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As tendências em broadcast. A indústria evoluindo para IP e 4K

Nº 141 – Abril/Maio 2014

Por João Martins em Las Vegas

ANÁLISE

As tendências em broadcast. A indústria evoluindo para IP e 4K

O evento anual da National Association of Broadcasters em Las Vegas foi extremamente motivante para quem participou e visitou. A NAB Show 2014, realizada entre 5 e 10 de abril, não foi ainda aquele momento decisivo em que sentimos que se fez história e tudo mudou, como aconteceu noutros anos. Mas seguramente foi uma exposição que nos serviu para constatar como a evolução tecnológica está imparável e que nada voltará a ser como antes. O 4K se afiançou ainda mais com a indústria criando processos e fluxos para esta tecnologia. Apresentamos aqui a primeira parte de uma análise tecnológica da exposição realizada em primeira pessoa.

ANAB 2014 recebeu mais de 98 mil visitantes, uma aumento de 7%, e mais de 200 novos expositores, entre as 1746 empresas presentes. Não é por acaso que muitos dos novos participantes são empresas do setor de TI e empresas que até se moviam exclusivamente no âmbito das soluções on-line, sendo evidente que ninguém já consegue ignorar a presença de empresas como a Akamai, Amazon, Cisco ou Intel neste evento. Não foi ainda o ano em que vimos as soluções IP a destronar o SDI e não foi ainda o ano em que soubemos quais serão os novos padrões de televisão que estão em discussão. Mas soubemos que o futuro da televisão passa por abraçar as oportunidades para além do broadcast e que o novo padrão de vídeo – já não apenas de cinema – é o 4K. Entre muitas outras coisas interessantes.
Para mais uma maratona de seis dias na edição da convenção anual da National Association of Broadcasters, NAB 2014, parti na clara convicção de que este ano seria altura de olhar com atenção para as demonstrações de vídeo sobre IP. Afinal de contas, no ano passado vimos, aqui em Las Vegas, demonstrações convincentes por parte da Sony, Panasonic e Axon, entre outras, dizendo que o SDI estava morto e enterrado e que o futuro passava pelas redes. Demonstrações que até fizeram parecer a aposta da Blackmagic nos equipamentos 6G como “algo do passado”, apesar de ser 4K! Por isso, pensávamos que essa seria claramente a aposta este ano.
Afinal de contas, a indústria broadcast anda há anos a trabalhar no tapeless, nos processos de trabalho em rede, nos workflows baseados em arquivos, nos MAM, na orquestração de processos IT etc. Tudo em rede, sendo a distribuição de sinal feita crescentemente para IPTV, as contribuições feitas por IP e mesmo a distribuição de conteúdos já totalmente assentes em redes CDN. Por isso, porquê manter etapas de sinal em banda base na entrada e saída de uma estação de televisão, porque continuar a falar de matrizes centralizadas em SDI/HD-SDI/3G (e agora 6G para 4K), cada vez mais complicadas?Mas não foi ainda este ano que as coisas mudaram… As razões são diversas.
Uma delas tem a ver com a evolução do SDI e a forma como as operações de televisão continuam a ser pensadas, não tendo sequer ainda a transição para processos “tapeless” e TI sido completamente alcançada. Algo que quem trabalha em operações de televisão entende perfeitamente porquê…
A outra razão, tem a ver precisamente com o fato de o mercado estar embarcando novamente em mais uma importante transição tecnológica com o 4K. Porque, pense-se o que se pensar do 4K, a verdade é que se trata de algo imparável – as comparações com o que se passou nos últimos anos com a estereoscopia 3-D são possíveis mas inadequadas.
Todos nos lembramos de quando a evolução para HD se tornou incontornável e muitas estações de TV hesitaram em assumir compromissos tecnológicos sem que lhes fosse possível combinar a transição que estavam efetuando do videotape para tapeless e processos TI (leia-se servidores e estações de trabalho basicamente ligadas a grandes sistemas de armazenamento em redes, ou ilhas de redes). Ou seja, muitas cadeias de televisão evoluíram para HD à medida que iam substituindo equipamentos SD por HD, enquanto outras simplesmente esperaram para fazer tudo em simultâneo.
Agora, o dilema do 4K coloca-se novamente, mas é precisamente muito mais do que simplesmente um novo nível de produção para justificar alterar toda a infraestrutura de televisão. E a mudança para processos baseados em rede IP – estamos falando de distribuir vídeo directamente sobre Ethernet, com roteadores convencionais de rede – seria precisamente a melhor forma de fazer a evolução para 4K/8K ao mesmo tempo. Só que as coisas não são assim tão simples.

A televisão Ultra HD em 4K já está aí, os consumidores já podem comprar televisores, existem serviços de conteúdos 4K disponíveis na internet e, por outro lado, a tecnologia necessária a suportar processos como os de broadcast vão precisar de pelo menos mais uns dois ou três anos para poderem acomodar a transição tecnológica. E um dos factores determinantes será a evolução da própria tecnologia das redes, principalmenre para Ethernet 100Gbps, como foi definido em 2011 pelo grupo de trabalho das normas IEEE 802.3bg (aprovadas em março de 2011) que ainda não está concluído e cujo “physical layer”, ou seja, a parte física da infraestrutura, provavelmente só em 2016 estará comercialmente disponível. Pelo menos com um custo ajustado à realidade do mercado, se considerarmos as muitas testemunhas que ouvimos no NAB 2014.
Nos últimos anos tornou-se evidente que a indústria broadcast já não dita as regras da sua própria tecnologia como outrora acontecia – e como as empresas tradicionais broadcast, como as empresas japonesas, têm penosamente aprendido.
Por isso, como os directores técnicos das cadeias de televisão já perceberam, quando vamos a uma exposição como a NAB, é preciso ver com atenção o que muitos novos players tecnológicos têm a propor. É precisamente por isso que empresas como a Cisco ou a Intel estão presentes neste evento e fazem aqui anúncios tecnológicos importantes.
E foi precisamente isso que nos propusemos fazer quando chegamos a Las Vegas este ano, porque é evidente que muita coisa está mudando e que o importante é perceber os sinais dessa mudança para tomarmos decisões bem fundamentadas.

Os sinais da mudança
Sendo claro que a indústria de televisão e produção de conteúdos se move cada vez mais ao ritmo que é imposto por outras indústrias, desde a electrónica de consumo e semicondutores às tecnologias de informação, a NAB 2014 será lembrada como um ano de claros sinais de evolução por parte de alguns players que entenderam essa dinâmica.
Mas olhemos para os sinais da conjuntura. De acordo com os mais recentes estudos de mercado – e vamos recorrer aqui a alguns dados da Futuresource Consulting e do SMPTE precisamente disponibilizados na NAB 2014 – o mercado de televisão refletirá o impacto da evolução para Ultra Alta Definição (4K de acordo com a norma ITU UHD1, sendo os 8K a etapa UHD2), uma vez que a própria indústria electrónica de consumo, principalmente os grandes fabricantes de displays já iniciaram essa transição.
Um pouco por todo o mundo, mesmo com alguns mercados emergentes como a China ainda a representar centenas de potenciais novos consumidores, a verdade é que a venda de painéis planos de alta definição atingiu o ponto de saturação. Ou seja, existe mais oferta disponível em armazéns e lojas do que consumidores para os comprar.
Ainda, com os três últimos anos dedicados a “televisores 3-D”, muitos consumidores que obviamente não estavam interessados no efeito estereoscópico optaram por não comprar nada ou simplesmente compraram o que estava disponível “sem 3-D” a preços de saldo.
De acordo com a Futuresource, ao longo de 2014, o mercado de televisores em todo o mundo vai crescer apenas 1%, representando cerca de 230 milhões de unidades, a maioria das quais vendidas na América Latina, Oriente Médio, África e Ásia-Pacífico. Mas o valor da venda desses milhões de painéis representa um faturamento de US$ 105 bilhões que pouco chega para cobrir os custos e muito menos os prejuízos acumulados dos últimos 3 anos com os painéis estereoscópicos.
Para aumentar as margens, a indústria percebeu que tinha que deixar a produção de painéis “apenas HD” para trás e concentrar-se num patamar de qualidade superior. De acordo com um relatório do SMPTE, os fabricantes de painéis estão acelerando a produção de soluções UHDTV, assumindo que o 4K acontecerá, aconteça o que acontecer. A evolução para telas 4K é totalmente independente do tipo de tecnologia subjacente utilizada ser LCD com retroiluminação LED, IPS, OLED ou outra, assim como das inovações que estão sendo implementadas. O custo de produção de uma tela 1080p ou 2K é exactamente o mesmo e os 4K são a única forma que os fabricantes têm de ganhar margem.
E não estamos falando apenas de televisores. A indústria de displays se move hoje em dia mais pelos tablets, smartphones e computadores do que propriamente por televisores e monitores de grande dimensão.
Por isso, mesmo nos dispositivos menores começamos a ter painéis com mais de 2000 linhas de resolução, enquanto nas dimensões de 10 polegadas para cima vamos provavelmente ter telas de 4000 linhas como o novo padrão.
No final de 2014, estimam as empresas de estudos de mercado, os televisores 4K representarão já 5% do mercado global (Futuresource) ou cerca de 12,7 milhões de unidades vendidas (DisplaySearch/NPD), sobretudo na China. No entanto, a penetração nos mercados norte- americano e europeu não deverá superar os 10% até 2018 (ABI Research), mercados onde a penetração de televisores HD está agora atingindo os 90% e cerca de 80% na Europa (Strategy Analytics).
A Consumer Electronics Association (CEA) norte- -americana é bastante mais otimista (como lhe compete) e projeta que mais de 50% dos televisores LCD acima de 55 polegadas vendidos até 2017 sejam UHDTV.
Agora o desafio consiste em conseguir aumentar as margens com esta transição tecnológica e, para isso, é necessário incentivar os “geradores de conteúdos”, sejam eles quais forem, a disponibilizar os sinais que justifiquem aos olhos dos consumidores um investimento para algo desejável.
Para isso, contribui o fato de já existirem sensores com muitos milhões de pixels disponíveis e não existem dúvidas de que, do lado das câmeras – das integradas nos smartphones, passando por câmeras de ação tipo GoPro, até às câmeras de televisão e cinema digital – o futuro passa pelos 4K ou até pelos 8K. Por outro lado, sendo muitas das imagens que dispomos hoje em dia geradas por computador ou resultantes da transcrição direta da fotografia “analógica” e da película, não existem grandes problemas em redigitalizar conteúdos para corresponder a essas 4000 mil linhas de destino. Isso mesmo, aliás, ficou claro na NAB 2014.
Finalmente, com os televisores, computadores e dispositivos móveis crescentemente ligados à internet e serviços de streaming, existe um canal óbvio para disponibilizar os conteúdos 4K diretamente ao consumidor, sem esperar pela evolução das plataformas de televisão tradicionais – outra das lições evidentes da NAB 2014 e algo que já se tinha constado no CES 2014, a exposição da indústria global de eletrônica de consumo, com os anúncios feitos pela Netflix, Sony e outros.

Tanto no caso da Cisco como de muitas outras empresas, a aposta nos 4K passa por desenvolver aplicações em mercados como os estádios e locais de entretenimento.

Tanto no caso da Cisco como de muitas outras empresas, a aposta nos 4K passa por desenvolver aplicações em mercados como os estádios e locais de entretenimento.Os televisores conectados já são hoje em dia mais de um terço do mercado global – e por conectados estamos falando de ligações diretas à internet, sejam televisores “smart”, seja através de caixas tipo Apple- TV, Roku, Google Chrome e outras que aparecerão. De acordo com a previsão da Futuresource, as televisões ligadas diretamente à internet – não propriamente à operadores de cabo, satélite e IPTV tradicionais – deverão atingir os 87% até 2018, sendo evidente que, cada vez mais, as televisões vão integrar os próprios dispositivos de acesso conectado e reforçar a ligação aos grandes operadores de conteúdos.

Os fundamentos do 4K
Uma clara tendência que se pode observar na NAB 2014 é que a evolução para 4K acontecerá não apenas pelos fatos anteriormente descritos, mas também porque a própria indústria de conteúdos audiovisuais, cinema e televisão precisa desse “impulso” para se reinventar e continuar a crescer.
A tecnologia sempre foi algo que serviu para esta indústria manter o seu apelo universal e, mesmo que nos fundamentos técnicos possa parecer algo abstrato, a verdade é que o mercado broadcast – tal como o cinema – precisa de reestabelecer um patamar diferenciador em relação às tecnologias de consumo para se manter relevante.
Não estamos obviamente falando dos conteúdos, porque esses têm sempre valores de produção que os consumidores não podem reproduzir. Mas com cada vez mais consumidores a partilhar conteúdos no Youtube, a indústria de televisão não pode ser confrontada com o fato de os conteúdos gerados para a internet, usando simplesmente a câmera de um iPhone ou uma GoPro, terem mais qualidade do que as câmeras das estações de televisão. No entanto, é precisamente isso que acontece nos países – como muitos na Europa – onde os sinais de televisão SD em formato 4:3 ainda são dominantes. Ou seja, a transição do “vídeo” HD para 4K tem que ser feita como parte da assunção dos valores inerentes ao “broadcast”. E na NAB bastava visitar os estandes dos fabricantes de equipamento de teste e medida (T&M) para perceber como isso será feito de várias formas, não apenas baseado na resolução ou número de linhas de TV. Ao visitar a inglesa OmniTek, uma das empresas de T&M mais inovadoras no mercado, estava sendo promovida a sua ‘Ultra’ 4K Tool Box, numa solução compacta 1U de meio bastidor, verificamos como é possível ter ferramentas de conversão e análise para todo o tipo de sinais, desde Ultra HD (3840×2160/60p) até cinema digital (4096×2160/60p), já com suporte dual 6G e quad 3G for 4K/60, HDMI e Display Port, tanto para fontes como display. Através de um simples web browser conseguimos gerar sinais de teste, analisar as características do sinal, com todas as rotinas habituais do “vídeo”, além de podermos fazer conversão de HD para 4K, descendente, de 4K para HD, conversões cruzadas e de codificação de cor, fazer crops dinâmicos ou zooms nas conversões etc.
Ao falarmos com a OmniTek, estes disseram-nos aquilo que já tínhamos a sensação de saber. É que com a disponibilidade destas ferramentas e com a pressão que os 4K vão trazer sobre a indústria, vai-se tornar cada vez mais fácil e econômico fazer HD realmente bom! Isto é, para muitas estações de televisão – e mesmo para consumidores – esta evolução vai permitir- -nos finalmente ver conteúdos em sinais 1080p/60 e não mais sinais que resultam de 720p ou 1080 entrelaçado e fortemente comprimido. E com ferramentas como esta ‘Ultra’ 4K Tool Box e muitos multiviewers e conversores que vimos por todo o lado em Las Vegas, pelo menos vemos poder lidar convenientemente com sinais 3G-SDI e 2K DCI com estes equipamentos “4K”.
O próximo passo consiste em expandir os espaços de cor do normal ITU-R 709 para algo mais abrangente como a recomendação ITU BT.2020 ou, conforme destacava a Dolby, para a tecnologia High Dynamic Range que a indústria de cinema adora, obviamente. Longe do seu espaço natural no âmbito do som, a Dolby está promovendo ativamente o seu próprio processo Dolby HDR, em colaboração como muitas das empresas de laboratório e imagem. Este é seguramente um âmbito que extravasa facilmente esta reportagem, mas podemos partilhar que as demonstrações que vimos em Las Vegas são convincentes. Tão convincente como ver imagens 4K e 8K a 120Hz (120 frames progressivos por segundo), algo que se podia ver por todo o lado em Las Vegas. Não sei se a indústria está preparada para evoluir para 120 fps, tendo em conta as reacções, no mínimo estranhas e desajustadas que The Hobbit, de Peter Jackson a 48fps teve no mercado. Mas se o debate servir para ficarmos nos 60p, já não seria nada mau. Mas isso é um debate (necessário) bem mais complexo.
Além do número superior de frames (ou HFR – não confundir com HDR), o principal trabalho que está sendo feito diz respeito aos codecs para emissão/distribuição (HEVC) e às interfaces de conexão – DisplayPort 1.X, HDMI 2.0, Thunderbolt e outras alternativas como HDBase-T. Todas as associações e consórcios por detrás destas interfaces estão melhorando especificações para suportar 4K até 60Hz e espaços de cor alargados, pelo menos. Nos próximos anos, todos continuarão a coexistir em domínios de aplicação específicos, disso estamos seguros.

HEVC e o futuro do broadcast
Com base nas demonstrações que se puderam observar na NAB 2014, os codecs H.265 e HEVC (High Efficiency Video Coding) permitiam atingir já resultados notáveis, transformando streams de sinais 4K em bit rates de sinais 2K, ou transformar sinais 2K a 60 fps em sinais equivalentes a uma emissão SD na era do MPEG- 2. A evolução na tecnologia de compressão foi um dos aspectos mais notáveis nesta edição. Embora falte ainda um pouco mais até podermos ter como garantidos os decodificadores com uma eficiência de 50% em relação aos melhores codecs H.264, os atuais equipamentos de consumo, tal como o novo player Sony FMP-X10 que vimos em demonstração no estande da marca, são capazes de decodificar HEVC e portanto sinais 4K com uma qualidade assinalável. A partir daqui, pelas demonstrações que vimos da Ateme, MainConcept e NTT, as coisas vão melhorar bastante.
Por outro lado, seguramente que a nova tecnologia de compressão HEVC irá fazer parte determinante dos novos padrões de televisão. Se na Europa ainda há pouco tempo se começou a falar em DVB-T2, os Estados Unidos estão agora trabalhando a bom ritmo na análise das diferentes propostas para o padrão ATSC 3.0, acompanhando-se ao mesmo tempo o trabalho que está sendo desenvolvido no Japão, onde a NHK já confirmou a intenção de fazer as primeiras emissões terrestres experimentais de 4K e 8K em 2016, com emissões experimentais regulares a iniciarem-se em 2018. Um objectivo para o qual as demonstrações efectuadas pela NHK e outras empresas no espaço NAB Labs Futures Park na NAB 2014 tornaram evidente que são concretizáveis.
Durante a NAB 2014 vimos também o consórcio Futurecast Universal Terrestrial Broadcasting System, criado pela LG Electronics, Zenith and GatesAir (anterior Harris Broadcast), anunciar que nos próximos meses serão efectuados os primeiros testes de tecnologia ATSC 3.0 em transmissão terrestre, incluindo recepção móvel. De acordo com a comunidade da Futurecast, essas emissões em rede de frequência única utilizarão conteúdos UHD 4K em conjunto com dois streams de televisão móvel num único canal de 6-Megahertz, com recepção no interior de edifícios.
Entre as características do sistema Futurecast anunciadas nas demonstrações em curso no estande da GatesAir, está uma eficiência de pelo menos 30% e melhor robustez em termos de multi-trajetória comparativamente ao atual padrão ATSC 2.0, para recepção fixa e móvel. Os testes prevêem igualmente a implementação de modos ainda mais robustos, com correção de erros e constelações de sinais avançadas, assim como a inclusão de extensões para evolução futura. Além disso, as demonstrações prevêem o transporte simultâneo de formatos de dados com protocolo internet no feixe de transporte.

Os grandes players na área da televisão multiplataforma, como a Ericsson deixaram claro que estão preparando todas as suas soluções para transformar os 4K no novo padrão.

Os grandes players na área da televisão multiplataforma, como a Ericsson deixaram claro que estão preparando todas as suas soluções para transformar os 4K no novo padrão.

A evolução do HEVC e 4K
Nos últimos dois anos, tem sido notável o empenho colocado pela indústria na evolução da tecnologia de codificação HEVC (High Efficiency Video Coding). O esforço de desenvolvimento que foi feito neste domínio justificava-se desde que se perceberam claramente que existiam limitações que impediam a evolução da indústria para normas HD de varrimento progressivo a 50/60 – que em 2011 eram descritas como essenciais para a estereoscopia 3-D. Depois, começou a se falar em 4K e 8K, e a sua necessidade para a indústria de televisão se tornou ainda mais imperativa. Mas em última análise, todo o esforço de desenvolvimento que está sendo aplicado sobre HEVC tem como fundamentação sobretudo o enorme tráfego de vídeo sobre a internet que, segundo estimativas deverá atingir os 80% de todo o tráfego na internet até 2017. Ou seja, era preciso urgentemente desenvolver uma forma de codificação de vídeo drasticamente mais eficiente, e as demonstrações preliminares no âmbito do HEVC provaram ser possível atingir entre 35% a 50% da eficiência desejada.

O problema é que, só em 2013, quando se tornou evidente que toda a evolução da indústria estava dependente desta evolução tecnológica, é que a especificação do novo padrão ficou pronta.
Este ano, vimos pela mão de múltiplas empresas que a evolução da codificação HEVC avançou de forma notável. Por exemplo, no estande da japonesa NTT Laboratories, já estava disponível o software de conversão de arquivos para HEVC, o primeiro no seu género no mercado. Esta solução é capaz de processar uma grande variedade de formatos de arquivos (virtualmente todos os formatos fonte, desde Quicktime e ProRes até MPEG, AVC etc.), permite a verificação de players, servidores, redes e serviços VOD baseados em H.265/ HEVC, e permite parametrizar streaming de acordo com a cadência de dados, quantização etc.
Sendo a NTT Laboratories uma das empresas pioneiras em codificação H.264 que conseguiu optimizar esta tecnologia até onde foi possível, o trabalho agora demonstrado no âmbito do H.265/HEVC é realmente prometedor, principalmente no que diz respeito ao processamento de imagens 4K de alta qualidade.
Outras demonstrações interessantes no estande da NTT incluíam um sistema de vídeo sobre IP de alta velocidade já capaz de suportar o fluxo de sinais 4K sem compressão, implementado sobre um servidor SHS- -XMS e com conversores SDI para redes Ethernet e existindo já um monitor de rede para observar a qualidade da transmissão sobre IP. A demonstração do sistema viaPlatz 4K (Super High Speed IP Video System) incluía ainda a integração de um novo decodificador NTT HVD9130 para sinais AVC/H.264 a 10bit 4:2:2 e MPEG-2 de alta qualidade, com um delay de apenas um frame e grandes melhorias de qualidade em low bit-rate.
Outra importante evolução nas soluções HEVC era demonstrada pela ATEME com a evolução da sua plataforma Titan Live, agora com suporte de codificação HEVC 4Kp60 incluindo um perfil de qualidade ótima em largura de banda reduzida a apenas 19 Mbps (para sinais 4Kp60). O sistema usa entradas quad 3G-SDI para receber o sinal UHD de banda base (sem compressão) e codifica-o em modo full frame a 4K. Aliás, um único chassis Titan pode suportar dois canais de processamento UHD, permitindo assim gerar um sinal 4K para emissão ao mesmo tempo que gera outras aplicações HD para streaming, VOD etc.
Numa demonstração em parceria com a LG Electronics, a ATEME mostrava sua plataforma Titan codificando um sinal 4K em HEVC perfil Main 10, visualizado num televisor LG de 65”, com uma qualidade notável. Outra demonstração H.265/MPEG-HEVC que vimos foi no estande do Instituto Fraunhofer (Alemanha), neste caso focada na codificação e decodificação em tempo real conseguindo uma redução de aproximadamente 50% na cadência de dados (bit rate), mantendo a qualidade subjetiva do vídeo.
Mostrando uma cadeia de sinal completa na NAB, o Fraunhofer HHI mostrava também aplicações para sinais Full HD de grande qualidade, com o sinal codificado em HEVC empacotado num feixe de transporte MPEG-2, enviado sobre IP para um sistema de player que o decodificada e reproduzia para um monitor com interface HDMI 2.0.
Adicionalmente, o Fraunhofer HHI mostrava um software de decodificação HEVC em tempo real, com suporte de resoluções até 4K a 10bit e 60 Hz, graças a uma arquitetura multi-threading (suporte de múltiplos processadores com múltiplos núcleos). Interessante nesta demonstração era a possibilidade de se experimentarem os diferentes perfis de codificação HEVC e verificar como os sinais 4K podem ser bastante comprimidos e mesmo assim manterem uma qualidade subjetiva impressionante, mesmo quando visualizados num televisor de 84 polegadas.
De resto, por toda a NAB 2014 era possível encontrar demonstrações de codificação e decodificação HEVC com sinais 4K, sendo que em quase todas reparávamos a presença da Elemental Technologies como parceiro de tecnologia. Efetivamente esta empresa de Portland, Oregon, nos Estados Unidos, parece ter emergido como o parceiro de preferência de quase todas as grandes empresas broadcast, por causa da sua arquitetura de processamento de vídeo baseada em software.

A televisão de Ultra Alta Definição a 4K vai mesmo para a frente. Essa foi uma mensagem clara na NAB 2014, começando pelo stande da Sony e terminando na Blackmagic.

A televisão de Ultra Alta Definição a 4K vai mesmo para a frente. Essa foi uma mensagem clara na NAB 2014, começando pelo stande da Sony e terminando na Blackmagic.

Na NAB 2014 a Elemental mostrava a versão mais recente desta plataforma (2.4) em colaboração com a Adobe, Accedo, aioTV, Akamai, Brightsign, Broadcom, DivX, Dolby Laboratories, DTS, Entone, GPAC Licensing, Grass Valley, Level 3, RED, STMicroelectronics, Verimatrix, ViXS, entre outras.

Esta versão 2.4 das ferramentas de compressão da Elemental é a que introduz perfis adaptativos HEVC e principalmente o suporte de sinais UHD 4K, além de suporte melhorado à tecnologia DRM Adobe Primetime, perfis atualizados para o YouTube, suporte MXF Op-1a, e suporte expandido para inserção de publicidade, legendagem e elementos gráficos.
No núcleo destas soluções está o Elemental Video Engine, agora com processamento virtualizado em servidores VMware e Citrix XenServer e já com suporte de arquiteturas em Cloud.
A Elemental proporcionava aliás outra boa comparação lado a lado de compressão H.264 versus HEVC, com resoluções de cor a 8-bit versus 10-bit e processamento 4Kp30 vs. 4Kp60. Uma vez que usavam sempre o mesmo motor de processamento, a demonstração era muito interessante, mas infelizmente era impossível captar imagens para ilustrar esta reportagem – pelo menos onde se percebesse algo de interessante.

Dynamic Adaptive Streaming over HTTP
A demonstração mais impressionante, em parceria com a Akamai, era a primeira apresentação mundial de um sinal HEVC 4Kp60 sobre MPEG-DASH (Dynamic Adaptive Streaming over HTTP) para distribuição na internet, num fluxo que atingia no máximo 17Mbps. Tratando-se de sequências de esporte em 4K, era impressionante. De acordo com Elemental existem atualmente mais de 20 operadores de satélite, cabo e IPTV preparando o lançamento de canais experimentais 4K, ainda para 2014, principalmente para suportar as transmissões disponíveis do Mundial da FIFA (De fato, na NAB a Hispasat apresentou seu canal Hispasat 4K para norte-america e centro américa).
Quem também tinha obviamente múltiplas demonstrações HEVC de sinais 4Kp60 eram a Harmonic e a Ericsson, responsáveis pelos dois maiores estandes do South Hall do centro de convenção de Las Vegas (Curiosidade: sabem qual era o segundo maior estande da NAB 2014, a seguir ao da Sony? Era o da Blackmagic).
A Harmonic escolheu a solução da Altera para codificação H.265 4Kp60 baseada em hardware. Tendo várias áreas de demonstração de aplicações UHD 4K no seu estande, a Harmonic explicava que a solução FPGA Stratix V da Altera permitia atingir uma eficiência de compressão de 60% com sinais 4Kp60 em comparação à melhor codificação H.264 disponível. A plataforma EME (Enhanced Motion Estimation) da Altera, implementada em servidor, permite a aceleração em hardware do software PURE Compression Engine da Harmonic para responder às necessidades da transição para UHD 4K, “permitindo suportar processos em tempo real, com menos consumo, menor espaço em rack e com menos capacidade de CPU do que qualquer outra solução existente na indústria”, afirmavam os responsáveis da Harmonic.

No prazo de um ano, graças à evolução da compressão H.265/HEVC, as demonstrações de vídeo 4K tornaram-se extremamente convincentes. A edição 2014 da NAB teve mais de 98 mil visitantes.

No prazo de um ano, graças à evolução da compressão H.265/HEVC, as demonstrações de vídeo 4K tornaram-se extremamente convincentes. A edição 2014 da NAB teve mais de 98 mil visitantes.
A demonstração em curso no estande da Harmonic e da própria Altera incluía, também, soluções para processamento e transporte de sinais até 8K. Outra vantagem nesta arquitetura promovida pela Harmonic é que a solução de software e hardware pode receber actualizações no futuro, beneficiando-se da evolução da tecnologia.

Quem estava também bastante interessado nas aplicações 4K era a Cisco, que se multiplicou em esforços para promover as suas soluções de streaming Videoscape TV na NAB 2014. Esta plataforma de processamento virtualizado (V2P) da Cisco passa agora a suportar conteúdos 4K full-frame e codificação HEVC em tempo real e para serviços On-demand. De particular interesse para a Cisco são as aplicações potenciais da tecnologia em estádios e complexos esportivos, tendo a empresa promovido demonstrações onde traziam sistemas de redes que não apenas alimentavam telas gigantes, mas toda uma rede de monitores e até aplicativos para dispositivos móveis presentes no local, tudo sobre HTML5.
A Cisco colaborou com a Sony numa demonstração onde se enviaram conteúdos 4Kp60 em tempo real de Nova York para o Las Vegas Convention Center, usando a tecnologia Videoscape AnyRes da Cisco, para enviar sinal para uma set-top box 4K da Cisco. O sinal em Nova York foi captado com uma câmera Sony F55, codificado em HEVC pelo sistema Videoscape AnyRes da Cisco, enviado para Las Vegas por fibra óptica e visualizado num televisor Sony XBR 4K.
Outra importante implementação 4K que vimos na NAB 2014 diz respeito ao novo codec lançado pela DivX HEVC que a empresa afirma estar sendo adoptado já em várias soluções OTT e serviços como o Ultraviolet dos estúdios de Hollywood. A solução da DivX usa naturalmente o SDK da MainConcept, permitindo principalmente o suporte de codificação HEVC 4K em tempo real e está em vias de ser integrada diretamente em chips integrados, o que irá seguramente acelerar a chegada de leitores compatíveis e serviços ao mercado.
Por outro lado, a própria MainConcept anunciou na NAB que a sua plataforma de codecs H.264 Broadcast que está por detrás de muitas das principais soluções profissionais existentes no mercado, passou a suportar também a codificação e descodificação do formato XAVC e XAVC S, desenvolvido pela Sony para suportar gravação 4K até 60 frames por segundo e que é usado nas câmeras Sony CineAlta PMW-F55 ou F5. A MainConcept suporta importação e exportação de arquivos XAVC HD/4K (LongGOP) Profile, XAVC HD Intra Profile class 50/100/200, e XAVC 4K Intra Profile class 100/300/480. Com a integração destes formatos no SDK da MainConcept, será agora possível ter muitas mais soluções compatíveis para acelerar a produção de conteúdos 4K.

Continuará…

Mais de 98 mil visitantes teve esta edição da NAB.