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As origens de uma grande invenção

TV DIGITAL DE PONTA A PONTA

Série PP – TV Digital – Parte 1

Nós, os profissionais de televisão, somos frequentemente indagados sobre quem inventou e quando foi inventada a televisão. Confesso que são perguntas difíceis de responder, pois trata-se de uma área que envolveu muito tempo, muita pesquisa e uma grande variedade de tecnologia.

A invenção não foi de um equipamen to específico, mas sim de um sistema, ou melhor, de sistemas, pois o assun to engloba captação e tratamento de imagem, transmissão e recepção dos sinais.

Assim, o que podemos oferecer como resposta é uma cronologia mais ou menos organizada das pesquisas e eventos que culminaram nos sistemas de televisão, apontando os pontos mais importantes, pois há casos em que ocorreram diversas pesquisas sobre o mesmo assunto em diferentes países simultaneamente.

Muitos garantem que a televisão foi inventada no ano de 1817, mas na verdade, esse foi o ano em que o químico sueco Jons Jacob Berzelius descobriu o elemento químico selênio. Aqui começa a nossa história. Alguns anos depois, em 1839, o francês Alexandre Edmond Becquerel estudou e descobriu os efeitos fotoelétricos de certos materiais, como a fosforescência e a fluorescência.

Em 1873, o inglês Willoughby Smith e seu companheiro de trabalho Joseph May descobriram, 34 anos após Becquerel pesquisar os efeitos fotoelétricos dos materiais, que o selênio era um dos elementos capazes de transformar a energia luminosa em elétrica. Os dois trabalhavam na Telegraph Construction and Maintenance Company Ltd., uma empresa ligada à telegrafia.

Paralelamente, em 1843, numa linha totalmente diferente de pesquisa, o escocês aprendiz de relojoeiro Alexander Bain patenteou um aparelho copiador. A imagem preparada com uma tinta especial era depositada sobre um cilindro giratório e transmitida por um sistema de telégrafo através de um par de fios. No outro extremo, o sinal era recebido e encaminhado a outro cilindro contendo um papel tratado quimicamente e que girava sincronizadamente com o emissor, o qual recebia os impulsos elétricos do transmissor e imprimia o negativo da imagem original.

Em 1855, Giovanne Caselli, um frade italiano idealizou um sistema através do qual ele transmitiu imagens, via telégrafo, entre Paris e a cidade de Amiens localizada 120 km ao norte de Paris. Esse sistema reproduzia as imagens num papel sensibilizado com uma substância química (cianureto de potássio). Essa técnica ficou conhecida como “fototelegrafia”, ou seja, transmissão de imagens à distância usando um par de fios condutores.

Disco de Nipkow

Figura 2 - Tubo de Braun

Sintetizando todas essas descobertas, em 1881 o inglês Sheldorf Bidwell apresentou um equipamentos que possibilitava a transmissão de imagens impressas através de fios elétricos. Notemos que o empenho dessa linha de pesquisadores era no sentido de conseguir transmitir imagens estáticas através de condutores elétricos, utilizando a rede de telegrafia existente.

Em janeiro de 1884, o cientista alemão Paul Gottlieb Nipkow, patenteou um sistema de transmissão de imagens à distância que se tornou conhecido como “disco de Nipkow” (figura 1), tendo sido por isso chamado, muitos anos depois, de “fundador da técnica de TV”. Por esse motivo existe uma segunda vertente que afirma ter sido esta a data da invenção da televisão.

Figura 3 - Sistema de televisão semi-mecânico de BairdA ideia de Nipkow era explorar uma imagem através de fotocélulas. Ele tomou uma lâmina opaca circular contendo 24 orifícios distribuídos em forma de espiral e a posicionou sobre uma imagem estática. Quando o disco era girado, cada um dos orifícios descrevia uma linha circular concêntrica e, apenas um de cada vez, deixava passar a luz até a fotocélula posicionada à frente do sistema, produzindo com isso uma imagem decomposta em 24 linhas. No outro extremo, no lado do receptor, o sistema era idêntico, apenas substituindo a fotocélula por uma lâmpada cuja intensidade era modulada pelo sinal proveniente da fotocélula.

As limitações tecnológicas da época impediam a boa reprodução das imagens graças à lentidão de resposta das fotocélulas de selênio até então disponíveis, além da sua baixa sensibilidade, o que a tornava insuficiente para ativar de forma satisfatória o elemento reprodutor de imagem do receptor. Isso fez com que Nipkow não levasse adiante seus estudos sobre o sistema, o que provocou um retardo na invenção da televisão.

Enquanto isso, em 1887, Heinrich Rudolph Hertz descobriu a existência de ondas eletro magnéticas o que revolucionou a telegrafia, até então, realizada através de fios metálicos. Hertz ficou muito famoso e conhecido por esse trabalho, porém, sua contribuição no campo da ótica é igualmente importante em bora muito desconhecida. Foi ele o primeiro cientista a investigar o fenômeno do efeito fo toelétrico, ou seja, a capacidade que determi nadas superfícies possuem de emitir elétrons quando submetidas a radiações eletromag néticas acima de determinadas frequências. Ambos os estudos desenvolvidos por Hertz se tornaram, sem que ele pudesse imaginar, componentes fundamentais para o funciona mento da televisão.

Em 1880, o cientista francês Maurice Le Blanc, descobriu que se sucessivas imagens fossem apresentadas a uma velocidade constante e determinada podia-se perceber uma sensação de movimento, graças à persistência do sistema visual humano de reter por uma pequena fração de segundo a última imagem vista. Essa foi uma descoberta muitíssimo importante para a invenção da televisão

Poucos anos depois, em 1892, dois cientistas alemães, Julius Elster e Hans Friederich Getbel, produziram a primeira célula fotoelétrica prática, muito mais sensível e com resposta bem mais rápida do que o selênio, chegando a um componente de importância fundamental para o “conceito” da televisão.

Numa terceira linha de pesquisas, o físico e matemático inglês Julius Plucker, em 1859, havia descoberto os raios catódicos, o que possibilitou que em 1897 o físico alemão Karl Ferdinand Braun construísse um tubo de raios catódicos com o qual podia controlar o feixe de elétrons, por ele produzido, e distribuí-lo controladamente sobre uma superfície fosforescente. Esse componente ficou conhecido como “tubo de Braun” (figura 2).

Várias outras invenções ou descobertas que propiciaram e colaboraram para o apare cimento da televisão foram realizadas. Eu particularmente acredito, que a sua invenção começou a acontecer quando, em 1900, o francês Constantin Perskvi definiu e usou pela primeira vez a palavra “televisão”, unindo os termos “tele” do grego “longe” com a palavra latina “videre” (ver). Nessa ocasião, Perskvi apresentou no Congresso Internacional de Eletricidade, em Paris, uma tese que tinha como título “Televisão”, onde ele descrevia um equipamento que, utilizando as propriedades fotocondutoras dos elementos químicos permitia a transmissão de imagens à distância.

Em meados de 1906, simultaneamente, o russo Boris Lwowitsch Rosing e o físico alemão A. R. B. Wehnett desenvolveram aparatos que envolviam tanto o sistema de disco de Nipkow com algumas modificações mecânicas e a inclusão de espelhos para a captação de imagens, como os tubos de raios catódicos para formar o sistema de exibição dessas imagens, utilizando as bem sucedidas técnicas que seus colegas cientistas, já citados, haviam alcançado.

No ano de 1908, o engenheiro eletricista inglês Archibald Campbell Switon sugeriu que fossem utilizados tubos de raios catódicos tanto na captação como na reprodução das imagens. Ele via isso como solução para os problemas mecânicos que emperravam os sistemas de até então.

Em 1911, Sinding e Larsen propuseram a utilização de três canais para a transmissão do sinal de televisão sem fio, sendo um ca nal para a imagem, outro para o sincronis mo horizontal e o terceiro para o sincronismo vertical.

Em 1923, os pesquisadores W. S. Stephenson e G. W. Walton propuseram que a exploração da imagem fosse feita de forma entrelaçada no sistema de disco de Nipkow. Isso teria sido realmente uma boa solução para a época, não fossem a inércia mecânica do disco de Nipkow e a lentidão da resposta das fotocélulas que limitavam muito o rendimento do sistema de televisão, prejudicando, sobretudo, o aumento da definição das imagens. Mesmo assim, isso começou a definir o fim da era da mecânica na televisão.

Em fevereiro de 1924, o escocês John Logie Baird demonstra, em Londres, uma transmissão semi-mecânica de imagens através de circuitos sem fios (figura 3). Paralelamente, o americano Charles Jenkins demonstra sua versão de transmissão mecânica de imagens. Ambos os sistemas eram baseados no sistema de disco de Nipkow.

Mas 1924 foi o ano que marcou uma nova etapa na evolução dos sistemas rumo à televisão que conhecemos hoje. Nesse ano, o russo Vladimir Kosma Zworykin, discípulo de Boris Rosing e seu assistente em vários trabalhos de laboratório, patenteou o iconoscópio, primeiro tubo de raios catódicos específico para câmeras de televisão (figura 4).

O iconoscópio era um tubo de vácuo arma zenador de cargas cujo comportamento era extremamente dependente da luz. A imagem focalizada era armazenada na superfície fo tossensível do tubo em forma de cargas de onde era lida através de um feixe de raios catódicos controlado por campo magnético. Isso fazia com que esse sistema se livrasse de uma vez dos inconvenientes apresentados pelo sistema mecânico.

Em 2 de outubro de 1925, Baird conseguiu pela primeira vez visualizar no seu laboratório a imagem de um rosto humano. Em 26 de janeiro de 1926, ele apresentou para 14 membros do Royal Institution, em Londres, seu sistema rudimentar de televisão e se torna a primeira pessoa a transmitir imagens de silhuetas em movimento. Por isso, acho que podemos dizer que esta é uma data com bons motivos para ser considerada como a do aparecimento da televisão.

Figura 4 - Iconoscópio de Zworykin e Figura 5 - Philo Taylor e o Dissecador de imagem

Dois anos após, em 07 de janeiro de 1927, Philo Taylor Farnsworth patenteou uma nova versão de tubo de raios catódicos chamado “dissecador de imagens”. Porém o componente não oferecia uma resolução satisfatória (figura 5). Apesar disso, com esse tubo mesmo foi realizada a primeira demonstração de um sistema totalmente eletrônico, feita por John Logie Baird e Farnsworth em 03 de setembro de 1928.

A RCA (Radio Corporation of America) convidou Zworykin para coordenar uma equipe encarregada de produzir em escala industrial o primeiro tubo de câmera de televisão, o que aconteceu em 1945. A esse tubo foi dado o nome de “orthicon”. Alguns anos depois, foi criado o “orthicon de imagem” (figura 6), um aperfeiçoamento do “orthicon”.

Como podemos observar, a invenção da te levisão ocorreu em três fases distintas que podem ser divididas em:
– A “fototelegrafia” que surgiu com a invenção das células fotoelétricas, possibilitando a transmissão de imagens, embora estáticas, até um receptor. Era a transmissão de fotografias via telégrafo;
– A “televisão mecânica” que teve início a partir da idéia patenteada por Nipkow em 1884;
– A “televisão eletrônica”, da forma que conhecemos hoje, originada a partir das participações de Braun, que em 1897 inventou o tubo de raios catódicos, de Zworykin, que em 1924 inventou o iconoscópio, possibilitando a eliminação das partes mecânicas do sistema e da primeira exibição de Baird em Londres.

Não podemos deixar de mencionar, nesse ponto, o início dos estudos sobre a TV em cores. Mas por que tratarmos disso agora, se cronologicamente ainda estamos em 1928? Acontece que um visionário americano chamado Herbert Eugene Ives, já em 1929 realizou uma transmissão em cores em Nova Iorque. A imagem mostrada por ele tinha apenas 50 linhas de definição e 18 quadros por segundo e foi transmitida através de um par de fios.

Em 1940, o cientista húngaro Peter Carl Goldmark mostrou um sistema mais aperfeiçoado conseguindo 343 linhas e 20 quadros por segundo. Podemos adiantar que as transmissões regulares de TV em cores nos EEUU só iriam começar em 1954!

Para os cientistas e pesquisadores que viveram esse período, chegar a esse estágio da tecnologia não foi uma tarefa das mais simples, pois o marco de partida foi o de conhecimento zero e com recursos ínfimos perto do que temos hoje. Na verdade, a partir daqui a própria televisão começou a fornecer recursos para o seu próprio progresso, afinal, não existe coisa mais valiosa para a pesquisa do que a informação, e isso é o que a TV faz muito bem.

Os aperfeiçoamentos da tecnologia

A partir de 1927, os avanços relacionados à tecnologia de televisão se tornaram muito frequentes, ocorrendo em espaços de tempo cada vez menores. Os primeiros televisores nada mais eram do que receptores de rádio contendo um tubo de neon que produzia uma imagem avermelhada de cerca de 3 x 2 cm gerada a partir de um disco de Nipkow com ligeiras modificações.

Nessa época, na Universidade de Massachusetts, começavam estudos objetivando a melhoria da resolução de imagens dos aparelhos de TV, pois até então eles trabalhavam com apenas 30 linhas. Em meados de 1929, a NBC (National Broadcasting Company) fez, através da emissora W2XBS, uma transmição com um sistema de 60 linhas e ao final da década de 40, as resoluções já alcançavam 240 linhas.

Em 1935, começam a surgir as emissoras de TV nos países da Europa, uma com tecnologia mais avançada que a outra, numa competição que trouxe e tem trazido, até hoje, grandes benefícios para a humanidade. Nesse mesmo ano, a Alemanha (em março) e a França (em no vembro) iniciaram suas transmissões. A França surpreendeu o mundo com seu sistema de 819 linhas de definição dando um show de imagem. Seu transmissor estava localizado na famosa Torre Eiffel.

Em 1936 foi o ano em que a Inglaterra inaugurou a sua emissora, a BBC de Londres, com um sistema de 405 linhas. Menos de um ano depois, a cerimônia de coroação do Rei Jorge VI foi transmitida através de três câmeras totalmente eletrônicas, o que foi testemunhado por cerca de 50 mil telespectadores. Nesse ano a Alemanha transmitiu pela primeira vez um dos maiores eventos mundiais que foram os Jogos Olímpicos de Berlim.

Nos anos seguintes, 1938 e 1939, Rússia e Estados Unidos colocam no ar os seus sistemas de televisão. O sistema russo trabalhava com 625 linhas e o americano com 525. Em Nova Iorque, a transmissão da NBC foi vista em cerca de 400 receptores. O ano de 1939 marcou também o início das vendas dos primeiros receptores de televisão ao público. Até 1941 o som das es tações de televisão era transmitido em AM. A partir dessa data, ocorreu a mudança para FM, o que continua até hoje.

Figura 5Quando estourou a Segunda Guerra Mundial, todas as emissoras em operação, exceto a da Alemanha, interromperam seus trabalhos. Isto provocou um certo atraso no progresso da tele visão, embora algumas pesquisas relativas à ar mas estratégicas e comunicações feitas durante esse período fossem aproveitadas na tecnologia da televisão.

No Brasil, a primeira exibição da televisão ocorreu também em 1939, durante a Feira Internacional de Amostras, no Rio de Janeiro, numa apresentação em circuito fechado.

Em 1948, na cidade de Oregon, nos Estados Unidos, aconteceu a primeira transmissão de TV via cabo, graças à dificuldade da recepção dos sinais de TV provocada pelo perfil montanhoso do terreno da localidade.

No dia 28 de setembro de 1948, comemorando o centenário da cidade mineira de Juiz de Fora, foi feita a transmissão em caráter experimental de uma partida de futebol entre Bangu, do Rio de Janeiro, e Tupi, de Juiz de Fora. A transmissão foi realizada por conta e risco de Olavo Bastos Freire, um técnico em eletrônica que teria montado, ele próprio, a câmera, o transmissor e o pequeno receptor com tela de 3 polegadas que ele utilizou para esse evento. Uma parte desses equipamentos se encontra preservada numa sala do antigo prédio da Prefeitura de Juiz de Fora, onde há informação de que essa câmera exibia, originalmente, uma definição de 120 linhas e 30 quadros por segundo.

Oficialmente, porém, a entrada da televisão no Brasil se deu em 18 de setembro de 1950 com a inauguração da PRF-3, TV Tupi de São Paulo, tornando-se o primeiro país da América do Sul a ter um sistema de televisão implantado. O jornalista Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, dono dos Diários Associados foi o responsável pelo feito.

O sistema adotado no Brasil era o americano, com definição de 525 linhas. O próprio Chateaubriand se encarregou de importar 200 receptores e os mandar espalhar pela cidade para que a inauguração pudesse ser assistida.

Como curiosidade, antes da estreia do primeiro programa de televisão brasileiro, o “TV na Taba”, foi “inaugurado” o problema técnico! Havia apenas três câmeras e, horas antes da transmissão uma apresentou problema e não pode ser usada. O programa foi ao ar com apenas duas câmeras.

As cores na TV

Embora os avanços tecnológicos continuassem a todo vapor, melhorando os tubos de captação de imagens, tubos cinescópios, circuitos de recepção, de transmissão e de captação das imagens, em 1954, acontece o primeiro grande avanço da história da televisão desde o seu aparecimento. Os Estados Unidos começam a transmitir imagens em cores.

Esse avanço, porém, vem acompanhado de um grande problema. Nessa época já existiam no mundo cerca de 10 milhões de receptores em branco e preto. Para assistir as imagens coloridas, os receptores teriam que ser trocados, pois a tecnologia empregada para os monocromáticos era diferente daquela dos coloridos. Como fazer para que quem optasse por não trocar de imediato seus aparelhos pudesse continuar vendo TV em branco e preto? Isso mostrou que não era simplesmente ir mudando o sistema de transmissão de branco e preto para cores, mas era preciso que fossem criadas algumas normas que regulassem essa transição. Isso fez com que os americanos criassem um comitê normalizador, chamado NTSC (National Television System Committee) que criou as regras e as normas para a nova tecnologia.

O alcance das transmissões de TV tendia a se expandir mundialmente, mas isso era limitado pelos processos e natureza das transmissões. Assim, nos Estados Unidos, a AT&T lançou o primeiro satélite artificial para retransmissão de televisão, o Telstar I, que em 23 de julho de 1962 espalhou os sinais de TV para uma área jamais alcançada. O primeiro grande evento a ser transmitido via satélite foram os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964.

Em 1967, a Alemanha criou seu próprio sistema em cores chamado PAL (Phase Alternation Line). O padrão americano mostrava algumas deficiências, sendo a principal delas a inversão das cores na recepção, tanto que, jocosamente, o pessoal técnico passou a chamar o sistema de Never Twice the Same Color, ou seja, “nunca duas vezes a mesma cor”. O sistema alemão tinha como uma de suas metas a correção desse problema e obteve pleno êxito. No NTSC, a deficiência foi também posteriormente corrigida

A França, nesse mesmo ano, introduziu seu sistema SECAM (SÈquentielle Couleur À Mémoire). O problema com o sistema francês foi que ele não era compatível com o sistema branco e preto, obrigando a população a efetuar a troca de seus televisores.

Em 19 de fevereiro de 1972, a transmissão da Festa da Uva de Caxias do Sul-RS, marcou a primeira vez que a televisão era exibida em cores no Brasil. Oficialmente, porém, a inauguração dessa tecnologia no nosso país ocorreu em 31 de março desse mesmo ano.

A TV Tupi já havia transmitido em cores, na década de 60, um seriado de faroeste chamado Bonanza. Curiosamente, nenhum telespectador viu essa transmissão, pois não existia na época, receptores de TV em cores no Brasil.

O sistema de transmissão escolhido pelo Brasil foi o alemão modificado, ou seja, o PAL-M. Modificado porque, na Alemanha, o sistema foi originalmente concebido para trabalhar com a frequência de rede de alimentação de 50 Hz, que é utilizada também para definir a frequência de quadros e, por consequência, a de campos, uma vez que esses dados são obtidos a partir da frequência de rede. No Brasil, a frequência da rede de alimentação é 60 Hz, o que muda os parâmetros mencionados. Por isso o “M”. Na tabela 1 podem ser vistas as principais diferenças entre os padrões NTSC e PAL, e na tabela 2 as variáveis que definem os padrões e subpadrões de transmissão.

O Brasil foi o único país no mundo a adotar o padrão PAL-M, e isso trouxe sérios problemas para nossa televisão. O principal deles foi a inexistência de equipamentos especificamente projetados

para esse sistema, pois não era viável comercialmente aos fabricantes internacionais a produção exclusiva de equipamentos para o Brasil. Outro problema era o envio ou recepção de programas para o exterior, pois tudo precisava ser transcodificado. Com isso, fazer TV em cores no Brasil acabou ficando muito mais caro do que nos outros países.

Os progressos continuaram sem pausa e, a cada ano, nas feiras e congressos nacionais e internacionais de televisão, muitas novidades eram apresentadas nas mais diversas áreas. As válvulas já cederam seus lugares aos transistores e esses, logo em seguida, aos circuitos integrados. Com isso, os aparelhos, que já haviam se tornado bem pequenos, passaram a ser portáteis e alimentados por baterias. No lado das emissoras e produtoras, eram muitos os modelos de novas câmeras, monitores, switchers, gravadores e reprodutores de vídeo, transmissores, enfim, tudo que se imaginasse em termos de equipamentos de vídeo e também de áudio. Do lado do consumidor, os receptores passaram a ser melhorados até mais de uma vez por ano. Começaram a aparecer os receptores com telas planas, aparelhos mais e mais finos e super leves, áudio estereofônico de 2.1 canais, e assim por diante. Os gravadores de vídeo domésticos, antes gravadores e reprodutores de fitas VHS, agora deram lugar aos gravadores e reprodutores de discos digitais, os DVDs. Até as máquinas fotográficas abandonaram os velhos filmes e se tornaram digitais, além de gravarem vídeo. Os telefones celulares apareceram e a cada dia um novo modelo, menor e com maior número de funções passa a ser apresentado para o consumo, e ele também grava vídeo. E nada disso parou mais de acontecer e de inovar.

A TV digital

Tabela 1No início da década de 1980, o nível tecnológico relacionado à televisão já permitia que o mundo científico começasse a ter idéias sobre uma certa TV digital, embora já nos anos 70, a TV estatal japonesa NHK (Nippon Hoso Kyokai), liderando um consórcio de cerca de 100 estações comerciais do país, já tivesse encomendado aos cientistas do NHK Science & Technical Research Laboratories o desenvolvimento de um sistema de televisão de alta definição que seria chamado de HDTV (High Definition TeleVision). Isso indicava a segunda grande virada da tecnologia de televisão desde a sua invenção.

A meta das pesquisas da TV digital era chegar a uma solução que situasse o telespectador mais próximo do cinema, tanto com relação ao vídeo como ao áudio. Para isso, a nitidez da imagem precisava ser muito melhorada. Também as dimensões e o formato das telas teriam que ser repensados, de forma a proporcionar a sensação de estar dentro de uma sala de projeção cinematográfica. Essas eram então as exigências iniciais para o HDTV.

Tecnicamente falando, a primeira coisa a ser pensada era como dobrar o número de linhas da imagem. A segunda, o que fazer para que o sistema de transmissão de 6 MHz pudesse comportar esse aumento de definição sendo que essa largura de banda não poderia ser alterada.

Os cientistas envolvidos perceberam logo que a tarefa seria árdua. Por outro lado, sabiam que a tecnologia digital existente já oferecia recursos suficientes para, pelo menos, iniciar os trabalhos.
Então, mãos à obra…

Em 1981, no Japão, o HDTV dava seus primeiros passos com a entrada em operação durante cerca de uma hora por dia, do serviço Digital HiVision Broadcasting, promovido pelo consórcio HiVision Promotion Association. Isso estimulou a comunidade científica européia a iniciar seus trabalhos visando o desenvolvimento de um padrão próprio, o que resultou numa alternativa parecida com a japonesa, que foi chamada de MAC (Multiplexed Analog Components), criando o sistema HD-MAC de alta definição.

Vendo o empenho dos japoneses e europeus nessa área, os americanos não queriam ficar de fora. Por isso, em 1983 criaram a FCC (Federal Communication Commission) com o objetivo de desenvolver o padrão digital de televisão americano. Surgiu então, em 1987, o ATV (Advanced TeleVision) para estudar os rumos da nova tecnologia.

Enquanto isso, em 1990, a ITU (International Telecommunications Union) padronizou o primeiro formato HDTV através da Recomendação BT.709 Part 1, estabelecendo os sistemas 1035i30 e 1152i25. O sistema 1152i25 nunca chegou a ser utilizado comercialmente e o 1035i30 foi substituído mais tarde pelos atuais 1080i e 1080p, através da Part 2 da mesma Recomendação.

No ano de 1991, os EEUU iniciam os testes com HDTV. Na Europa, é fundado em 1993, o Projeto DVB (Digital Video Broadcasting), que se tornou o padrão de TV digital daquele continente. Dois anos após, a França fez a primeira transmissão digital no padrão DVB.

Em 1994, a SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão) e a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) iniciam os estudos para a implantação do sistema brasileiro digital de televisão.

Em 16 de setembro de 1995 os americanos criam o seu padrão de TV digital, o ATSC (Advanced Television Systems Committee). O trabalho desse grupo definiu as diferenças entre os padrões HDTV (High Definition TeleVision), EDTV (Enhanced Definition TeleVision), SDTV (Standard Definition TeleVision) e LDTV (Low Definition TeleVision) cujas especificações técnicas conheceremos nas edições posteriores da revista.

Em 1997, a NHK criou o consórcio DiBEG (Digital Broadcasting Experts Group), cuja meta principal era o desenvolvimento do padrão de TV digital do Japão, o ISDB (Integrated Services Digital Broadcasting).

A Rede Globo de Televisão, em 1998 transmitiu em alta definição a partida de futebol entre Brasil e Escócia, abrindo a Copa do Mundo da França. Esse evento marcou a primeira transmissão digital da televisão brasileira. Nesse ano ocorreu também o início da transmissão experimental de HDTV nos Estados Unidos e a Suécia e o Reino Unido fizeram as suas primeiras transmissões de TV digital terrestre.Em 2000 a Alemanha se tornou o primeiro país da Europa a realizar o switch-off analógico total.

Em 2003 o Japão lança comercialmente seu sistema de televisão digital terrestre, o ISDB-T. Nesse mesmo ano, em 26 de novembro, o Ato Presidencial 4.901 institui o SBTVD (Sistema Brasileiro de TV Digital) visando a criação do modelo de referência para transmissão de TV digital terrestre no Brasil.

No ano de 2006, após o longo período de estudo iniciado em 1994 analisando os três sistemas existentes, o governo brasileiro anuncia que o sistema japonês ISDB-T será a base da sua televisão digital terrestre e, no dia 2 de dezembro de 2007, inaugura comercialmente as suas transmissões. O sistema adotado no Brasil foi o japonês ISDB-T, porém com um retoque brasileiro, tornando-se ISDB-TB.

Uma das principais alterações feitas pelos pesquisadores brasileiros foi a mudança da codificação dos sinais de vídeo e de áudio melhorando significativamente o sistema. Originalmente, o sistema japonês utiliza o MPEG-2 para codificar o vídeo e o MPEG-2 AAC para o áudio. No Brasil, o vídeo é codificado em H.264 (ou MPEG-4 Parte 10) e o áudio em HE AAC v2 (ou AAC+). Nas transmissões móveis (1 Seg), o Japão utiliza para o vídeo o H.264 a 15fps e para o áudio o HE-AAC v.1 low complexity e o Brasil para o vídeo o H264 a 30fps e para o áudio o HE-AAC v.2 low complexity.

Mais detalhes técnicos sobre o sistema brasileiro serão fornecidos nas matérias a serem publicadas nas edições posteriores da revista, que darão continuidade ao assunto.

O futuro

Até os dias de hoje, a televisão digital ainda não foi implantada em todos os países do mundo, existindo ainda muitos deles que nem sequer a escolha de padrão fizeram. Porém, os avanços tecnológicos continuam a todo vapor.

Já é uma realidade, por exemplo, a televisão em 3D, embora criticada e desacreditada por muitos. Seu desenvolvimento só foi possível com o advento das tecnologias digitais para a televisão.

O áudio dos sistemas, que no início era mono (um canal), passou a ser estéreo (dois canais) e agora, com a TV digital, conta com 5.1 canais. A definição dos receptores, nos sistemas analógicos, chega a cerca de 650 linhas, e no digital supera as 1000 linhas.

Pensando mais adiante, em abril de 2006, a NHK apresentou um sistema de televisão que estava sendo desenvolvido desde 1995 em seus laboratórios (NHK STRL- Science & Technology Research Laboratories). Tratava do UHDTV (Ultra High Definition TeleVision). A apresentação foi feita durante a NAB, em Las Vegas, e eu mesmo tive o prazer de vê-la ao vivo e com muita emoção. O sistema esnoba uma resolução de 33 milhões de pixels (7680 x 4320). Essa tecnologia, que já foi tema de uma matéria apresentada em cinco partes (Leia nas edições 108, 109, 110, 111 e 112 da Revista da SET), foi mostrada numa tela de aproximadamente 9 x 6 metros e impressionou tanto por sua altíssima resolução como pelo número de linhas de varredura (4.000) e também pelo sistema de áudio de 22.2 canais.

Só para termos uma noção do que isso representa, a resolução de um sistema atual de HDTV é de dois milhões de pixels no padrão de 1.920 x 1.080 e na TV analógica normal é de 200 mil pixels. Em resumo, o sistema, que tem sido apresentado experimentalmente e com previsão de estar pronto em 2025, promete uma resolução simplesmente 16 vezes maior do que a atual HDTV.

Estamos cronologicamente situados na era da TV digital. Nas próximas edições da Revista da SET começaremos a tratar de assuntos mais técnicos, como as inovações que essa nova tecnologia proporcionou e o que ainda está por vir.

Alberto é Supervisor de Projetos da TV Cultura de São Paulo, diretor da Adeseda – Consultoria e Projetos , Coordenador e Revisor Técnico da Revista da SET. E-mail: adeseda@uol.com.br