemos cair no processo se mudamos uma das peças e isso implica ter que modificar o código do procedimento. A solução é utilizar um ESB (Enterprise Service Bus) que integra os dois mundos, o do negócio e das operações com o da infraestrutura. Com este tipo de arquiteturas logo é más simples cambiar uma ou varias peças sem que afete o negócio.
Com isso tudo, podemos fazer uma arquitetura transversal a toda a organização e que seja dinâmica a partir das predições. A partir da análise que se faça desde a Big Data, se pode executar de maneira rápida na organização graças a um sistema inteligente e completamente automatizado.
Concluindo. Os dados, as árvores de decisão e a sincronização são o novo paradigma que, na nossa opinião, se converterá na grande tendência do setor por ser uma grande oportunidade para que as TVs possam captar mais receitas.

*Com Jordi Gilabert CEO de Konodrac jgilabert@konodrac.com

Carles Rams
Carles Rams é CEO de Ebantic, empresa espanhola especializada na gestão de projetos para o setor audiovisual
crams@ebantic.com